quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Desencontros

   As entrevistas de Filipe Vieira e de Jorge Jesus, respectivamente a "A Bola" e a "Record", no que concerne aos motivos da recente divergência, pouco ou nada acrescentou ao que já se sabia. Sou de opinião de que não vale a pena remexer no assunto; como diz o velho aforismo, amigo não empata amigo ou; contas com Jorge, Jorge na rua!, apesar disso, não é de todo descabido alinhavar um ponto de situação à guisa de conclusão. 

   O que me parece é que os Dirigentes do Benfica decidiram virar a página, fosse porque sentiram que o projecto JJ estava esgotado no plano desportivo, seja por haver evidências de deslealdade por parte de JJ. A verdade é que no plano externo JJ não convenceu e os benfiquistas não se contentam só com vitórias internas. Por outro lado, a fraca adesão de JJ ao projecto da formação do clube não só desgostava os adeptos - que não lhe perdoam, pelo menos, o caso Bernardo Silva - como ameaçava arruinar toda a estratégia do clube nas vertentes económica e  identitária. Compreendo que os Dirigentes do Benfica não tenham querido abordar o tema da renovação antes do final do campeonato; quanto a mim, foi a pendência da renovação durante quase toda a 2ª volta do antepenúltimo campeonato a principal causa da derrocada. Mas considero que erraram se inverteram a sua intenção face à opção de JJ. Não o deviam ter feito!

   Quanto a Jorge Jesus, habituado ao assédio de alguns clubes, em especial dos principais rivais internos, instrumentalizado por estes no sentido de prejudicar a competitividade do seu clube, ficou ressentido ao perceber que as coisas tinham mudado; desta vez já não tinha um contrato à espera de assinatura mas uma promessa de apoio na busca de outros caminhos. Impulsivo,  com as "costas quentes" dos Dirigentes sportinguistas, salvo erro, decidiu vingar-se do Benfica...e foi o que se viu; não só infligiu um vexame aos que lhe ganharam afecto, como tentou levar jogadores e altos funcionários consigo. Não soube preservar o que de bom fez no clube que fez dele um Treinador reconhecido e um homem rico, dando razão aos seus detractores, demonstrando-se, mais uma vez, incapaz de retribuir o afecto aos adeptos dos clubes por onde passa, revelando, enfim, um invulgar nível de egocentrismo. Três particularidades da sua entrevista são sintomáticas; a da indiferença relativamente aos adeptos e à origem do financiamento do "seu" clube e a do Dever de Lealdade que qualquer trabalhador deve à sua entidade patronal. De facto, considera-se o vértice dos clubes que treina - "ele tem pedalada para mim" - disse, referindo-se ao Presidente do Sporting. Não tarda, considerar-se-á um semi-deus. 

   A questão do salário, está onde deve estar, nos Tribunais, mas preferia que o Benfica tivesse feito as continhas e pago tudo até ao último cêntimo, mesmo que não fosse devido.  Sem mais conversas. 

   No plano desportivo, há que levá-lo a sério; apesar das limitações, sabe montar uma equipa, e apoios financeiros parecem não faltar ao seu actual clube, espúrios ou não.

   Agradou-me a coerência económica e desportiva de Filipe Vieira, revelando a racionalidade própria de quem gere em função das conjunturas, maximizando os recursos próprios e indo ao encontro do sentimento dos adeptos. No entanto, convém perceber que nada funcionará se a equipa de futebol sénior perder o empolgamento e a capacidade competitiva, o que se verifica actualmente. Sabemos que a turbulência é condição inevitável do progresso mas é necessário estar alerta para avaliar a tempo as opções tomadas, seja quanto à equipa técnica, seja quanto a jogadores. Rui Vitória ainda tem um caminho a percorrer até ganhar a confiança dos adeptos e da equipa e as aquisições devem ser mais contidas e assertivas; menos e melhores jogadores e mais estabilidade no plantel.

   Oxalá o próximo embate esteja a ser bem preparado.

(Tela de Abel Manta)
   

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