Desporto

sábado, 31 de outubro de 2026

O Caso Duarte Gomes

 

O Caso Duarte Gomes


A “A Bola” de 29 de Setembro de 2026 publica uma entrevista com Duarte Gomes feita por Alexandre Pereira, em que, aquele, na página 3 diz o seguinte:

- Houve um árbitro, cuja história e narrativa é pública, que me contou ter sido abordado por um colega nosso, um ex-árbitro assistente internacional retirado há vários anos. No final da jornada 30, esse antigo colega telefonou a um árbitro - ndr: Hélder Malheiro - através de uma vídeochamada para um grupo que tinham em conjunto com outros colegas, e diz-lhe algo como: “Era só para saberes que não é na próxima jornada 31, mas na 32, foste indicado pelo meu presidente – ndr; Paulo Lopo, então na SAD do Estrela – para arbitrares o Moreirense - Estrela da Amadora. E quem vai fazer o nosso jogo seguinte, o da jornada 33 – Amadora - Famalicão – é o árbitro X – ndr: Fábio Veríssimo. Opto por me reservar o direito de não indicar os nomes em questão, por razões de segredo de justiça. Mas não foi um palpite ao ar. Ao que me relataram, aquilo terá sido dito de uma forma muito clara e taxativa. Eram aqueles jogos em concreto.


- Tendo em conta que a primeira abordagem sucedeu 11 dias antes da nomeação oficial,, afigura-se-me que os árbitros têm sido escolhidos por dirigentes de alguns clubes, funcionando o respetivo Presidente como biombo assumindo as nomeações. Para silenciar os queixosos, basta o Conselho de Justiça com as suas de multas e suspensões, sempre draconianas para o Benfica.

Pinto da Costa

O presidente da Federação encaminhou a denúncia para o Ministério Público (MP), estando o caso sob investigação da Polícia Judiciária (PJ). Porém, nada mudou nas aberração das nomeações! Isto pode significar uma de duas coisas: ou os alegados autores estão de consciência tranquila e a informação é falsa, ou estão seguros da proteção das autoridades policiais e judiciais no terreno. O certo é que nada transparece no “reino da Dinamarca”, isto é, na Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP)! Nem vestígios de medo, ou sequer preocupação.


No âmbito da comunicação social, nem jornalistas nem comentadores, salvo uma ou outra exceção, parece darem grande importância ao assunto. É preciso manter a máquina a funcionar, o resto são danos colaterais. Um tal Pedro Sousa, respondeu a quem lhe perguntou o que iria suceder, que iria prosseguir tudo como normalmente!


Se é verdade o que li por aí; que em tempos - lá por 2018, julgo eu -, que Pinto da Costa (Que Deus o tenha) reuniu um grupo de missão que incluía magistrados, agentes da judiciária e jornalistas, para delinearem um plano para acabar com a hegemonia do Benfica, é possível que tal grupo, eventualmente com alterações na composição, ainda se mantenha e seja essa a razão da tal tranquilidade.


O que é certo é que o pirata informático que roubou correspondência ao Benfica e os endossou ao diretor de comunicação do Porto e outro cúmplice, foi protegido pelas autoridades judiciais, com o estatuto de colaborador das mesmas e elogiado publicamente por Ana Gomes, algo que o seu PS não poderia fazer mesmo que estivesse de acordo. Quando, recentemente, lhe foi retira dada a proteção policial, a reação foi de tal ordem que a decisão foi revertida de imediato! De que terão medo? Irão protegê-lo para o resto da vida?


Também certo é que o juiz de primeira instância que recusou a providência cautelar ao Benfica, permitindo que o seu nome fosse arrastado pela lama pelos “homens de mão” de Pinto da Costa, durante cerca de oito meses, é adepto confesso do clube beneficiário. Quando o Supremo Tribunal deferiu o pedido, o estrago, desportivo e económico, estava feito. E a indemnização de 600 mil euros a que o Porto foi condenado, é mais uma provocação.


Por tudo isto, e pelo descaramento com que o Benfica continua a ser prejudicado, jogo após jogo, e por saber que o Benfica é mal amado no quadro político, tenho pouca fé na investigação em curso. Quando muito será sacrificado um bode expiatório qualquer, haverá uma acalmia durante uns tempos, e tudo voltará ao normal, se o Benfica não agir.


Andamos nisto há cerca de 45 anos! Criou-se a Liga para diluir o poder da AFP (Associção de Futebol do Porto) na FPF (Federação Portuguesa de Futebol) e acabar com a pouca vergonha das arbitragens! Resistiu PC acabando por anuir quando garantiu o seu controlo, através do Guilherme Aguiar, nomeado diretor da Liga, da centralização dos direitos televisivos - entregues ao membro do CA (Conselho de Administração) da SAD do Porto Joaquim Oliveira, ironicamente, com assento no CA da SAD do Benfica -, e ainda o controlo da formação e promoção dos árbitros.

Profissionalizaram-se os árbitros, com formação e preparação física e bons salários, porque, coitadinhos, ganhavam muito mal! Adotaram-se as novas tecnologias criando-se a figura do VAR e do AVAR, controlados pelos árbitros que tinham desacreditado a arbitragem. E garantiu-se a impunidade de todos!.

Nada funciona enquanto a Justiça não fizer o que lhe compete; punir os criminosos.



Peniche, 31 de Outubro de 2026

António Barreto

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Raízes

 

Raízes


Algures na região de Soure, para os lados da Pouca Pena, ainda vive o Portugal profundo rural, de pinhais, quintas, fazendas, eiras, riachos, rios, agora polvilhados de tratores e serenos agricultores da saudade.

O tempo do trabalho de sol a sol, assalariado ou próprio, sob o jugo da enxada, da foice, da gadanha, do arado e dos ancestrais e pacientes companheiros de quatro patas, já não se vislumbra.

Vão passando tratores, com gente sorridente saudando quem passa. Gente já distante do seu zénite, serenamente feliz, tratando das suas lavras ou pinhais numa espécie de liturgia onde os já ausentes de alguma forma permanecem, quais fantasmas da memória.


Junto a nós pára um trator alaranjado. No lugar do piloto, um sujeito de amplo sorriso, barba feita, de boné - que o sol queima -, trajado mais para passeio que para trabalho.

- Bom dia, “Manel”. Fui dar uma volta ao bocado lá de cima.

- Bom dia, já viste que as pontas do gadanho estão gastas? Já estão no parafuso! Então, vais à procura do almoço?

- Não! Ainda tenho que fazer ali em baixo! Tenho que merecer o almoço!

- Tenho que merecer o almoço! Quantas vezes perguntei a mim mesmo se merecia o almoço, o descanso, a amizade, ou o amor de alguém! Este vínculo entre as “coisas boas” e o seu merecimento é enobrecedor.

Do outro lado da rua, mesmo em frente, pára uma reluzente carrinha preta, tipo van. Ao volante, uma mulher de chapéu azul pergunta se queremos queijo. Lembrei-me do Malhadinhas, o almocreve exímio no jogo do pau que raptara a mulher com quem casara e calcorreava serranias e povoados no seu morzelo, mercadejando o que calhava e terçando justas com algum valente.

Surpreendi-me. O aspeto novíssimo da viatura e a descontração da condutora sinalizavam prosperidade do negócio. Talvez a região não seja tão despovoada como parece. Quase toda a gente tem automóvel, ou mais que um, e os supermercados não estão longe. Contudo, a coisa parece funcionar.

Entrelaçam-se as habitações rústicas, sóbrias, algumas em tosco, com moradias novas ou reabilitadas. Os filhos dos agricultores formaram-se. Dedicam-se aos serviços nas cidades próximas, ou mais longínquas, alguns no estrangeiro. A expansão dos serviços públicos, as autoestradas, a proximidade da via férrea, o teletrabalho, permitem a muitos deles fixarem-se nas aldeias e vilas paternas. Juntam-se-lhes emigrantes e forasteiros, aqueles movidos pela saudade, estes em busca da tranquilidade que as grandes urbes não consentem. Da terra, geralmente, tratam os menos jovens, mais por hábito, profundamente arraigado, que por necessidade. Para alguns, uma espécie de liturgia com que celebram os ausentes que se recusam a partir.


Seguimos para casa do resineiro, o Manuel Morgado, que não encontráramos na eira que a Maria Arminda, sua mulher, nos indicara. Além do manto de milho dourado, naquele fim de manhã luminoso, não havia sinal do Manuel. Ajudava-nos na georreferenciação das terras e pinhais. Identificar o labirinto dos tradicionais marcos, por vezes ocultos na vegetação, é tarefa ao alcance de poucos.

Num cruzamento vimos um nicho. O Góis, engenheiro de profissão mas agricultor de coração, parou o carro. Fui ver. Estava cuidado, limpo e com bonitas gerberas vermelhas aos pés de Nossa Senhora do Rosário. Fotografei-o. Reconfortam-nos estes encontros, mais ou menos inesperados, no nosso quotidiano. Recordam-nos que não estamos sós na cruzada da vida. Na solidão dos dias, do cimo do trator ou de enxada às costas, persignando-se ou orando em silêncio, pedirá o agricultor a bênção a Nossa Senhora. E isso encorajá-lo-á naquele dia,





Venera-se o Espírito Santo por estes lados; uma herança dos Templários, que, lá pelo século XII, marcaram a região pela espada e pela Fé. Celebram-no com uma procissão anual. O seu símbolo, transportado num andor, artisticamente enfeitado com pinhões e outros adornos, é o âmago da espiritualidade. Uma obra de abnegação e Fé em que todos, na aldeia, se empenharam.



Abrem o cortejo dois soldados da GNR em traje de gala, nos seus vistosos, caracoleantes e solenes cavalos brancos. Seguem-se os figurantes, que precedem uns, e sucedem outros, o andor do Espírito Santo. Encerra o cortejo religioso, o Sr Prior, sob o pálio, com a Sagrada Eucaristia. A fechar, o mundo profano, seguidos pela multidão, a comovente amálgama de músicos, homens e mulheres de várias idades e profissões, de mãos delicadas uns, de mãos grosseiras outros, todos de olhos nas respetivas pautas, irmanados na música e na transcendência do momento. Nas bermas da estrada assistem os populares, inclinando a cabeça à passagem do andor e do Pálio. Frente à capela, a multidão aguarda. Há emoção à chegada. No cimo da pequena escadaria, antes de entrar na capela, onde ficará uns dias, faz-se uma última apresentação do Espírito Santo. Há peitos a reprimir soluços. E uma lágrima furtiva cai num rosto a meu lado.



Era, ainda, cedo. O Góis decidiu passarmos pela casa do Henrique, genro do “Manel da Assamassa”, o primo que esmagara o peito no guiador da bicicleta quando se despistou na descida de saibro e pedra a caminho da fazenda.



Sorridentes, chegaram o Henrique e família. Entre ela, grave e triste a Maria ainda deprimida pela inesperada viuvez. No amplo átrio da luminosa e solitária moradia, na esquina do cruzamento para a Pouca Pena, a obra-prima do Henrique; uma piscina com aquecimento natural. Vimos a garagem e a cave. Nesta, está o seu posto de trabalho. Ampla secretária, PC “artilhado” e cadeira a condizer. Daqui controla o ambiente interior de edifícios como hospitais, hotéis e similares. Despedimo-nos e seguimos rumo a casa do resineiro.





Ao chegarmos, uma rosa invulgar pareceu dar-nos as boas-vindas. Fotografei-a. A tonalidade avermelhada e a textura aveludada sobressaiam no fundo verde-claro da folhagem.



No átrio esperavam-nos o “Manel” e a Maria Arminda, sua mulher. Tinha ido à nascente. Vinha gente de fora recolher água. Contou-nos como tivera a ideia de plantar melancias quando se deparou com fartura de água. E vingaram, disse-nos com um brilhozinho nos olhos.




Contou-nos, com contido orgulho, como conhecia todas as propriedades das redondezas. Ilustrando-o com episódios pitorescos. Com a generosidade habitual das gentes locais, declarou-se-nos pronto a ajudar enquanto pudesse; porque “os maios iam passando”!

- Porquê os maios? Perguntei-me! Talvez seja o início do ciclo agrícola, o tempo de semear. Afinal, o ciclo da vida. Uma forma de assinalar o tempo.

Referiu os elevados custos das escrituras das propriedades rurais, cerca de 500 euros cada! - Até nos ajuntamentos! - disse a Maria Arminda. O emparcelamento, necessário à viabilização económica das propriedades rurais e ao desenvolvimento do interior, é dificultado pela ilimitada voracidade do Estado, capturado pelos grupos que o colonizaram.

As duas Marias tinham-se abraçado. Recordaram tempos de infância. Foram colegas na escola da aldeia. Breve mas genuína felicidade esta a de reencontrarmos gratas amizades, como costumam ser as da infância.

De melancia e melão no saco, da lavra dos primos, despedimo-nos e rumámos ao Casal das Brancas. Previa-se chuva para o dia seguinte. O Góis queria semear nabos; de cabeça e de flor.

Semeou-os, no pó, nessa tarde. Envoltos pela poeira, Góis e trator sulcaram a terra cuidadosamente, preparando a sementeira. Com gesto pendular do braço, foram lançadas as sementes misturadas nos grãos de areia numa liturgia secular.



Choveu no dia seguinte.

Peniche, 14 de outubro de 2026

António Barreto

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Uma Manhã em Buarcos

 

Uma Manhã em Buarcos



Manhã de primavera, luminosa, campos verdejantes, salpicados de amarelo, ainda orvalhados. Vinha a pé, seriam umas 0730 h, para a escola da professora Matilde, ali por cima do barbeiro, o Sr Alberto.


Ao dobrar a casa do salva-vidas deparou-se-me um cenário indelével: vasto plano de areia em matizes de pérola, mulheres em passo de corrida, vergadas ao peso dos cabazes de sardinha, que transportavam para as camionetas dos comerciantes, miúdos de pé descalço e vestuário de ocasião, munidos de bicheiro e raifol, agachados na muralha frente ao Chico, à beira da estrada, esperando do momento exato.


À passagem da mulher com a sardinha, já em cima da muralha, saltavam como felinos, num ápice, puxavam com o bicheiro umas sardinhas para dentro do raifol e fugiam, para perto, sob as injúrias das mulheres furiosas sempre a correr, na ânsia de se livrarem da carga o mais rápido possível.


Passada a "tempestade", regressavam os miúdos, apanhavam as sardinhas caídas e preparavam-se para nova investida, que era preciso ganhar o almoço para a casa.


Bateiras, botes e lanchas, na borda do mar ou ao largo, bailavam ao sabor da maré. Na cala, meia dúzia de traineiras, transvazavam a sardinha para as chalandras, que as descarregavam em terra.


Faziam-se os lotes numa zona demarcada com cordas e estacas, com comerciantes, leiloeiro, pescadores, maleiros, povo e o inevitável guarda-fiscal de caderno e lápis em riste, supervisionando a venda, não fosse escapar-se alguma sardinha pelas abertas.


Tudo isto banhado pela suavidade, fresca e alegre, daquela manhã de primavera. Enchi-me de coragem e tomei uma decisão; naquela manhã não podia ir à escola! O mais certo era levar umas reguadas no dia seguinte e uns cascudos da minha mãe. Não fazia mal; tinha que ser parte daquilo.


Na areia, encostada à muralha e junto à rampa do largo estava uma lancha em ruínas. Os bancos estavam bons. Era o que precisava; entrei, sentei-me, imaginei-me no mar, e, numa espécie de ato de contrição, rapei do caderno que levava na mala e pus-me a fazer as “obrigações”. E escapei!




Peniche, 23 de outubro de 2026

António Barreto

sábado, 26 de setembro de 2026

Lufada de ar Pestilento

 

Lufada de ar Pestilento


Este Vilas Boas não tem o pedrigree de Pinto da Costa, porém, tal como este foi, VB, não passa de um testa de ferro de algo mais vasto e profundo; das elites locais, políticas e económicas. Consulte-se a composição dos órgãos sociais do FCP-SAD, para compreender melhor.


Por um lado, há um ressentimento histórico do Porto relativamente a Lisboa, que vem de muito longe! Desde o Marquês de Pombal, com o "massacre dos taberneiros", na sequência da criação da Zona Demarcada do Douro, passando pelas primeira e segunda guerras liberais, da guerra da Maria da Fonte/Patuleia, na qual o o Conde das Antas teve papel de algum relevo.


Por outro lado, o FCP tem dimensão política implícita! Essa foi a grande arte de PC! A elevada densidade demográfica da região, a lealdade incondicional dos adeptos ao clube e, claro, ao seu líder, permitiu-lhe, com o seu jogo de palavras associado ao espetro da rebelião, sempre em fundo, garantir a tolerância ativa dos principais partidos políticos.


Contudo, há uma questão primordial: o tema da regionalização, consignado constitucionalmente e desejado pelos grandes partidos, por razões complexas que podem ter contornos venais.


O FCP é o ponta de lança desse processo. A estratégia passa por agregar em torno do clube a população local - os restantes clubes históricos da cidade, Salgueiros, Boavista foram desaparecendo, ou perdendo relevância desportiva e social -, e, através da hiperbolização da guerra com o Benfica, definindo-o como paradigma do centralismo e reminiscência do Salazarismo - "em política, o que parece, é" - e afirmando o FCP como vítima da "longa noite fascista", provocar uma rotura social no país suporte da institucionalização da regionalização.


Se repararmos nas vicissitudes policiais e judiciais ao longo das décadas envolvendo assuntos espúrios relacionados com o FCP - foram muitas e muito graves -, vem à cabeça do cidadão comum a ideia de que, no Porto não se aplicam as leis do país! Que há uma conduta eminentemente leniente, por parte de membros das autoridades, com o propósito de "cavar" a fratura social e institucional.


Um dos maiores exemplos disso é o caso do Madureira! Cometeu, alegadamente, toda a espécie de atos intimidatórios; a árbitros e respetivas famílias, adversários e até a atletas do clube, e ninguém, ninguém, teve a coragem de o meter na cadeia! Quando tiveram que o fazer, o FCP-SAD constiuíu-se assistente na qualidade de lesado (salvo-o-erro)! A querer fazer tolos de todos nós!

Este é o campo de batalha que os dirigentes do Benfica, sócios e adeptos, devem entender e unindo-se, impedirem os enxovalhos ao seu clube reduzindo-o à insignificância. Quando a força social do Benfica tiver impacto eleitoral, tudo mudará.





Peniche 26 de Setembro de 2026

António Barreto



domingo, 20 de setembro de 2026

Capim em Chamas

 

Capim em chamas

de

Cyprian Ekwensi


Não é sobre guerra, como pensei; é sobre África. Descreve de forma simples e atrativa, o quotidiano de uma tribo nigeriana, os Fulani. Os Fulani são uma tribo nómada que vive da criação de gado, caprino e bovino e agricultura de subsistência. Alimentam-se à base de farinha de milho e leite, carne e peixe.


Tratar do gado, mantê-lo junto e seguro, conduzi-lo de pastagem em pastagem é a sua “ciência” mais valiosa. A distinção de alguém mede-se pelo número de cabeças de gado que possui. Queimar o capim é o método que usam para garantir o rejuvenescimento das pastagens. Os rios são as suas vias prediletas, onde o gado se dessedenta e os pastores fazem a sua higiene pessoal.


Vivem em cubatas, que levam consigo quando se deslocam. Os laços familiares são muito fortes, cabendo à mulher as tarefas domésticas e aos homens o pastoreio. Todos contribuem. O conhecimento transmite-se de pais para filhos e estes reverenciam-nos. Reverência que se mantém ao longo da vida, mesmo quando se emancipam, formam o seu próprio rebanho e partem para longe.


Tratam as doenças com mezinhas caseiras à base de plantas. O chefe, escolhido, da tribo, dirime os conflitos internos e defende-a de ameaças externas. Têm mitologia própria a que recorrem para entender certos fenómenos da vida pessoal e coletiva.


Para noivar, um rapaz tem que se submeter ao sharro, cerimónia realizada ante a tribo, ao som de música e com as candidatas preparadas, em que aquele tinha direito a escolher noiva desde que suportasse, sem queixas, as chicotadas do rival.


Uma rapariga só estava, formalmente, comprometida, quando entrasse na cubata do rapaz. Até lá era livre. Por sua vez, uma escrava, geralmente prisioneira de uma tribo rival, deixava de o ser no momento em que dava à luz. O pai do noivo negoceia com o pai da noiva o “preço” desta em cabeças de gado.


À semelhança das sociedades atuais, as populações rurais desconfiam das gentes que viviam nas cidades. Tinham um certo desprezo pelo seu modo de vida. Contudo, há grande hospitalidade entre as tribos dispersas pelo território.


Frases curtas, impecavelmente pontuadas, com os diálogos muito bem sinalizados, por vezes algo ingénuos. Para mim, uma bela lição de sintaxe e humanidade.


Transcrevo um trecho que me cativou:


“Jalla sentou-se. Com os joelhos afastados e as mãos apoiadas no cajado. Passeou os olhos pela pastagem. Era estranha a maneira como esta grande extensão de mato se comportava:nos dias de feira, os caminhos estariam cheios, mas, em dias como este,o Sol batia no capim, nos espinheiros e nas gardénias, e nem uma alma perturbava a quietude os caminhos escaldantes”




Peniche, 20 de Setembro de 2026

António Barreto