Humberto
Delgado
Humberto
Delgado, Henrique Galvão e alguns republicanos - Cunha Leal, José
Relvas, Mendes Cabeçadas, Sinel de Cordes, João Belo, Vicente de
Freitas e outros -, apoiaram o golpe militar de 1926 e, alguns deles,
Salazar. O estado caótico do país conduziu ao golpe militar
liderado pelo general Gomes da Costa, um veterano de guerra.
Delgado,
por incumbência de Salazar, que queria carreiras aéreas com as
províncias ultramarinas, foi o fundador da aviação civil em
Portugal.
O
contacto que teve com altas patentes americanas no âmbito da NATO,
mudou a sua visão do mundo. A fraude nas eleições de 1958, de que
fora candidato, com o apoio das oposições, determinou-o a derrubar
o regime
Era
corajoso, arquitetou o assalto ao quartel de Beja - no qual interveio
Varela Gomes, o homem da 5ª Divisão que, em 75, inviabilizou a
manifestação do 28 de Setembro convocada por Spínola, em pleno
PREC, contra Vasco Lourenço, que ele próprio, ingenuamente, nomeara
Primeiro-Ministro, e os comunistas que dominavam o país com o apoio
do MFA e dos partidos tidos por moderados.
Apesar
de procurado pela PIDE entrou em Portugal disposto a participar no
fracassado assalto ao quartel de Beja. Quando chegou tudo tinha
terminado. A PIDE patrulhava a zona, mas Delgado conseguiu escapar.
A “Revolta da Sé” – conspiração
realizada em 1959 na Sé Patriarcal de Lisboa -, na qual participaram
Manuel Serra, Henrique Galvão – que viria a fazer dele o líder
político do sequestro do Santa Maria -, Jaime Cortesão, António
Sérgio, Ferreira de Castro, entre outros, resultou da mobilização
que a sua candidatura provocou entre os opositores de Salazar,
decididos a derrubar o regime.
Com o apoio da comunidade lusa no Brasil -
grande parte apoiava Salazar -, fundou um núcleo de cariz político
e um campo de treino de operacionais com os quais pretendia derrubar
Salazar.
Passada
a euforia mediática do sequestro, com os recursos e os apoios, no
Brasil, a escassearem, desentendeu-se com Galvão, e foi juntar-se ao
grupo de Argel - Mário Soares, Álvaro Cunhal, Piteira Santos,
Manuel Alegre, Emídio Guerreiro e outros.
Sob
proteção de Ben Bella, o presidente Argelino que fora cabo do
exército francês e dava guarida e apoio logístico aos opositores
de Salazar –, o General fundou a FPLN – Frente Patriótica de
Libertação de Nacional – com o propósito de congregar, sob sua
tutela, todos os oposicionistas, articulando ações de natureza
insurrecional contra o regime.
Considerando-se
legitimado a liderar a Frente Patriótica, não aceitou subjugar-se
aos soviéticos, que pretendiam liderar a oposição através do PCP.
A sua determinação em provocar ações insurrecionais no país
contendia com a via encetada pelo PCP, empenhado no endoutrinamento
das populações preparando-as para um futuro golpe militar, como
veio a acontecer em 74.
Irredutível,
o “General Sem Medo” abandonou a FPLN e fundou a FLP - Frente de
Libertação de Portugal, com alguns dissidentes, mas de âmbito mais
restrito, consumando a divisão dos oposicionistas.
Apoiou
os grupos de guerrilheiros inimigos das forças armadas portuguesas,
diplomaticamente, e fornecendo-lhes armamento soviético, via
Checoslováquia.
Delgado
nutria um profundo desprezo pelos combatentes portugueses, o nosso
“zé soldado” que, com o futuro adiado, passava tormentos nas
matas de África em nome de Portugal. Por isso o considero traidor.
Com
o apoio, de jure, de Ben Bella – que lhe disponibilizara
instalações e uma estação de rádio, de que se apropriaria Manuel
Alegre após a sua morte -, e lhe prometera ajuda financeira,
armamento e apoio aéreo, dum grupo de ex-militares espanhóis -
cerca de 40 mil, exilados em Paris e empenhados no derrube de Franco
-, e outros operacionais sob seu controlo, planeou invadir Portugal
pelo Algarve – à semelhança do que fizera o Duque de Alba no
século XVI – convencido que tal bastaria para um levantamento
insurrecional geral no meio militar.
Apesar
da falta de comprovação documental acredito ter sido esta a gota de
água que terá levado Salazar a decidir neutralizar Humberto
Delgado.
A
PIDE, porém, graças aos agentes que infiltrara entre os
conspiradores, - Ernesto Lopes Ramos, subinspetor, infiltrado como Dr
Castro e Sousa, e o funcionário do consulado em Itália, Mário de
Carvalho - conhecia todos os seus movimentos, do grupo de Argel e do
grupo de Paris.
Segundo
Cerqueira, Humberto Delgado acreditou em quem mais confiava, Mário
de Carvalho, e deslocou-se a Villanueva del Fresno, onde se
encontraria com um grupo de conspiradores portugueses, oriundos do
meio militar, prontos a lançar uma rebelião contra o regime.
Henrique
Cerqueira,
avisou-o
do perigo,
mas
o
General, arriscou,
não
queria faltar
ao compromisso com Mário
de Carvalho. Este,
que
ficara
de o acompanhar,
acabou por sair
de cena, desconhecendo-se o seu paradeiro.
Quem
insistiu em o acompanhar foi Arajaryr
Moreira a
sua secretária brasileira.
Os
"conspiradores" aguardados
foram,
afinal,
Casimiro Monteiro, Rosa
Casaco, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos, o
infiltrado Dr Castro e Sousa. Assassinaram-no
a
13 de Fevereiro de 1965 no lugar de Los
Almerines,
próximo
de Villenueva del Fresno.
Casimiro
matou Delgado, Arajaryr foi
morta por Agostinho.
Silva
Pais, diretor da PIDE
foi o
mentor da “Operação Outono”. Delgado
levara a
sua
pistola de
defesa pessoal
e não
se submeteu.
Consta
que
Salazar teria
dado ordens para o
não
matarem.
Delgado,
lutava
por uma democracia em Portugal mas nunca
foi socialista. Inebriado
pela campanha eleitoral, via-se com o dever histórico de derrubar a
ditadura. Egocêntrico,
determinado,
autoritário e ingénuo, subestimou
Cunhal e os soviéticos. Julgava-se uma espécie de super-homem e
comportava-se como tal. O fascínio, a urgência da luta, tornaram-no
imprudente, aventureiro. E isso foi-lhe fatal.
Henrique
Cerqueira, no seu livro “Acuso”, culpa os conspiradores, em
particular Mário Soares e Álvaro
Cunhal, pelo assassinato do General. Segundo ele, saberiam da
emboscada e nada fizeram para o impedir, insinuando
que teriam interesse na sua morte.
Que
saiba, nada foi comprovado, porém, é
certo que os planos do General colidiam com os do PCP, que
atribuía ao General a causa do
recrudescimento da repressão da PIDE contra
os seus militantes.
Delgado
aproximara-se
dos soviéticos, por pragmatismo, e
afastou-se deles por convicção e medo; convenceu-se
de que tencionavam matá-lo.
Apoquentado
com um problema de saúde abdominal, Cunhal consegui-lhe internamento
num conceituado
hospital
da Checoslováquia. A cirurgia correu mal e quiseram levá-lo para
Moscovo. Delgado temeu pela vida e recusou o convite.
Surgiu
então
a oportunidade de se tratar em Itália, que
viria
a ocorrer
com sucesso. Nesse
contexto conheceu Mário de Carvalho, que o acompanhou,
estabelecendo-se uma relação de forte cumplicidade conspirativa,
que
viria a ser fatal ao General.
Subsistem
dúvidas
sobre quem teria convencido o General a deslocar-se
a Villanueva Del Fresno. Uns dizem ter sido Ernesto Ramos Lopes, o
subinspetor infiltrado no grupo de Paris, mas Henrique Cerqueira
afiança que foi Mário de Carvalho.
Mário
Soares, segundo
alguns, apropriou-se
do legado político de Delgado ao propor-se, espontaneamente, para
advogado da família, nos
processos que se seguiram, em
Espanha e em Portugal.
Esta
é a razão pela qual o PS se considera o herdeiro político de
Delgado, pretendendo, implicitamente,
reivindicá-lo
ao
rebatizar o aeroporto da Portela com o seu nome, estabelecendo
o contraponto ao aeroporto Sá Carneiro.
Considero
inadequada
a alteração.
Apesar
de
Humberto Delgado ter
sido o
fundador da aviação civil em Portugal – era Oficial da Força
Aérea -, e de
ter dado a vida
pela democracia, não
lhe perdoo a traição aos combatentes portugueses e a Portugal.
Vasilij Kandinskij - Park of St. Cloud - Entrance, 1906.
Peniche,
9 de agosto de 2026
António
Barreto