quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Um Mundo sem Europeus (Henrique Raposo, Guerra e Paz)

  Uma obra na qual Henrique Raposo (HR) caracteriza e fundamenta a sua visão geoestratégica do mundo actual caracterizada pela perda de influência europeia face à emergência das novas potências asiáticas, traduzindo-se na deslocação do eixo do Mundo Ocidental, do Atlântico Norte para o Pacífico.

   Depois de mostrar os dois conceitos de Liberalismo fundadores dos EUA - o otimista de Jeferson e o cético de Hamilton -, HR evidencia a importância da Democracia Liberal no relacionamento entre nações em virtude da confiança que resulta da transparência política e salienta o realismo americano que lhes permite relacionar-se com países de regimes autoritários, como é o caso da China.

   Com o fim da descolonização a Europa perdeu o domínio militar, tecnológico e normativo que detinha sobre o resto do mundo e parece recusar-se a admiti-lo, assumindo o conceito de governação apolítica e supranacional defendido por Yurgen Habermas, enquanto procura garantir a liderança tecnológica e económica definindo políticas de natureza ambiental arrojadas e não consensuais no concerto das nações.

     A Europa já não dita as regras ao mundo; Índia, China, Turquia, Brasil, Chile, Indonésia, Austrália, etc, reclamam o  seu lugar nos areópagos normativos  internacionais - ONU, FMI, BM,  OMC, G20, etc -, constituindo atualmente os parceiros preferenciais dos EUA em detrimento dos países europeus. Um entendimento estratégico entre a França e o Reino Unido poderá constituir a alavanca impulsionadora da Europa num mundo onde o conceito de Ocidente assumiu nova dimensão.

   "Em suma, a democracia americana é um objecto político céptico e não idealista. É um regime político que nasceu para controlar o conflito entre homens violentos."

   "A sociedade de Estados surge quando os Estados acordam regras comuns para a sua interacção (regras de comportamento para a política externa e não para a política interna). Portanto, a ordem internacional surge quando um sistema de Estados se transforma numa sociedade de Estados; os Estados passam a interagir através de regras mínimas de conduta."

   "Ou seja, temos que aceitar que nem todos os povos associam o Bem à democracia liberal."

   "Sim, é verdade que a modernidade já não é sinónimo exclusivo de homem branco."

   "O mundo ocidental não tem qualquer direito de propriedade sobre as ideias democráticas."

   "Os EUA continuam a ser uma potência à parte, isto é, o sistema ainda é unipolar."

   "Hoje, os papeis inverteram-se. O Ocidente continua a pregar o comércio livre mas pratica-o cada vez menos."

   "A elite europeia não tem a humildade suficiente para se conformar com a realidade. Entre a ilusão da humanidade unificada no estirador eurocêntrico e a realidade pós-atlântica, a elite europeia escolhe sempre a primeira. A elite europeia prefere estar errada com Habermas do que estar certa com Haron. Os antigos tin ham um nome para este fenómeno: decadência. Este livro é uma revolta documentada contra esta decadência."

   Digo eu: uma decadência que cada um de nós pode observar no seu dia a dia.

   Um livro que vale a pena ler e reler, para quem aspira a compreender o mundo atual na vertente geoestratégica. 

AB

   

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