Desporto

sábado, 22 de março de 2025

José António Saraiva e Salazar

 

José António Saraiva

e

Salazar


Invulgarmente culto, sereno, cartesiano, preciso, sem rodeios, subterfúgios nem hipérboles, José António Saraiva dissecava com eficácia as matérias de que se ocupava.


Ao saber do seu falecimento, olhei à minha volta. Dois passos. Quase em frente um dos seus livros sobre Salazar: “A Queda de Uma Cadeira Que Não Existia”. Terminei agora a leitura. Gostei.


O título é o objeto. Desconfiou da tese corrente, segundo a qual Salazar morrera em consequência dos ferimentos na cabeça devido à queda duma cadeira, no terraço do Forte de Santo António, no Estoril. Preparava-se para ler o jornal frente ao oceano. Tal cadeira nunca apareceu e a descrição que dela foi feita - cadeira de realizador de cinema -, não condizia com a das fotos usada habitualmente.


Investigou e comparou os testemunhos das pessoas próximas, na ocasião; a governanta, o barbeiro, o massagista, o enfermeiro, o médico pessoal, outras. Descobriu indícios de acidente ocorrido na residência oficial de São Bento umas semanas antes. Durante o banho de imersão, Salazar terá caído e batido violentamente com a cabeça no rebordo da mesma.


Ocultando o facto, por o considerarem impróprio, indício de degenerescência física do ditador, e ultrapassável, a poderosa governanta, Maria da Luz, terá inventado a história da cadeira, aparentemente menos polémica. E é verdade que há demasiadas contradições nos testemunhos.


Eduardo Coelho, médico pessoal de Salazar, diagnosticou hematoma subdural. Vasconcellos Marques, anti-Salazarista convicto, subscritor do MUD nas eleições de 1949, ex-pugilista e o melhor cirurgião neurológico da época, discordou, considerou tratar-se de um AVC. Discutem.


Maria da Luz tem medo. Não quer um médico da oposição. Contra vontade, Vasconcellos e a sua equipa operam Salazar após discussão com Eduardo Coelho. Confirmou-se o hematoma. Acreditou-se na recuperação. Que aconteceu. Salazar estava curado, pensaram. Preparou-se a alta.


Fevereiro,16, 13 30, depois do almoço. “Estou muito aflito. Ai meu Jesus”, exclamou Salazar, caindo inanimado sobre a poltrona. É um AVC no hemisfério direito - o hematoma fora no hemisfério esquerdo -,Vasconcellos, egoistamente, suspira de alívio; a sua reputação estava salva . Era o fim.


Tom Gallagher, no seu livro, “Salazar, o Ditador que se Recusa a Morrer”, refere que, a certa altura do seu internamento, Salazar terá murmurado algo como: “E agora, para onde me irão enviar? Não tenho para onde ir”.


Filho de caseiro, seminarista, Salazar encarou a seu envolvimento na esfera pública como uma missão divina para salvar Portugal. Recusou casar-se com a Carolina Asseca, viscondessa de Asseca e condessa de Anadia, para se dedicar inteiramente ao governo do país.


Não era misógino, discretamente, tinha os seus encontros femininos, mas foi Christine Garnier a sua autêntica paixão, por sinal, correspondida. O marido desta divorciou-se ao ler a correspondência entre eles. Os passeios pela quinta do célebre duque de Palmela, as visitas ao convento que lá se encontra, parecem revelar envolvimento íntimo.


Por ocasião da II GM Salazar foi um gigante ao opor-se às pretensões de Churchill e Roosvelt de ocupação militar dos Açores. O estatuto de neutralidade assim o exigia. Terá respondido ao americano que, em caso de ataque, Portugal defenderia os Açores com todas as suas forças.


Sobre o fim da venda de volfrâmio aos alemães, exigido pela Inglaterra, o homem de Santa Comba, nunca cedeu. Defendia, disse, os muitos milhares de portugueses que dependiam disso. Aceitou, sim, fornecê-lo igualmente ao velho aliado. E quando o desfecho da guerra se avizinhou, deixou de fornecer ambos.


Com a diplomacia ágil de Pedro Teotónio Pereira convenceu Franco a optar pela neutralidade de Espanha evitando uma nova frente de combate aos aliados, e a, mais que certa, invasão de Portugal.


Considerou que a derrota da Alemanha e da Itália, tal como ocorreu, tornaria inevitável o avanço do comunismo na Europa. Algo que não entendi bem.


Dele disse Thomaz Jefferson “Embora V.V. não sejam um regime democrático como nós o concebemos, as vossas relações connosco são excelentes e ninguém hoje vos ataca porque o Dr Salazar com o agudo sentido das realidades que sempre tem revelado, veio manobrando com tal habilidade política que não há hoje, internacionalmente, a menor reserva para com Portugal.


Pio XII: Abençou-o-o, Salazar de todo o meu coração e faço os mais ardentes votos para que possa levar a bom termo a obra de restauração nacional tanto material como espiritual.”


Eisenhower: “De todos os estadistas europeus com quem conversei Salazar parece-me o mais lúcido e avisado.”


Dean Acheson: “Não restam dúvidas de que se trata do governo de um só homem, e que não há lá outro homem como ele. O mais provével é que, se Salazar morrer, ou perder os seus poderes, Portugal volte à confusão de onde o arrancou.”


Robert Schumann: “Salazar não é apenas um exemplo, é uma fonte de inspiração.”


Marcello Mathias: “Gulkbenkian considerava Salazar um “homem genial” e todos os anos lhe enviava cheques de cem ou duzentos contos para ajudar os pobres.”


No final da guerra Salazar estava exausto, profundamente deprimido, disposto a abandonar o cargo. Os seus apoiantes, ou dependentes políticos, com Marcello Caetano à cabeça, não deixaram. Christine Garnier, tirou-o da profunda depressão em que encontrava.


Marcaram-se eleições, constituiu-se o MUD (Movimento de Unidade Democrática), que desistiu. Ganhou a UN (União Nacional). Carmona foi reeleito, vindo a falecer dois anos depois.

Porém, tirei uma dúvida; Salazar era, ou não fascista?


Acreditava na hierarquia de capacidades, de competências, e isso não é consentâneo com o conceito de igualdade prevalecente nas democracias atuais. Não era um democrata. O falhanço do liberalismo do século anterior, dissuadira-o das virtudes desse regime político.


É verdade que Salazar não cultivava comportamentos públicos característicos dos fascistas do século XX; o culto da personalidade, a participação nos grandes públicas, nas grandes paradas militares, as obras de fachada, discreto, deixava as inaugurações para os outros enquanto estudava novos projetos.


Enfim, inteligente, brilhante, culto, corajoso, não era um monarca mas agia como os do Antigo Regime; era um discreto absolutista, capaz de ser tolerante mas não admitia dissidência.


E era fascista, sim. Sem exuberância, mas era fascista.


Segundo Paulo Otero, o fascismo caracteriza-se pela subordinação dos direitos individuais aos interesses do Estado. E era esse um dos pilares do Salazarismo. Os interesses do Estado eram definidos pelo partido do regime, a UN (União Nacional).


Curiosamente, a recente crise da covide, impôs aos cidadãos os interesses do Estado definidos pelo partido que sustentava o Governo de então.

                                                                               



Peniche, 22 de Março de 2025

António Barreto


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Guerra Peninsular - Os Portugueses

 

Guerra Peninsular


Os portugueses


Numa época em que a falta de autoestima e a denegação dos méritos das antecedentes gerações lusitanas proliferam ameaçando instalar-se na nova ordem abrilina, reconforta conhecer testemunhos externos dos comportamentos daquelas em cenário de guerra. É o caso da Guerra Peninsular em que um tal General Margot discorre sobre algumas particularidades do conflito e seus intervenientes. Também aqui, o “Zé Cueca tuga”, demonstrou que, quando sob comando de bons líderes é tão bom como os melhores.


...desde os inícios de 1808 até aos finais de 1813, os franceses perderam na Península Ibérica 200 ooo homens, que foram mortos a tiro ou que morreram nos hospitais, aos quais é preciso juntar os 60000 perdidos pelos nossos aliados das diferentes nações.

Os ingleses e os portugueses também sofreram perdas consideráveis, mas as dos espanhóis ultrapassavam todas as outras...Sem o apoio das tropas inglesas, os espanhóis nunca teriam podido resistir às tropas francesas perante as quais não ousavam manter-se em linha. Mas têm um mérito imenso, que é o de, ainda que vencidos, nunca desanimarem. …

No que respeita aos portugueses, não lhes foi feita justiça pelo contributo que deram à guerra na Península. Menos cruéis, muito mais disciplinados que os espenhóis e com uma coragem mais calma, eles formavam, no exército de Wellinghton várias brigadas e divisões. Dirigidos pelos oficiais ingleses, não ficavam a dever nada às tropas britânicas, mas, como eram menos gabarolas que os espanhóis, falaram pouco deles próprios e das suas façanhas e a reputação tornou-os menos célebres.


O três de Maio - Francisco Goya


General Barão de Marbot

Guerra Peninsular

Museu Municipal Leonel Trindade-Torres Vedras


Peniche, 1 de Novembro de 2024

António Barreto

sábado, 26 de outubro de 2024

Figueira da Foz, Defesa da Barra e Costa

 

Figueira da Foz

Defesa da barra e costa



A infraestrutura de defesa da barra e da costa de Buarcos e Figueira da Foz era constituída pelos Fortes de São Pedro e de Santa Catarina de Ribamar, pelo Fortim de Palheiros e pela Atalaia da Vela.


Refere-se que o Forte de Santa Catarina de Ribamar terá sido construído durante os reinados de D. Henrique, O Casto - de 1578 a 1580 - e de D. Sebastião, O Desejado - de 1557 a 1578.


Contudo, algo não bate certo, uma vez que, em 23 de Outubro de 1585, segundo o mesmo autor, os notáveis da região, em nome da Câmara de Coimbra, escreveram a Filipe I, O Prudente - Rei de Portugal de 1581 a 1598 - alertando-o para a necessidade de “dotar a defesa da barra de Buarcos com um “forte, tiros e soldados espanhóis”, a erguer nos rochedos situados à entrada da dita barra conhecidos como Monte de Santa Catarina”.


A contradição é óbvia face ao confronto das datas; se em 1585 não havia Forte como pode a sua estrutura remontar aos reinados anteriores? Só em termos de intenção ou projeto, mas tal não se infere do texto.


Três detalhes suscitam atenção; em primeiro lugar o empenho da Câmara de Coimbra na construção do Forte, resultaria da preocupação natural com a própria segurança, mas, provavelmente, também da dependência jurisdicional histórica da zona ribeirinha relativamente a Coimbra desde Sesnando Davides, depois do Mosteiro de Santa Cruz e ainda D. Pedro, primeiro Duque de Coimbra. Esta subordinação poderá ainda explicar uma certa fricção entre as respetivas populações, muito viva em tempos, muito atenuada nos dias de hoje.


Em segundo lugar a referência à “barra de Buarcos” resultaria de, à época, o povoado na Foz do Mondego ser ainda incipiente em termos económicos e populacionais.


Em terceiro lugar pede-se uma guarnição de soldados espanhóis! Estou em crer que, por esta altura, devido à união ibérica, os dispositivos militares - materiais e humanos - portugueses, integrariam as Forças Armadas espanholas. Ainda assim, seria mais sensato guarnecer o forte com soldados portugueses.


Por outro lado, o financiamento, exclusivamente assegurado pelas rendas da Vila de Buarcos, do cabido, do Mosteiro de Santa Cruz e da Universidade de Coimbra, indicia uma certa autonomia económica e financeira regional. Apesar do evidente interesse nacional da obra, o contributo da coroa parece ter-se limitado ao licenciamento régio.


Em sequência, para condução das obras foram nomeados três capitães de infantaria e um de cavalaria. Contudo, parece que o resultado não foi grande coisa uma vez que, em 1602, o dispositivo foi incapaz de resistir ao ataque, pilhagem e destruição dos povoados, perpetrado , durante seis dias por piratas ingleses.


Afonso Furtado de Mendonça, reitor de Coimbra, chefiando uma coluna de estudantes e homens armados das redondezas, resgatou, então, as povoações, desalojando os atacantes, que se haviam refugiado no convento de Santo António - atual igreja da Misericórdia da Figueira da Foz - e no Forte de Santa Catarina.


É aqui que se esclarece a contradição que referi acima; efetivamente, há um lapso do autor quando atribui o início da construção do Forte de Santa Catarina aos reinados de D. Sebastião e D. Henrique.


O Forte de São Pedro é que foi construído no século XVI, em substituição de uma estrutura fortificada construída anteriormente ao século XV, reforçada posteriormente com dois baluartes e peças de artilharia por D. Pedro, primeiro Duque de Coimbra e regente de Portugal de 1439 a 1448.


“Buarcos, então vila de grande poder e detentora de grande quantidade de naus, via-se na necessidade de pôr os seus habitantes a fazerem vigia para evitar eventuais ataques.”


Mas, não só os larápios externos eram motivo de preocupação para o povo de Buarcos; também os internos lhes causavam danos. Numa nota de rodapé o autor dá conta de uma queixa que os pescadores de Buarcos apresentaram contra os governadores e soldados do forte, que lhes confiscavam o pescado sem sequer pagarem um real.


Certo é que o forte, por sinal, não tinha, então, grande préstimo, uma vez que, cerca de 1566, um bando de corsários invadiu e pilhou os povoados de Buarcos e Figueira, tendo provocado grandes danos. E só com o auxílio militar que veio de Coimbra foi possível derrotá-los e expulsá-los.

Tal feito valeu, em 1570, um louvor de D. Sebastião, aos juiz, vereadores, procuradores, homens bons, e povo da cidade de Coimbra, pela efetiva organização dos socorros solicitados pelo povo de Buarcos.


Segundo Carlos Pereira Calisto, entre 1570 e 1602, terá decorrido a construção do novo Forte de São Pedro.


A verdade porém é que as peripécias da construção, reconstrução e recuperação do Forte de São Pedro não se esgotam aqui.


Forte de Santa Catarina de Ribamar

Peniche, 26 de Outubro de 2024

António Barreto


sábado, 14 de setembro de 2024

AUTOCRACIAS NO SÉCULO XXI

 

AUTOCRACIAS NO SÉCULO XXI



Anne Applebaum, no seu recente livro “Autocracia Inc.”, identifica e caracteriza os regimes autocráticos atuais, descreve a sua forma de atuação, como infiltram e manipulam as democracias e como se articulam entre si. Rússia, China, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, Irão, Bielorrússia, Myanmar, Angola, são os principais exemplos que refere. Surpreendentemente, inclui a Polónia e a Hungria neste grupo e deixa de fora o Brasil, atualmente uma das mais ativas autocracias.


Financiam-se e comerciam entre si e desenham estratégias conjuntas de desestabilização dos regimes democráticos. Nestes, infiltram-se económica e politicamente, corrompem políticos, financiam trolls - operacionais que, nas redes sociais, ocultando a verdadeira identidade trabalham para a causa -, e partidos políticos, fundam empresas, compram jornais, jornalistas e canais de TV, difundem informação, que manipulam ou inventam, estabelecendo a confusão e a dúvida, com o propósito de enfraquecer as democracias.


há uma consciência geral, embora difusa, destes temas; com alguma frequência vão aparecendo notícias de interferência da Rússia nas campanhas eleitorais americanas, do financiamento de partidos em Espanha pela Venezuela, do envolvimento do Irão no financiamento e armamento de grupos anti-ocidente, das sucessivas provocações da Coreia do Norte ao mundo livre, etc..


Abertamente a China vai tecendo a sua teia económica, por todo o lado, criando ascendente e dependência, consentida, desejada, na ingénua, ou falsa, convicção ocidental de que tal acabará por induzir a democratização do regime. Ideia que se revelou desastrosa quando aplicada à Rússia.


Menos conhecidos são os papeis da Bielorrússia, Polónia e Hungria. O primeiro com intervenção no encaminhamento maciço de imigrantes para a Europa e no apoio logístico às operações militares russas, e os restantes dificultando a tomada de decisões da UE potencialmente prejudiciais ao regime de Putin.


Surpreendente é a referência ao envolvimento de Cuba na Venezuela e na Rússia, fornecendo operacionais para, no primeiro caso, reprimir os opositores de Maduro e no segundo, combater na Ucrânia ao lado dos russos! Recordo que o principal suspeito do assassinato de Nascimento Costa - Piloto do Santa Maria - é o cubano José Sottomayor, que, mais tarde, lutou contra o exército português, em Angola, ao lado dos guerrilheiros do MPLA.


Os cubanos lutaram na Guiné ao lado do PAIGC - o caso Peralta deu grande celeuma no pós 25 de abril - no 27 de Maio de 77, decidiram a favor do MPLA; a rebelião de Nito Alves e José Van-Dunem - um episódio trágico que marcou a história da Angola, e a guerra civil contra a FNLA e a UNITA. Uma pequena ditadura, falida, com tal influência, merece melhor atenção e análise.


Porém, é a duplicidade dos líderes alemães que mais perplexidade provoca; Gerhard Schröder, mal deixou a chancelaria - em 2005 -, assumiu a chefia de empresas da Gazprom na Alemanha a troco de um milhão de euros anual. Angela Merkel induziu turbulência económica, social e política na UE ao abrir as fronteiras à imigração e, implicitamente, encorajou a invasão da Rússia à Ucrânia ao prosseguir com a construção do gasoduto desde a Sibéria.

A esperança, alemã e europeia, da eficácia da política de envolvimento económico da Rússia na dissuasão das suas aspirações imperialistas e na adesão da mesma às virtudes da democracia, revelou-se um total fracasso.


A ideia de superioridade económica, política e moral da UE cai por terra quando constatamos o paradoxo inimaginável de o seu maior membro, a Alemanha, condenar a invasão da Ucrânia e, simultaneamente, financiar o invasor, com a agravante de deixar a Europa dependente do gás russo.


Se outras razões não houvesse, esta basta para minar o projeto europeu, que, nem Rússia, nem China, nem EUA desejam.


Quanto aos europeus, a confusão está instalada, ninguém, fora das “trincheiras partidárias sabe em quem confiar; os líderes parecem limitar-se a gerir os seus interesses pessoais ou de grupo, alguns envoltos em suspeitas de corrupção, ou de conluio com inimigos da Europa, a comunicação social parece servir agendas disruptivas e a Comissão Europeia parece gostar demasiado de impor restrições aos seus cidadãos.


Não se vislumbra uma figura agregadora do “sonho europeu” a que só a “chuva” de milhões, com que todos sonham, parece dar consistência.


Hoje em dia, as autocracias não são geridas por um homem mau isolado, mas por redes sofisticadas assentes em estruturas financeiras cleptocráticas, serviços de segurança - militares, paramilitares e policiais - e por peritos em tecnologias de informação encarregados da vigilância, propaganda e desinformação. Os membros destas redes encontram-se interligados não apenas no interior de uma autocracia, mas também com redes existentes em outros países autocráticos e mesmo em algumas democracias.


Em 2022, o ano em que a Rússia invadiu a Ucrânia, Shroeder estava a ganhar perto de um milhão de euros anuais de empresas associadas ao gasoduto e ao gás natural russo, entre as quais a Rosneft.


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Quando, mesmo após a primeira invasão da Ucrânia em 2014,a chanceler Angela Merkel, sucessora de Shroeder, não decidiu pôr fim ao projeto Nord Stream, Putin pode bem ter achado que tinha luz verde para dar seguimento à invasão.


Anne Applebaum – Autocracia Inc.


                                                              Anne Applebaum

Peniche 14 de Setembro de 2024

António Barreto


domingo, 8 de setembro de 2024

 

Benfica 24/25



Quatro jornadas, cinco pontos perdidos. Falharam, mais uma vez, os analistas e decisores internos. Não havia “carta na manga”. Estabilidade é continuidade. Com os jogadores certos, para a esquerda e para o ataque, voltaríamos ao bom futebol. Vieram os jogadores manteve-se o jogo, lento, empastelado, medroso, sem garra nem imaginação. A espaços um “cheirinho” a bom futebol, como deve ser; rápido, intenso, com amplitude, profundidade, mas...sem finalização. Como previra, nada de essencial mudou. Se não mudara em toda a época anterior não iria mudar agora. Escassos os centros e cruzamentos, quase sempre maus quando aconteciam. Quando saíam a bola morria nos pés dos defesas, nas mãos dos guarda-redes ou saia pelas linhas lateral e de fundo. Não se marcam golos com um avançado na área. E nem sempre com uma multidão, nos últimos minutos, em desespero de causa. Roger Schmidt tem uma qualidade rara, que muito aprecio; é educado para toda a gente, mas não sabe “ler o jogo”, não sabe “mexer” no jogo; define um modelo no início e, ou dá, ou “morre”! Significa que não conhece os jogadores; a alta matemática, para ele, não terá segredos, mas a dinâmica do jogo, tem! Respeitar os compromissos assumidos é um ato nobre. Defender, com dignidade, os interesses do clube, também. Perderam-se tempo e pontos, mas não é demasiado tarde. Choque motivacional. Um simples choque motivacional basta!


Veio Lage. É bom treinador. É do Benfica. Conhece o futebolzinho “tuga”; dos “taipais defensivos”, das corridas a solo, da marretada a meio-campo, dos mergulhos aquáticos, das arbitragens manhosas, da “vista-grossa”dos “mandantes” do “circo” futebolístico luso. Quererá recuperar o prestígio perdido. É possível. Se não perder o discerrnimento em vacuidades circenses.


Disse circenses. É o que o Benfica às vezes me parece. Um circo. Uma feira de vaidades. Mais pragmatismo. Menos conversa fiada. Mais suor. Menos vaidade. Menos festas. Mais trabalho. E foco na defesa institucional do clube. A federações, talvez com exceções, parecem empenhadas e concertadas em impedir a ascensão desportiva do Benfica. Em todas as modalidades. A diversificação dos vencedores, para quem manda, parece mais consentâneo com o conceito de democracia. E isto faz-se acontecer. Salvam-se as aparências.


Há homens que na vida derrubam todos os obstáculos, há exércitos que vencem sempre e obram prodígios. Parece que o exército pressente e adivinha as ordens do general. Mal ele as concebe, executa-as logo. Essas multidões exaltadas condu-las para onde quer, e essa força material que destrói todos os obstáculos materiais, nasce de uma ideia: é espiritual. É assim que o chefe inspira o exército, tanto quanto o exército inspira o chefe.



A corte prestes a rumar ara o Brasil


El-Rei Junot – Raúl Brandão


Peniche, 08 de Setembro de 2024

António Bareto

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

De Grande Potência a Protectorado

 

De Grande Potência a Protectorado



A época de glória, dos séculos XV e XVI, em que o pequeno Portugal se transcendeu, aventurando-se, destemido, pelo mais ameaçador dos oceanos, abrindo novas rotas que proporcionaram a expansão do comércio internacional e o progresso económico europeu, terminou, tragicamente, em Alcácer-Quibir - 1575. Foi o ruir dum projeto, um desastre económico e, sobretudo, humano; lá soçobraram as elites do reino de Portugal. Ainda pairam dúvidas quanto ao fim de D. Sebastião, porém, agrada-me a ideia de que terá morrido de espada na mão, a lutar por uma ideia para a sua Pátria e não percebo porque ficou para a História como um fraco.


“... A partir de meados do século XVII, a Grã Bretanha forneceu proteção militar a Portugal e ao seu império, em troca de relações comerciais preferenciais. Com a deslocação da Corte e do Governo para o Rio de Janeiro, esta velha aliança foi transplantada para o Brasil, já que o centro do império português mudara da Europa para a América do Sul. Mas as guerras peninsulares desequilibraram ainda mais uma relação que já pendia claramente a favor da Inglaterra. Este país tinha agora, não apenas Portugal, mas todo o seu império, à sua mercê. Contra os desejos da corte, os ingleses tinham enviado tropas para guarnecer a Madeira, Goa e Macau de forma a evitar que caíssem nas mãos dos franceses. Das restantes colónias, os centros de tráfico de escravos de Angola e Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné, estavam ameaçados pela campanha proibicionista da Grã Bretanha.”

Império à Deriva – Patrick Wilcken


Beija-mão a D. João VI no Rio de Janeiro




Peniche, 23 de Agosto de 2024

António Barreto

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

GUERRA PENINSULAR EM PORTUGAL

 

GUERRA PENINSULAR 

DEVASTAÇÃO E MORTE EM PORTUGAL



O que viu confirmou a sua teoria de retirada imediata. Os franceses queimavam as aldeias e as quintas onde se tinham refugiado durante o inverno, tal como os alemães viriam a fazer em França cento e seis anos mais tarde. Queimavam tudo, destruíam tudo; só se via fumo e incêndios por todo o lado. A região ocupada pelos franceses estava horripilante, com as aldeias queimadas e os campos desertos, arruinados e cheias de ervas daninhas, onde não se via vivalma. Havia mortos que chegassem para compensar – homens mortos e animais mortos, alguns já em esqueleto, outros cadáveres inchados – e mulheres – penduradas nas árvores ou nas forcas aqui e ali.”


Morte aos Franceses”

De C. S. Forester



Cerco do Porto por Soult


Peniche, 08,08,2024

António Barreto

domingo, 4 de agosto de 2024

Barão de Casal e o Massacre de Braga

 

Barão de Casal e o Massacre de Braga


José António de Barros Abreu Sousa e Alvim, barão de Casal, nascido no Minho, veterano da Guerra Peninsular - combateu contra os franceses em Portugal, Espanha e França - da Campanha de Montevideu - integrou a Divisão de Voluntários Reais do Segundo Regimento de Cavalaria onde participou na conquista da Província Cisplatina brasileira, regressando a Portugal gravemente ferido -, da Guerra Liberal, combateu, em Trás-os-Montes, as forcas miguelistas; feito prisioneiro por duas vezes, em ambas conseguiu fugir juntando-se às tropas do duque da Terceira. Regressado do exílio em Inglaterra - onde se refugiara na sequência da subida de D. Miguel ao trono -, juntou-se, na ilha Terceira, às forças leais a D. Pedro, tendo participado no desembarque no Mindelo. Brigadeiro e Governador da Praça de Peniche em 1833, deputado e barão em 1836, alinhou contra os cartistas, na Revolta dos Marechais, ao lado do Conde do Bonfim. Marechal de Campo recolheu-se a sua casa até à Revolta da Maria da Fonte, em 1846, altura em que foi nomeado Governador de Trás-os-Montes.


Com os Cabrais exilados em Espanha e a conspirar contra o novo Governo do conciliador e nobre Duque de Palmela, a rainha D. Maria II, despeitada - tivera que ceder às exigências dos revoltosos -, temendo perder a coroa, manobrava no sentido do seu regresso, destituindo Palmela e nomeando - em segredo , o Duque de Saldanha para Ministro do Reino.


Tal daria lugar à Guerra da Patuleia, que só terminaria em Junho de1847 com a Convenção de Gramido. Uma guerra sangrenta que se estendeu a todo o país, devastando-o, em mortes e recursos.


Para trás ficavam cerca de cinquenta anos de guerras sucessivas; a Campanha do Rossilhão, - 1793 a 1795 - em que tropas portuguesas, ao abrigo do Tratado de Amizade, combateu ao lado da Espanha contra a França - a Espanha declarara guerra à França, na sequência o guilhotinamento de Luís XVI -, a Guerra das Laranjas – em 1801; a 1ª invasão napoleónica – em que Espanha concertada com a França invade Portugal - custando-nos Olivença -, a devastadora Guerra Peninsular - de 1807 a 1814 -, a Campanha de Montevideu - de 1816 a 1823 - de que emergiria o Uruguai, onde os portugueses da Europa e do Brasil foram heroicos e louvados pelos líderes locais, a frustrante e, economicamente devastadora, independência do Brasil, em 1822, as guerras liberais, de 1820 a 1834, a Revolta da Maria da Fonte - em 1846 – e agora, a guerra da Patuleia.


Falhada a invasão de Lisboa pelas forças dos setembristas - tal como as tropas de Massena, esbarraram nas Linhas de Torres , o Conde das Antas regressara ao Porto, anunciando o heroísmo dos seus soldados, apesar da derrota. Em sua perseguição, o marechal Saldanha, acabaria por ficar em Oliveira de Azeméis preocupado com as guerrilhas miguelistas - aliados daqueles, que tinham recrudescido as suas ações.


Com Lisboa determinada a liquidar a Junta do Porto, Casal, destacado para o efeito, após treze dias de resistência da cidade às movimentações das suas tropas, acabara por retirar sem disparar um único tiro. De regresso e contra sua vontade, o barão de Casal envolve-se, em Braga, em luta com uma guerrilha miguelista comandada pelo general Macdonnell.


Após renhida luta as forças leais à rainha infligem pesada derrota às milícias miguelistas, que sofrem grande número de baixas, e tomam a cidade. Casal não fez prisioneiros; disse um contemporâneo:


Casal não queria bater-se mas a patuleia realista forçou-o ao combate. Pelejou heroicamente, venceu e não deu quartel. Apenas perdeu uns cinquenta homens, ficando dos realistas e povo inerme trezentos ou mais sobre o campo de batalha. Casal não fez um único prisioneiro. Passou tudo ao fio da espada. Quem visitasse então aquela cidade veria cruzes pintadas nas esquinas das ruas, alumiadas de noite e os fiéis rezando pelos mártires da fé.”


Macdonnell, que fugira a 26 de Dezembro de 1846 acabaria por morrer em Sabroso a 30 de Janeiro de 1847, facto determinante na aproximação dos miguelistas à Junta do Porto.


Com a anuência da rainha e sob protestos da Junta, que acreditava na vitória, admite-se a necessidade de intervenção estrangeira ao abrigo da Santa Aliança, nos termos do Congresso de Viena realizado em 1815.


Um esquadra inglesa, a 31 de Maio de 1847, bloqueou e apreendeu uma esquadra, com tropas e material de guerra, com que o conde das Antas planeava reforçar as forças da junta estacionadas em Setúbal, a fim de tomarem Lisboa.


A 19 de Junho entra em Portugal, por Mirandela, o tenente-general D. Manuel de La Concha com um exército espanhol. Estabeleceu-se em Bragança e a 25 de Junho, deslocou-se para as imediações do Porto, pronto a tomar a cidade. Outras praças portuguesas, junto da fronteira foram ocupadas por forças espanholas.


A 29 de Junho de 1847, realiza-se a Convenção de Gramido, onde o coronel Wylde, apresentou os termos do armistício, num documento subscrito pelo general Concha e pelo coronel Buenaga, em representação de Espanha, pelo coronel De Wylde pela Grã-Bretanha, pelo marquês de Loulé e pelo general César de Vasconcelos pela junta do Porto. As tropas espanholas ocuparam a cidade e os fortes, enquanto aos ingleses ocuparam o Castelo da Foz.


Finalmente, a 7 de Julho de 1847, entra na cidade do Porto o Marechal Saldanha com as forças realistas.


O regresso de Costa Cabral ao poder, dois anos depois, inviabilizou o cumprimento integral da Convenção, motivando o golpe de Estado de Saldanha, em 1851, a que se seguiu o ciclo da Regeneração e, finalmente, a estabilidade política do país.


D. Maria II

Peniche, 4 de Agosto de 2024

António Barreto


segunda-feira, 6 de maio de 2024

Reparações da Descolonização

 

Reparações da Descolonização



As infelizes recentes declarações do Sr Presidente da República em que refere a obrigação moral de Portugal proceder às reparações da descolonização, revelam total indiferença daquele pelo que de bom foi feito pelo país e total desvalorização da violência e dos vexames de que os portugueses, as Forças Armadas e o país, foram vítimas, nomeadamente no decurso das negociações para as independências.


Onde havia tribos, Portugal formou Estados com fronteiras definidas, internacionalmente aceites, pelas quais, ao longo da história, de várias formas, lutou. Forneceu, ao povos das colónias, uma da mais eficientes e prestigiadas línguas do mundo, a portuguesa, apoiou, com o seu conhecimento e experiência a construção das estruturas normativas, administrativas e constitucionais dos novos países, concedendo-lhes sucessivos perdões de dívida, e tem participado ativamente em variados planos de cooperação económica, política e cultural.


No decurso da “colonização” - a reforma constitucional de 1971 atribuiu a Angola e Moçambique a designação de Estados, dotando-os de órgãos legislativo, jurisdicional, administrativo e executivo com ampla autonomia, e nacionalizando todos os residentes dos territórios ultramarinos - Portugal, cujas contas-correntes com estes, incluindo os agora Estados, foram sempre deficitárias -, construiu estradas, caminhos de ferro, barragens - Cabora Bassa era e julgo que ainda é, a maior barragem de toda a África - escolas, hospitais, mercados, piscinas, cinemas, hotéis, aldeias, vilas, cidades, desenvolveu a indústria, a agricultura, a mineração, etc., num ambiente multirracial de envolvimento crescente das populações locais nos aparelhos administrativos e governativos das respetivas regiões.


Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Amílcar Cabral, Joaquim Chissano, João Van Dúnem, e muitos, muitos outros, formaram-se nas escolas e universidades portuguesas! Quantos negros “saíram das cubatas” para as cidades, as escolas, as universidades? Que valor é que isto tem? Como se calcula?


Diz o bom povo que “Dívida falada não é paga”! Que legitimidade têm de exigir reparações a Portugal, quem fuzilou, chacinou, violou, esventrou, incinerou e confiscou os bens dos portugueses, pretos, brancos e mulatos?


Quem ficou com o dinheiro - cerca de cinco mil milhões de euros - do alegado desfalque no BESA?


Passo a transcrever um extrato do ambiente que se viveu em Moçambique durante a “exemplar” descolonização, relatado por quem a viveu e testemunhou de muito perto:


No acto de posse, o Presidente da República conferiu-lhe a missão de “conduzir o processo de descoloniza ção de Moçambique, em paz, em ordem, com dignidade, com patriotismo, no respeito pelo nosso passado, pelos nossos maiores em África, e, acima de tudo, pela bandeira verde-rubra da Pátria, para que o novo Estado de Moçambique venha a ser efectivamente uma nação de expressão lusa e indestrutívelmente ligada à Mãe-Pátria” (cito de um semanário lisboeta, de 14 de Setembro de 1974).

Foi isto que o Alm. Vitor Crespo jurou, solenemente, por sua honra, fazer.

E foi isto que não fez.

Logo em 21 de Outubro seguinte, aconteceu que uma unidade de “comandos” (farta de insultos incompatíveis com a sua dignidade) tomou desforço, quando foi provocada nas ruas de Lourenço Marques. Daqui nasceu retaliação horrorosa que causou centenas de mortos entre a população indefesa, conforme os insuspeitos relatos da imprensa internacional. Houve carros incendiados, com os seus ocupantes dentro. Houve violações e violências em que todos os excessos se cometeram. Houve corpos trucidados em condições horripilantes.

O primeiro-ministro Joaquim Chissano chorou convulsivamente no hospital Miguel Bombarda ao deparar com o macabro espetáculo que os médicos lhe mostraram….

O Alto Comissário, a quem competia a responsabilidade de defender a ordem pública (nos termos do acordo Machel - Antunes), não fez um movimento para proteger essa pobre gente que foi chacinada. Consentiu que os “comandos” fossem indignamente acusados de “irresponsáveis drogados” e não teve uma palavra de conforto para as vítimas imoladas. Nem um só dos responsáveis pelos morticínios foi detido, inculpado e presente a tribunal.

Os monumentos portugueses, que eram património luso em Moçambique, foram apeados antes da independência. Alguns foram mutilados ou tratados sem qualquer respeito pelo que representavam….

Numa entrevista que veio a dar, filosofando sobre a descolonização, referiu que, os que tiveram que deixar Moçambique, não passavam de “racistas”, “exploradores” e “reacionários”.


Em: “Moçambique, Terra Queimada” - De Jorge Jardim


É disto que nos devemos orgulhar?


É disto que os “libertadores” africanos e europeus, se orgulham?


Como se “reparam” as famílias dos que morreram às mãos dos guerrilheiros e populares?


Como se “reparam” todos os que, para salvar a vida, deixaram no Ultramar todos os seus bens?


Como se reparam todos os desnacionalizados que os “libertadores” de abril transformaram em párias?


Nesta infeliz declaração pública do “representante de todos os portugueses” não se vislumbra a preocupação de evitar a divisão desta quase milenar nação, invocada para a justificar a decisão de não comemorar o 5 de Novembro! Data em que o regime português adquiriu algumas semelhanças com a democracia.


Pelo contrário; por muito menos, ao longo da história, nasceram guerras civis em distintas geografias.


Razão pela qual me pergunto se o atual Presidente da República está empenhado num hipotético ajuste de contas com os portugueses, incluindo os que o elegeram.


E, se não há, devia haver um mecanismo constitucional de destituição do Presidente da República quando dá manifestos sinais de incoerência política, capazes de lançar o país num conflito civil de proporções imprevisíveis.


    Mário Soares e Samora Machel

Peniche, 6 de Maio de 2024

António Barreto