quarta-feira, 1 de maio de 2013

Amália Rodrigues; romance de Sónia Louro comentado por António Barreto

Antes de ler a primeira vintena das 183 páginas deste romance, pensei que me esperava uma tremenda estopada. Enganei-me!, fui ganhando entusiasmo crescente até final. A autora soube gerir a espetativa do leitor com mestria.
 
É uma Amália amargurada que aqui é retratada; uma amargura profunda e constante parece ter acompanhado toda a vida da nossa diva. Uma amargura difícil de explicar mas que talvez tenha tido origem na sucessão de rejeições que sofreu; falta dos pais até aos 14 anos sofrendo depois com a sua austeridade, casada "à força" com o ambíguo torneiro-guitarrista o "Chico"  que mais tarde, cansada e despeitada,  abandonou, depois amante do enfatuado tenista-banqueiro "Pitta" que, cioso do seu ascendente social nunca lhe propôs casamento tendo-a tratado geralmente com desdém. Ostracisada por uma sociedade implacável para com as "imorais" mulheres enganadas na sua "virtude" e para com o marginal e decadente mundo "fadista", Amália nunca encontrou o amor que tão ardentemente desejava, apesar dos inúmeros e extraordinários pretendentes que teve; Ricardo Salgado, Charles Aznavour, Porfírio Rubirosa, Anthony Quinn, Onassis, Pablo Neruda...nenhum lhe acendeu a chama da paixão! A sua irmã Celeste dizia-lhe que tinha medo de amar, e talvez tivesse razão, mas, julgo eu, não totalmente. Julgo que Amália sempre sofreu com a falta de carinho e reconhecimento de seus pais, comum nas famílias das classes baixas de outrora; quando um dia mostrou com orgulho à mãe, a Grã-Cruz de Santiago da Espada, esta limitou-se a responder que ela, sempre tivera geito para bugigangas! Deve ter doído! Bem sabemos como certos pais detestam ser superados pelos filhos.
 
Dizia que a vida passara por ela e, de facto, Amália limitou-se a ser o que era; uma beleza discreta mas poderosa, uma voz invulgar, uma dor vivida que sabia transmitir e uma inteligência emocional fora do comum. A sua carreira foi compulsiva! Amália a todos encantava! Talvez tivesse medo de amar, sim, mas...talvez não soubesse amar. Só uma pessoa profundamente egoísta, paradoxalmente insensível, seria incapaz de amar quem a amparou e acarinhou com desvelo até ao fim dos seus dias; o seu marido e companheiro César. Um grande homem! Amália não percebia a indiferença de César pela música mas, simultaneamente,  não compreendia a paixão  dele por arquitetura! De certa forma, Amália foi uma mulher moderna, tendo sacrificado tudo à sua carreira, fumando compulsivamente,"comandando" os seus amores, controlando a sua carreira e adaptando-se com sucesso às variadas circunstâncias, apesar da sua baixa escolaridade! Surpreende a total falta de alusão ao designado "instinto maternal" em tudo o que li sobre ela, quer neste romance quer em outros escritos. Curioso como tem sido ignorada a sua passagem , ainda adolescente, pela pensão do seu tio no Fundão, onde terá passado as "passas do Algarve", antes de regressar definitivamente a Lisboa.
 
Só já no ocaso da vida Amália entendeu que o tal grande amor porque tanto ansiara era, afinal...o Público! Em toda a sua carreira parece não o ter percebido! Não dá para entender! Ou melhor; Amália amava-se demasiado; necessitava de companhia constante, ou...teria apenas medo, o terrível medo que dela se apoderava à noite. O reconhecimento da importância do amor do Público, quanto a mim, funcionou como uma espécie de compensação pelo sentido fracasso do amor definitivo! Cá para mim, o grande amor de Amália foi...Alan Ulman! Não físico, mas de alma! Havia uma sintonia total entre eles na forma de sentir - Alan ofereceu-lhe a pulseira da mãe que Amália usava com devoção e a sua mulher acabou por se divorciar.  
 
Amália e Alan revolucionaram o fado substituindo a tradicional passacalha por harmonias complexas e os textos de "faca e alguidar" pelos de grandes poetas; Camões, Bocage, Alberto Janes, Pedro Homem de Melo, David Mourão Ferreira, Alexandre O´Neil, Manuel Alegre...Interessante a justificação de Alan pela opção por poetas não vivos; os outros não teriam talento adequado! Isso conduziu-o à descoberta da literatura portuguesa, tendo arrastado Amália no processo. Alan, além de excelente compositor e pianista era editor de profissão, como tal, um homem de cultura por excelência. Engraçado; tal como atualmente na economia e no passado com a Ínclita geração, também no fado foi necessário um impulso externo para lhe proporcionar alguma grandeza! Também no traje fadista, Amália revolucionou! Foi dela a "invenção" do xaile e vestido negros sem grandes adornos além de um único brilhante, contra a, até aí habitual, vestimenta multicor com muito oiro à mistura das fadistas.
 
Estranhamente, tendo em conta a sua intuição e conhecimento do mundo, Amália só percebeu o verdadeiro sentido do "Fado de Peniche" quando o seu autor, David Mourão Ferreira, lho explicou zangado, apesar de o ter cantado muitas vezes. Nem o "Meu Amor Marinheiro" de Manuel alegre parece tê-la despertado para a realidade do País! O marido César, que financiara Humberto Delgado e Henrique Galvão, acusava-a de ter estado "demasiado tempo em cima do muro", aludindo à sua incapacidade de assumir denúncia do regime. Amália dizia-se apaixonada por Salazar ,mas não percebi que raio de paixão seria, a não ser a de adolescente pobre pelo chefe. Só a obcessão pelo fado e consigo própria terá justificado esta indiferença pela política, mas...não só; as diferenças sociais e políticas que teve oportunidade de vivenciar em todo o mundo seriam suficientes para despertar qualquer um que se preocupasse mais com os outros.
 
Contudo, Amália foi a grande embaixatriz de Portugal, tendo dignificado o Fado e o País por todo o lado! Graças a ela os nossos artistas de hoje têm facilitada a projeção internacional das suas carreiras, muitos deles, adotando parte do reportório amaliano; Mariza, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, Ana Moura...A propósito,  Amália dizia que não tinha clube mas simpatizava com o Benfica por causa do Eusébio, que "era quase tão famoso como ela".
 
Graças à sua Secretária Estrela, Amália editou um livro de poemas seus originais. Distraída, desprendida das coisas materiais como dinheiro e jóias,  adorava flores, entretendo-se a "roubá-las" à noite nos jardins de Lisboa, razão pela qual a Câmara local passou a enviar-lhe semanalmente, ramos de flores. Adorava o sossego da sua quinta do Brejão, conheceu e conviveu com quase todas as grandes celebridades da época; Gilbert Becaud, Edith Piaf, Cantinflas, etc. Queixou-se, no pós 25 de Abril, do abandono de alguns "grandes amigos" de outrora, como Ary dos Santos, com quem fizera grandes tertúlias, com outros grandes artistas, como Natália Correia, Maluda, Fontes Rocha, etc
 
Fiquei a conhecer os seus acompanhantes, os eternos quase ignorados; Armandinho, Jaime Santos, Raul Nery, José Nunes, Domingos Camarinha, Fontes Rocha, Carlos Gonçalves (guitarristas), Santos Moreira, Joel Pina e outros (violas) e o grande compositor Frederico Valério.
 
Façanhas foram muitas, as maiores das quais, quanto a mim, a sua atuação num concerto de música erudita em Roma no âmbito do programa Marshall, onde, tendo sido a única artista de música ligeira, sobrelevou todos os restantes e o seu triunfo avassalador no Olympia após início atribulado,  que a tornou muito querida dos parisiences, tendo sido condecorada por Mitterrand com a Legion d'Honeur. O tardio agraciamento das autoridades nacionais desgostou-a; Marcelo Caetano condecorou-a com a Ordem Militar de Oficial de Santiago da Espada em 1971 e Mário Soares em 1990 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada, no Coliseu dos Recreios, finalmente, em 1998 é condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique.

Silenciosamente, pelos anos 80, foi operada com êxito em Nova York a um tumor maligno no rosto, depois de ter recuado na  decisão de se suicidar. E eu que pensava que tinha cedido às patéticas operações plásticas agora em voga! Pobre Amália! Cerca de dez anos mais tarde, viria a ser operada, ainda em Nova York a outro tumor, desta vez num pulmão, graças ao empenho do seu dedicado marido César que, não confiando no diagnóstico dos serviços de saúde nacionais  remeteu os exames para os Estados unidos onde detetaram a maleita, que por cá passara despercebida!
 
Este livro, porém, deixou demasiadas pontas soltas, ignorando o destino das pessoas que foram ficando pelo caminho e descurando o enquadramento político-social da época. Mostra uma Amália doentiamente amargurada! Tanto que nem acredito! Não acredito que Amália tenha sido só amargura! Há certamente uma outra Amália que aqui não foi retratada, apesar de compreender que, tendo sido compelida a viver como viveu, por vezes, invadia-a a amargura de não ter podido escolher a sua vida; afinal o eterno dilema das opções que nos interpela a quase todos diáriamente.
 
Deixou um vazio impreenchível!


 
 FOI DEUS
de Alberto Janes

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