segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Jaime Neves, em Montepuez (4)

      Montpuez é a grande retaguarda avançada da guerra cujo epicentro é o planalto Maconde. Ao longo do rio Muera encontra-se a principal força guerrilheira da Frelimo. No coração do planalto fica Mueda, a terra da guerra, uma rua com quartéis de um lado, e do outro a cabeça da pista de aviação e o campo de futebol. Mueda é tropa por todo o lado; e os Macondes distantes, silenciosos, dignos, muitos com olhos de Malangatana. São as cantinas do China e do Santos e os T6 e os Fiat G91, que constantemente descolam e aterram com um barulho arrasador. Mueda é a chegada e a partida de colunas para a guerra; para Miteda, Nangololo, Nancatari, Mocímboa do Rovuma, Omar e Mutamba dos Macondes. É a dança dos helicópteros carregados de feridos, numa imensa região onde abundam as minas, as sementes do diabo.
 
      Já a ilha de Moçambique - e de Camões - é o paraíso; cerveja gelada, prego no prato com ovo a cavalo, lençóis limpos e duche. E tem mulheres!, pretas e mulatas bonitas e não as primitivas farruscas do mato. Aqui, a velha tradição imperial portuguesa do duelo das armas, passa a duelo dos corpos. Não faltam jornais, como a disputadíssima A Bola, revistas como a Flama e o Século Ilustrado, fotonovelas como a Capricho e o Sétimo Céu e outras como a Plateia, o Mundo de Aventuras, o Seis Balas, a Crónica Feminina. E de vez em quando a Playboy, a Penthouse e até a Private. Há música por todo o lado e abundam os bailaricos. Não faltam as corridas de riquexó nas quais os comandos fazem dos puxadores nativos animais de tiro.
 
      O Batalhão de comandos de Montepuez, entre operacionais e "auxiliares de combate" tem cerca de dois mil e quinhentos homens. Com Neves há cerca de mil e cem operacionais, os que entram efetivamente em combate, distribuídos por sete Companhias e apoiados logisticamente pela Companhia de Comando e Serviço constituída por quinhentos elementos, que também dá dois cursos anuais de formação de comandos . Já o material é medíocre; trezentos e sessenta viaturas de carga entre Berliets e Unimogs  e seis Jeeps. Nos paióis, milhares de G3, dezenas de metralhadoras HK21, milhares de granadas, dezenas de morteiros, morteiretes e bazucas, lança-roquetes e o portuguesíssimo dilagrama.
 
      Desde Dezembro de 1971, o major Jaime Neves comanda o mais poderoso grupo de operacionais das Forças Armadas Portuguesas. Os seus Comandos caçam guerrilheiros nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Tete, mas também na Gorongosa onde se ocultam os homens de Cara Alegre. Neves é o Senhor da Guerra em Moçambique, dele jorra energia e mando; o poder mais puro e cru. A variante humana e desumana do poder de Deus; o de decidir a vida e a morte de outros. Tem como adjunto o sulista discreto e bravo José Belchior, duas vezes ferido em combate.
 
      É Moçambique, onde derramou o seu sangue e de alguns dos seus, que mais profundamente marca Jaime Neves, pelos sucessos e insucessos, como o da estúpida explosão que destroçou dezenas de vidas duma caravana de civis escoltada por militares entre Tete e Cabora Bassa, por descontrolo de um furriel que disparou a sua G3, irritado pela ultrapassagem inesperada de um camião civil carregado de trotil, acertando-lhe em cheio inadvertidamente, na qual Neves teve ação decisiva no reagrupamento da mesma.
 
       Em Outubro de 1973, deixa o comando do Batalhão de Montepuez assumido em Dezembro seguinte por Artur Fonseca Freitas, um oficial de Amarante, inteligente e dinâmico, numa fase em que, entre os militares, se acentuam as interrogações quanto à substância desta guerra.      

Sintetizado de "Jaime Neves, Homem de Guerra e Boémio" da autoria de Rui Azevedo Teixeira, editado pela Bertrand

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