sábado, 15 de dezembro de 2012

HONRA E DEVER (Alpoim Calvão): Operação "Tridente" - Amilcar Cabral - António Lobato - Demagogia e traição


Operação Tridente: (pág. 74)

 “…Este movimento, se bem que tecnicamente bem executado, custou-me a morte do 1º grumete Manuel dos Santos Barraca.
Imediatamente, da linha inimiga se destacaram alguns vultos que, rastejando habilidosamente, tentaram ultrapassar os poucos metros que nos separavam a fim de se apoderarem do corpo e respetiva arma, o que seria um bom troféu de propaganda. Quase simultaneamente lançaram-se para a frente o sargento Manuel da Costa André e o marinheiro Domingos António Botelho em direção ao camarada caído, indiferentes ao chuveiro de balas que granizava abundantemente, apenas preocupados em socorrer o irmão de armas. E, qual sólido roble, com uma G3 debaixo de cada braço, o grumete Abrantes Pinto, de pé e completamente a descoberto cobria o avanço do André e do Botelho com o fogo das suas armas! Tudo se passava a escassos metros de mim, que, apesar das minhas funções de comandante me obrigarem a abarcar toda a zona de ação, não pude deixar de observar com um misto de espanto e orgulho o gesto daqueles homens. Quando alcançaram o Barraca e iniciaram a sua evacuação, o Botelho foi atingido mortalmente e caiu redondo no chão. Então, a minha gente, espontaneamente, sem necessidade da mínima ordem, carregou energicamente e estabeleceu o perímetro de forma a incluir o local onde estavam os dois camaradas mortos e o sargento André que não recuava um centímetro. Não fiz mais do que os acompanhar, extremamente grato pela sua coragem.”
(página 155)
Com o apoio tácito do Senegal e a aquiescência de Oliveira Salazar às teses defendidas pela UNGP, em 11 de Agosto de 1962 é enviada à Guiné uma missão chefiada pelo secretário de Estado do Ultramar, Silva Cunha, para se encontrar uma plataforma de entendimento. Porém, à última da hora, quando a delegação se encontrava já em Bissau, chegou ordem de Lisboa para se suspenderem todas e quaisquer conversações. A UNGP viria a ser dissolvida em 1963, ao deparar-se com o recuo de Salazar quanto à sua decisão inicial de apoio ao movimento e a recusa de entabular negociações. A decisão do Presidente do Conselho em suspender a iniciativa prendeu-se com a criação da Organização de Unidade Africana (OUA), que passou a reconhecer os movimentos ditos independentistas como os legítimos representantes dos povos das “colónias” portuguesas e votou o governo de Portugal ao ostracismo.
(pág. 162)
(Amílcar Cabral, Palavras de ordem Geral, cap. V) :
“Agir prontamente e com a maior severidade contra a tentativa de deserção e contra os desertores …O desertor ou os que tentam desertar devem ser desarmados, presos, julgados e punidos…A partir de agora, o desertor individual ou o responsável ou responsáveis principais duma deserção coletiva devem ser presos e condenados à morte. Se conseguirem fugir devem ser liquidados lá onde se encontrem!”
(Alpoim Calvão):

E agora senhores desertores? Consciência tranquila? Nem o tecnicamente não desertor Manuel Alegre escapava à pena de morte se lhe tivesse sido aplicada esta justiça do PAIGC às suas actuações Argelinas!

Sei que muitos antigos combatentes do PAIGC não têm consideração nenhuma por estes senhores. Antes admiram homens como o António Lobato que, em sete anos e meio de cativeiro, soube resistir a todas as pressões, inclusive do próprio Amílcar Cabral, para assinar um papelinho em que declarasse ser contra a guerra dita colonial. Assinatura essa que lhe valeria a liberdade imediata e transporte para qualquer país europeu. Senhores compatriotas deste Portugal de quase nove séculos! Quem escolhem: o poeta Alegre ou o major Lobato? Honro-me de chamar amigo a este Português de Lei…

Transcrevo ainda Cabral: “Levar a ação armada, com urgência aos meios urbanos…bombardear mesmo as praças das vilas e cidades…”
Na escola de quadros situada na Guiné-Conacri, em palestras aos dirigentes, Amílcar Cabral afirmava: “Dar um tiro a um tuga no caminho ou emboscada é um ato político de primeira grandeza.” Para um amigo do Povo Português não deixa de ser uma afirmação interessante.
(Pág. 169):
As praças começaram a refilar, dando sinais de um evidente descontentamento, qua acabou por degenerar em contestação aberta e num movimento semelhante à greve, atentatório dos mais elementares princípios da disciplina militar, com a recusa em sair das instalações dos famigerados bunkers para comparecer às formaturas, aos serviços, etc.
Reconhecia Alpoim Calvão que a proteção superior dos abrigos tornava a vida dos homens infernal. Mas movimentos contestatários não os tolerava e resolveu o assunto com o argumento que utilizava sempre com grande sucesso quando todos os outros se revelavam ineficazes. Entrando no alojamento das praças mais recalcitrantes, berrou com voz forte de comando, de quem não admite sequer a mais pequena hesitação:
- Saem todos imediatamente e formam lá fora. Quem não quiser vai jogar à bofetada comigo. Depois estão à vontade.
Todos obedeceram e o incidente ficou sanado.
(Pág. 183):

Horas depois, o ruido surdo de um motor alerta os fuzileiros para uma embarcação, logo identificada como sendo do PAIGC.
De armas aperradas, quando os fuzileiros sentem que a embarcação está à distância de lhes não poder escapar, largam com os botes do seu ancoradouro e arrancam a toda a velocidade ao mesmo tempo que o comandante Calvão grita em francês ordem para parar as máquinas. A recusa em obedecer veio através do crepitar das armas ligeiras pelo que, sem hesitar, os fuzileiros lançaram-se ao assalto. Calvão, no afã da abordagem, acaba por ver-se forçado a largar a sua G3, mas isso não o detém e sequer o faz hesitar. Já a bordo, envolve-se em violenta luta corpo-a-corpo  com o timoneiro do navio que prontamente elimina e é com a arma arrancada ao inimigo, uma Simonov russa, que continua a combater. Sem demora, o reduzido grupo de fuzileiros aniquila todos os focos de resistência e toma o controle da embarcação. Foi um dos momentos mais marcantes da carreira militar de Alpoim Calvão, que ainda hoje, passados que são tantos anos, guarda a arma que capturou nesse combate.
(Pág. 184):
…É pois naquele ponto perdido no meio do mar que foi deixado o comandante Calvão, sem ter necessidade de qualquer armamento já que se encontrava muito longe de terra. Sucede porém que aquela era uma posição recentemente cartografada, pelo que apenas se encontrava assinalada nas cartas náuticas. Nas da Força Aérea nada constava e para as aeronaves aquele ponto nada mais era do que mar imenso. Assim, os helicópteros andavam a sobrevoar toda a costa da Foz do Cacine, não podendo supor que o seu objetivo se encontrava naquele baixio tão distante. Entretanto, como o resgate demorava, a maré que inicialmente se encontrava na baixa-mar começa a subir e a restinga a ficar submersa, pelo que o comandante se ia aproximando cada vez mais do farolim. A certa altura, e já com os pés molhados, nada mais lhe resta senão começar a subir pela estrutura, mas quando olha para cima, percebe que não está sozinho: uma enorme jiboia encontrara no farolim um refúgio seguro e, enroscada no seu topo, observava atentamente o recém-chegado. A um e a outro resta apenas a partilha do espaço, cada vez mais exíguo devido à subida das águas. Uma espera que teria sido interminável não fosse a iniciativa do piloto de um dos helicópteros, que alargara o raio de busca…


(Pág. 189)

…Assim, o grande objetivo preconizado por “A Solução do Problema da Guiné” (autoria do General Spínola)  resumia-se a duas linhas de força:
                - Acelerar a promoção económico-social da Província em equilíbrio com a promoção sociocultural das populações autótones  tendo em vista eliminar as causas da subversão;
                - Ganhar o tempo necessário  e assegurar o espaço vital para se atingirem em tempo útil os objetivos primários da política nacional.
A conclusão deste documento não deixa margem para qualquer dúvida, ao afirmar perentoriamente:
                “O tempo corre a nosso favor na medida em que formos concretizando os objetivos  socioeconómicos, que anulam as razões básicas da subversão. Portanto, caminhamos para a vitória final e esta encontra-se perfeitamente ao nosso alcance.”
…A doutrina com que, entretanto, Amílcar Cabral incentivava os quadros do PAIGC  assentava em apregoar os malefícios do colonialismo  e as virtudes da luta de libertação, bem expressas nas “Palavras de Ordem Gerais”, um opúsculo que o Secretariado-Geral do PAIGC editara e difundira em Novembro de 1965.
O pensamento de Cabral aí exposto, com a apregoada conceção humanista do seu autor a ser desmentida a cada parágrafo, fazia a apologia da violência e do ódio, incitando à destruição de tudo aquilo que os portugueses haviam construído, mesmo que fossem os frutos de uma ação benéfica para o povo guineense:
“…A definição do Povo depende do momento que se vive na terra.
População é toda a gente, mas o povo já tem que ser considerado em relação à própria história. Mas é preciso definir bem o que é o povo, em cada momento da vida de uma população. Hoje na Guiné e em Cabo Verde, povo da Guiné ou Povo de Cabo Verde, para nós, é aquela gente que quer correr com os colonialistas portugueses da nossa terra. Isso é que é o povo, o resto não é da nossa terra nem que tenha nascido nela. Não é o povo da nossa terra, é a população da nossa terra mas não é povo.
…Portanto, a maior parte do nosso povo é nosso Partido. E quem mais representa o nosso povo é a direção do nosso Partido. Que ninguém pense que lá porque nasceu no Pico da Antónia ou no fundo do Oio, ele é mais povo do que a direção do nosso Partido, mentira.
…Portanto, aqueles que têm amor pelo nosso povo, têm amor pela direção do nosso Partido. Quem ainda não entendeu isto, não entendeu nada ainda.” 
(Pág. 192)
“…Certo dia reparou que no livro do DFE 8 se encontrava lançado um registo assinado pelo imediato da unidade, o segundo-tenente  Sanches de Oliveira, em que ele referia ter dado ordens a um grumete para abrir um buraco no chão e que este se negara, afirmando que não era para ser cavador  mas sim fuzileiro que tinha vindo para a Guiné.

“…Chamei o imediato e perguntei-lhe:
                - Olha lá e tu o que é que fizeste?
                - Oh comandante - respondeu o “Sueco” - ele não quis ir…
                - Não podemos dar uma ordem e permitir que eles não a cumpram. Eles têm de cumprir a ordem seja lá de que maneira for.
                - Mas comandante, eu já não sabia bem como fazer…
                 Eu vou-te mostrar como é que se faz. Chama lá o grumete. E veio o grumete. Então eu disse ao imediato:
                - Agora procede como fizeste da outra vez.
E assim foi. O imediato mandou buscar a enxada.
                - Agora o que é que disseste ao Grumete?
Sem esperar resposta, entreguei-lhe a enxada e disse ao grumete:
                - Faz o que o imediato te mandou e abre o buraco.
Ele não quis dar o braço a torcer e alegou:
                -…ai…eu…não sei quê…!
                -Olha lá, tu tens que cumprir as ordens, abre o buraco!
Renitente continuou a dizer que não abria. Eu então tirei-lhe a enxada das mãos e parti-lhe o cabo nas costas e disse:
                - Agora, com o resto da enxada, abre o buraco!
E ele, imediatamente começou a abrir o buraco. Virei-me então para o imediato e disse-lhe:
                - É assim que tens de fazer. Dás uma ordem (legítima), tens de a fazer cumprir.

Sem comentários:

Enviar um comentário