domingo, 4 de janeiro de 2015

Jaime Neves e o 25 de Abril (4)


      Excluindo os casos especiais de Timor e Macau, o 25 de Abril de 1974 constitui o último dos três ciclos da Grande Aventura Colonial Portuguesa iniciada em 1415. Jaime Neves fez parte do 16 de Março e do 25 de Abril de 1974, e dos  11 de Março, 28 de Setembro e 25 de Novembro de 1975. Tendo sido um homem de ação e da força na ditadura, bem “masculino”, no sentido que dá Susan Sontag às ditaduras, Neves “feminiza-se”, segundo o conceito da ensaísta, que considera femininas as democracias devido às guerras de palavras características dos seus parlamentos.

      Jaime Neves começa a virar-se contra o regime no início da década de setenta ao aperceber-se da degradação acelerada do exército; Há soldados enviados para Moçambique sem terem dado um único tiro, no norte, os víveres são transportados por helicóptero devido à profusão de minas, há companhias sem qualquer sargento ou oficial do Quadro Permanente! Os filhos das elites, como Freitas do Amaral, ficam-se pela Marinha enquanto os rapazes do povo servem de “enchidos para canhão”. Neves não esquece os prisioneiros da Índia Portuguesa à chegada a Lisboa; oficialmente designados de “traidores” e “cobardes” e apesar do frio,  foram enviados para as suas terras  apenas com uma camisa cinzenta, calças com uma corda a servir de cinto e sapatilhas.

      Neves não tem formação política definida; autoritário - demo-liberal à noite -, o seu vínculo é à ordem estabelecida, o respeito pela hierarquia e pela autoridade. A decadência que testemunha no exército e no Império fazem-no vacilar entre a obrigação de lealdade e a necessidade de mudar o regime, preconizando o reformismo autoritário pela direita e não a revolução de esquerda.
      Toma parte ativa no fracassado levantamento militar do 16 de Março  liderada por Casanova Ferreira, Otelo Saraiva de Carvalho e Manuel Monge, que seria uma espécie de ensaio geral para o 25 de Abril, escapando à prisão graças ao apoio estratégico dos seus camaradas.
      No 25 de Abril, tem ação decisiva na neutralização do Ministério do Exército, este, acometido da tarefa da defesa do regime, invadindo-o com granadas de mão descavilhadas, a que se seguiu a persuasão da coluna do Regimento de Cavalaria da Ajuda, comandada pelo seu colega da Academia Militar Pato Anselmo que progredia com os seus poderosos M47 pela Avenida da Ribeira das Naus para os quais avançou desarmado, desafiando com sucesso os militares a juntarem-se à sua companhia de Comandos, constituindo uma preciosa ajuda para Salgueiro Maia, que, na rua paralela, resolveria com grande coragem situação idêntica.
      Resolvido sem tiros o bloqueio do Terreiro do Paço, enquanto Salgueiro Maia segue para o Quartel do Carmo onde imporá a rendição a Marcello Caetano - que revelará grande dignidade -, Jaime Neves, com a sua companhia de comandos à qual tinham aderido o Regimento de Infantaria 1, o Regimento de lanceiros e o Regimento de Cavalaria 7, segue para a Penha de França onde consegue, mais uma vez sem tiros, apesar de ter tido uma arma apontada ao peito a curta distância, a rendição da Legião Portuguesa, perante Manuel Ferreira da Silva - o herói de Gadamael e um civil “olheiro” do MDP/CDE.
      Em 30 de Abril, Neves protege a chegada de Álvaro Cunhal ao aeroporto da Portela, permitindo, ingenuamente e contra o previsto, que este discursasse do cimo de uma chaimite, imitando Lenine na estação Finlândia de São Petersburgo, fazendo passar a ideia de união entre o PCP e o MFA, que marcaria o designado PREC, e conduzindo-o ao encontro com o General António de Spínola. Simpatizando com Cunhal, que se recusara a seguir o patético Pereira de Moura colocando-se ao seu dispor, Neves, não suspeita de que viria a ser um alvo a abater pelo PCP.
      Do outro lado do espetro político, Jaime Neves protege a partida de Américo Thomáz para a Madeira, a caminho do exílio.

Sintetizado de "Jaime Neves, Homem de Guerra e Boémio" da autoria de Rui Azevedo Teixeira, editado pela Bertrand

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