domingo, 5 de agosto de 2012


Amarga descoberta
2012.08.04
Toninho da viola, esparramado no velho cadeirão, emergiu lentamente do suave torpor da tarde. Pachorrento, levantou-se, bocejou e espreguiçou-se com prazer. Estava, finalmente, operacional! Reparou nos malotes, malas e sacos em volta, anunciando o breve regresso. Estoico, encheu o peito, pegando num saco em cada mão e desceu à rua onde estacionara o VW mesmo frente à porta. - Olhe que isso é muito pesado! Disse-lhe a norinha, preocupada, face ao volume dos malotes. - É agora pesado! Sabes lá! Tá aqui um peso! Respondeu brioso! Uma e outra vez subiu a escada; a coisa corria bem. -Faltam as violas! Mas quem me mandou trazê-las? Estava doido! Pensou contrariado! Finalmente estava pronto! Pronto não! No primeiro degrau da escada jazia o humilde e solitário, o saco preto do lixo da cozinha! - Á ladrão estás aí e não dizias nada? Pensou enquanto se dirigia ao contentor do lixo, mesmo em frente da oficina dos pneus. Aproveitou o levantamento da tampa pela vizinha e, com uma corridita, arremessou o saco bem para o fundo do contentor. - Já está! Pensou, esfregando as mãos satisfeito com a façanha que acabara de realizar, assobiando um velho fadinho.
Já de regresso; - …A Rosalina, trailarai, larai, lai, lai…grande fado pá! Uma voz…fabulosa! Esta malta de agora nem sabe o que é o fado a sério! O que cantam não é fado…é outra coisa qualquer…parece que têm vergonha! Foi o que deu o 25 de abril! Filosofava Toninho, satisfeito com o stock de CDs de que dispunha para a viagem, confirmando a anuência da “sueca”, já preocupada com o almoço. Ninharias, pensou. Fadinho após fadinho, CD após CD, lá chegaram a Peniche, remoendo ambos, a “ladroagem” do aumento da portagem mas ainda a tempo de dar uma saltada ao escritório.
Declarando-se dispensado da descarga, dado o esforço despendido na condução, Toninho mudou de roupa e foi à procura dos sapatos. - Sueca! Onde estão os sapatos? Perguntou a plenos pulmões. – Estão no saco preto com as minhas sapatilhas, respondeu, ao longe, a sueca! - O saco preto? Qual saco preto? Não vejo aqui nenhum saco preto! Onde é que está o raio do saco preto? - Há-de estar aí junto dos outros! Subitamente, lembrou-se que se cruzara com o seu filho João, quando se dirigia ao contentor do lixo! - Ai! Querem lá ver? O João vinha dos lados do contentor! Sentiu um vazio no estômago, perguntando já desanimado: - O saco era preto? - Era! Disse a sueca. Toninho deixou-se cair pesadamente na cadeira levando a mão à cabeça. - Olha lá, quanto custaram as sapatilhas? – Sei lá! Aí uns 30 euros. - E os sapatos? - Não me lembro; se calhar aí outros 30! - Ora 30 mais 30 são 60, mais gasolina, mais portagens, sim senhor! Pensou perguntando indignado: - Quem te mandou pôr os sapatos no saco preto? - Eu disse-te! Respondeu a sueca. - O saco preto é sempre para o lixo, não sabes disso? Mudas-te a rotina e deu asneira! Nunca mais aprendes pá! Desalentado: - Olha lá, o Benfica joga hoje?


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