sábado, 15 de setembro de 2012

O País Sonae


Cá em casa, o jantar de hoje foi caldo verde; uma sopa bem característica da dieta mediterrânica, com ingredientes baratos e fáceis de obter. Com o estatuto gastronómico deste prato, só mesmo a sopa de feijão, o bacalhau, a sardinha assada, ou os “jaquinzinhos” fritos. Um prato amigo da gente simples. Nos meus tempos da memorável Rua do Pinhal, onde parecíamos todos da mesma família, comprávamos as couves, na mercearia da senhora Maria do Penteadinho ou na do Sr Mário, migadas depois na popular máquina de fabrico nacional - da prestigiada fábrica de metalomecânica “Joca”, ainda ativa. Quem quisesse podia levar as couves de casa e alguns faziam-no.

Reparei que o caldo verde vinha embalado e etiquetado. Peguei-lhe, “virei-o de um lado, do outro e de frente”. Li a etiqueta. Voltei a ler. Não havia engano, dizia lá: SONAE, 100 % nacional, couve galega ripada, peso líquido 300 g, conservar entre 1 ºC e 4 ºC, consumir até 17.09.2012. Indicava ainda o nº do lote, a composição por dose, morada e outras indicações, conforme os requisitos legais. Quer dizer, aquele caldo verde era um produto SONAE e, para bem da nossa saúde, respeitava uma série de requisitos definidos pelos tecnocratas de Bruxelas, que da nossa saúde sabem tratar muito bem.

Então lembrei-me. Lembrei-me daquela mulher pobre, viúva, com um filho adulto deficiente incapaz de trabalhar, que ganhava o pão de cada dia para ambos, a cortar couves para caldo verde, à faca, no mercado de Camarate. Não sei quanto ganhava, não sei há quanto tempo o fazia, sei que era o suficiente para se manter e ao seu pobre filho.

Um dia, um dia apareceram-lhe os fiscais da ASAE, sempre zelosos a tratar-nos da saúde, proibiram a pobre senhora de continuar com a atividade e aplicaram-lhe uma multa, deixando aquela família na indigência. Provavelmente, ficaram felizes os polícias por terem feito cumprir a escrupulosa lei; e a lei garante-nos uma vida saudável. Ou não, mas isso não é da sua conta; o mundo, decerto, terá ficado muito melhor! Terão pensado, para bem das suas consciências.

Jean Claude - nome fictício -, farto da impessoalidade e correria da vida parisiense, há mais de duas décadas, perdeu-se de amores por uma portuguesa com quem casou e pelo nosso Portugal. A ponto de mudar para cá a sua residência, fazer cá a sua vida, ter e criar cá as suas filhas. Fascinava-o a nossa tranquilidade e a matriz rústica que dominava a nossa sociedade e se traduzia numa qualidade de vida que já conhecera e à qual queria regressar. Investiu as suas economias num ginásio de fitness, de cuja arte era conhecedor, de cujos rendimentos viveu, dignamente, com a sua família.

Mas houve um dia; há sempre um dia, em que, os polícias da ASAE lhe entraram pela porta, identificaram desconformidades legais recentes, aplicaram-lhe pesada multa e proibiram-no de exercer a atividade, até corrigir as irregularidades, cujo cumprimento, afinal,  lhe inviabilizava o negócio!  Jean Claude fechou a porta e vive revoltado por lhe terem negado o seu ganha-pão e dos seus, como sempre, para bem da nossa saúde, algo que preocupa permanentemente este corpo policial.

Ah, mas não desesperem, gente de pouca fé; o grupo SONAE, entretanto, montou uma rede de ginásios e anunciou recentemente um desconto de 30 % para não deixarmos e cuidar da nossa rica saúde. Sensibiliza-me ver como se preocupam connosco.

Correio da Manhã de segunda-feira, 20.08.2012, na página 26, apresenta uma crónica de Secundino Cunha, com o título “Pão vai aumentar em setembro”.  Transcrevo: “Os custos de produção dispararam no primeiro semestre deste ano mais de quinze por cento. As farinhas e os combustíveis não param de subir, pelo que um ajustamento de preços se torna inevitável”, terá dito ao Correio da Manhã, António Fontes, presidente da Associação dos Industriais de Panificação do Norte (AIPAN).

Mais à frente; “Assim, prevê-se que a carcaça de 40 gramas suba um cêntimo, passando para os doze, em média, no Norte, e atinja os dezoito cêntimos na região da Grande Lisboa”. Ainda mais à frente; “Há aqui um mundo especulativo, que acompanha de perto as oscilações dos combustíveis e que atira as farinhas para valores inaceitáveis”. Terá dito o industrial Carlos Santos acrescentando que: “não são os produtores de cereais quem ganha com estes aumentos”. Referiu ainda António Fontes: “”A eletricidade está mais cara do que nunca, o gasóleo é o que se vê e o preço do gás duplicou nos últimos dois anos, isto depois de as autoridades terem convencido os industriais a optarem pelo gás em vez da lenha, por razões ambientais”.

Em caixa com o título de  “Pormenores” refere ainda o CM: “Falências a Norte”; Na região Norte há 3500 empresas de panificação e similares. A AIPAN prevê que, até ao  final do ano,  se verifique mais de uma centena de falências e 600 desempregados”.

Ainda noutra caixa, desta vez sob o título “O Governo tem de criar alguma regulamentação” , o mesmo António Fontes terá dito que iria pedir ao Ministro da Economia  para intervir no sentido de impedir práticas de dumping por parte de “algumas grandes superfícies, que vendem a carcaça a cinco cêntimos”. “Eles fazem do pão elemento de captação de clientes e estão a destruir todo o setor”, terá afirmado o mesmo António Fontes.

Durante o verão passou-se algo idêntico com a sardinha; uma das grandes superfícies, na fase crítica, comprou toda a sardinha da lota a preços proibitivos - cerca de 400 euros o cabaz -, para a vender depois nos seus estabelecimentos a preços reduzidos, quanto a mim, com o mesmo fito de atrair e fidelizar clientela, destruindo assim milhares de microempresas do setor.

Na área da refrigeração e ar condicionado, que conheço muito bem, verifica-se desde há uns anos, um ataque “feroz” às pequenas empresas colocando-lhe, concertadamente, e sob os mais variados pretextos sucessivas dificuldades de grau crescente, com o fim de as fechar e forçar a concentração que, dizem estudos do INE, garante maior produtividade.

Para salvação de todos nós, o grupo SONAE, importa os equipamentos do ramo, distribui-os, executa os projetos, instala-o e faz a manutenção dos mesmos, destruindo dezenas de milhares de pequenas empresas, captando o valor acrescentado que era repartido por todas elas.

É inegável que o efeito de concentração económica induzido pelas grandes superfícies é uma das grandes causas do desemprego que se abate sobre o país, com tendência para se agravar, uma vez que, a insaciedade dos seus acionistas, impele-os, a apoderarem-se de todos os negócios rentáveis de todas as fileiras, contribuindo decisivamente, para o empobrecimento de milhares de portugueses, pela destruição de muitos milhares de postos de trabalho; salvo erro, por cada posto criado pelas grandes superfícies, três são destruidos!

Como se vê, não tarda, poderemos mudar o nome ao país em homenagem ao futuro senhor feudal que providenciará todas as nossas carências.

Triste fim para uma utopia!

AB

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