quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Honra e Dever

Concerto insólito:
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Cena insólita esta que o farolim de  Marca Samba testemunha naquela noite. Durante mais de uma hora, no meio do mar, longe do mundo, longe de tudo, um pequeno grupo de fuzileiros de camuflado, de armas à bandoleira, cansados mas eufóricos com o sucesso da missão, escarranchados nos botes pneumáticos e tendo o seu comandante como maestro, entoram árias de conhecidas óperas com que se puseram a entreter o tempo de espera que, naquelas ocasiões, se escoava muito lentamente. O marinheiro “Setúbal” foi um dos cantores à força: “O regresso foi difícil porque não dávamos com o patrulha. Então, o comandante resolveu mandar-nos cantar explicando-nos que o som junto à água se propaga mais depressa. Ainda tentei resistir, mas era impossível, todos tínhamos de cantar, não havia excepções. Ele desatou a cantar a Samaritana, depois óperas, e só descansou quando por fim, bastante tempo mais tarde,  lá vimos a luz do patrulha e viémos embora.”

O massacre dos Capitães:
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Pela mesma altura, ocorre porém um revés em todo este processo de pacificação: o massacre dos majores, como ficou conhecido para a História. Havia algum tempo já que, no mais absoluto sigilo, decorriam contactos superiormente autorizados de alguns militares portugueses  com elementos do PAIGC, , no sentido de se alcançar a paz pela via não armada. No dia 20 de Abril de 1970 tem lugar o encontro final entre os principais elementos do Estado-Maior do CAOP (de Teixeira Pinto) e os chefes guerrilheiros da região de Cobiana-Churo. Avançam confiadamente os Portugueses para a reunião combinada a norte da região Có-Pelundo. O pequeno grupo era contituido pelo major CEM Passos Ramos, chefe do Estado-maior do CAOP; pelo major de artilharia Pereira da Silva, oficial de informações, e acção psicológica; pelo major de infantaria Magalhães Osório; pelo alferes miliciano Palmeiro Mosca, adjunto para o desenvolvimento sócio-económico; e por um intérprete. Como habitualmente, todos iam desarmados. Chega ainda a estar prevista a participação do general Spínola, mas, vivamente desaconselhado pelo seu Estado-Maior, resolve à última hora não comparecer, para frustração do inimigo que contava prendê-lo nessa ocasião.
                Segundo relatam mais tarde os guerrilheiros que participaram na emboscada, os portugueses faziam-se transportar em dois jeeps que chegam ao local combinado 10 minutos depois do meio-dia. O primeiro a ser abatido é Passos Ramos, quando sai do carro. Os outros foram selvaticamente mortos, sendo retalhados a golpes de catana. Os corpos foram recuperados no dia seguinte, completamente mutilados.
                Em Setembro, cinco meses depois, Amílcar Cabral irá referir-se ao assassinato dos três majores num discurso triunfalista proferido em Conakri , por ocasião de mais um aniversário do PAIGC, e glorificará aquele “ato heróico”: “Depois de vários contactos, cartas ridículas, ofertas, presentes e promessas de toda a espécie, os colonialistas sofreram mais uma derrota vergonhosa: os nossos heroicos combatentes liquidaram os majores e outros oficiais e soldados que pensavam que podiam comprar-nos.”

Zaratustra: Eis a verdadeira face de Amilcar Cabral, esse grande amigo dos portugueses! Não tem perdão; nem na Terra nem no Céu! Nem ele nem os seus apoiantes!
 

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