domingo, 17 de fevereiro de 2013

O Beijo de Judas


 
O Beijo de Judas (de Giotto)
 

 
Os cristãos designam por "beijo de Judas" qualquer ato que, parecendo amistoso, prejudica quem o recebe, por analogia com o conhecido episódio da "traição" de Cristo por Judas Escariotes, o seu apóstolo predileto.
 
Mário Coluna, " O Monstro Sagrado" é digno de todos os encómios, por tudo o que foi enquanto desportista, por tudo o que tem sido para os seus concidadãos; uma esperança de vida.
 
Já o atual Governo e o suposto mentor deste agraciamento - Miguel Relvas - merecem todas as reservas. Porquê? Porquê agora? É certo que a corrente política que detém atualmente o poder está dele afastada há muito, descontando o breve interregno Barroso-Lopes. Porque será que, em momento tão atribulado, em que quase todos os portugueses vivem apavorados com o seu futuro e dos seus filhos, em que os governantes são atacados diáriamente de todas as frentes, vilipendiados, insultados, instados a encontrar rápidamente, soluções eficazes para tirar o país do atoleiro em que se encontra, surge esta homenagem?

A que propósito se lembraram, agora, de um atleta emblemático dos anos 60/70, atleta de um clube que tem sido discriminado pelo falsos democratas que prometeram abolir todas as ditaduras? Um clube a que o ressabiamento e o ódio dos vencidos atribui falsos vínculos ao regime que designam de "fascista". Um clube que tem sido objeto de tentativa continuada de extermínio, com a complacência de todas as forças políticas, nomeadamente as que atualmente governam o país?
 
Todos sabemos que a origem da preponderância do Porto no futebol nacional radica na assunção da causa regionalista pelos seus dirigentes, transformando-o num mero instrumento de afirmação política regional, beneficiando de cumplicidades a todos os níveis nas múltiplas estruturas da administração pública, que lhes assegura tratamento especial, quer dentro quer fora das quatro linhas.
 
A regionalização é uma causa fraturante, ansiada por muitos caciques locais, não com o interesse de melhorar a eficácia do desenvolvimento solidário de Portugal, mas com o intuito de satisfazer as suas aspirações de poder. A ala vencedora do maior partido da coligação, contráriamente à que a antecedeu, apesar de não o ter assumido publicamente, é favorável à regionalização, fomentando nos bastidores a institucionalização do processo, proporcionando aos regionalistas o acesso a cargos de relevo no poder local como requisito transitório para nova fase já em preparação.
 
É irrelevante que Relvas seja, supostamente, um portista convicto, mas já é significativo que tenha sido por sua influência que a distrital do PSD do Porto tenha aceitado a candidatura de Menezes à câmara do Porto, o que veio a acontecer após muita controvérsia, precisamente, na gala do Porto, onde esteve presente. Menezes é um regionalista que não inspira confiança, que tem proporcionado financiamento público continuado  e descarado, através da CMVNG e da FPG, ao clube regionalista. Entregar a câmara a Menezes é subordiná-la aos dirigentes do Porto. É isso que quer o PSD?
 
Sucede que, José Relvas, num gesto de deselegância inadmissível num governante, apesar de convidado, não compareceu nem se fez representar na gala do Benfica. Tal atitude só pode ser interpretada pelos Benfiquistas como um ato hostil ao seu clube e de cumplicidade com o mostrengo, extensível a todo o Governo. Um mau sinal.
 
A esta homenagem, pode não ser estranho o suposto protocolo entre a escola de futebol de Mário Coluna em Moçambique e o Porto, funcionando como contrapartida e, sobretudo, como o anúncio implícito de uma pretensa vitória do mostrengo no tabuleiro moçambicano e logo com uma figura emblemática do clube. 
 
Aqui chegados, parece óbvio que, ao Governo, não move qualquer sentido de justiça no reconhecimento do mérito desportivo de Mário Coluna e, implícitamente, do seu clube, o Benfica. Apenas se serve de ambos para atenuar a forte contestação pública de que tem sido alvo, visando o universo social do Benfica e a trajetória desportiva ascendente deste, quer interna, quer externa. Não foi por acaso que o anúncio deste agraciamento aconteceu logo após a excelente  vitória sobre o Bayer Leverkusen.
 
Finalmente, este gesto, mostra onde está o verdadeiro poder do Benfica e o caminho a seguir para a regeneração do futebol e do desporto em geral; transformar a tremenda força social do clube numa força cívica capaz de condicionar a ação política e governativa conforme aquele propósito.
 
AB 
 

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