Desporto

quinta-feira, 25 de julho de 2013

CARDOZO E OS ADEPTOS

Da cultura benfiquista faz parte um certo padrão de jogador; um misto de técnica, entrega, emoção e racionalidade. O adepto comum, interiorizou este padrão, ainda que não o compreenda em toda a extensão, graças aos exemplos que, ao longo dos anos, têm proliferado no clube.
 
De facto, sendo o golo a essência do futebol, para a generalidade dos Benfiquistas não é suficiente!, tem que haver algo mais...a tal nota artística de que se fala! Num ambiente de grande riqueza cromática e emocional, o adepto previlegia a estética e plasticidade de movimentos dos atletas, em especial dos da sua equipa...,faz parte da sua idiossincrasia cultural e constitui um tributo que exige aos atletas que ousam envergar o a rubra camisa.
 
 
É, afinal, uma herança de jogadores como Eusébio, Coluna, Germano, Humberto, Santana, José Augusto, Simões, Jaime Graça, Néné, José Águas, Rui Águas, Chalana, Ricardo Gomes, Mozer, Álvaro Magalhães, Vitor Paneira, Isaías, Rui Costa, João Pinto, Alves, Aimar, Saviola, Garay, Gaitan, Ola John, Sálvio...etc. Para o adepto avançado, importa, quase tanto como o golo, a qualidade da recepção, do transporte, do passe, do remate, da sincronização da equipa, da emoção controlada, da vontade indómita; elegância, determinação e eficácia. O golo logo aparecerá como consequência inevitável de tudo isto.

Ora Cardozo tem características morfológicas que não lhe permitem satisfazer alguns destes preceitos, nomeadamente, quanto à rapidez de execução; seja a receber, passar, driblar ou rematar. Tal resulta nalguma ineficiência e, pior, muitas vezes acompanhada de flagrante inesteticidade. E isso, o adepto do Benfica não perdoa; ganhando ou perdendo, tudo o que acontece em campo deve adequar-se ao elevado estatuto do clube, nomeadamente, no capítulo técnico dos seus atletas. Mas há exceções; que me lembre: José Torres, Maniche, Vata..., apesar de meio desengonçados cairam no goto dos adeptos, pois, frequentemente, eram eficazes. Posto isto, devo dizer que, Cardozo, protagonizou dos mais belos lances que vi no futebol, seja pela eficácia, seja pela estética e plasticidade. Perfeito foi Pélé e...só há um! Sou adepto do Cardozo.

Porém, outros fenómenos relacionados com a dinâmica dos grupos humanos - e não só -, parece estarem presentes nestes processos. A ostracização de um elemento do grupo é uma compulsão dos seus integrantes que proporciona a sua aproximação pela exclusão da vítima selecionada. Julgo que este mecanismo também está presente no caso Cardozo, como em muitos outros antes dele...e não fica nada bem à cultura benfiquista.

Não posso deixar de referir a semelhança da estratégia seguida desde há décadas pelos dirigentes do Porto, neste caso, fomentando a cultura do inimigo externo. A coesão do grupo; atletas, dirigentes e adeptos, é conseguida através da identificação e caracterização malévola da principal ameaça, o Benfica, graças ao  revisionismo histórico acompanhado de histerismo e chantagem política, repetido ao longo das décadas e replicado por alguma comunicação social manipulada.

Quanto ao imbróglio atual, apesar de grave, o ato do Cardozo tem atenuantes; Cardozo, queria ganhar o jogo e perdeu-o...depois de, nos últimos instantes, ter perdido as duas mais importantes provas da época. Tinha os nervos em franja...e tinha convicções...; quem pode atirar-lhe a primeira pedra?
 
Cardozo já deu muito ao Benfica, tem muitos adeptos do seu lado, como é o meu caso, continua a fazer falta à equipa e, quando sair, merece fazê-lo pela porta grande...e o Benfica também merece que assim seja. Desiludam-se os que pensam que o clube sairá incólume deste caso castigando-o desta forma.
 
Portanto, cartas na mesa, olhos nos olhos, e o interesse do clube sempre à frente. Aplique-se uma multa ao Cardozo, o qual deve pedir desculpa ao Treinador e aos colegas, no balneário. Todos sairão bem, a equipa sairá animicamente reforçada e a magnanimidade ficará bem ao Treinador, aos Dirigentes e ao clube.
 
"Por um burro dar um coice, não se lhe corta a pata". 

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