quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A República, de Platão



Aos 380 anos AC, conta Platão:
 
SÓCRATES — Fui ontem ao Pireu com Glauco, filho de Aríston, para orar à deusa, e também para me certificar de como seria a festividade, que eles promoviam pela primeira vez. A procissão dos atenienses foi bastante agradável, embora não me parecesse superior à realizada pelos trácios. Após termos orado e admirado a cerimônia, estávamos regressando à cidade quando, no caminho, fomos vistos a distância por Polemarco, filho de Céfalo. Ele mandou seu jovem escravo correr até nós, para nos pedir que o esperássemos. O servo puxou-me pela capa, por trás, dizendo:— Polemarco pede que o esperem.
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Foi assim que Sócrates e seus amigos-discípulos, Trasímaco, Adimanto, Glauco e outros, ainda entusiasmados pelas festas da cidade, dedicaram boa parte do dia ao desporto que mais lhes agradava praticar refletindo em grupo e disciplinadamente acerca dos mais variados temas, alguns dois quais bem atuais.
 
Desta feita, a certa altura, discutindo-se a Justiça, face à convicção geral da superioridade da injustiça constatada pelos discípulos, resolveram estes desafiar o mentor a demonstrar o contrário. Sem grande relutância, aceitou Sócrates o pesado fardo e, após algumas considerações preliminares, obtido o acordo dos interlocutores, adotou como método o de constituir uma cidade a fim de, passo a passo, materializar o seu conceito de Justiça determinando a sua concreta superioridade sobre a injustiça, fazendo de seguida a extrapolação para o indivíduo concluindo, finalmente, das vantagens do Homem justo sobre o injusto.
 
Assim nasceu esta fascinante obra - Arte, segundo Tolstoi -, que nos permite acompanhar o processo de arquitetura constitucional de uma cidade pretensamente justa, descobrindo, surpreendentemente, como, há quase dois mil e quatrocentos anos se trataram esclarecidamente, temas ainda hoje melindrosos - como o da igualdade de género -, da educação, da defesa, da família e do governo.
 
E não é que a primeira preocupação de Sócrates é com a educação dos jovens, retirando-os aos 10 anos da influência perniciosa dos pais e enviando-os para campo  onde durante os 10 anos seguintes se dedicariam à ginástica - um corpo harmonioso é sinónimo de alma virtuosa - , à música - excluindo algumas harmonias certamente da família do nosso fado -, à geometria, cálculo e astronomia - não é que o bacano considerava o cálculo necessário ao conhecimento de todas as ciências e artes?, não é que considerava ainda que o ensino não devia ser imposto sob pena de total ineficácia?, e não é que centrava o processo educativo na descoberta da vocação de cada um?  Pois é, era!, mas não só - como diz o Mantorras - o caso é que o bom do Sócrates considerava que só a Filosofia proporciona a sabedoria necessária a uma governação competente e por isso atribuia aos que se tivessem revelado mais aptos, 10 anos adicionais a filosofar! Porém, completado este ciclo e para temperar eventuais tendências aleatórias ou elitistas, os nossos filósofos tinham que exercer a função de guerreiros ativos durante 15 anos, pelo que, os sobreviventes, estariam finalmente aptos para a governação e as honrarias populares aos 50 anos.
 
Mais considerava Sócrates, que era imperativo prevenir a ambição de riqueza dos guerreiros a fim de garantir a sua dedicação plena à causa da defesa da República contra ameaças externas. Para tal, seriam destituídos de património, assumindo os cidadãos os plenos encargos da sua manutenção e das respetivas famílias. Note-se que, no lote dos guerreiros, Sócrates, incluía as mulheres em pé de igualdade com os homens, limitando-se, gentilmente, a poupá-las aos trabalhos mais pesados devido à sua menor robustez muscular, pois considerava que a condição da maternidade, sob nenhum pretexto, deveria ser motivo de descriminação. Por esta razão, as mulheres, deveriam receber educação semelhante, nomeadamente na ginástica, onde a nudez não constituiria motivo de embaraço dado que a virtude substituiria as vestes!, pelos vistos, naquela época, na Grécia, os ginastas exercitavam-se nus para se livrarem do condicionamento do vestuário (ainda não tinham sido criadas a Adidas nem a Nike!). Aqui chegados temos de considerar que, há dois mil trezentos e oitenta anos, neste particular, se registava um enorme avanço civilizacional..
 
Curioso mesmo era a conceção do processo de acasalamento, casamento, da comunidade dos filhos e das mulheres. Se bem percebi, na idade ativa, todos tinham direito de acasalar e casar, mediante um processo de escolha espontânea...condicionada por um processo de sorteio aparentemente universal pelo qual, manhosamente, os menos aptos iam ficando para trás, sem perceberem a tramoia, garantindo-se assim, à República renovação geracional de qualidade superior!, esta é forte e serviu de inspiração ao racismo moderno! Para suprimir os egoísmos com origem nos laços familiares tradicionais e, por outro lado, difundir o afeto e a solidariedade próprias das mesmas famílias, estabeleceu que os casamentos seriam coletivos e que os filhos emergentes em certo período, seriam comuns a todas as mulheres e todos os homens que tivessem casado no período relacionado, previamente definido. Assim, constituir-se-ia uma comunidade onde todos respeitariam todos, por força dos laços afetivos comuns. (Interessante!). Antes da idade ativa - 20 anos - seria criminalizado o relacionamento sexual. Depois desta - 50 anos - seria permitido o acasalamento, mas fora do grupo familiar de origem! (interessante!).
 
Já que estamos com a mão na massa, refira-se que, o nosso Sócrates, dividia a população em castas, designando-as, ouro, prata, bronze e feno, considerando que, estas não deveriam misturar-se visto que daí resultaria decadência genética!, (está visto que Hitler devia ter ascendentes gregos desta época!). Mas atenção; o nosso filósofo, que permanentemente buscava a sabedoria, considerava necessário dispensar cuidados médicos apenas aos cidadãos mais promissores!, todos os que apresentassem moléstias incapacitantes, deveriam ser abandonados nos campos para evitar a degradação social da República!, (hoje cortam-se-lhes as pensões embora haja para ai campos abandonados com fartura!).
 
Relativamente ao modo de governo considerava quatro modelos, a saber; Monarquia, Timocracia, Oligarquia, Democracia e Tirania, sendo o primeiro o mais virtuoso e o último o mais iníquo. Muito interessante, aliás, interessantíssimo, é acompanhar o seu raciocínio na explanação dos mecanismos de degradação social que conduzem, digamos assim, ao decaimento da Monarquia até à Tirania. E é interessantíssimo porque parece um relato fiel do que se passa hoje em dia, por exemplo, em Portugal e na Europa. Se Sócrates estiver certo, as democracias ocidentais encontram-se num processo de degradação que, fatalmente, acabarão em regimes tirânicos, ou seja, em linguagem "náutica", estamos a enrolar o cabo.
 
Engraçado é verificar o fraco conceito que tinha de Homero - seu amigo de infância -, apesar das sua profusa obra poética. Isto porque considerava os poetas, pintores e outros artistas como imitadores, já que detinham um conhecimento de terceiro grau, demasiado afastado, portando do conhecimento autêntico e, como tal, aleatório e perigoso. Apesar disto, o nosso Sócrates, estava disposto a aceitar os poetas e a sua poesia desde que não desvirtuassem os princípios virtuosos estabelecidos constitucionalmente. (ora cá está; a censura pode ser boa!). A demonstrar que Homero não era grande coisa, invocava Sócrates a inexistência de discípulos próprios e a relativa indiferença das cidades, razão da sua itinerância declamatória como recurso de obtenção do fraco sustento (desconhecia Sócrates a tradicional  incompreensão dos génios na sua época!).
 
Muito mais curioso é constatar a sua convicção relativamente à imortalidade da alma e a forma como a fundamenta. Tal como, aliás, o seu conhecimento do Hades, transmitido por Der, quando por lá parece ter andado durante a semana em que permaneceu em morte aparente em pleno campo de batalha, da qual ressuscitou, já em plena pira, com grande lucidez de memória. Foi assim, que, ficou a conhecer o processo da reencarnação, onde cada alma, homem ou animal, escolheria o que queria ser na vida futura, por ordem de chegada e de acordo com a origem; do céu ou do inferno - ou equivalente.
 
Uma obra fascinante, sem dúvida, digna de revisitação - como foi o caso -, com partes chatíssimas, onde podemos constatar a relatividade de certas verdades, a importância da justiça, bem como alguns fundamentos e vicissitudes das sociedades modernas. Particularmente interessante, a metodologia de análise por dedução e analogias sucessivas previamente acordadas pelo o interlocutor, cuja validação das conclusões condicionava a progressão do processo. 

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