sábado, 19 de abril de 2014

Platini; regeneração ou acomodação?

A ascensão de Platini à presidência da UEFA foi uma brisa de esperança no conturbado futebol português, caracterizado por trinta anos de colonização das suas estruturas pelos dirigentes do Futebol clube do Porto. O seu passado de grande jogador fez crer a muita gente na sua intransigência relativamente às manobras de bastidores que tantas vezes atraiçoam o fair-play desportivo. Tal espectativa foi reforçada quando declarou publicamente a necessidade de afastar os batoteiros do futebol, em resposta a perguntas de um jornalista acerca do processo, que corria no Tribunal Arbitral do Desporto - salvo o erro - contra aquele clube. Puro engano; semanas depois já enrolava o discurso percebendo-se que, também ele, tinha sido assimilado pelo sistema. Uma deceção, mas...só para os ingénuos; os outros sabem perfeitamente que a regeneração do futebol é uma guerra dura e prolongada. Platini revela-se, acima de tudo, um homem ambicioso que anseia o mais alto cargo na FIFA. Ora tal só é possível desde que não constitua ameaça aos poderes instalados. Nada no seu discurso indicia vontade de estabelecer roturas no satus quo, à excepção da oposição aos fundos de investimento e à concordância com o recurso a árbitros estrangeiros em jogos particularmente polémicos. Assim, parece alinhar com a postura das superestruturas do futebol europeu e mundial no controlo dos danos, fomentando inócuos programas preventivos e produzindo discursos onde a relativização das anormalidades e negação de causa para suspeições é o traço permanente.
 
Tudo isto emerge da extensa entrevista dada por Michel Platini ao jornal Record em 18 de Abril. À exceção da surpreendente abertura à participação de árbitros estrangeiros no campeonato nacional, e do caso dos fundos de investimento, tudo o resto não passou de um tremendo bocejo. Total tolerância aos erros dos árbitros, reconhecimento incondicional dos vencedores das provas, oposição aos meios tecnológicos como auxiliares da arbitragem, defesa do recurso aos árbitros adicionais, confiança nos Diretores da Integridade que, nas federações supervisionam as respetivas  provas desportivas, convicção de maior riqueza generalizada dos clubes. Enfim, elogios para todos, como convém a quem pretende subir na estrura. Uma tristeza. Além de tudo isso, confirmou o que já sabíamos; o empenho e influência que Fernando Gomes e Tiago Craveiro - Secretário da FPF - têm tido nos areópagos da UEFA, que, certamente, com Madail, João Rodrigues, Guilherme Aguiar e Cª -, trabalham com denodo para o prestígio e desenvolvimento do futebol europeu, apesar de certas "coincidências" que se têm verificado nalguns jogos europeus e nas provas nacionais, indiciarem ao bom observador, propósitos bem diferentes. É óbvio que, tanta desfaçatez dos prevaricadores , exaustivamente patenteado no caso do Apito Dourado, e durante tanto tempo, denuncia a segurança destes na "compreensão" da superestrutura europeia. Ao fim de décadas, todos conhecem as mútuas "virtudes" tornando-se militantemente compreensivos uns com os outros. E é assim que o futebol europeu tem sobrevivido e sobreviverá até o público se fartar de tanta hipocrisia. Platini, Blater e Cª exercem transitoriamente os respetivos mandatos e podem pensar e dizer o que quiserem, mas convém que saibam que não são donos nem condicionam o pensamento dos adeptos livres.

Diretor de Integridade!, parece que há um em cada federação com a finalidade de detetar e informar a UEFA de sinais de irregularidades das respetivas competições, a qual, juntamente com as autoridades locais desencadeará ações preventivas ou corretivas!, se há um em Portugal não se nota!, de facto, não indo mais longe, que foi feito relativamente ao jogo da época anterior entre o Paços de Ferreira e o Futebol Clube do Porto, que decidiu o campeão, em que os indícios de combinação de resultado antes, durante e após o jogo são avassaladores?, que se saiba, NADA!, bem sabemos que, para a UEFA, mais importante que combater a corrupção é fazer os adeptos acreditarem que ela não existe. E isto é estupidez que todos pagaremos caro um dia, incluindo ela. A ascensão dos batoteiros, a todos desacredita e acabará destruindo a "industria" do futebol e, mais grave, a paixão dos adeptos.

Defende e bateu-se pela liberdade dos jogadores profissionais relativamente aos clubes, causa que concita adesão geral; porém, foi-se longe de mais!, a maioria dos clubes, ficou refém dos jogadores, obrigados a pagar salários que sobem em espiral, impulsionados, precisamente, pelo modelo competitivo e de financiamento que a UEFA e a FIFA implementaram. Um modelo de elites e para elites, retirando progressivamente ao futebol o seu principal pilar de sustentação; a adesão e paixão popular. Portugal é um bom exemplo dos efeitos da corrupção; estádios desoladoramente vazios!, só os adeptos do Benfica os conseguem encher!, e é por essa razão que este ano o Benfica ganhará o campeonato; a hecatombe da época anterior onde pela enésima vez foi impedido de ganhar pelos "excelentes" árbitros nacionais,  anunciava a debandada geral, o que constituiria o estertor final  do futebol e da generalidade dos clubes. E é essa mesma razão que está na origem da ascensão competitiva do Sporting Clube de Portugal. Sem adeptos não há retorno financeiro para ninguém, não será Sr Platini?

A teimosa oposição à introdução dos meios tecnológicos já em vigor no Reino Unido invocando uma espiral de mecanização perniciosa, mais não é que o medo de perda de controle do "negócio" por parte da UEFA e da FIFA. De facto, podem controlar-se as equipas de arbitragem induzindo resultados de acordo com o poder dos patrocinadores, mas não poderão manipular-se os dispositivos tecnológicos. Os adeptos apenas querem a verdade do jogo; saber se a bola, efetivamente, passou a linha de golo, se o avançado estava ou não em fora de jogo, se o defesa pôs ou não a mão na bola, etc. Se tal for possível sem margem para dúvidas, porque não?, de que tem medo Platini?, que receia a UEFA?

Condena e afasta a atitude de permanente suspeição dos adeptos face aos intervenientes do processo futebolístico, mas duvida da integridade de fundos de investimento regulamentados e aprovados pelas autoridades nacionais, dando mais um sinal de que o organismo que dirige se considera acima dos Estados soberanos!, onde anda com a cabeça Sr Platini? Se conhece algo de errado com tais fundos, denuncie-o às autoridades competentes e publicamente!, ou está apostado em reforçar o poder dos clubes poderosos retirando aos outros um dos raros mecanismos de financiamento a que podem aceder?, porque não propõe a alteração do modelo de financiamento dos clubes e das federações de forma a atenuar a crescente diferença de orçamentos?, respondo por si; porque, contrariamente ao que diz, apesar das aparências, todos os clubes de futebol - salvo exceções - estão sobreendividados e portanto mais pobres e não mais ricos, como refere. Como tal, é imperioso dar mais dinheiro aos poderosos, sem os quais a "indústria" vem abaixo. Não será Sr Platini?

Salva-se o bom acolhimento da ideia - que não é nova nem do Presidente do SCP - de nomeação de árbitros estrangeiros para alguns jogos nacionais. Só com mais concorrência livre da alçada da "pata" azul - ou outra semelhante -, os árbitros portugueses entrarão na ordem. Saber apitar eles sabem, querem é subir na profissão e para que isso aconteça, por enquanto, parece que têm que agradar ao "papa".

Platini terá de fazer muito mais e muito melhor para conquistar o respeito dos adeptos.

Sr Platini, encantou-nos com o seu futebol, não nos dececione agora!

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