sábado, 24 de maio de 2014

O medo e o jogo de bastidores

O medo é comum aos covardes e aos valentes; leva os primeiros recuar perante a possibilidade do fracasso, preferindo manter a dúvida da sua real valia e da do vencedor, e os segundos a avançar, superando-se, determinados a vencer ou honrar o vencedor.
 
Um dos populares jornais diários de hoje refere o empenho de Pinto da Costa em afastar Jorge Jesus do Benfica, tendo recorrido aos bons serviços do Jorge Mendes, o empresário que, cada vez mais, parece controlar o futebol português e espanhol. Pelos vistos não conseguiu os seus intentos, já que, segundo o mesmo diário e outros seus congéneres, depois do Benfica, poucos clubes são suscetíveis de interessar a Jorge Jesus, apesar das promessas de faraónicos salários. De facto, "nem só de pão vive o homem" diz o velho adágio que o popular treinador parece valorizar. Muitos, preferem o prestígio ao dinheiro, sendo aquele tanto maior quanto maiores as dificuldades inerentes. É a superação leal destas que confere prestígio, e nada mais.  E há ainda muitas adversidades a superar no clube. O ciclo de Jorge Jesus no Benfica só ficará concluído com uma grande vitória na Europa, e essa vitória é a Liga dos Campeões. O Benfica cresceu com Jorge Jesus e este cresceu com o Benfica; mas há ainda um percurso a fazer para o clube ascender a este patamar. O processo está em marcha e tem de continuar. Jorge Jesus tem demonstrado capacidade para evoluir e por isso merece continuar a desenvolver o seu projeto. Um projeto que desafia as estruturas do clube a caminhar na fascinante senda do espetáculo e da eficácia.
 
Enfraquecer o adversário é um dos recorrentes expedientes das Direções de Pinto da Costa para o sucesso do seu clube. Os exemplos são muitos, alguns deles causadores de graves "amargos de boca" ao Benfica, nem todos eticamente defensáveis. O "ataque" a Jorge Jesus aconteceu logo após a sua primeira temporada no Benfica - constou ter-lhe sido disputado, quando ainda no Braga. De facto, é fácil entender o pânico das hostes azuis perante o futebol avassalador da equipa do Benfica nessa temporada em que nenhuma das muitas estrambólicas armadilhas foi capaz de travar a equipa. O "ataque", porém, parece ter surtido efeito já que transpareceu uma quebra de confiança no grupo de trabalho e nos adeptos, com reflexos nos resultados na época seguinte. Ninguém sabia ao certo de que lado estava o Treinador, censurando os adeptos a imposição por parte deste, de inusitado aumento salarial. Astuto, Pinto da Costa alimentou sempre esta dúvida com o propósito de abalar a confiança do oponente, sem a qual o projeto não vingaria, colocando Filipe Vieira entre a espada e a parede; de um lado os adeptos a pedirem a cabeça do treinador, do outro a necessidade de estabilidade do clube. Aguentou o Presidente, arriscou e ganhou, trilhando, quase solitariamente, um caminho atribulado que o poderia ter conduzido ao abismo.  O mundo é dos ousados. Com esta decisão, quer Jorge Jesus quer Filipe Vieira dobraram a "taprobana" olhando agora de frente os novos oceanos que ainda há bem pouco pareciam inatingíveis.
 
Quanto a Pinto da Costa, apesar da sua longa experiência e da acumulação de vitórias, parece não ter percebido o essencial da vida; o respeito dos outros! Não merece ser respeitado quem fragiliza os adversários para os superar -estratégia que tem sido preponderante no seu longo e fastidioso consulado - mas superando-o, lealmente, quando está na máxima força. As vitórias forjadas suscitam hipocrisia e medo e não respeito e por isso provocam insaciedade.

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