sábado, 18 de outubro de 2014

O Massacre dos Majores


      "Pela mesma altura, ocorre porém um revés em todo este processo de pacificação; o massacre dos majores, como ficou conhecido para a História. Havia algum tempo já que, no mais absoluto sigilo, decorriam contactos superiormente autorizados de alguns militares portugueses com elementos do PAIGC, no sentido de se encontrar a paz pela via não armada. No dia 20 de Abril de 1970 tem lugar o encontro final entre os principais elementos do Estado Maior do CAOP (de Teixeira Pinto) e os chefes guerrilheiros da região da Cubiana-Churo. Avançam confiadamente os portugueses para a reunião combinada a norte da região Có-Pelundo. O pequeno grupo era constituído pelo major CEM, Passos Ramos, chefe do Estado Maior do CAOP; pelo major de Atilharia Pereira da Silva, oficial de ligações e acção psicológica; pelo major de infantaria Magalhães Osório; pelo Alferes miliciano Palmeiro Mosca, adjunto para o desenvolvimento socio-económico; e por um intérprete. Como habitualmente, todos iam desarmados. Chega ainda a estar prevista a participação do general Spínola, mas, vivamente desaconselhado pelo seu Estado Maior, resolve à última hora não comparecer, para frustração do inimigo que contava prendê-lo nessa ocasião.
      Segundo relatam mais tarde os guerrilheiros que participaram na emboscada, os portugueses faziam-se transportar em dois jeeps que chegam ao local combinado 10 minutos depois do meio-dia. O primeiro a ser abatido é Passos Ramos, quando sai do carro. Os outros foram selvaticamente mortos, sendo retalhados a golpes de catana. Os corpos foram recuperados no dia seguinte, completamente mutilados.
      Em Setembro, cinco meses depois, Amílcar Cabral irá referir-se ao assassinato dos três majores num discurso triunfalista proferido em Conakry, por ocasião de mais um aniversário do PAIGC, e glorificará aquele "acto heróico": depois de vários contactos, cartas ridículas, ofertas, presentes e promessas de toda a espécie, os colonialistas sofreram mais uma derrota vergonhosa: os nossos heróis combatentes liquidaram os majores e outros oficiais e soldados que pensavam que podiam comprar-nos."
     
Em Honra e Dever pág. 207 e 208, por Rui Hortelão, Luis Sanches de Baeña  e Abel Melo e Sousa, editora Caminhos Romanos.

Do Blogue "Luis Graça & Combatentes da Guiné:

Todo o pessoal tomou posições para resistir a uma possível emboscada. Os motores foram parados. Noite escura. Silêncio. Não restam dúvidas, são mesmo os Jeeps. Nada se move. Tudo é silêncio e escuridão. São quatro horas e dez minutos. É necessário esperar que comece a clarear. O silêncio pode ser uma armadilha.
Os Exmos Comandantes do CAOP e Batalhão são informados do achado e que se vai esperar pelo raiar da manhã. A tensão aumenta. Cinco horas. Começa a clarear.

O comandante da coluna deixa o pessoal todo instalado, entrega o comando ao alferes Miranda e aproxima-se das viaturas com a máxima cautela. A escuridão ainda é grande, os pés são apoiados com a máxima cautela e em lugares onde se procurou minas.
De repente bate-se numa coisa mole. É um corpo estendido. Parece ser o do Exmo Major Passos Ramos (era o do alferes Mosca). Ao lado outro, era o do Exmo Major Pereira da Silva. Não restam dúvidas, dois estão mortos. Dos outros nada se sabe. Informa-se Pelundo via rádio.

A tensão nos homens diminui, aumenta o assombro. Os homens encaram os factos com serenidade. Mais claridade. O Comandante da coluna procurou em volta e descobriu mais quatro vultos. Estão mortos.

É informado Pelundo. Os homens estão assombrados mas calmos. Mantêm-se nos seus lugares. São informados do achado. Começa a ver-se bem e surge a cena macabra e horrível. Os corpos estão mutilados e todos apresentam tiros na nuca, cortes de catana e punhal.

Os homens são informados e mantêm-se serenos e na expectativa. Pensam que o tiroteio vai começar. Ninguém acredita que não seja uma cilada. Monta-se a segurança circular e começam as viaturas a ser retiradas. Uma tem os dois pneus do lado esquerdo furados de balas. Procuram-se armadilhas e nada é encontrado.

A primeira viatura MG-93-55, com os pneus furados, é trazida para a estrada. Novo achado e desta vez mais macabro. O nativo Lamine (o que dele resta) está no lugar antes ocupado pela viatura. Tiro na nuca, muito mutilado.

Retira-se a segunda viatura para a estrada. Os corpos são carregados num Unimog.
A coluna está pronta a regressar. Em todos os rostos, uma decisão firme, lábios mordidos.

A visão anterior era demasiado horrível. São cerca de sete horas. Dois helicópteros sobrevoam a zona. Monta-se segurança, um deles aterra. Dele sai Sua Excelência o General Comandante-chefe, o Excelentíssimo Comandante do CAOP, Ten Cor Romão Loureiro, o Excelentíssimo Major P. Costa e o capitão Almeida Bruno. Examinam o local e partem.

Às 7h10 a coluna põe-se em movimento agora com dois Jeeps a reboque. O dispositivo é o mesmo da aproximação. A coluna chega ao quartel cerca das 9h00.

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