sábado, 1 de novembro de 2014

Mário Figueiredo; derrotado ou vitorioso?

      Saído das "catacumbas" do gabinete de Gil Moreira, dedicado quase exclusivamente à prestação de serviços jurídicos ao FCP, a surpreendente eleição de Mário Figueiredo (MF), apoiado maioritariamente por clubes da 2ª Liga, para a presidência da Liga de Clubes, parecia constituir mais uma "jogada" da "exemplar estrutura" para a retoma do controle desta superestrutura, que tanto se empenhara no afastamento de Hermínio Loureiro - já sob a sua asa protectora - e de Ricardo Costa, que, corajosamente e a despeito de todas as dificuldades, não fora a vergonhosa intervenção da FPF e da UEFA, teria extirpado o "tumor" que há cerca de 40 anos corrói o futebol nacional.
 
      Mas MF tinha um projecto que, basicamente, consistia em aumentar a receita de alienação dos Direitos Desportivos dos clubes e contemplar os seus apoiantes com maior fatia do bolo. Para isso propunha centralizar a negociação na Liga e acabar com a exclusividade da Olivedesportos no acesso à concessão. Não foi de modas e apresentou queixa à AdC contra a Olivedesportos por abuso de posição dominante, esperando a inevitabilidade de uma decisão favorável em tempo útil.
 
      Foi a componente da competitividade do seu projecto que tramou MF afastando a sua base de apoio institucional. Ciente de que a optimização das receitas está directamente relacionada com a incerteza dos resultados e que esta é função do equilíbrio das equipas em confronto, bem como da necessidade de reduzir custos, encomendou um estudo a um especialista holandês que propôs a alteração do quadro competitivo para um modelo em que, as então dezasseis equipas seriam divididas em dois grupos de oito jogando em cada grupo todos contra todos constituindo-se de seguida dois outros grupos, um deles pelos quatro melhores classificados de cada grupo anterior e outro pelos quatro piores classificados dos mesmos grupos. Com o modelo que MF apresentou à discussão, em cada época haveria clubes que não jogariam com os "grandes".  E foi aqui que MF "morreu"!, nenhum dos pequenos clubes quer saber do futebol nacional como um todo, todos querem apenas mais receitas, seja como for e, sobretudo, querem a jogar com os "grandes" para se sentirem maiores do que são efectivamente.
 
      Com MF sem base de apoio, a Olivedesportos ganhou novo fôlego e, pacientemente, recorrendo aos aliados de sempre, foi tecendo a sua teia, renegociando a dívida com bancos em graves dificuldades e agregando no mesmo projecto os principais operadores do cabo, com a curiosidade de integrarem gente ligada ao FCP, prevenindo-se contra eventual decisão desfavorável da AdC, obrigando o futuro concessionário dos direitos a cair-lhes nas garras. Felizmente que aquela entidade, num assomo de decoro,  impediu a exclusividade de emissão dos jogos concessionados à STV, como pretendia a Olivedesportos, conseguindo com este estratagema reconstruir o monopólio eventualmente  perdido. Tudo isto nas "barbas" de todos e nem uma vozinha contra se ouviu!
 
      Enquanto isso, perante a impossibilidade de "dobrar" MF, uma estrutura que serviu tantos anos de suporte às vitórias do FCP, deixou de ser adequada quando estas ameaçavam escassear, e começou pacientemente a ser esvaziada, desde logo com a passagem dos Conselhos de Arbitragem e de Justiça para a FPF ainda controladas pela "exemplar estrutura". Desta forma eventuais decisões desfavoráveis no Conselho de Disciplina (CD) da Liga, recentes ou remotas, desfavoráveis ao FCP, seus dirigentes ou atletas, poderiam ser revogadas, como veio a suceder em várias ocasiões, entre as quais a anulação da condenação de Pinto da Costa, essa pérola da indigência jurídica. Por outro lado ficaram os árbitros sob apertado controlo, em favor dos mesmos de sempre, como se tem continuado a verificar, embora de forma menos aguda.
 
      A "martelada" final foi dada por Emídio Guerreiro e o Conselho Nacional do Desporto (CND) com a publicação da nova lei das Federações Desportivas, concedendo à FPF o poder de alocar a organização do futebol profissional em caso de força maior! Foi o fim do projecto de MF que bravamente resistia a todas as ameaças, sem dinheiro, aguentando os clubes e árbitros como podia perante a abundância sumptuária da FPF que "afogada" em recursos exigia à falida Liga o pagamento de avultadas vferbas, em vez de mostrar a sua solidariedade.
 
      Finalmente, com MF definitivamente afastado, desavergonhadamente, a AdC fez-se ouvir, dando razão, pelo menos parcialmente, à queixa daquele, desacreditando uma instituição constituída para, na sua esfera de acção, zelar pelo cumprimento das leis.
 
      É esta a força de Pinto da Costa e do "Sistema"!
 
      Mário Figueiredo cometeu um erro de avaliação ao pensar que tinha os pequenos consigo incondicionalmente e ao afrontar o "sistema" de frente. O país não está preparado para tal e o sentido crítico das populações continua a ser controlado pela Comunicação Social, amplamente "colonizada" por adeptos azuis ou simplesmente destituída de coragem para contrariar certos "poderes de facto". Todos sabem que MF tem razão mas muito poucos estiveram do seu lado, preferindo os outros a submissão "dourada" à independência!
 
      O grande mérito de MF consistiu em desmascarar todos; dirigentes desportivos, governantes, jornalistas, comentadores e adeptos, que "todos os dias" enchem a boca a favor da necessidade de credibilização do futebol nacional mas quando chega a hora "metem o rabinho entre as pernas e calam-se bem caladinhos que nem ratos".
 
      Tenho lido e ouvido algumas crónicas desabonatórias de MF; porque tinha um alto salário, porque tinha despesas de representação, porque a Liga devia dinheiro aos árbitros e aos clubes - Até o Calado!. Nenhum deles, nenhum, se debruçou sobre o seu projecto e as causas da falência financeira da Liga; nenhum foi capaz de denunciar a política de "engorda do porco do endividamento" até ao aparecimento do grande salvador dos clubes e do futebol nacional que, para gáudio de Pinto da Costa e do seu falido clube há-de ser mais uma vez a Olivedesportos. Para facturar 50 a 100 ME todas as épocas é necessário passear no campeonato nacional  e ter um bom calendário na europa.
 
      Os efeitos do "acordo" clubístico já se fizeram sentir em Braga, com violência excessiva e a permissividade da equipa de arbitragem. Já todos "sabem" quem manda!
 
     Daqui endereço os parabéns a MF pela coragem que teve, não pela tática, e aos que o apoiaram até ao fim, em especial ao SCP e ao seu Presidente, fazendo votos para que aquele encontre maneira de dar o seu contributo na luta pela independência dos clubes de futebol, sem a qual os campeonatos constituirão uma farsa deprimente.
 
      Quanto ao Benfica, como já referi em comentário anterior, julgo que deveria ter-se demarcado de qualquer solução de falso consenso como é a que foi alcançada, em que os intervenientes, à excepção de um, estavam sob "chantagem" implícita; ou chegavam a acordo ou os campeonatos profissionais passavam para a FPF onde "manda" o FCP! Uma vergonha!, dito de outra forma; pode qualquer clube ficar de fora de qualquer consenso, excepto o FCP!, os clubes são todos iguais, excepto o FCP! Porquê?
 
      Relativamente à escolha de Luis Duque para a presidência da Liga, julgo que foi uma decisão infeliz; por ser uma atitude hostil ao SCP com quem tem contencioso, por ser uma figura demasiado controversa no desporto - condenado por fraude fiscal, salvo o erro -, por ser compulsivamente hostil ao Benfica, como no caso Mourinho, e no caso do incêndio do Estádio da Luz do qual nunca se demarcou publicamente.
 
      Esta atitude constitui a primeira vitória de Pinto da Costa, ainda por cima dupla, pois mais uma vez afasta os dois rivais de Lisboa e divide os Benfiquistas, como tão bem sabe fazer.
 
     PS: no decurso do processo, António Fiúza, a respeito da auto-exclusão do SCP do "acordo" alcançado, terá dito mais uma vez, o que de vez em quando é dito a propósito do Benfica; que o Sporting é um clube como outro qualquer!, Não é não Sr Fiúza! Todos os clubes sofrerão consequências financeiras graves se o Sporting faltar no campeonato o que não é o caso de muitos outros cuja falta nunca se fará sentir.  
 
Estarei enganado? A ver vamos! 

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