domingo, 11 de outubro de 2015

O naufrágio do "Olívia Ribau"

   Antes de mais gostaria de endereçar as minhas condolências ao familiares dos pescadores do "Olívia Ribau" mortos ou desaparecidos no trágico naufrágio que ocorreu em plena luz do dia, em 06 de Outubro de 2015, na barra assassina da Figueira da Foz. 

   Cerca de seis décadas após o fatídico naufrágio da traineira "Nova Leirosa" que marcou gerações de figueirenses para o resto da vida, a tragédia repete-se, pela enésima vez, ceifando mais cinco homens bons que no mar buscavam o sustento das suas famílias! Entretanto, corrigiram-se e revestiram-se as margens do Mondego, fizeram-se e prolongaram-se os molhes, fizeram-se correcções hidráulicas e dragagens várias na barra, destruíram-se-se as Praia da Figueira da Foz e do Cabedelo...e os pescadores continuam a morrer!

   As fotos deste naufrágio que vieram a público, permitem-nos tecer algumas considerações e formular algumas perguntas, que, despretensiosamente, me proponho aqui fazer, valendo-me apenas de bom senso e da experiência, com a convicção de que, este, é mais um dos casos em que não haverá verdades únicas e definitivas, nem os erros de uns alienam a displicência ou incompetência de outros.

   Os factos: 

   O "Olívia Ribau" faz a aproximação da barra pelo enfiamento do molhe norte, guina a sul, atravessado ao mar e cerca de cem metros depois, mais ou menos a meio da boca da barra, guina na direcção da nascente para fazer o último troço da entrada. Uma vaga da altura do pórtico da ré - cerca de seis metros -, que atravessa, uniforme, toda a boca da barra, parte na popa do navio e varre o convés de ré. O navio, perpendicular à vaga e aparentando reduzida propulsão, parece cavalgá-la, e quando esta, já desfeita, passa na meia-nau, já se nota uma ligeira adornagem a bombordo. Ao passar a proa, a adornagem é mais acentuada, prosseguindo até se verificar a viragem do navio, nas condições que as fotos documentam: parte do costado e do casco de BB fora de água.

   As perguntas:

   Porque é que a aproximação da barra se fez daquela maneira; aumentando o percurso de entrada e impondo, perigosamente, o atravessamento das embarcações ao mar?
   Segundo testemunhos de outros pescadores há condicionantes naquela zona que surgiram na sequência do último prolongamento dos molhes que impõe aquele percurso; talvez a intensidade da corrente seja ali menor. Adotando, logo de início, a rota definitiva de entrada, a embarcação teria escapado à rebentação da vaga, apanhando-a cerca de cem metros à frente, absolutamente inofensiva.  Teria sido possível?

   Porque é que o navio não voltou para fora como já tinha feito antes?
   A vaga que se abateu sobre a popa do "Olívia Ribau" formou-se lá fora, durante o trajeto da embarcação para sul. Dada a massa de água envolvida, esta,  deveria ter voltado para o largo. Porque não o fez?, erro de avaliação?, pressa de chegar à lota?, excesso de fadiga?

   Que propulsão tinha a embarcação quando foi apanhada?
   Aparentemente seria reduzida, uma vez que não se vislumbra cachoeira à proa e era importante que fosse máxima, para fugir ao momento do maior impacto - vertical. Poderia ter feito a diferença. Haveria condicionamento na máquina ou terá sido opção?

   Porque adornou a embarcação?
   Porque a vaga que varreu o convés da ré deslocou carga a bombordo, e, provavelmente, inundou algum compartimento, reduzindo drasticamente a reserva de flutuabilidade. Em princípio, a carga solta no convés deveria ser o saco, parte das mangas e as portas. Tudo o resto - cabos e mangas - estariam enrolados na bobine do guincho; não creio que tal fosse suficiente para adornar a embarcação, apesar de as portas terem um peso considerável. Acredito na inundação do porão de ré e no rolamento da carga - cerca de 1200 Kg - a BB!, porque foi precisamente por aí que o vagalhão se abateu. Tal é verificável pela localização da tampa da respectiva escotilha. 

   Porque não estavam os tripulantes prontos a saltar?
   Estas contingências exigem certos cuidados bem conhecidos da generalidade dos marinheiros; entrar no início do "liso", pear a carga, fechar portas estanques e escotilhas, preparar a balsa, vestir coletes e definir estratégias de evacuação. O que terá sido, efetivamente feito?, os  coletes não foram vestidos e havia tripulantes, pelo menos um, no rancho. Com tripulantes, insensatamente, no rancho, não acredito que a respectiva porta estanque de acesso estivesse fechada!, estaria?

   Porque não saltaram os três tripulantes que estavam na ponte?
   Porque estariam inanimados ou em pânico.


   Porque não foram accionados os meios de salvamento públicos locais em tempo útil?
   Por limitação da capacidade de manobra, falta de visibilidade e presença de cabos e redes no mar, terá alegado com grande ênfase,  o Capitão do Porto da FF, corroborado posteriormente por organismo da Armada, referindo ainda haver uma embarcação salva-vidas em manutenção. Ora; as manutenções das embarcações salva-vidas, devem fazer-se nas épocas de menor risco de acidentes marítimos, neste caso, na primavera; os salva-vidas devem estar equipados com meios de iluminação adequados e os molhes deveriam estar providos de holofotes e dispositivos lança cabos em pontos estratégicos; tratando-se de uma zona piscatória, onde a presença de redes é o mais provável, os hélices dos salva-vias deveriam estar equipados com grelhas protectoras. Por outro lado; um Tripulante esteve cerca de 45 minutos a pedir socorro  agarrado à embarcação e veio a falecer por omissão de auxílio. Poderia, desde os molhes, ter-se passado uma ou mais bóias, com auxílio de uma pistola lança-cabos. Até poderiam ter-se usado os guinchos das viaturas de apoio ao salvamento nas praias no verão. Porque não se verificou?

   Porque não foram accionados os meios de salvamento nacionais em tempo útil?
   Porque estão demasiado longe e o nível de prontidão não era suficientemente alto!, Não devia haver um meio aéreo disponível na base de Monte Real?, ou salvar pessoas - pescadores, neste caso -, é menos prioritário que salvar florestas?

   Porque é que foi possível a um Polícia Marítimo de licença, salvar dois tripulantes com uma solução improvisada e os profissionais de salvamento nada conseguiram fazer, a não ser dizer que não havia condições?
   Porque aquele estava preparado, teve coragem, e mostrou respeito pela vida humana a ponto de pôr em risco a sua própria. Porque os organismos públicos cada vez mais funcionam para sustentar as correspondentes estruturas e cada vez menos para servir a população que lhes deu razão de ser. Porque, infelizmente, o célebre Patrão-Mor penichense, Moisés Macatrão parece não ter deixado continuadores nos Socorros a Náufragos da FF, pois não havia temporal algum que o fizesse recuar na sua "sagrada" missão de salvamento, chegando mesmo a sair sozinho, de dia ou de noite. Nem tão-pouco esperava pelo naufrágio, mantendo o salva-vidas, nestas ocasiões, a título preventivo, próximo das zonas críticas, pronto a atuar.

   Porque não estava a barra fechada para embarcações de comprimento acima dos 11 metros?
   As características deste naufrágio mostram que a barra deveria estar fechada para este tipo de embarcações, ainda por cima, não havendo disponibilidade de meios de salvamento. Que critérios serão usados para estabelecer a condição das barras do país?, Objetivos ou subjetivos?

   Havia ou não falta de tripulantes para operar o salva-vidas disponível?
   Consta que havia apenas um tripulante e que são necessários seis. Por outro lado, consta que o serviço de salvamento cancela pelas 1830h! Se assim é, o caso é grave! muito grave!

   Porque é que a entrada na barra da FF é perigosa?
   Devido aos baixios provocados pelo açoreamento resultante das correntes marítimas predominantes de norte e dos aluviões transportados pelo Mondego. Percebe-se que o prolongamento do molhe norte curvado a sul visa eliminar a primeira das causas, retendo os inertes provenientes de norte e, ou, conduzindo-os para sul, mantendo a trajetória natural da corrente, impedindo a sua precipitação à entrada da barra. No entanto, a correcção hidráulica, traduzida na redução da secção de escoamento do rio, aumenta a velocidade e a carga de aluviões, que, devido ao aumento da secção na boca da barra e ao encurvamento do molhe norte se depositam, formando os baixios que lá se encontram. A sua remoção, exige dragagem permanente, cuja dispensa só será possível introduzindo correcções sustentadas em medições, cálculos abundantes e meticulosos e muitos testes.

   Porque saem os pescadores, mesmo com mar alto?
   Porque não têm salário fixo nem compensações de rendimento por mau tempo e as suas famílias precisam de comer todos os dias.

   A sucessão de mortes de pescadores na sequência de naufrágios, cotejada com outros eventos, como a drástica redução das quotas de pesca e as imposições burocráticas draconianas e vexatórias  às embarcações, pela UE e pelas autoridades nacionais, revelam, que os pescadores, como sempre tem acontecido, apesar das românticas e, em muitos casos, hipócritas, manifestações de reconhecimento e admiração, são tratados pelas autoridades nacionais, e não só, como sub-cidadãos; tolerados, perseguidos e confiscado, mas não respeitados.

PS:
Um  ex-tripulante do Olívia Ribau e amigo que conhecia bem as vítimas deste naufrágio e teve oportunidade de falar com os sobreviventes desfez algumas dúvidas; o mar entrou pela popa no parque de trabalho, fechado nos dois bordos, e foi entrar na casa da máquina parando o motor e na zona social, onde estava um tripulante que tinha ido buscar o telemóvel, inundando-as. O porão estava fechado. O Contramestre foi expulso da casa do leme pelo mestre por discordar da decisão de entrar, dadas as más condições de mar. Morreram de imediato os dois que estavam na ponte e um no camarotre. Dos que estavam no convés; dois foram para a balsa e salvaram-se, o terceiro, subiu para a parte emersa aguardando socorro, que não obteve, e morreu. O barco lá continua, afundado, junto ao molhe sul.

" As ondas do mar são brancas, são brancas e amarelas,  coitadinho de quem nasce, p'ra morrer debaixo delas".

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