quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Turismo mata!

   "...Fabiana Pavel considera que a "turistificação" do Bairro Alto em Lisboa, está a levar os moradores a sentirem-se "quase obrigados a sair....A Arquiteta, que se doutorou na Universidade de Lisboa,...em 2013 fez um levantamento porta a porta no bairro e verificou a existência de um lugar/cama por cada dois residentes. Hoje já devemos estar estar um por um, há o risco de os turistas passarem a vir cá ver os turistas", alerta." (Correio da Manhã, 17 de Janeiro de 2016)
 
 
   No princípio, a praia era dos indígenas, vieram os turistas e os indígenas eram afastados, para não incomodar.  Para não incomodar, afastaram-se os botes para perto das canhoeiras, primeiro, para a marina, depois. Desclassificou-se a praia como porto de pesca, enviaram-se as traineiras para a Gala. Já não há barcos na praia. Quase não há, pescadores, lá. Nem enseada. Nem penedos. Há calhaus, avenidas e parques de estacionamento sobre a praia, outrora da claridade. Há cortejos  incessantes de viaturas vomitando poluentes. Há custos de residência exorbitantes que afastam os indígenas para bem longe. Há oportunísticas manobras administrativas que afastarão, em definitivo, os indígenas do pouco poder que lhes restava. Há a insaciável voracidade do centralismo vizinho. Acontece em Buarcos, aos olhos de todos! Ante o silêncio de todos! De Buarcos, São Julião!!! 

   Acontece nas mais belas povoações do litoral português, cada vez menos ao serviço das populações locais.
 
Do Blogue Marintimiidades, de Ana Maria Lopes:
 
 
É o caso desta, passada em Buarcos, pelos anos oitenta que sempre me deixa saudades, pela vida que ornamentava o nosso litoral. Menos meios, vida mais precária, mas mais riqueza e beleza antropológica e etnológica.
Chegada a Buarcos, à procura do dito bote de Buarcos, à volta do primeiro decénio deste século, o desânimo invadiu-me. O que é feito dos botes que daqui saíam para o mar de uma forma encantadora? Seduziu-me este recanto, pelos anos oitenta, noutra investida remota de inquirições.
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Areia deserta, mar deserto, ninguém na praia, sequer, a quem perguntar.
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Nos anos sessenta em Buarcos, o bote tinha «grosso modo» a silhueta dosbotes do bacalhau. E não é por acaso que isto acontece. Desaparecidos gradualmente os navios de pesca à linha do bacalhau, os dóris ou botes, construídos nas carpintarias das empresas por hábeis carpinteiros, foram perdendo a razão de existir. Construção simples permitia que em alguns pormenores não fossem totalmente iguais, mas as suas dimensões principais geralmente eram respeitadas: 5,30 metros de comprimento, 1,50 m. de boca e 0,60 m. de pontal. Alguns museus marítimos exibem-nos com orgulho, como o da Póvoa de Varzim, o de Ílhavo e o Museu de Marinha, em Lisboa.
Em algumas das localidades que forneceram homens para a pesca do bacalhau (Costa Nova, Gafanhas, Cova/Gala e outras), foram transferidos alguns para a pesca local, sofrendo algumas modificações.  

 
Na Costa Nova, na apanha do crico. Anos 80

 
Aos poucos, foram abandonando o tabuado trincado, recebendo à popa um banco em U, e passaram a ter bancos fixos, ganhando castelo de proafechado por portinhola e popa, mais larga, com um pequeno motor.
Pelos anos 80, a silhueta do bote foi abrindo, pois as águas a que se destinava não eram as mesmas e o comprimento também excedeu os 5 metros.

 
À espera e à conversa, na praia…Anos 80

 
Em Buarcos, assistimos ao encalhe do último bote daquele dia, puxado por uma junta de bois que todos os dias se dirigia à praia com aquela finalidade. A dona da junta fazia este trabalho há 40 anos, desde que se casara em Buarcos e recordou a existência de grandes bateiras (maiores que os botes) e de lanchas poveiras (ainda muito maiores).

 
Junta de bois a varar o bote, em Buarcos. Anos 80

 
O bote era utilizado para a rede de um pano para a faneca, para otresmalho (rede de três panos) para o linguado, sargo, robalo, etc., para oaparelho a que chamavam troles com muito inzóis, para a linha de mãopara o safio e para os cofos.
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Que encanto! Como vemos, a venda do peixe era feita na praia directamente aos banhistas, colaborando a mulher com o marido na separação do peixe e sua pesagem.

 
O peixeiro a pesar… Anos 80
 

 
 
 
 

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