domingo, 22 de maio de 2016

Palavras por inventar

 
Vénus ao espelho, Velásquez, 1647
 
   Terminou a temporada para o futebol sénior do Benfica com a conquista de mais um troféu em consequência da pesada derrota infligida ao Marítimo, que se bateu com galhardia. O maior talento individual dos encarnados fez a diferença, apesar de alguma fadiga visível em alguns jogadores.

   Para o Benfica foi uma época inesperadamente positiva em virtude do atribulado início e do intenso jogo de bastidores e guerrilha mediática que lhe foram movidos pelo principal rival desta temporada. Mas, esta, mostrou com exuberância a grande transformação que Filipe Vieira operou em todo o universo encarnado; o Benfica já não depende da bola na trave, de um ou outro resultado menos positivo, deste ou daquele treinador. Tem um projeto consolidado em permanente evolução que lhe grangeia não só equilíbrio financeiro mas, sobretudo, resultados desportivos, reconhecimento e respeito dos que interessam. Foi tudo isto, mais o amor ao clube, que fez com que os sessenta e cinco mil adeptos desatassem em cânticos de apoio aos seus jogadores num momento de grande adversidade. Foi nesse instante que se estabeleceu o vínculo coletivo que despoletou a reação que haveria de conduzir a equipa à vitória mais saborosa. Era possível fazer melhor, sim; a presença na final da Liga dos campeões não era uma miragem e a eliminação da Taça de Portugal teve peripécias decisivas, relacionadas com o desempenho da equipa de arbitragem. Por mim, dadas as circunstâncias, mais não é exigível.

   Independentemente do que suceder no defeso o Benfica iniciará a próxima época num patamar competitivo e emocional superior ao da que agora findou. Contrariamente, os principais rivais terão motivos para duvidar da "superioridade" moral e arrogância que têm ostentado. No entanto há que levar o seu discurso a sério e desenvolver estratégias de comunicação que neutralizem os seus efeitos sob pena de se instalar na comunidade desportiva a ideia de "justa reivindicação". Tal sustentará os favores institucionais, dentro e fora do terreno de jogo, de que necessitam para ganhar. Cuidado Benfica, o próximo campeonato já começou; basta ver as manchetes dos desportivos de hoje.

     A temporada ficou também marcada pelo fim dos fundos de investimento no futebol  e, paradoxalmente, pelos estranhos critérios de financiamento de alguns clubes, em que os financiadores dispensam a remuneração do seu capital e o reembolso do mesmo e em que se aprofundou a ideia da presença de capitais de proveniência informal com o propósito de legitimação dos mesmos. Marcantes, também, foram  os intensos e sistemáticos ataques dos dirigentes leoninos  aos árbitros, às instituições desportivas e ao Benfica, com a intenção de obtenção  de benefícios desportivos ilegítimos para o seu clube. O relativo sucesso desta estratégia indicia eventual cumplicidade institucional com o propósito de dar mais visibilidade à competição. É certo que, sem os erros grosseiros de arbitragem que se verificaram ao longo da época,  e sem a, não estranha, eventual adesão de certos clubes ao projeto, especialmente nas jornadas finais, o segundo classificado teria abandonado a corrida muito antes da última jornada. Porém, os resultados poderão ter efeitos contrários, na medida em que descredibilizam a competição perante os adeptos e os investidores idóneos, subestimados por quase todos.

   As notícias das detenções de agentes desportivos, jogadores e dirigentes da segunda Liga, no âmbito da operação "Jogo Duplo" levada a cabo pela PJ, na sequência das participações da FPF à PGR após alerta de entidade europeia, mostram o que muitos de nós já haviam percebido e alguns preferem sistematicamente ignorar; que há corrupção no futebol nacional! Na verdade certo tipo de incidências, umas, erros grosseiros, outras nem tanto, mas com um padrão coerente identificável, associadas a movimentações de natureza institucional, indiciavam espúrias manobras de bastidores entre "aliados". O processo do "Apito Dourado", que culminou com a condenação de alguma "arraia miúda" e a vergonhosa absolvição dos "tubarões"  que durante décadas subjugaram o desporto nacional aos seus interesses, deixou um sinal de impunidade e "legitimou", implicitamente, a marginalidade desportiva.

   A questão que se coloca atualmente é a de saber se a corrupção se tem restringido à segunda Liga ou está, também, instalada na primeira. Compreende-se que os corruptores atuem em competições com menor visibilidade devido ao menor escrutínio inerente, mas têm acontecido coisas tão estranhas na primeira Liga...!


   Há dúvidas quanto à atuação do Presidente deste organismo; Pedro Proença deu ou não seguimento aos alertas que recebeu de entidade externa idónea? Se não deu, porque não o fez? E é necessário uma entidade externa, no âmbito da UEFA, dar o alerta? O que é que leva um clube, n clubes, a jogarem com as suas equipas desfalcadas contra a equipa A e na máxima força contra a equipa B? E porque não se tira isso a limpo?, têm medo de descredibilizar a "indústria"? Não haverá indícios suficientes? A omissão constitui um incentivo implícito à prática da corrupção que, estou em crer, existe na primeira Liga, sob muitas formas, algumas delas bem difusas.

   Apesar das vicissitudes de natureza cultural e institucionais, a eficácia do combate a este fenómeno passa pela promoção da autonomia financeira dos clubes, o que implica a redução da dependência de parte deles do financiamento dos designados grandes, mas também, pela maximização dos direitos desportivos através do estímulo da concorrência e  da inviabilização dos monopólios, bem como da fiscalização eficaz das regras do fair-play. Neste domínio não cabe aos jogadores o ónus da delação; para um jogador médio com salários em atraso, denunciar o caso ou recusar a declaração de ausência de dívidas, implica a renúncia dos seus créditos e, provavelmente, o fim da carreira por ausência de interessados.     

 
  A qualidade do  futebol que a equipa do Marítimo apresentou nesta final remete para casos como os do Tondela, do Paços de Ferreira, do Rio Ave, do Moreirense, do Arouca, do Belenenses, do Estoril e outros e mostra como o campeonato poderia ser bem mais disputado e entusiasmante. O diferencial competitivo entre a maioria dos concorrentes e os designados grandes promove o antijogo, a tentativa desesperada de a equipa mais fraca segurar o pontinho inicial com prejuízo do espectador e, consequentemente, da "indústria". Não sei se não seria benéfico atribuir um ponto apenas aos empates com golos, penalizando com zero pontos os empates sem golos.

   Enfim, veremos o que nos trará a nova época com o deplorável Proença ao leme da Liga, antevendo-se novidades sombrias no âmbito da arbitragem, provavelmente, imbuídas do novo "desígnio" nacional de promoção de novos campeões. Ou talvez não...como dizia alguém em pleno PREC; o povo é sereno...e...talvez seja apenas fumaça...  

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