quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Masobenfiquismo


1º Ato:

As famílias comemoravam, no local da boda, o aniversário do casório dos seus rebentos. Pelo canto do olho, ia observando o andamento do jogo do Benfica com, não sei que clube, para o campeonato. - Têm-se feito grandes progressos no futebol do Benfica. Disse eu, dando alguns exemplos. - Ah!, mas ainda há muito por fazer, a equipa ainda não funciona bem…os gajos lá de cima estão muito fortes…eu…sou Benfiquista mas sei ver as coisas…
2º Ato:
Abri a porta do gabinete, com vista para o mar, do Mário, onde ia tratar de negócios. - Bom dia, está bom? - Tudo bem e você?. -Também; o benfas ganhou, que se lixe o resto. Retorqui satisfeito, enquanto puxava de uma cadeira. - Pois…eu…sou...Benfiquista, mas…não sou assim…doente!, aqueles gajos lá de cima não têm vergonha!
3º Ato:
- Já sabia que estavas aqui Jorge. Disse, ao entrar com o júnior no café dos círios onde diariamente tomamos a bica do almoço, ao vê-lo apoiado no balcão tagarelando com o João. - O cheiro a suor, nota-se ao longe!, só podias ser tu! Gracejei, aludindo à sua tradicional descontração, puxando o jornal da mesa do lado e perguntando num fole, divertido, ao amigo João, que já tirava as bicas da velha máquina. - Então Sr João, morreram muitos? - Acho que não. Respondeu, com as bicas fumegantes em nossa direção e um sorriso cúmplice. - Gostou do Jogo? Perguntei-lhe. - É pá!, grande frango deu o Artur! Respondeu de imediato o Jorge. Com o à vontade que a nossa amizade permite retorqui de imediato: - é pá és mesmo um Benfiquista rasteirinho, pequenino…então, com tanta coisa boa que aconteceu no jogo, o que te ocorre de imediato, é o frango do Artur? - É pá, sou Benfiquista mas sei ver o que está mal…não é só as coisas boas! Respondeu o Jorge, continuando: - Rasteirinho…pois…já sei…resmungou entredentes, dirigindo-se apressadamente à saída. Desatámos a rir. Eu, o júnior, o Jorge e o João, somos Benfiquistas.  
O Jogo em causa era o Estoril-Benfica realizado na noite de sábado - 5.01.2013 -, onde a equipa do meu clube marcou três tentos de alto gabarito para gáudio dos amantes de futebol, com destaque para o do Gaitan, graças a um gesto técnico que nunca vi fazer a quem quer que seja nem de tal coisa ouvi falar!
Conclusão:
Não sei quando começou nem sei bem porquê, mas há muito que se criou o mito da elevada exigência dos sócios e adeptos do Benfica. Uma suposta exigência diferente da dos adeptos dos outros clubes, por ser mais esclarecida e menos tolerante, baseado no pressuposto da sua alegada maior cultura desportiva,  maior capacidade auto-crítica  e de confronto sem concessões; seja relativa ao jogo, ou à gestão do clube. Esta teoria tem que se lhe diga e, em geral, não acredito nela, hoje mais convicto que ontem.
O que é certo é que esta “doutrina” fez escola entre os Benfiquistas. De tal modo que, Benfiquista que se preze, seja onde for, trata de explanar a sua superioridade de adepto, começando por, doutamente, dizer mal do seu clube, justificando os insucessos com erros próprios, pondo-se assim a coberto da dialética de confronto com adeptos adversários, cujos clubes, frequentemente, acabarão por elogiar, relativizando as mais grotescas e despudoradas trafulhices que não poucas vezes estes praticam ou promovem.
Ou seja;  fazendo passar a mensagem do “deixem-me em paz, pois até acho que têm razão”. Em suma, entendo que, na maior parte dos casos, se trata de seguidismo amarelo. Lembra-me aquele pai que, assistindo à derrota do filho vítima de adversidade ou artimanhas várias, despeitado, em vez de o acarinhar e incentivar, o envergonha e humilha!
Esqueceram a primordial razão que esteve na origem da constituição do clube; o prazer da prática desportiva, a solidariedade, a amizade, a competência, a lealdade e a união. A frase que, no emblema, apela à união, não está lá por acaso. Os fundadores do Benfica sabiam que era condição necessária para a construção de um grande clube tal como o idealizaram. A história dos sucessos do Benfica tem este vínculo! Vínculo que, em boa parte, se perdeu devido a esta deriva da cultura desportiva em que o “espírito de grupo” deu lugar à crítica compulsiva, sectária e, muitas vezes, acéfala, com a justificação da "falsa" exigência como condição para o progresso desportivo.
Não é possível criticar consequentemente sem considerar o universo envolvente; entendê-lo, compreender as suas âncoras e as suas dinâmicas. É neste contexto que deve ser feita a análise e a crítica interna, num clima de cordialidade ou até de crispação, nunca esquecendo que ninguém é dono do Benfica e que nenhuma entidade progride sem algum tipo de disciplina.
É pois tempo de regressar às origens, recuperando o espírito fundador, compilando e publicando em modo acessível, toda a documentação produzida pelos fundadores, testemunhos fiáveis e acontecimentos emblemáticos, onde a determinação e a solidariedade entre Benfiquistas foram visíveis. Voltemos a ser,
ET PLURIBUS UNUM

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