segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Douta Ignorância

(in DN 2013.02.04)

Eu não percebo nada de economia, mas..." Esta é a frase mais ouvida hoje em Portugal. O mais curioso é que, logo após a admissão de ignorância, quem a faz costuma apresentar um conjunto de afirmações cortantes e taxativas, que defende com unhas e dentes sem hesitação. Afinal aquilo que não sabe chega e sobra para ser conclusivo e incontestável. Este comportamento paradoxal merece análise.
 
Parte é perfeitamente compreensível e justificada. Muitos de nós também não percebemos de medicina mas não estamos dispostos a aceitar tudo aquilo que os tratamentos nos querem impor. Uma coisa é a recomendação técnica, outra a nossa vidinha que a tem de suportar. Curas dolorosas são fáceis de recomendar aos outros, mas difíceis de engolir.
 
Apesar disso, admitimos que os médicos é que sabem. Mesmo quando não lhe ligamos, reconhecemos-lhe autoridade. De médico e de louco todos temos um pouco, mas poucos se atreveriam a apresentar e discutir com especialistas as terapêuticas e teorias de leigo que inventaram no duche. Na economia, porém, isso é habitual. Porque será?
 
Primeiro porque a economia, afinal, parece ser uma ciência rudimentar, como a própria crise manifesta. Tantos estudos e teorias e afinal estamos na miséria. Mas serão os economistas culpados? Afinal o País ignorou os sucessivos avisos que eles fizeram durante décadas. Além disso não nos passa pela cabeça acusar os meteorologistas pelo recente furacão ou os médicos pela morte do doente. A razão é que se compreende que clima e corpo humano são sistemas complexos e difíceis de controlar, mas não se entende que empresas e mercados são sistemas ainda mais complexos e difíceis de controlar. Dez milhões de pessoas, cada uma a puxar pelo seu lado e a tentar melhorar a vida, é algo indescritível, enigmático e insubordinável.
 
Apesar disso, a economia, como meteorologia e medicina, conseguiu avanços espantosos. Não só a recessão é muito menor do que se esperava e do que costumava ser há cem anos, mas o nível de vida que temos, mesmo com crise, é muito superior ao que se podia imaginar há uns anos. Só que ninguém dá valor a isto, dado as coisas estarem pior do que deviam ser. Todos se acham com direito a uma economia próspera e não vêem que isso é tão tolo como exigir um dia de sol ou uma vida longa e saudável.

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