quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Corrupção no Futebol


Um ex-dirigente da FIFA, Guido Tognoni, acaba de a denunciar como centro de corrupção. A novidade reside na origem e forma da revelação. A denúncia pública de um ex-dirigente merece credibilidade, quer pela proximidade à fonte, quer pelos riscos que comporta à sua própria integridade. Revela ainda que o fenómeno está consolidado.

Não faltam peças quer televisivas quer escritas, onde os indícios de corrupção ao mais alto nível das superestruturas do futebol são evidentes.  Declan Hill, no seu excelente livro “A Máfia do Futebol” desmonta de forma extensiva e detalhada toda a teia da corrupção, desde a sua origem, Singapura, às ligas europeias mais competitivas bem como às provas de selecções, quer europeias quer mundiais. Identifica os mandantes, intermediários, agentes finais e toda a panóplia de métodos de ação; desde o aliciamento financeiro, à agressão física ou de outras ações do vasto menu.

Na verdade, a corrupção no futebol é hoje uma indústria que movimenta dezenas de milhares de milhões de dólares, muitos milhares de pessoas, e tem ramificações, ainda que implícitas, às instituições estatais.

O anúncio da Europol acerca do desmantelamento de uma rede de corrupção de grandes dimensões é compaginável com o cenário percebido pelo cidadão comum, constituindo uma ténue esperança. Ténue sim! Os interesses associados à corrupção são tais que fazem tremer quem quer que seja que se lhes oponha.

Notícias de corrupção no futebol alemão, italiano, brasileiro e outros, têm sido veiculadas na comunicação social deixando o triste espetador perplexo ao ver alguns dos maiores ídolos mundiais envolvidos.  

Por cá, a corrupção parece um verdadeiro desígnio da República. Inteiramente subjugado aos interesses políticos, o futebol nacional vai definhando, insolvente, monocórdico, incompetitivo, miserável, despudorado.

Marinho Neves, no seu “Golpe de Estádio”, com risco de vida, mostra como se estabeleceu em Portugal uma rede de corrupção que dura há décadas graças à inoperância das instituições que têm obrigação de a combater.

O caso do “Apito Dourado” mostrou a ineficácia e o risco da denúncia, expondo aos olhos de todos uma justiça suspeita de cumplicidade, consentida por largo espetro político que parece usar este processo como retribuição pela paz social e apoio político estratégico dos felizes contemplados.

Os corruptos podem permanecer impunes apesar dos Tribunais, os peões da propaganda podem lançar todas as cortinas de fumo, o povo carente pode até sentir-se saciado, mas o espectador experiente “sabe” quando há corrupção pela simples observação dos jogos, das competições, dos negócios públicos entre clubes e de variados eventos de natureza económica e política.

É certo que sempre houve e haverá erros, por exemplo, no desempenho das equipas de arbitragem, mas…quando há um padrão bem definido, a corrupção, seja em que forma for, está lá!

Quando, por exemplo, a equipa A repete um desempenho descuidado contra a equipa B, determinado contra a equipa C e durante a prova ou no seu final, há troca de atletas ou técnicos entre A e B…está lá! Se a equipa A acaba por beneficiar de ajudas competitivas várias que lhe proporcionarão prova tranquila, a suspeita transforma-se em convicção.

Quando a honrada e briosa equipa D dá luta à B roubando-lhe pontos, geralmente, acaba mal classificada ou acaba punida com descida de divisão, servindo de exemplo para todas as outras, à boa maneira de capone. Não falha.

Quando o juiz A erra em favor da equipa B, não tem nada que saber; rapidamente ascenderá à carreira internacional arriscando-se até a ser considerado o melhor do planeta, se autor de erros capitais, mesmo que grosseiros.

Pelo contrário, se o juiz C erra em detrimento da equipa B, espera-o a fatídica descida de categoria, servindo de exemplo para todos os outros. Não falha.

Ao questionar-se acerca das razões da aparente perpetuação deste fenómeno, o espectador, erradamente tido por tolo ou fraco, perante a segurança dos corruptos, chega à conclusão de que tal é consentido, quer pelas autoridades locais, quer pelas superiores entidades organizadoras do jogo, nomeadamente FIFA e UEFA.

Parece claro que esta é uma luta inglória, desde logo pelas agora reforçadas suspeitas, de que a teia mafiosa atingiu o coração da organização do futebol e dos Estados, limitando-se ambos a uns pífios esboços de empenho no seu combate com o aparente intuito de tapar os olhos ao presumido pateta espetador financiador, acreditando poder mantê-lo perpétuamente cativo.

É isso que faz os pintos cantarem de galo.

É isto que acabaria com o futebol se não houvesse Benfica.

AB

2 comentários:

  1. Tudo dito António.

    Já é difícil saber se foi a sociedade que seguiu o caminho do nosso futebol ou o futebol que segiu o caminho da sociedade.

    Abençoados aqueles que enaltecem o facto de o 25 de abril ter sido uma revoluçãao sem sangue... Cresce cada vez mais em mim a curiosidade em saber como seria a nossa vida, nos dias de hoje, se alguns mafiosos tivessem levado com metal em vez de cravos...

    Saudações gloriosas.

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  2. O Estado foi capturado pelos poderes de facto pela via partidária, subjugando os interesses da Nação aos seus. Rendas e prebendas, sucedem-se intermináveis, incapazes de saciar a voracidade dos eleitos.

    As sociedades humanas consistem na sua essência pela disputa do poder, nas suas várias facetas. O Homem, na sua longa caminhada, pensou ter-se emancipado ao criar o princípio do Direito geral e universal. A Besta que o habita, porém, logo tratou de reverter o processo. É uma luta sem tréguas e sem fim.

    Quanto ao 25/4, percebemos hoje que foi uma mentira. Quem o reclamou dele se aproveitou. E foi tudo.

    Enoja vê-los reluzentes, disputando as cadeiras, acumulando riqueza enquanto vão zurzindo o desgraçado Zé. Mas, não nos iludamos, ao nosso lado, muitas vezes está quem nos trama. Temos de olhar mais para o lado e pensar com autonomia.

    Abração.

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