sábado, 25 de maio de 2013

À guisa de balanço

O Benfica perdeu o campeonato por escasso ponto e, apesar das habituais vicissitudes, não faltam detalhes próprios, que poderiam ter determinado diferente desfecho. Importam, antes de mais, os que indiciam debilidades técnicas, táticas ou organizativas, enquanto  instrumentos  relevantíssimos de monitorização da qualidadade do trabalho efetuado e indicadores dos ajustamentos a introduzir no  aperfeiçoamento contínuo específico e global. O erro, além de constituir testemunho humanizante, suscita correção e, consequentemente, evolução; relativizá-lo ,conduz à estagnação e decadência.
 
Antes de prosseguir, reitero o respeito  e admiração que todos os Atletas, Técnicos e Dirigentes do meu clube me merecem.
 
A época foi muito exigente. As contrariedades começaram ainda na fase de preparação, com o célebre caso que nos haveria de custar a ausência de Luisão durante dois meses mais um de sub-rendimento, período em que perdemos alguns pontos, sabemos hoje, decisivos. Ainda agora não percebemos o que aconteceu!..., a celeridade da Federação e da UEFA no castigo atribuído deixou velhas suspeitas no ar. O que sabemos é que, todos os nossos atletas - toda a organização, afinal -, devem manter controlo emocional irrepreensível! Foi o que Luisão não teve, independentemente da inetencionalidade das consequências que se verificaram.  Além do mais, a provocação, seja no terreno de jogo, seja nos bastidores ou na comunicação social,  constitui um dos instrumentos estratégicos previlegiados dos nossos principais contendores. O antídoto é o controlo emocional e a determinação.
 
Ainda desconcertados com o castigo a Luisão, fomos surpreendidos com nova bateria de castigos, sempre com o objetivo da desmoralização, mostrando quem manda!...,quinze dias a Jorge Jesus, dois meses a Filipe Vieira e onze meses a Rui Gomes da Silva! Porquê? Por usarem de uma prerrogativa democrática vital; a liberdade de expressão! Por dizerem, apenas a verdade! E era no Estado Novo que havia censura! Isto, afinal é o que? Totalitarismo saloio, digo eu!  

Quando vi pela primeira vez Enzo Perez tocar na bola percebi de imediato que se tratava de um tecnicista de grande nível. Graças aos episódios relatados na comunicação social que o reconduziram à Argentina, cheguei a pensar tratar-se de alguém sem caráter; de alguém que tinha dado o chamado "golpe do baú". Enganei-me e estou em falta! Enzo Perez, além de excelente técnica tem um coração generoso, solidário, trabalha como um "mouro", não vira a cara à luta e...chorou pela camosola do meu clube..., com a minha camisola..., jamais o esquecerei! Mas não chegou! Não tivemos outras soluções para o "armador de jogo"; e foi necessário! Aimar, o nosso grande Aimar, esteve incapacitado quase todo o tempo, André Gomes, apesar de todo o potencial que apresenta é ainda uma esperança e Carlos Martins, sendo um excelente jogador, não revelou maturidade emocional. Esta sim, foi uma falha organizativa; o Treinador não conseguiu suprir a falta de Axel Witsel; com ele teríamos sido campeões e, estou convicto, teríamos ganho a Liga Europa! Não tenho dúvidas e nem é necessário justificar. Também Witsel ficou a perder. Poderíamos vendê-lo agora, não por 40, mas por 60 milhões! Aqui sim, foi uma falha da Direção Técnica.

Mas não foi a única. Tivémos em toda a época laterais esquerdos adaptados - mais uma vez - cuja falta de rotina na posição nos custou alguns dissabores, apesar de se tratarem de excelentes atletas; Melgarejo, Luizinho  e André Almeida. Também na direita faltou alternativa credível a Maxi Pereira o qual, apesar de toda a sua habitual garra, esteve abaixo do seu nível em grande parte da época. Também nestes casos, a Direção Técnica falhou! Falha esta que foi acentuada pela Equipa Técnica ao cometer, recorrentemente, o erro da deficiente marcação aos alas contrários! Impressionante! Mantivemos em toda a época o mesmo erro de deixar os alas adversários à vontade, quase sempre bem encostadinhos à linha. Um erro que vem de épocas anteriores e tem várias causas, a mais relevante das quais residindo na omissão do Técnico e dos Atletas. Não se comete o mesmo erro duas vezes! E nós fizémo-lo, não uma, mas duas, três..., e...quem muito erra, pouco acerta!

Erro tático foi, também em toda a época, a marcação à zona nos lances de bola parada, tão insistentemente apontado pelo nosso José Augusto - é bom que não esqueçamos, um dos melhores jogadores da história de futebol e um Treinador com obra -, que nos custou bem caro, nomeadamente na final da Liga Europa! Sendo, muitas vezes, a convicção confundida com teimosia, esta constitui um grave defeito quando não cede à evidência do erro, sobretudo do erro recorrente. É o maior defeito do nosso Treinador que alguns desgostos nos tem causado. Lucidez e humildade são duas qualidades imprescindíveis num líder de topo, que Jorge Jesus deve interiorizar.

Faltou controlo emocional ao Cardozo no jogo da Madeira com o Nacional; apesar da provocação -impune - do adversário e da determinação em marcar o tento da vitória - que se adivinhava -, Cardozo deveria ter-se controlado; poderíamos ter ganho o  jogo. Faltou controlo emocional ao Carlos Martins no jogo com o Estoril; aquele gesto tão infantil como inútil que pode ter decidido o desfecho do campeonato! Carlos Martins errou! Eu sei que em ambos os casos os árbitros pecaram por excesso de zelo, mas... bem sabemos que são todos assim perante o Grande, o Glorioso Benfica, afinal, condição de progressão das suas carreiras! Não devemos dar-lhes pretextos para tal.

Na Luz, oferecemos dois golos ao Porto, nenhum deles com justificação técnica! Não compreendo a omissão dos centrais no primeiro - ausência de Luisão  -, nem a irracionalidade de Artur no segundo - entrega a Jackson! Quem quer ganhar não comete erros destes! Entregámos o ouro ao "bandido"! Também Cardozo teve o título nas botas naquele tremendo remate que faria o 3-2, que Helton,"milagrosamente", desviou com a "ponta da unha" para a trave! Neste caso, houve diferencial técnico entre estes atletas. No jogo houve também, diferencial técnico entre guarda-redes! Em ambos os casos com vantagem dos Portistas. Eu sei que dói, mas..., é a verdade. Foi aqui que perdemos o campeonato! Teríamos ganho vantagem pontual e anímica para o resto da prova.
 
Também no Porto-Benfica - outro jogo do título -, cometemos um erro estratégico fatal; quisémos ganhar, e isso é louvável! "Garantido" o empate, que nos "daria" o título, tentámos a vitória subindo descontroladamente no terreno, deixando o meio-campo desprotegido, entregue ao, ainda imaturo, Roderick! Substimámos o adversário e perdemos. É dos livros! E não, não caiu do Céu! Aconteceu porque o adversário também queria ganhar e nunca desistiu. Foi por isso que, "não sei quem", mandou um balão para a frente, foi por isso que lá estava o Liedson para a receber e entregar com precisão e foi por isso que o "não sei quantos", rematou com grande classe ao 2º poste, deixando Artur pregado ao solo e apesar da oposição - inconsequente - do nosso defesa. Também aqui, houve nosso demérito em proporcionar um lance ofensivo que se revelou fatal, bem como permitindo o remate vitorioso. Não se constroem grandes equipas sem grandes jogadores.
 
Claro que, apesar destas menos-valias, teríamos sido campeões, descontados os evidentes casos de arranjo de jogos beneficiando o nosso principal adversário, bem como os benefícios de arbitragem de que este disfrutou ao longo da época, tal como dos erros grosseiros de que fomos vítimas  durante a mesma, desde o início. Lembremo-nos, que a nossa equipa perdeu pontos contra os "protegidos" do sistema, jogos em que, ano após ano, o nosso principal adversário ganha sem qualquer esforço, de forma sempre bizarra. 
 
Aqui, entramos noutras vertentes do jogo, infelizmente, bem mais importantes que o das quatro linhas! E é aqui que há um longo e profundo trabalho a fazer junto da opinião pública, em prol do espetáculo desportivo, desprovido de outros objetivos, nomeadamente políticos. É necessário um projeto desenhado por especialistas, com o apoio alargado e integrado de Benfiquistas com "peso" político-económico, empenhados na militância pela nobre causa do desporto. A diferença entre Benfica e Porto é que, enquanto o Benfica pratica desporto, o Porto não! É outro o seu jogo! O jogo dos caciques locais; os novos salazarinhos que todos espezinham a troco da sua ambição pessoal, manipulando os legítimos anseios dos adeptos do, outrora, nobre clube.
 
A este respeito, parece que andam por aí comentadores manifestando a sua perplexidade perante a fidelidade dos Benfiquistas ao seu clube, apesar da escassez de vitórias. Coitados; ainda não perceberam porque somos Benfiquistas! Julgam que o deveríamos ser pelas mesmas razões que eles são Portistas! Julgam que, ganhando como ganham, deveria haver adesão maciça ao seu clube e uma debandada do nosso lado! Pobres diabos! Ainda não perceberam que o Benfica é alegria, é desportivismo, é respeito, é espetáculo, é universalismo, é desportivismo, é competência, é festa! E claro, é também ganhar..., ganhar!
 

Mas, de que serve ganhar, quando o modo como o fazemos nos veda o respeito do adversário? 

 

Boa sorte para a final da Taça! Não se deixem impressionar pelo Jorge de Sousa; joguem o que sabem mantendo o controlo e ganharão.

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