domingo, 2 de março de 2014

Nova era no Futebol nacional

Tudo tem um fim; até a longa carreira dirigente de Pinto da Costa. Sairá compulsivamente, por razões de saúde, para vergonha dos adeptos portistas e de todo o universo nuclear e periférico do futebol nacional, incluindo dirigentes políticos e governantes. Apesar de ilibado no processo do "Apito Dourado", face às escutas correlacionadas vindas a público, seja no youtube, seja na comunicação social, Pinto da Costa acabou condenado no Tribunal da opinião pública, tal como os Tribunais e o regime político vigente. Face a todas as incongruências associadas ao processo, o cidadão comum não afeto ao FCP, acabou por concluir que interesses de natureza político-económica, contaminando o poder judicial e governamental, acabaram por conduzir à ilibação, apesar da declaração hipócrita de que tal não corresponde a reconhecimento de inocência. Dada a mediatização e acessibilidade pública do caso, a extrapolação para o sistema judicial e para o regime político por parte do cidadão não afeto ao FCP, foi imediata, contribuindo para destruir um dos mitos mais caros à retórica democrática; a igualdade de todos perante a lei. Ficou claro também neste caso, que, sendo todos nominalmente iguais perante a justiça, efetivamente, no atual regime, há uns mais iguais que outros. Não presta. Parafraseando Maria José Morgado "os Tribunais julgam os casos e os casos julgam os tribunais". Neste caso, os Tribunais foram condenados. Disse Octávio Machado, um dos mais ilustres futebolistas nacionais, e bem, que Pinto da Costa destruiu o trabalho honrado de muitas centenas de atletas e dirigentes que, hoje, graças àquele processo, carregam o estigma da dúvida relativamente aos seus efetivos méritos. Surpreendente é verificar que, em cerca de trinta anos de indícios de favorecimento desportivo - afinal bastaria ter visto alguns jogos para o perceber -, nenhuma das figuras ilustres daquela agremiação levantou a voz para os denunciar e combater ou, ao menos, pedir esclarecimentos. Perante os "sucessivos" êxitos e outras manifestações dissuasoras, compreende-se a conveniência do silêncio, mas não a aceitação da subjugação de pessoas reconhecidas como dignas, que contribuíram, pelo silêncio, para o descrédito da instituição que amam e de si próprios. Citando Jean Paul Sartre, a expressão "Odeio as vítimas que respeitam os seus carrascos" aplica-se como uma luva a todo o universo do futebol, jornalístico e desportivo que, não só consentiram, mas têm enaltecido os espúrios "sucessos" de Pinto da Costa e do FCP, na esperança de camuflarem a sua própria falta de coragem e garantirem para si próprios algum conforto, ou, ausência de inconvenientes. Salvaguardando as distâncias, nem Salazar faria melhor.
 
 
Perante a eminência da saída de Pinto da Costa do cargo que ocupa há mais de 30 anos,  paira sobre o universo azul o estigma da dúvida, a consciência da exiguidade do manto protetor, afetando verticalmente as estruturas do clube, aumentando a incerteza no decisivo momento do remate, do passe ou da intersecção. Os barões do clube contam espingardas com vista à sucessão abrindo fissuras na velha e já bolorenta nau. Outras razões porém convergem para o propileu da nova ordem; a consciência geral de que o atual modelo acabará por destruir o futebol nacional por falta de credibilidade e, inerentemente, por falta de público. Finalmente, a percepção de que a causa da regionalização só tem a perder com a aliança de gente sem escrúpulos. Só pessoas idóneas, respeitadas, atuando nos fóruns próprios, a poderá fazer vingar. A vantagem do FCP sobre todos os outros clubes tem residido na dimensão política que, oportunisticamente, foi "usurpada" por Pinto da Costa e consentida por todos, na presunção de que é o dono do clube e da cidade. É tempo de acabar com isto. Ao futebol o que é do futebol, à política o que é da política e o clube aos sócios.
 
Há nuvens no céu azul; os 50% do orçamento anual provenientes da venda de jogadores estão em causa ameaçando a capacidade de recrutamento e o sucesso desportivo. Sem uma presença regular na liga dos campeões, os ativos do FCP, inevitavelmente, desvalorizar-se-ão. Com a decadência financeira da Sportinveste e a perda do controlo na LPFP, dois dos pilares que têm garantido o sucesso desportivo do FCP toda a teia do seu poder de influência de bastidores, ameaça desmoronamento. Com efeito, sempre que perdeu o controlo da LPFP - Cunha Leal e Hermínio Loureiro (nenhum deles fez mais de uma época) -, o Porto, perdeu os respetivos campeonatos. Com a passagem da arbitragem e de Fernando Gomes para a FPF, o menosprezo daquela está a revelar-se fatal. Ao contrário de Hermínio Loureiro - que ainda hoje vai a fugir das ameaças de que foi alvo -, Mário Figueiredo, surpreendentemente, apresentou projetos de reforma interessantes e sólidos, quer quanto ao modelo competitivo, quer quanto ao modelo de financiamento, visando aumentar a competitividade das provas e as receitas dos clubes, eliminando simultaneamente, o garrote financeiro com que o Porto dissuade os concorrentes dissidentes; os que se recusam a alterar as convocatórias ou as táticas, por opção técnica e lhe têm permitido passear no campeonato nacional - como aconteceu no caso de Mourinho -, e valorizar os seus ativos na liga dos campeões.
 
Foi o Benfica de Vieira que, com a Benfica TV e a "utopia" da gestão própria dos direitos desportivos do clube, que abanou um dos principais pilares do "sistema". Transferindo grande parte das receitas de bilheteira dos clubes para os seus cofres graças ao monopólio das transmissões dos jogos da primeira liga e da Seleção Nacional, tendo beneficiado durante muitos anos de apoios públicos indiretos - através da RTP até há pouco obrigada, governamentalmente, à transmissão semanal de alguns jogos -, a Sport TV, pela mão de Joaquim Oliveira, principal acionista do grupo e acionista de referência da SAD do Porto, rapidamente e hipocritamente, se transformou no "FMI" dos clubes, como há tempos referiu António Oliveira; motivo suficiente para levar os adeptos de futebol mais atentos a suspeitar do condicionamento desportivo em benefício do Porto, por parte de alguns clubes "intervencionados".

 E no entanto "eles" movem-se. A nomeação de Carlos Magno, indefectível portista, para Presidente da ERC, o fim da obrigatoriedade de transmissão semanal pela RTP de jogos da primeira liga  e a nomeação do atual Secretário do Desporto, parecem revelar uma "colagem" do atual governo aos interesses portistas. A Controlinveste, principal acionista da Sport TV - e de várias SAD de clubes de futebol -,  face às responsabilidades financeiras, perante o défice de exploração e a sangria de subscritores do seu canal, acabou de concluir um longo processo de reestruturação e recapitalização ganhando aliados de peso, com aparente perda de influência de Joaquim Oliveira. Aparente, sim. A constatação da presença de Proença de Carvalho como Presidente do Conselho de Administração e Vitor Ribeiro - alegadamente proveniente do grupo Amorim - na Presidência da Comissão Executiva, sugere-nos a intenção de articulação com os universos político-governamental e financeiro. Se podemos estranhar a presença de Proença neste meio, o mesmo não se pode dizer relativamente a Vitor Ribeiro, dada a sua alegada ligação a Américo Amorim, este, uma das permanentes e mais poderosas "muletas" de Pinto da Costa e do FCP. Neste quadro surge ainda António Mosquito,  personagem cada vez mais influente em Portugal, com ligação a Isabel dos Santos, que por sua vez tem várias parcerias com...Américo Amorim - membro do Conselho Consultivo do FCP -, uma das quais o Banco BIC - curiosamente, patrocinador de clubes de futebol tidos como aliados do...FCP -, mas também com...Belmiro de Azevedo - membro, vejam só, do Conselho Consultivo do FCP - na Zon-Otimus, precisamente, um dos parceiros da Sport TV. Como se vê, a luta vai ser dura.

Também na Liga há mosquitos por cordas. A alteração dos estatutos "ardilosamente" introduzida por Fernando Gomes quando por lá passou - só até à transferência do Conselho de arbitragem para a FPF -, presidencialisando e verticalizando  a estrutura diretiva, deixou de ser adequada quando a Presidência escapou ao controlo do FCP. Mais que discutir projetos interessa-lhes o afastamento de Mário Figueiredo, precisamente porque tem ideias próprias contemplando o interesse geral, não se deixando subjugar aos seus desígnios. A relação de poder vai decidir as alianças e os destinos do futebol para os próximos anos. Merece aplauso a postura dos Dirigentes do SCP nesta matéria apresentando em local próprio interessantes trabalhos de fundo a nível legislativo e regulamentar sobre desporto. Oxalá os clubes não se deixem "enrolar" pelo paleio hipócrita dos azuis e, por outro lado, os Dirigentes Benfiquistas, congregando esforços, saibam elaborar e, ou, optar por propostas que, demolindo as vicissitudes do atual sistema, promovam a competitividade e a transparência, e com elas, a sustentabilidade deste desporto a dos clubes e a satisfação dos adeptos.

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