sábado, 20 de dezembro de 2014

Jaime Neves, o último Guerreiro do império (3)

      "Transformamo-nos no homem do uniforme que usamos"  disse Napoleão;terminado o curso de Comandos, já à frente da 2 Companhia em Angola, Neves trocou os calções de caqui e a farda branca com bota alta pelo camuflado e transformou-se no "homem do camuflado", já com o nome de guerra de "Tigre". É de camuflado que receberá, mais tarde, as estrelas de Major General. 
      Durante quase um ano as operações sucedem-se em Angola, na rotina da contra-guerrilha, com emboscadas, contraemboscadas, ataques a acampamentos e nomadizações. Floresta, tensão, trilho, adrenalina pura, mosquitos,  calor tórrido, sede, suor, cansaço, minas, explosões e tiros contra um inimigo que descarrega o ferro e foge furtando-se ao combate frontal. Numa das operações a 2ª CCMDS comandada ataca a Base dos Pacaças - guerrilheiros da FNLA (flanelas) - em Dolisie no Congo-Brazzaville próximo da fronteira de Cabinda, deixando um tapete esburacado de mortos e regressando sob forte morteirada. Noutra ocasião, Neves, numa avionete Dornier, monta um Posto de Comando Aéreo, a partir do qual consegue reunir e conduzir ao aquartelamento seis grupos de neófitos Comandos perdidos em missão na floresta. Os soldados sentem que têm um Comandante com quem podem contar.
      Em maio de 1966 a 2ª CCMDS, na continuação da sua comissão recebe ordem de avançar para o Lumbo em Moçambique com duas missões; a de apoiar o Batalhão Sete de Espadas que estava a ser dizimado em Mueda e a de deter um eventual ataque inglês ao porto da Beira  no âmbito da chamada guerra do petróleo, ataque este que não chegou a verificar-se devido à acção diplomática.
      Por esta ocasião os dois principais focos de guerrilha estão em Cabo Delgado, no planalto maconde, e em Vila Cabral, no lago Niassa, este de menor intensidade. Os Macondes, vivendo da pesca e da caça, com faces tatuadas à navalha e dentes bem afiados, são  indomáveis e aguerridos, difíceis de encontrar.
    Aqui conhece Jorge Jardim que participa em algumas operações e comanda várias missões, acompanhando as suas forças, que lhe valeriam a Cruz de Guerra de 1ª Classe por feitos em combate. Açor, Catatua, Olho Vivo, Picanço, Licas, Hibraico, Polinómio, Maionese, Martelada, Trolha, Desbrause, Finalmente, Chaimite, Aveiras (homenagem ao soldado alentejano abatido na fronteira), Alentejano, Mabecos, Raivosos e Furriel Aguiar, são a designação das missões em que a 2ª CCMDS cobre toda a zona subvertida da Zona de Intervenção Norte. Na operação Finalmente percorrem 300 quilometros a pé em pleno mato até a Mucojo que dá para o Índico. Uma operação do tipo das que os militares de gabinete apenas ouvem falar e os civis nem isso. Na missão Polinómio, Neves dirige as suas tropas em PCA a partir de uma avioneta na qual é atingido de raspão no sovaco em consequência da flagelação com armas automáticas a que a nave foi submetida.
        Entre combates, o desbragamento na cidade, com os inevitáveis copos, mulheres de vida "fácil" e pancadaria gratuita. Maxim's onde atuam Orlandini, Shegundo Galarza e o figueirense Mário Simões, é um dos "cabarets" frequentados, tal como o Moulin Rouge e o Primavera. Há os cafés como o Scala e o Sheik, o hotel Polana, a Cervejaria Laurentina e o Ponto Final, onde por vezes se cruzam com os "boers". Sucedem-se os episõdios cómico-caricatos como aquele em que o Sargento Ribeiro furioso com o azar do seu jogo acusa Neves de confundir foder com rachar lenha; ou daquela matrona que pediu uma audiência ao comandante para impedir os seus soldados "di deixá péli di piça nas minha mininas". Disse São Paulo que apesar das muitas porcarias que possa praticar, um puro será sempre um puro. Foi o caso de Neves, como o reconheceram os seus camaradas e Delfina, a que viria a ser sua mulher.
      Finda a 2ª comissão, regressa à metrópole para uma breve passagem na Escola Prática de Infantaria de Mafra donde segue para Lamego onde passa dois anos como instrutor no Centro de Instrução de Operações Especiais, tendo por colegas outros militares de referência. Na esfera civil sucedem-se as habituais peripécias da irreverente vida noturna. 
      Regressa à sua dura a amada Moçambique em 1970, pela terceira vez, onde chega na ressaca da Operação Nó Górdia onde se destacara o Carlos Matos Gomes. Jaime Neves sempre lamentará não ter participado em operações espetaculares como foram a Viriato em Angola, a Nó Górdio em Moçambique e a Mar Verde na Guiné. Desta vez segue para junto do Batalhão de Comandos em Montepuez, como comandante da 28ª Companhia de Comandos já formados em Moçambique. É ferido em operação, na sequência da deflagração de uma mina sob a "berliet" que ele próprio conduzia e da qual resultaram feridos todos os outros ocupantes da viatura. Já no hospital, deparando-se com a separação entre praças e oficiais, quebrando as normas vigentes, exigiu que ficassem juntos, suscitando o reconhecimento daqueles e o respeito dos restantes.
      Sucedem-se os episódios de combate com grande frequência a alta intensidade nos quais se destaca a capacidade de comando de Jaime Neves. Na eterna memória fica-lhe o impacto dum estilhaço de bazuca no peito do alferes Guimarães, arrancando-o parcialmente, tirando-lhe a vida sob o seu olhar, na sequência de uma chuva de aço que se abatera sobre a 28ª Companhia, numa operação entre Miteda e Nangololo, onde foi emboscada. Noutra operação no planalto Maconde entre Mueda e Mocimboa do Rovuma na Zona dos Paus onde são flagelados com abundante morteirada quando vão em auxílio dos Paraquedistas para recuperar os corpos dos camaradas provisóriamente sepultados na sequência de combates  que ali travavam com os guerrilheiros da Frelimo. Os contactos de fogo com os civis que por vezes ocorrem suscitam discussões entre os soldados; Jaime Neves evita-os mas aceita-os quando inevitáveis superando a natural comiseração sem lugar na guerra. Fala-se de Wiriamu onde terão sido massacrados centenas de civis. Respeita os PIDES pelo importante serviço de informações que prestam ao Exército mas impédios de agredirem os guerrilheiros quando presente.
      A 28ª CCMDS  combate limite da fadiga com Neves sempre na frente, reforçando a confiança dos seus soldados, gerindo com sabedoria os casos de indisciplina, desfalques ou outros desvios suscitando a gratidão e lealdade dos faltosos. Impõe-se perante as hierarquias nos casos da sua competência conhecendo os limites e quando necessário subverte as regras instituídas. Os soldados são a sua família e o Exército a sua casa. Tem a legitimidade das muitas horas de fadiga e dores de combate, seus e dos seus homens. O seu nome corre por Moçambique, em Angola e na Guiné entre militares e civis.
      No final da sua 2ª Comissão, a poderosa 28ª CCMDS, abateu 90 inimigos, feriu 13, capturou 114. Capturou armas diversas; espingardas, metralhadoras, lança-granadas-foguete, canhangulos, granadas diversas, minas, documentos importantes e outros. Destruiu 3500 palhotas, 26 bases e quartéis inimigos, vários celeiros, machambas e outros meios de vida do inimigo. Em contrapartida, a 28ª tem 1 morto em combate, 1 morto em acidente, 3 feridos graves em combate, 3 feridos em acidente e dois elementos evacuados por doença.
      Fora do quartel, Neves, sem a pose marcial que alguns lhe atribuíam, concorda com Fernando Pessoa quando disse que "Boa é a vida mas melhor é o vinho" e desmente Norman Mailer quando referiu num dos seus livros que "tough guys don't dance". como sempre continua a dar livre curso aos seus dotes de cantor humorístico e exímio dançarino, seja no "twist" no Rock de terramoto, ou nos slows, tangos, boleros e pasodobles. Na boémia convive com portugueses do tipo dos que fala Agostinho da Silva; o Bolinhas - como irmão - que sem estudos nem fortuna se mete pelos mares e pelos sertões, o fobeiro do Uige, o chicoronho da Huila, o padeiro Manuel do Brasil, etc.. Foram estes portugueses pobres, ambiciosos e aventureiros que mais contribuíram para essa "misteriosa grandeza de um pequeno e pobre país". As cenas de pancadaria "desportiva" nos bares continuam a suceder e Jaime Neves que não é dado a "filosofias" começa a sentir o peso da solidão de homem solteiro, a necessidade de constituir a sua família, mulher e filhos a quem amar e pelos quais seja amado. 
       Sempre por mérito em combate, Jaime Neves é promovido a Major, primeiro ,em 1971, graduado e em 1973 definitivamente. Por força da nova patente deixa o comando da 28ª CCMDS e pede escusa do comando do Batalhão de Montepuez a que tem direito por inerência, num gesto que o General Kaulza de Arriaga considera nobre por permitir ao seu camara Oliveira terminar a sua comissão no comando daquela unidade.

Sintetizado de "Jaime Neves, Homem de Guerra e Boémio" da autoria de Rui Azevedo Teixeira, editado pela Bertrand

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