domingo, 1 de fevereiro de 2015

Os Pobrezinhos

       
António Alçada Batista deixou saudades, pelo menos eu recordo com saudade  os seus pequenos e deliciosos comentários diários matinais na rádio, nos quais, com argúcia, inteligência, subtileza e lucidez, analisava as coisas simples da vida, conseguindo sempre, ou pelo menos quase sempre, deixar a pairar no ar um ambiente de esperança e otimismo. Alçada Batista, fazia-nos bem e fazem-nos muita falta intelectuais como ele. Homem vivido, com importante passagem pelo Brasil onde bebeu muita da sua inspiração, católico convicto mas crítico, de formação jesuíta, ficou célebre uma das expressões com que caracterizou a sociedade portuguesa da época; "onde se é temente a Deus e ao óleo de fígado de bacalhau".
 
      Oriundo de família desafogada num ambiente profundamente católico, pode dizer-se que Alçada Batista  pertencia à elite média, onde se refletia todo um padrão comportamental, que implicava certas rotinas sociais e religiosas entre as quais era norma a adoção de um "pobrezinho"; um "dever" social dos mais abastados dedicaram alguma atenção aos mais carenciados, através da doação periódica de esmolas, restos de comida, roupa usada e o tradicional conselho paternalista; - Tome lá dez tostões e não os gaste no vinho, está bem? À vezes chegavam a dedicar-lhes até algum afeto, encomendando-lhe pequenas tarefas, como tratar do jardim, fazer alguns recados e realizar algumas pequenas reparações. Alguns, algumas, mais espertitos (as), conseguiam mesmo quase fazer parte da família, ocupando-se dos serviços de casa; limpezas, arrumações, cozinha ou até levar ou trazer os meninos à (da) escola. Ficava bem tratar dos seus pobrezinhos; era o seu contributo social e obrigação de caridade cristã, que apaziguaria eventuais sentimentos de culpa de privilegiados. E eram felizes assim. Parecia!, até os pobrezinhos se afeiçoavam e dedicavam ao seu benfeitor protegendo-o de eventuais calúnias e aliciamentos rivais. Cada pobrezinho tinha o seu benfeitor e por vezes tinha que pôr no lugar os outros candidatos a benfeitores; - não me chateie, eu sou o pobrezinho da dona Alzira!
 
      O caso é que, António Alçada Batista, identificou comportamento semelhante entre os intelectuais, referindo que cada um deles, como ele próprio, era o pobrezinho de alguém, que seria uma espécie de mentor intelectual e, simultaneamente, tinha os seus próprios pobrezinhos. Não é difícil identificar esta situação mesmo nos dias de hoje, nem sequer em nós próprios; parece que "todos" aspiramos a uma espécie de guia protetor, que nos dê a segurança da descoberta dos caminhos a trilhar e, ao mesmo tempo, necessitamos do conforto de sermos considerados uma espécie de mentores de outros, os nossos pobrezinhos, entre os que andam perto de nós. É este, afinal, um mecanismo social ancestral, provavelmente desde os tempos do Australopitecos Africannus.
 
      Eis-me então chegado ao cerne do meu tema desta croniqueta; é que me parece que é este mesmo fenómeno que acontece à nossa "esquerda caviar"; gente bem instalada na vida, geralmente funcionários públicos bem remunerados, muitos deles professores universitários, que andam por aí de barriga cheia a defender "os seus pobrezinhos"; os ignaros sem diplomas académicos que se esfalfam a trabalhar enfrentando o terrorismo estatal para lhes pagar os salários. Com este aparente gesto altruísta, nada mais fazem que satisfazer os seus egozinhos à "che", afastando para bem longe a culpa de privilegiados, considerando-se até os paladinos dos desvalidos da vida e das mercês que eles próprios tiveram. Uma tragédia, porque nada fazem, de facto, de útil, pensando sempre o contrário, revelando assim, um dos maiores fracassos das sociedades atuais; a da produção de falsas elites que, afinal, se limitam a viver do orçamento público e fazem da atividade pseudopolítica uma espécie de circo. Uma tragédia!

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