sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O dia D do futebol nacional

      Aconteceu quando o Benfica recusou a oferta de 23 ME anuais da Olivedesportos para a renovação do seu contrato de direitos televisivos, contra os miseráveis 7,5 ME anuais do contrato anterior "concedido" graças à situação de penúria financeira em  que se encontrava por essa época. Esta constituiu a base da  "fórmula mágica" que esteve na origem da prosperidade económica  das empresas de Joaquim Oliveira e que assegurou o domínio desportivo do FCP durante décadas.

   A condição de exclusividade em que aquele tinha acesso ao direitos televisivos dos clubes, proporcionou-lhe acesso a capital e, através deste, ao poder "normativo" formal e informal que dominou o futebol em favor do FCP. Ano após ano assistimos a espetáculos desportivos deprimentes com contornos de prepotência e hipocrisia que tem dominada a sociedade portuguesa. De facto, esta penosa realidade beneficiou da cumplicidade político-partidária que Pinto da Costa geriu com mestria graças à densidade demográfica a norte, decisiva nos resultados eleitorais.
 
   Filipe Vieira, contra todas as incertezas, deu sequência ao apelo dos adeptos e avançou com o canal do Benfica, que, rapidamente, se transformou num sucesso económico e social, provocando uma hemorragia fatal para a Sport TV, salva, recentemente, pelos "cúmplices" do costume; BCP, BES, operadoras nacionais por cabo e uma valente bateria de "playeres"; desde investidores angolanos a "gurus" da economia nacional afetos ao FCP e a facilitadores institucionais de relevo. 

   Por todas estas razões trata-se de uma organização que deve continuar a suscitar reserva por parte dos dirigentes do Benfica, aconselhando toda a prudência, em particular na duração dos contratos. Nas recentes negociações, a valia dos direitos de transmissão da BTV ficou bem patente, equivalendo-se aos outros direitos que SCP e FCP venderam, nomeadamente, a publicidade nas camisolas e no estádio, algo que, no clube encarnado, grosso modo, valerá 20 ME ao ano.
 
   À parte o caso Vale e Azevedo - que, para mim, não tem perdão -, e os fundadores dos grandes clubes, Filipe Vieira é, quanto a mim, o melhor dirigente desportivo nacional de sempre; pelos projetos que desenvolve no Benfica e, sobretudo, por ter "desmantelado" - até ver - a poderosa teia que manteve os clubes reféns dos interesses do FCP durante longas décadas, criando as condições para uma nova era no futebol nacional, baseada na autodeterminação económica e funcional dos clubes e na independência das instituições que tutelam o desporto nacional.
 
   Todos beneficiarão, direta e indiretamente, mas tal não significa que, muitos, não voltem a cair em novas armadilhas suscitadas pela implacável tabela classificativa e de quem a controla, bem como pelo "criminoso" quadro competitivo das provas da UEFA e modelo de distribuição pelos clubes e federações das mais-valias das respetivas competições. Três "galos" para dois poleiros europeus é a fórmula que corrói o futebol nacional, impondo-se a reformulação de todo o modelo.
 
   PS: Alguns dos "pequenos" clubes parecem apavorados, como se percebeu recentemente pelas declarações de  Manuel Machado no final do Benfica-Nacional para a Taça da Liga.  Mas não têm que se preocupar; todos receberão mais dinheiro e têm, agora, por onde escolher - além das duas operadoras nacionais, parece que surgiram algumas estrangeiras. No entanto, o bolo poderia ser bem maior se a vaidadezinha e a covardia de alguns, não os tivesse conduzido ao atraiçoamento de Mário Figueiredo cujo projeto era o que melhor servia os interesses de todos; centralização dos direitos televisivos, fim à exclusividade da Olivedesportos e aumento da competitividade dos jogos através da alteração dos modelos competitivos dos campeonatos. Alguns teriam que ficar de fora e outros não chegariam aos jogos com os "grandes". Foi aqui que se deu a rotura, precipitada pela asfixia financeira proporcionada pelos habituais patrocinadores  - até da Santa Casa da Misericórdia! -, pela FPF, e...pela Autoridade da Concorrência, que "congelou" a resposta à "participação" de Mário Figueiredo contra a Olivedesportos, até estar consumado o seu afastamento à frente dos destinos da Liga. O meu tributo a Mário Figueiredo, que revelou lucidez e extrema coragem em todo o seu mandato, por ter enfrentado os poderes que todos temiam. Diga-se, finalmente, que dispunha do apoio discreto, não explícito, do Benfica, que se disponibilizou para a solução da concentração dos direitos. Mas...tal não convinha aos interesses do FCP e do SCP, que acabaram por colocar no seu lugar "o espantalho"  do Proença, apesar dos danos que a sua passagem pelos relvados nacionais provocou.  

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