domingo, 8 de maio de 2016

O pântano

      
Auto-retrato, Pierre Auguste Renoir
 


   Denunciada a manobra "da mala", logo se desencadeou uma panóplia de ações de origens diversas, cujo propósito está por avaliar; se autêntica, se para "tapar olhos". Até parece que andavam todos distraídos; ele são os inquéritos da Liga, ele são as investigações a russos e angolanos com atividade no futebol nacional, ele são as múltiplas análises antidoping, ele são as "juras" de oposição aos aliciamentos. Tudo acompanhado pela censura mais ou menos explícita aos denunciantes, pela ausência à pouca vergonha que se tem verificado nos jogos dos dois candidatos ao título, não faltando quem considere benéficos os incentivos para ganhar, apesar de, efetivamente, se tratarem de incentivos para a prática do antijogo e, ou, prémios por "facilidades" em jogos passados ou futuros.
 
   Com efeito, a escandalosa displicência dos adversários do Sporting nesta ponta final do campeonato, mostra uma alargada aliança entre clubes para reforçar a candidatura daquele ao título em detrimento do Benfica. Tal espelha a falta de ética e de confiança por parte dos aliciadores como também a debilidade económica da maioria dos clubes que se prestam a tais práticas. Tudo isto remete para tempos de má memória que se julgavam definitivamente afastados em que as "manigâncias" que sustentavam as vitórias do clube dominante, o Porto eram atribuídas à irrepreensível competência da "Exemplar estrutura", que, como hoje se vê, na realidade, assentava no poder dissuasor de um grupo de torcionários, finalmente a contas com a justiça, e que, antigos dirigentes do clube verde-branco, parece, tentaram reproduzir em Lisboa.
 
   Por sua vez, a comunicação social, com raras exceções, fecha os olhos aos indícios de corrupção e prefere enaltecer a futebol arrasador dos de Alvalade, colaborando na estratégia de desestabilização contínua e cada vez mais intensa do clube da Luz. A verdade é que, curiosamente, denunciado o jogo da " mala", logo surgiram notícias do interesse do Sporting no guarda-redes do Marítimo com a oferta de 350 mil euros por época...precisamente o mesmo valor que fora atribuído, também pela comunicação social à oferta dos verde-brancos aos jogadores do Guimarães. Curioso!
 
   Pateticamente, Pedro Proença, dirigente destituído de idoneidade por muitos adeptos, entre os quais me incluo, atual Presidente da LPFP, prefere enaltecer a ímpar competitividade do campeonato nacional face aos seus congéneres europeus, não percebendo que, pelo contrário, uma competitividade fictícia, como é o caso, só o descredibiliza.
 
    Estas debilidades do futebol nacional parecem  insanáveis porque na sua génese radica uma quase generalizada falta de ética crónica, a qual, paradoxalmente, muitos fazem passar por normal, consoante os seus interesses concretos. Apesar de reconhecer que, por mais que se regulamente, fiscalize e penalize, nunca se conseguirá suprimir esta tentação, considero que é possível atenuar esta realidade agindo com inteligência, firmeza e neutralidade. Neutralidade; eis algo que perece impossível atingir nas instituições que tutelam o futebol.
 
   A penalização dos incentivos externos à competitividade deveria ser agravada no plano pecuniário, mas também no desportivo, de forma a constituir efetiva dissuasão da tentativa de aliciamento. Porém, também me parece que a cedência de jogadores entre clubes do mesmo escalão não deveria ser permitida. Como é possível que não se considere esta uma prática antidesportiva apesar de  estabelecer um fator de desigualdade entre os clubes de origem e todos os outros? Parece infantil! Se, por um lado, a ausência destes jogadores desfalca as equipas de destino quando defrontam as de origem, se jogassem, daria azo à suspeição quanto às suas intenções no jogo. Por isso o melhor mesmo é proibir as cedências entre equipas na mesma prova.
 
  Mas, como sabemos, tal não seria suficiente para garantir a ética desportiva; os adeptos mais atentos, estão fartos de perceber todas estas manobras; fecha-se o contrato com um jogador da equipa alvo para a época seguinte...promete-se a "venda" de outro jogador ao clube alvo para a próxima época...alicia-se, discretamente, um jogador chave da equipa alvo para alguns jogos, (é para isso que servem os grupos  torcionários; na verdade, quando um jogador falha um remate ou um corte, só ele é que sabe se foi acaso ou não), ou faz-se perceber ao respetivo treinador, pelo mesmo método, e discretamente, da conveniência em alterar o modelo tático ou as opções técnicas da equipa. Enfim, nesta matéria não há limites para a imaginação. Apesar de incontrolável, deve trabalhar-se ao nível da dissuasão; elaborando regulamentos e penalizações tais que afastem as tentações dos mais ousados, nos âmbitos desportivo, cível e criminal. Ora tal exige, vontade e convergência política e aí é que as dificuldades se agravam, uma vez que, tal não se tem verificado. Antes pelo contrário, parece que a ordem política consiste em "fechar" os olhos aos mais "destravados", seja pela afinidade com o clube em causa, seja por medo de conflitos sociais. Enfim, uma autêntica deceção que resulta, sobretudo, da fraca conta em que os dirigentes têm os adeptos do futebol, os quais, diga-se em abono da verdade e salvo exceções, também não se dão ao respeito.
 
Força Benfica!

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