segunda-feira, 26 de março de 2018

Benfica; um alvo político

     
O desafio dos líderes faz parte do processo natural de evolução das sociedades animais, em especial, as humanas, promovendo, nestas, a renovação de líderes, ideias e métodos. São, pois, naturais, as permanentes atitudes provocatórias dos dirigentes dos clubes rivais do Benfica, aos dirigentes deste. Visam instalar a dúvida, a discórdia e dispersar meios ao líder e, simultaneamente, promover a união e motivação interna. Nas sociedades avançadas, como dos Estados de Direito Democrático, porém, não há lugar para o enxovalho público, a ofensa, a difamação, a perseguição civil ou pública, e, muitos menos, para a agressão. Desafortunadamente é o que se tem verificado nesta terceira República evidenciando um certo diletantismo judicial característicos dos regimes decadentes.
 
   Porém, desde muito cedo, pelos anos oitenta, ficou bem patente uma certa politização do futebol, transformado, por alguns players, em palco da afirmação regionalista; casos da Madeira, cujo Governo Regional financiava maciçamente os clubes locais, e da Câmara Municipal do Porto que durante anos funcionou em aparente promiscuidade com o Futebol Clube do Porto.
 
   Para os defensores da Regionalização, o Benfica, pela sua dimensão social e história recente e remota, representa o "centralismo alfacinha"; uma reminiscência do antigo regime necessariamente condenado à decadência como resultado da ascensão dos opositores enquanto consequência da difusão do progresso económico e social do país promovido pela nova ordem política.
 
   Efetivamente, entre sócios e adeptos, os benfiquistas representam mais de metade da população nacional; uma força socialmente agregadora inconveniente à estratégia em curso de desmantelamento das tradições culturais da população como condição para o estabelecimento de uma nova ordem cultural de forma a consolidar um novo paradigma político.
 
   Basta consultar a documentação pública do Futebol Clube do Porto para verificar a congregação naos seus órgãos sociais de figuras e instituições relevantes na economia regional e até no mundo político e financeiro nacionais. Tal, por si só, não tem mal absolutamente nenhum. Já suscita preocupação um certo estilo de funcionamento de certas instituições locais parecendo configurar a adopção da não-cooperação como método de afirmação local. Com efeito é neste âmbito que se compreende as recentes referências públicas de uma alta magistrada acerca da forma "caprichosa" como os Tribunais do Norte trataram e decidiram o processo conhecido por Apito Dourado.
 
   Parece-me evidente a recorrente procrastinação dos casos policiais, judiciais ou desportivos, que envolvem pessoas ligadas, direta ou indiretamente, ao FCP, acabando, invariavelmente, em arquivamento ou absolvição. Tal decorre do facto de a "tão ansiada" regionalização ter sido há muito, implementada no terreno graças a múltiplas cumplicidades. A mensagem, sucessivamente repetida - a mais recente, relativa a um caso envolvendo o líder da claque doa "dragões" -, é evidente: aqui, as leis da República estão condicionadas aos interesses locais definidos localmente.
 
   Neste contexto, o Benfica foi escolhido como alvo político, com consequências que o levaram à quase extinção no passado, e que, atualmente, os mesmos agentes procuram levar, mais uma vez, a cabo, com a complacência das autoridades públicas e da comunicação social.
 
   Talvez tenha chegado a hora de os dirigentes do Benfica usarem, no âmbito do seu enquadramento estatutário, a força política dos seus adeptos. Não falta matéria para tal, nomeadamente, no âmbito das políticas públicas desportivas; como o maior agente desportivo nacional e o mais representativo, o Benfica pode e deve, não só apresentar propostas de âmbito nacional, mas também escrutinar as políticas públicas e disso dar conta aos seus associados, adeptos e simpatizantes.
 
Só a estratégia do poder funciona.
 
Peniche, 25 de Março de 2018
António J. R. Barreto

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