sábado, 4 de agosto de 2018

O contexto político do Benfica

     
Apesar do reconhecimento geral da democraticidade do Benfica, quer na vigência do Estado Novo quer posteriormente, os mentores dos seus principais adversários insistem na "velha" retórica que o classifica de "clube do antigo regime", afinal, uma dupla justificação, para os seus fracassos de então e, simultaneamente, para os seus sucessos posteriores, estes, resultantes, segundo eles, do advento da democracia.
 
   Nem uma coisa, nem outra; nem o clube encarnado beneficiou dos favores do Estado Novo nem a democracia política impediu a turbulência que emergiu no mundo do futebol luso e que veio a culminar com o processo, a todos os títulos indecoroso, do apito dourado.
 
   Contudo, tal "engenharia" comunicacional tem-se revelado eficaz, sobretudo em certa comunidade político-desportiva, ao manter, permanentemente, numa espécie de "nevoeiro", a ideia de incompatibilidade entre a democracia e o Benfica.
 
   As vitórias do Benfica funcionam, para os seus adversários, como um instrumento de pressão sobre as entidades que tutelam o futebol, denunciando o que consideram sintoma de deriva autoritária do regime. E funciona!, certos quadrantes políticos, receosos de serem rotulados de "salazaristas", mantêm uma olímpica indiferença perante os sucessivos distúrbios a que se tem assistido no futebol nacional, configurando o que classifico como cumplicidade passiva. Ainda recentemente, sucumbindo à desilusão de mais uma derrota, o dirigente de um clube rival do Benfica, apelidava a respetiva competição de "liga Salazar"! Nem na esfera das instituições desportivas, nem na governativa houve qualquer reação de reprovação ao autor das infames declarações. Pelo contrário, o silêncio funciona como anuência para com o detrator incentivando-o à prossecução de tais métodos. Algo que, afinal, não surpreende quando olhamos mais de perto para as afinidades explícitas ou implícitas entre o infamante e os dirigentes daquelas instituições.

   Implicando com tudo isto, no caso concreto do Futebol Clube do Porto, há uma particularidade, a mau ver única, no panorama nacional: a dimensão política. Este, é um clube politizado, na medida em que serve fins eminentemente políticos através do desporto. O envolvimento dos seus dirigentes, onde se cruzam notáveis da politica partidária, da banca, da economia, de instituições empresariais e da administração pública, na causa da regionalização, ainda que, por vezes, discretamente, não deixa dúvidas a este respeito.

   Os muitos episódios algo caricatos que têm vindo a público mostram que "a causa" da região se propagou aos organismos públicos locais - e, também, aos nacionais -, concitando a militância dos aderentes, consubstanciada num comportamento de não colaboração e de interpretação mais favorável das leis e regulamentos, por mais absurda que seja, justificada por um "desígnio superior", restritamente partilhado.

   É curioso verificar como os que acusam o Benfica de envolvimento cúmplice com o antigo regime, usam, agora, a sua capacidade de influência política junto dos aparelhos estatal e partidários para o "desbravamento" do caminho do sucesso desportivo. Um exercício de hipocrisia e cinismo flagrantes.

   Refém da sua própria grandeza,  o Benfica, vive entre a inveja e o ressentimento dos adversários e o desconforto partidário - o clube encarnado tem mais sócios que todos os partidos políticos juntos têm de militantes -, perante a sua capacidade agregadora, inconveniente à nova ordem inscrita nos seus propósitos.

   Por tudo isto, é minha convicção que o Benfica tem um problema político - que se revela no funcionamento das instituições; PSP, Judiciária, Ministério Público, Tribunais, etc. -, que deve enfrentar, questionando frontalmente os diretórios partidários, e mantendo os seus adeptos informados do resultado dessas diligências.

   Na vertente normativa e dado o impacto desportivo do clube encarnado, deve, este, manter-se atento às iniciativas governamentais e das tutelas desportivas, analisando, discutindo e propondo medidas conformes à sua visão do interesse geral.

   Esperar pelo reconhecimento voluntário de adversários e dirigentes, como se tem visto, é má política; ao mínimo distúrbio, ainda que com origem diversa, quer os meios de comunicação, quer as autoridades, tratam de meter os dirigentes e adeptos do Benfica mesmo saco, sem constrangimentos de consciência.

   Em resumo; a paz deve ser conquistada, e nunca será outorga de quem quer que seja.

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