Desporto

domingo, 20 de setembro de 2026

Capim em Chamas

 

Capim em chamas

de

Cyprian Ekwensi


Não é sobre guerra, como pensei; é sobre África. Descreve de forma simples e atrativa, o quotidiano de uma tribo nigeriana, os Fulani. Os Fulani são uma tribo nómada que vive da criação de gado, caprino e bovino e agricultura de subsistência. Alimentam-se à base de farinha de milho e leite, carne e peixe.


Tratar do gado, mantê-lo junto e seguro, conduzi-lo de pastagem em pastagem é a sua “ciência” mais valiosa. A distinção de alguém mede-se pelo número de cabeças de gado que possui. Queimar o capim é o método que usam para garantir o rejuvenescimento das pastagens. Os rios são as suas vias prediletas, onde o gado se dessedenta e os pastores fazem a sua higiene pessoal.


Vivem em cubatas, que levam consigo quando se deslocam. Os laços familiares são muito fortes, cabendo à mulher as tarefas domésticas e aos homens o pastoreio. Todos contribuem. O conhecimento transmite-se de pais para filhos e estes reverenciam-nos. Reverência que se mantém ao longo da vida, mesmo quando se emancipam, formam o seu próprio rebanho e partem para longe.


Tratam as doenças com mezinhas caseiras à base de plantas. O chefe, escolhido, da tribo, dirime os conflitos internos e defende-a de ameaças externas. Têm mitologia própria a que recorrem para entender certos fenómenos da vida pessoal e coletiva.


Para noivar, um rapaz tem que se submeter ao sharro, cerimónia realizada ante a tribo, ao som de música e com as candidatas preparadas, em que aquele tinha direito a escolher noiva desde que suportasse, sem queixas, as chicotadas do rival.


Uma rapariga só estava, formalmente, comprometida, quando entrasse na cubata do rapaz. Até lá era livre. Por sua vez, uma escrava, geralmente prisioneira de uma tribo rival, deixava de o ser no momento em que dava à luz. O pai do noivo negoceia com o pai da noiva o “preço” desta em cabeças de gado.


À semelhança das sociedades atuais, as populações rurais desconfiam das gentes que viviam nas cidades. Tinham um certo desprezo pelo seu modo de vida. Contudo, há grande hospitalidade entre as tribos dispersas pelo território.


Frases curtas, impecavelmente pontuadas, com os diálogos muito bem sinalizados, por vezes algo ingénuos. Para mim, uma bela lição de sintaxe e humanidade.


Transcrevo um trecho que me cativou:


Jalla sentou-se. Com os joelhos afastados e as mãos apoiadas no cajado. Passeou os olhos pela pastagem. Era estranha a maneira como esta grande extensão de mato se comportava:nos dias de feira, os caminhos estariam cheios, mas, em dias como este,o Sol batia no capim, nos espinheiros e nas gardénias, e nem uma alma perturbava a quietude os caminhos escaldantes”




Peniche, 20 de Setembro de 2026

António Barreto