domingo, 28 de outubro de 2012

Alberto Buela



(Extrato da entrevista de Duarte Branquinho em “O Diabo” de 16.10.2012) 

Alberto Buela, filósofo Argentino e professor catedrático, em Lisboa no dia 6 de Outubro a convite Conselheiro Científico da revista “Finis Mundi” , Flávio Gonçalves, deu uma interessante conferência sobre a Teoria da Dissidência, da qual passo a transcrever as  as mais interessantes. 
OD: O que o trouxe aqui?
“…vim pelo vinho verde, que é melhor que champanhe!...Também já provei bacalhau, que é um peixe de ricos. Os portugueses são ricos, agora se tornaram pobres, mas que não perderam o bom gosto, o que é fundamental. …vim a Portugal…,porque sempre me interessou o mundo português, depois porque queria conhecer um filósofo português, porque a seguir à guerra eram todos marxistas….” 
OD: O tema era a Teoria da Dissidência. De que se trata?
Trata-se de utilizar a dissidência como um método para terminar com a Teoria do Consenso, com o pensamento único, com o politicamente correto. A primeira exigência é a preferência de si mesmo. Saber quem somos, dizer ao outro quem somos e esperar que nos diga quem é. É um sistema de valores, que são polares em termos filosóficos. Quer dizer, temos que preferir um ou outro, não podemos querer os dois. A seguir temos que fazer uma recuperação das tradições nacionais, reencontrar o nosso “genius loci”. A dissidência, mata o simulacro em que hoje vivemos. 
OD: Falou sobre a Universidade hoje e a ultraespecialização. É um grande problema?
Sim. As Universidades perderam o sentido, produziram investigadores da “imortalidade do caranguejo”, ou seja, grandes especialistas no mínimo. 

OD: Acha que chegará de novo um tempo para os grandes pensadores, para os verdadeiros filósofos?
Não sei o que se passará no futuro porque o vou de Minerva, que é o simbolo da filosofia, parte quando a realidade já se pôs, ao entardecer. Por isso,nós, os filósofos, cada vez que falamos do futuro enganamo-nos. Já sobre o passado somos os melhores…Mas este tema, o do filósofo como aquele que tem uma visão do todo, que tem um pensamento especulativo, pertence agora aos jornalistas.
OD: Como assim?
Os jornalistas são os novos filósofos. A Revolução Francesa matou os filósofos e substituíu-os por ideólogos. A sociedade de consumo matou os ideólogos e substituíu-os por jornalistas e artistas. É aquilo a que chamo a pátria locutora. Os jornalistas têm que falar ou ficam sem trabalho. Um jornalista é um mestre de generalidades. É como um antigo filósofo, sem sê-lo. As circunstâncias obrigam-no a ser assim. 
OD: Porquê?
Porque o que emana da Universidade é um pensamento conformado, metodologicamente trabalhado. Esse pensamento é estéril e às pessoas não interessa a esterilidade. O público, que é quem manda no jornalismo, quer razões gerais. Por isso, um jornalista é um grande ensaísta. As pessoas querem isso, querem soluções gerais, querem coerência. Ora na Universidade, hoje em dia, nada se produz.  

OD: Qual é o pior aspeto da crise que atravessamos?
É a representatividade política. Os partidos políticos de há 50 anos para cá, mais ou menos, tomaram o monopólio da representatividade política. Claro que, como em qualquer monopólio, não permitem a participação de outros. Com o passar dos anos, este monopólio acabou por nos conduzir à crise terminal que estamos a viver.
OD: Era melhor no Estado Novo?
Ninguém pode contestar que Salazar foi uma das principais referências do Estado do bem-estar. Antes de Oliveira Salazar, nada! Como Franco ou Peron, ele inventa o Estado de bem-estar, que consagra os direitos de segunda geração: o direito ao trabalho, à reforma, às férias, à escolaridade das crianças, à saúde.
OD: E a seguir?
Por exemplo, na época de Soares, havia um compromisso. Não podemos comparar a representatividade dessa altura com a de hoje. Então ainda havia algum compromisso com o socialismo ou outras ideologias. Agora, os políticos estão apenas comprometidos com eles próprios e com os seus interesses. Hoje vivemos uma oligarquia partidária.
OD: É essa a causa de tantos protestos?
Sim. Quando falha a representatividade política, estalam os protestos. Quando a representatividade é nula, acaba-se na rua. Mas chegamos a um protesto sem conteúdo.
OD: Que pensa dessa vontade do povo?
O povo transformou-se no “público consumidor”. Chegámos ao máximo da sociedade de consumo. Os políticos de agora, Hollande, Sarkozy, Zapatero, Berlusconi, representam oligarquias fechadas. Um corpo endógeno que se alimenta a si mesmo. Por um lado retiram ao povo a representação política, por outro lado, recebe da sociedade de consumo um ataque às suas próprias convicções.
OD: O povo está viciado no consumo?
Hegel diz que o consumo é infinito. Há sempre algo mais a consumir. Há sempre um modelo novo, um mais recente. Se eu corro atrás do consumo, acabo por me tornar parte do público consumidor. Heidegger afirma isto também. Mas nós não podemos, porque o consumo está constantemente a tentar-nos. Estas sociedades opulentas, de massas, retiraram o caráter político ao povo. É por isso que cada vez que há eleições, se agitam os fantasmas do dinheiro, do trabalho, da recessão.
OD: É um jogo dos governantes?
O filósofo italiano Massimo Cacciari disse que os governos vivem do conflito. Vivem da paz aparente. Os governos pós-modernos limitam-se a administrar os conflitos, não os solucionam. O conflito é parte da sua própria existência.
OD: A atual crise económica é boa para eles?
Exato. É como para nós nos países sul-americanos, o tema da insegurança. Em Lisboa não se compara a taxa de criminalidade com a das cidades  sul-americanas, onde se mata diariamente por nada. A insegurança é, lá, uma política de Estado. Aqui é a crise económica. A política de Estado é garantir que não desapareça a conflitualidade.
OD:  A representação do peronismo era uma solução?
Sim, falo da dupla representação, ou do duplo voto. Era uma representação comunitária. A questão é que era necessário retirar o monopólio aos partidos políticos e dar uma parte à comunidade. Havia uma representação política e uma representação laboral. Mas isto, hoje, nunca será concedido pelos que detêm o poder. O que não significa que deixemos de propô-lo.
OD: Que acha das manifestações de rua?
A manifestação maciça nas ruas não tem eco se não tiver uma instituição que a contenha. No peronismo, o povo solto não existe. Apenas o povo organizado, em instituições sociais, em sindicato.
OD: Hoje, na Argentina, os sindicatos mantêm essa representação popular?
Na Argentina, os sindicatos são a única força que se opõe ao Governo. Em termos de representação, digo que há 13 milhões de trabalhadores e oito milhões estão sindicalizados.
OD: Mas não são sindicatos marxistas, como tantos que há na europa…
Não. Há alguns socialistas e até uns trotskistas, mas são pequenos. Os maiores são todos peronistas.

OD: Parece que Perón conseguiu que quase todos os argentinos se considerassem peronistas até hoje…
Costumo dizer que a diferença entre Salazar, Franco, Stroessner e Perón, é que os três primeiros estiveram no poder cerca de 40 anos, enquanto Perón esteve apenas de. No entanto, não há hoje um partido salazarista em Portugal, um franquista em Espanha, ou um stroessnerista no Paraguai, enquanto na Argentina quase todos são peronistas.
OD: Qual é esse mistério Argentino?
Perón criou instituições sociais. Aliás, fê-las criar, não as criou ele; criou as condições para que estas pudessem surgir. Foi um regime verdadeiramente popular.
OD: Como é que esse regime é visto pela esquerda?
Sempre como “fascista”, claro, com o discurso do costume…Mas o que acontece é que a esquerda quando vai a votos obtém um por cento, enquanto os peronistas têm 70 por cento. Nas últimas eleições presidenciais, por exemplo, os três candidatos eram peronistas.
OD: Como vê o discurso político hoje?
É um discurso que se compromete sem comprometer ninguém. Em campanha ouvimos dizer de vários políticos que vão fazer isto e aquilo. Mas depois, quando não fazem, a culpa é dos outros, do partido, etc. nunca é deles. É um compromisso que não compromete. É o cúmulo do simulacro.
OD: Geopoliticamente, acha que a América Latina e os países ibéricos deviam cultivar um entendimento?
Sim, houve pensadores extraordinários nesse campo, como Oliveira Marques ou António Sardinha, com todas as limitações do seu tempo. Portugal e Espanha, que é o que me interessa, que me afeta existencialmente, equivocam-se no caminho. Ninguém pode negar que um português ou um espanhol seja europeu. Mas não são europeus à maneira centralizada francesa. São outro tipo de europeus. Pode-se ser um europeu diferente sem ter que copiar o modelo francês. Nas últimas décadas, Portugal e Espanha copiaram esse modelo; têm um banco na Alemanha e um parlamento em Bruxelas. Já não são donos do seu destino. Imagine-se o poder de uma moeda conjunta entre os países ibéricos, o Brasil e a Argentina, por exemplo. O Brasil percebeu isto e assume agora um papel central no mundo hispano-americano, porque vê que Espanha não faz nada e Portugal ainda menos.
OD: Voltando a Salazar, como o vê enquanto homem e estadista?
Salazar foi o último político justo do Ocidente. Era um homem de uma integridade absoluta. Conheço até casos em que foram feitos pedidos para a sua santificação. Era um homem honesto e inteligente, que pensava pela sua própria cabeça. Salazar, como Perón, distinguiu claramente entre o político e a política. O político é o poder, a política é a organização do poder. Salazar era um mestre na organização do poder e ao mesmo tempo tinha uma ideia do poder. Foi um justo porque fez na sua altura tudo o que devia fazer, sabendo sempre que o que fazia era limitado ao seu tempo. Procurou a justiça social. Foi um católico no poder e, por isso, um pré-moderno. Um católico nunca endeusa o Estado, prefere a pessoa, o ser na comunidade.

AB

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