sábado, 22 de fevereiro de 2014

Contos Proibidos, por Rui Mateus; curiosidades II

Rui Mateus disse:
 
"Segundo Tito de Morais, todas as respostas que eu procurava estavam contidas no livro que era forçoso ler e divulgar, de Vitorino Magalhães Godinho, "O Socialismo e o Futuro da Península". Vitorino Magalhães Godinho era considerado em 1970, o "nosso teórico" mas, curiosamente, acabaria por cair praticamente no "esquecimento". Não será alheio a isto, mais do que o seu radicalismo, a sua oposição a Mário Soares, que ele considerava "não ter uma ideia consistente"....
 
"A precursora do Partido Socialista não tinha qualquer passado histórico. Nascera na década de 60 um pouco como quem regista uma patente por iniciativa de um grupo de conspiradores e de "operacionais" na sua maioria ligados à Maçonaria, e de alguns teóricos ligados ao PCP, como foi o caso de Salgado Zenha e do próprio Vitorino Magalhães Godinho. A evolução teórica do movimento mais de três décadas após a sua constituição, é assim essencialmente caracterizada mais por razões empíricas de conveniência dos seus operacionais do que pelas teses dos seus "ideólogos" ou pelos princípios doutrinários que emanam do socialismo democrático."...
 
A entrada (da Ação Socialista Portuguesa) na Internacional Socialista ter-se-á verificado em 1972, tendo sido o Partido Socialista fundado em 1973 em Bad Munstereifel, na República Federal da Alemanha sob os auspícios da Fundação Friederich Ebert, uma poderosa instituição de lobbyng através da qual a Alemanha promove os seus interesses por esse mundo fora, descobrindo e financiando aliados influentes.
 
Refere Mateus que, subsistia nos dirigentes do Partido Socialista um complexo de inferioridade relativamente ao PC, que os levava a fazer declarações mais para agradar à esquerda festiva pequeno-burguesa sem qualquer "noção dos acontecimentos históricos em que participavam", defendendo o Marxismo como "inspiração teórica predominante" contra qualquer tentação "social-democrata". Mário Soares parece ter sido, então, o fundador do conceito de "socialismo democrático", que lhe haveria de custar o menosprezo dos parceiros nórdicos, e que consistia numa sociedade onde os meios de produção seriam coletivizados ao serviço de todos, enquanto os poderes de decisão seriam democraticamente controlados pela base. Tal parece ter sido a razão do entendimento da necessidade de subalternização relativamente ao Partido Comunista por parte dos dirigentes Socialistas, com destaque para Mário Soares, que só não teria acontecido devido à "miopia" de Álvaro Cunhal e seus correligionários e não à oposição lúcida daqueles.
 
Mateus atribui aos socialistas e restantes forças democráticas de então o fracasso do estabelecimento de uma democracia em Portugal em 1945, pela incapacidade de relacionamento internacional, que teria conduzido o Partido Comunista à quase exclusiva implantação e que a tem inviabilizado. Exilado em França com o apoio económico do industrial Manuel Bullosa a título de serviços de consultadoria, influenciado pela plataforma unitária Mitterrand-Marchais, Mário Soares passaria a advogar o estabelecimento de um "contrato político" com o Partido Comunista dando lugar a um "pacto de governo", em reunião clandestina e restrita realizada em Paris em Setembro de 1970 entre os dois partidos. E foi este equívoco que esteve - está -, na génese das vicissitudes que ameaçaram e ameaçam a viabilidade do atual regime. À ingenuidade da adesão ideológica dos primeiros tempos, sucedeu o interesse estratégico, disfarçado de tolerância, apresentando-se o Partido Socialista perante a população, com a paradoxal função de charneira política, o inviável fiel da balança; simultaneamente, a esperança da contenção do avanço comunista e a esperança das progressivas conquistas socialistas. Um logro, afinal. Seria, por sinal, Salgado Zenha, o primeiro a perceber e denunciar o perigo da colonização comunista, opondo-se veementemente à unicidade sindical, o que lhe valeria o afastamento progressivo do velho amigo Mário Soares e uma posição cada vez menos relevante no partido, até à autoexclusão. Zenha não vendeu a alma. Honra lhe seja.

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