sábado, 27 de setembro de 2014

A farsa do choque tecnológico

Quando José Sócrates anunciou o choque tecnológico como principal desígnio económico do seu governo, percebi que viriam tempos difíceis para ao Técnicos nacionais. Passados cerca de sete anos, posso dizer que não me enganei. Entendamo-nos; entre muitas outras, uma das debilidades do nosso aparelho económico reside na baixa qualificação técnica dos nossos trabalhadores, e, já agora, dos empresários. Por isso, a qualificação contínua de técnicos, gestores e empresas é necessária aos ganhos de produtividade e valor acrescentado que nos permitirão aumentar os salários, os lucros e assim contribuir para a felicidade das pessoas e para o equilíbrio das finanças públicas. Só que a reduzida eficiência geral da formação profissional em curso acaba por produzir efeitos contrários. De facto, a centralização na capital dos centros de formação, as propinas muitas vezes extorsionárias, o nalguns casos anacronismo dos conteúdos e a infantilização vexatória geral com formadores muitas vezes sem percurso profissional relevante, acaba por produzir efeitos perversos e muito graves. Assim, o processo em curso fomenta a  exclusão profissional e social afastando milhares de Técnicos da sua profissão lançando as suas famílias no desespero, concentra a oferta de serviços técnicos na capital em prejuízo do resto do país, à excepção do Porto e uma ou outra cidade, condenando o resto do território à desertificação cada vez mais profunda. Esta realidade constitui nada mais nada menos que uma violação grosseira de dois dos princípios nucleares da democracia, a igualdade de oportunidades e a abolição da posição económica dominante, consagrada constitucionalmente, imputando aos governos a responsabilidade da correspondente garantia. De facto, Técnicos e Empresários vivem "apavorados" perante a incapacidade de planearem as respectivas carreiras profissionais e empresariais, graças à sucessão de novas exigências, muitas vezes sobrepostas, que os colocam alternada e sucessivamente dentro e fora do sistema, para gáudio do lóbi da formação e afins que assim vão enchendo os bolsos, constituindo, afinal, mais um imposto indireto que um serviço.
      A formação e certificação deve ser profissionalmente relevante e acessível a todos reconhecendo as competências adquiridas no terreno, recorrendo a métodos presenciais e não presenciais e parcialmente financiada pela UE, contrariamente ao que se verifica actualmente nalguns sectores, como, por exemplo o da refrigeração, onde Técnicos e Empresários tudo pagam, afinal, para salvação do planeta!
      Constituindo a tecnologia avançada uma das áreas económicas de maior rentabilidade, característica dos países mais prósperos, e ideia do choque tecnológico seria boa se tivesse convocado especialistas económicos e universitários, capitalistas e governo, para a concepção, fabrico e comercialização global dos equipamentos e sistemas decorrentes. Como fazem, por exemplo, alemães, holandeses, suecos, noruegueses, franceses, ingleses, dinamarqueses, italianos, belgas, etc. Mas não!, demagogicamente, hipocritamente, atiraram-se aos Técnicos para mostrar serviço, quem sabe, ao já designado "partido invisível".
      Tudo isto vem a propósito das declarações no Correio da Manhã de hoje (pág. 47) do Bastonário da Ordem dos Engenheiros, segundo as quais a redução crescente dos alunos da área da engenharia se deve "à desvalorização da engenharia na sociedade" , à incapacidade das escolas "cativarem os alunos para as áreas tecnológicas", referindo o exemplo da série "Morangos com Açucar" onde diz não haver um único personagem interessado em Engenharia e finalmente, imputando ao Ministério da Educação a responsabilidade pela não inclusão na sua página infocursos das áreas de engenharia. A tudo isto acrescento eu que, quem destruiu o Ensino Técnico estigmatizando-o ao destinar-lhe os alunos mal sucedidos, não deve aspirar ao sucesso de qualquer "choque tecnológico" de meia tijela.
      Quem é incapaz de sobrepor ao fascínio da Física da Matemática e do Português ao facilitismo das exóticas e inúteis áreas de papel e lápis, fomentando uma falsa economia do conhecimento sustentada na cultura pós-moderna que se tem difundido como uma praga, não pode ter aspirações a qualquer espécie de progresso tecnológico. Primeiro é necessário dignificar a actividade técnica a todos os níveis, sem as quais emergiria a barbárie, dignificar o trabalho e fomentar o respeito de cada um e das instituições por cada trabalhador honrado. E é nisto que consiste aa essência da democracia. Nem todos poderemos ser "Chefes de Mina" como referiu Mandela, mas nem só os Chefes de Mina têm direito à consideração geral e sem Mineiros, a mina não funciona.
      É exigir muito da 4ª República?    
 
(Foto de Vaco Grilo)
     

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