Desporto

domingo, 12 de fevereiro de 2023

A Democracia e o Benfica

 

A Democracia e o Benfica

 

   Acabo de ouvir, na BTV, o Treinador de futebol da equipa B do Benfica, comentando o jogo com o Estrela da Amadora - em que o Benfica perdeu por 1-2 -, e a respetiva arbitragem. O resumo do jogo comprova a fundamentação das suas críticas.

Descreveu ainda os casos dos últimos jogos em que a equipa participou onde erros grosseiros e capitais prejudicaram a equipa.

   Logo depois ouvi Carlos Louzeiro, o entrevistado do programa, dizer que há razão de queixa para o clube no jogo de futsal de juniores realizado ontem com o Sporting.

   Tudo isto depois do desastrado desempenho da equipa de arbitragem do jogo da Taça, com o Braga, de que resultou a eliminação do Benfica e contra o qual que se insurgiu Rui Costa, ainda no estádio.  

Por coincidência, a equipa é a mesma que assinalou um penalti, altamente polémico, no jogo em casa, para o campeonato, com o Sporting, de que resultou um empate e que o Benfica poderia ter ganho.

   Os casos de erros prejudiciais às equipas do Benfica têm sido recorrentes em todas as modalidades, verificam-se há décadas, e não se vislumbra que acabem tão cedo.

Ninguém, fora do universo do Benfica, estranha ou se indigna. Aceita-se como consequência natural da natureza humana e consideram-se os protestos falta de desportivismo dos dirigentes e adeptos do clube.  

De tal modo que, perante a passividade das instituições tutelares das diversas modalidades, para o adepto comum do clube encarnado, prevalece a ideia de conluio entre todos, no sentido de criar obstáculos espúrios ao desempenho desportivo das suas equipas.

   Porém, o problema é bem mais vasto e grave, alastrando à sociedade em geral. Ante a adesão maciça dos adeptos benfiquistas aos jogos do seu clube, as autoridades públicas cruzam os braços perante as múltiplas restrições que lhes são impostas por vários clubes adversários!

São os elevadíssimos preços dos bilhetes praticados, são as proibições do uso de adereços alusivos ao clube, são expulsões de adeptos das bancadas com o jogo a decorrer, por alegado ruído excessivo e, mais recentemente, assistimos à estúpida restrição de acesso aos estádios, selando setores importantes das bancadas!

Mas não é tudo; há cidades onde qualquer adepto que assuma o seu benfiquismo corre sérios riscos de segregação social e até de agressões físicas. Há até casos de homicídio, consequência de ofensas corporais!

   Isto dura há décadas e, habitualmente, atribui-se esta anormalidade há imaturidade do regime democrático. Cheguei a pensar o mesmo, mas não hoje. Já o referi em vários textos; o regime tem um problema com o Benfica; é política a causa primordial desta perseguição. O regime jamais consentirá um Benfica forte como no passado, já remoto.

   Esse problema reside na, ainda”, fobia de certos partidos ao salazarismo, que, por sua vez, radica na má consciência que têm da trajetória económica e social do país. Quase cinquenta anos depois do vinte e cinco de abril, constatamos o empobrecimento relativo de Portugal, o endividamento absoluto crescente - o défice comercial atual é idêntico a da primeira década do século XX - cerca de 20 mil milhões de euros por ano -, a dependência das transferências comunitárias e da imigração, alternativa à baixa taxa de reposição populacional e à emigração.

   Uma parte considerável dos portugueses, não quer ter filhos nem viver em Portugal. Perdida a independência nacional, é a continuidade da nação portuguesa, do povo português, que está ameaçada. Mas não para os que querem mudar a matriz cultural da população.

    O Benfica é vítima da hostilidade silenciosa, implícita, de certos partidos progressistas, que o consideram um símbolo do salazarismo. Não lhe perdoam ter suscitado a admiração geral no mundo do futebol, pela excelência do seu futebol, com equipas de multirraciais e pluricontinentais. Para eles tratou-se de propaganda do regime de então, de que o clube teria sido cúmplice.

   As reformas dos códigos Civil e Penal, que anularam as provas contra Pinto da Costa no caso do Apito Dourado conduzindo à sua absolvição, a impunidade dos membros dos superdragões alegadamente envolvidos em desacatos, a rejeição da Providência Cautelar dum Tribunal do Porto, no caso dos emails, de que resultou o enxovalho público do clube e severos danos reputacionais e patrimoniais, a incapacidade de responsabilizar civilmente e criminalmente os mentores deste mesmo caso, apesar das suspeitas gerais, por falta de provas ou por desinteresse nelas, etc., etc..

   Tudo isto me ocorre no imediato, sem esquecer da prisão de dois ex-presidentes do clube, um deles, na prática, condenado ao exílio, sob pena de passar o resto dos seus dias na cadeia caso regresse ao país. O outro, enxovalhado na Comissão de Inquérito Parlamentar ao Novo Banco, como se tivesse sido ele, e não o Governo, o culpado da injeção dos quase quatro mil milhões de euros no respetivo Fundo de Resolução. É demais para ser coincidência!

   Devo dizer porém, que por absurdo que possa parecer, antevi problemas para o Benfica quando o Partido Socialista formou governo em 2015. E não é por ter dotes premonitórios, mas por muito ter visto e lido.

    A centralização dos direitos desportivos e das receitas de bilheteira de que se fala atualmente, e que sucederá se o Partido Socialista continuar a governar o país, não passa de mais uma manobra para socializar as receitas do clube e de o enfraquecer desportivamente. Os atuais dirigentes dos órgãos desportivos tutelares, não são confiáveis para tal tarefa.

   Por tudo isto, e mais a temática da regionalização, que ficará para abordar em outra ocasião, defendo que o Benfica só terá sossego quando a sua dimensão social tiver tradução política.

   É necessário que o clube elabore um plano sustentado, estruturado e fundamentado de abordagem sistemática do espaço público onde todos estes temas sejam apresentados e debatidos, bem como responsabilizar criminalmente e civilmente todos os que infringirem a lei em prejuízo do clube, sejam eles quem forem.

Está demonstrado que a política de contenção e cordialidade praticadas por Rui Costa e pelo seu antecessor, não funciona. Infelizmente. Por medo ou cumplicidade a Comunicação Social não denuncia estas situações, os órgãos tutelares desportivos  punem o clube e seus dirigentes quando protesta, o Governo faz vista grossa e os partidos não querem “sujar” as mãos, exceto para partilhar os louros dos sucessos que, apesar de tudo, por mérito ou vergonha, por vezes ocorrem.

   A omissão das entidades públicas, desportivas, governamentais e judiciais, nesta área, lesa a qualidade da democracia, por subtrair direitos e liberdades das pessoas e ser potenciadora de violência, de nada servindo, depois do facto consumado, alardear indignação, castigando a vítima, que é o que tem sucedido.


Gimnáguia 2022

Peniche, 12 de Fevereiro de 2023

António Barreto    

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