sábado, 11 de outubro de 2014

O abraço da jibóia

      A imagem do polvo, com seus tentáculos e múltiplas ventosas e sensores comandados por uma mesma cabeça, tem sido usada com propriedade para ilustrar o designado "sistema" que domina o futebol há décadas, mas os últimos acontecimentos em torno da Liga mais fazem lembrar uma gigantesca jiboia e seu abraço fatal, que tritura, asfixia, devora e digere ou regurgita.
 
      Mário Figueiredo tem um óptimo projecto para o futebol  que consiste na defesa da independência e crescimento económico dos clubes, requisitos sem os quais não haverá nem a credibilidade nem a competitividade de que esta actividade carece para se tornar economicamente viável. Corajoso e determinado, com formação e experiência sólidas em Direito Desportivo, conhecedor das manobras de bastidores onde quase tudo se resolve, Figueiredo está prestes a ser "engolido" pela tal jiboia que pacientemente o imobilizou e se prepara para o devorar e regurgitar longe, fragilizado e inofensivo, perante a cobardia de dirigentes dependentes do sistema, a hipocrisia de jornalistas falsamente defensores  do futebol e a cumplicidade institucional falsamente zelosa do interesse público.
 
      As conversações em curso da maioria dos Presidentes - o do Sporting, o do Nacional e o do União da Madeira estão de fora - está viciada e condenada ao fracasso pelo ambiente de chantagem em que se realizam e que favorece uma das partes. Tal ambiente foi criado, em primeiro lugar pela asfixia financeira da Liga e dos clubes pela ausência de patrocínios resultante da omissão de decisão da Entidade Reguladora quanto ao tema dos Direitos Desportivos. Em segundo lugar, pela ameaça sistemática do Governo de cessão do Estatuto de Utilidade Pública à Federação agora intensificada pelo Instituto Nacional do Desporto ao exigir àquela o pagamento das verbas para o Fundo de compensação Salarial que a Liga falhou (veja-se bem o cinismo). Em terceiro lugar pelo recente anúncio pelo Conselho de Justiça da Federação em avançar com um inquérito disciplinar a Mário Figueiredo  por declarações, supostamente ofensivas que terão sido produzidas por este em 2012 (o mesmo Conselho de Justiça que suscitou a indignação geral ao anular a condenação do Boavista e de Pinto da Costa por tentativa de corrupção).
 
      Sabemos da imperiosidade da pacificação do futebol, mas também sabemos, por décadas de exemplos, que tal só é possível sujeitando o futebol aos interesses do Porto e do Lóbi nortenho. Estão pois criadas as condições para que tal aconteça! Nunca antes um Governo mexeu uma palha para acabar com as trapalhadas do tipo das tornadas públicas no âmbito do processo do "Apito Dourado" e que além de terem distorcido por tão longo período a verdade desportiva, enxovalharam por muitos anos o futebol nacional perante a comunidade internacional.
 
      O caso é que os poderes instituídos reconhecem em Pinto da Costa não um singelo líder desportivo mas um líder político com a missão de, pelo desporto em geral e pelo futebol em particular, identificar e delimitar essa invenção do Norte e propugnar pela sua emancipação do anacrónico poder central. Errado!, ao futebol o que é do futebol e à política o que é da política.
 
      Pinto da Costa está no fim do seu ciclo desportivo, é um homem doente e, talvez até amargurado, precisa de sair...mas tem que sair por cima. Da condenação já se livrou!, agora só tem que ganhar e para que isso aconteça Mário Figueiredo tem que ser afastado sob pena de retorno do futebol profissional à Federação, onde Fernando Gomes, zelosamente, habilmente, garantirá os pressupostos da "legalidade institucional", restituindo, o poder ao sistema.

      Ganhando o campeonato em curso, anunciará com relutância a sua saída à qual se seguirá a inevitável nomeação para uma qualquer comenda, proposta pelo seu amigo e atual Presidente da respectiva Comissão e membro do Conselho Consultivo da SAD do seu clube, por "altos serviços desportivos prestados à Nação", para embevecimento de uma população reconhecida e civicamente entorpecida pelos alegados sucessos.
 
      Aplaudo a posição de Bruno de Carvalho nesta matéria, consciente de que o seu clube nada tem a perder e, por enquanto, dou o benefício da dúvida a Filipe Vieira por considerar que pretende mudar o sistema por dentro, consciente de que tal se me afigura inviável. Tal como disse Carlos Pereira, o atual Presidente da Assembleia Geral da Liga, está em jogo o domínio do futebol para a próxima década que, pelos vistos, o poder se prepara para assegurar ao Porto, ironia das ironias, para garantir a normalidade e a utilidade pública desportiva da Federação!

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