Hugo Gaspar: “Oito meses a trabalhar para este título”
O capitão da equipa de Voleibol do Sport Lisboa e Benfica, Hugo Gaspar, era, naturalmente um homem feliz, mas iniciou a conferência de imprensa a analisar o que se passou na quadra.
“Foi uma final muito equilibrada com duas grandes equipas, mas no fim o Benfica foi melhor. Demonstrou durante a época, pois ganhou as duas fases regulares. Não pode haver dúvidas que fomos melhores”, sustentou.
O oposto revelou o estado de espírito vivido no seio do plantel benfiquista. “Estivemos oito meses a trabalhar para este título.
Demonstrámos em campo, fizemos mais pontos que o SC Espinho. Só temos que estar contentes, foram oito meses de trabalho com muitas complicações durante a época. Somos Campeões e estamos de parabéns”, realçou.
Tal como Roberto Reis, também Hugo Gaspar não esqueceu os que lhe são mais próximos no momento da celebração. “Dedico à minha mulher e à minha filha que saem muitas vezes prejudicadas pelo tempo que gasto no Voleibol. A todos aqueles benfiquistas que estiveram aqui a gritar. Este título é para eles. Para o nosso presidente que é um exemplo para o Desporto nacional com o apoio que dá às modalidades”, sublinhou.
Juvenis A começam Fase Final com vitória robusta em Alcochete
Os atletas comandados por Renato Paiva começaram da melhor forma a Fase Final do Campeonato Nacional, ao venceram em Alcochete, de forma robusta, o rival Sporting, por 1-4. Numa Fase com apenas seis jornadas era importante começar bem e a equipa de Juvenis do Sport Lisboa e Benfica não podia ambicionar melhor entrada na prova. O desafio teve um Benfica dominador e a querer chegar cedo à liderança no marcador. Logo aos 4’ minutos Diogo David conseguiu mesmo colocar o esférico dentro da baliza “leonina” inaugurando o marcador. Os jovens “encarnados” não abrandaram o ritmo com o golo obtido e perto da meia hora, Romário Baldé, dilatou a vantagem para 2-0, resultado com que se chegaria ao intervalo. No segundo tempo, mais do mesmo. O jovem benfiquista Diogo David esteve em plano de destaque e voltou a encontrar, aos 50 minutos, o caminho da baliza “verde-e-branca”. Mas a vantagem não ficou por aqui, já que Iuri Gomes, aos 71’, aumentou mais os números em Alcochete. Já perto do fim, o Sporting conseguiu o tento de honra colocando o marcador nos 1-4 com que terminou o desafio. No outro encontro desta Fase Final, a equipa do FC Porto venceu, no Olival, o SC Braga por 0-2, colando-se com três pontos ao Benfica na liderança da prova. Na próxima jornada os dois primeiros classificados encontram-se num jogo marcado para o Seixal.
Aprecio o trabalho jornalístico de José Manuel Fernandes (JMF) por revelar características de livre-pensador, que muito prezo, à semelhança, por exemplo, de Henrique Raposo, Henrique Monteiro, Alberto Gonçalves, Vasco Pulido Valente, Maria de Fátima Bonifácio, João César das Neves, Medina Carreira e outros profissionais dos mais variados setores.
JMF envolveu-se intensamente na luta política estudantil no Liceu que frequentava em Lisboa, o Pedro Nunes, no período pré e pós 25 de Abril, jenuinamente crente na utopia socialista que, na época, alastrava nos estabelecimentos de ensino, alvo prioritário da "evangelização" comunista promovida pelo PCP, que transformou as escolas públicas naquilo que ainda hoje são; fabriquetas de guevarazinhos dependentes do erário público.
Com uma escrita cuidada e grande minúcia, JMF, dá-nos um panorama muito amplo das dinâmicas políticas no meio estudantil, das lutas entre as várias fações, do seu funcionamento interno e das características mais comuns dos respetivos militantes. Por lá andavam Zita Seabra na qualidade de dirigente da UEC - União de Estudantes comunistas -, a belíssima, malograda e esquecida Sita Vales - da célula da Zita -, Maria José Morgado, Saldanha Sanches e Durão Barroso - militantes do MRPP -, Nuno Crato, Jorge Costa Pinto, João Carlos Espada, Henrique Monteiro, Francisco Louçã, Miguel Portas...- PCP (R ou ML).
Uma das ilações que tirei deste testemunho, coincidente com a minha própria observação à época, é que, quem andava metido nestas molhadas eram predominantemente os filhos da classe média alta; ou filhos de funcionários públicos ou de pequenos e médios comerciantes ou industriais. Suportados por famílias mais ou menos abastadas, eram, geralmente, meninos com mesada, muitos deles com pópó, e culturalmente, um passo à frente dos filhos da arraia miúda. Operários, os grandes revolucionários da teoria marxista, eram espécie rara naqueles grupelhos. Porém, muitos deles pagaram corajosamente, bem caro, o preço da irreverência utópica. Muitos deles são hoje quadros partidários de relevo, alguns alcandoraram-se aos mais altos cargos políticos, outros são académicos de referência, ainda outros dedicaram-se ao jornalismo com distinção, escritores, poetas e até...mendigos! Hoje podemos ver, quer os seus atuais herdeiros políticos, quer alguns camaradas, debitando bastas baboseiras, cristalizados em conceitos retrógados, quase todos eles...professores universitários! Quem tinha de pôr o pão na mesa ou ajudar a fazê-lo, operários ou filhos pobres, preocupava-se em trabalhar e não ir bater com os costados nas matas de África.
Dá-nos conta, JMF, da ditadura partidária que impunha a todos os militantes a total sujeição ao partido em nome dos tais amanhãs que iriam cantar; o tal paraíso na Terra que, ainda hoje, alguns "esclarecidos" esperam alcançar. Muitos deles, como JMF, acabaram por "abrir os olhos" a partir desta realidade e do conhecimento do tenebroso Estalinismo bem como do tremendo embuste da Revoluçãio Cultural Chinesa.
Interessantíssimo o seu testemunho do 25 de Novembro que passo a citar, que muitos parecem ter esquecido e outros se têm encarregado de distorcer: (a partir da página 201)
"Os acontecimentos precipitaram-se quando, na madrugada do 25 de Novembro, os páraquedistas da Base aérea de Tancos se revoltaram e decidiram ocupar as bases aereas de Monte Real e do Montijo, e o Comando da Região Aérea de Monsanto. Houve também movimentações do RALIS, da EPAM (que ocupou a RTP) e da Polícia Militar (que toma a Emissora Nacional). O principal teatro do Drama foi contudo Belém, onde Costa Gomes manobra para evitar a guerra civil. O Estado de Sítio foi declarado na região de Lisboa e Otelo convocado pela Presidência da República, acabando detido em Belém e deixando o Copcon sem comandante. Ao mesmo tempo, as tropas fiéis aos moderados contra-atacavam. Os Comandos da Amadora, chefiados por Jaime Neves, retomavam, primeiro a Base de Monsanto e depois, o quartel da Polícia Militar, na Calçada da Ajuda, paredes meias com o Palácio de Belém. Foi aí que ocorreu o principal confronto. Houve tiros e vítimas mortais; dois homens dos comandos (o Tenente Coimbra e o Furriel Pires), um da Polícia Militar (o aspirante José Bagagem, que era militante da UDP e que nós tentaremos, mais tarde, transformar em herói).
Nessas horas, no momento decisivo, quando por todo o lado se antecipava a revolução, Álvaro Cunhal percebeu que a relação de forças não lhe era favorável e mandou parar as tropas que lhe eram mais favoráveis, com destaque para as da Marinha e, nestas, as de Fuzileiros. "Os Párequedistas tinham virado, tinham passado para o outro lado, os Comandos estavam na rua e só a Marinha se mantinha fiel à revolução - e só com a Marinha não se podia ganhar uma revolução", explicaram a Zita Seabra quando a mandaram desmobilizar as UECs que aguardavam ordem para avançar. Pouco depois, o próprio Álvaro Cunhal falaria aos principais funcionários do partido e disse duas coisas que a antiga dirigente da UEC guardou na memória: "que teve garantias de Melo Antunes de que não ia ser preso e que o PCP não ia ser ilegalizado. E recordou a obra de Lenine, "Um passo atrás, dois passos à frente" escrita nas vésperas da revolução de 1905. Íamos dar um passo atrás para no futuro podermos dar dois passos à frente"."
"Do nosso lado estava-se mais com as "Teses de Abril", pelo que ninguém deu ordem o major Tomé (que mais tarde viria a ser dirigente e deputado pela UDP) e aos outros responsáveis da Polícia Militar para não avançarem. Derrotados pelos Comandos, seriam presos e levados para a prisão de Custóias no Porto."
Ora com que então, o grande patriota Cunhal definiu a estratégia que perdura; "um passo atrás hoje para dar dois passos à frente amanhã"! Com o país falido, o primeiro passo à frente já foi dado pela mão dos sindicatos controlados pelo PCP; o segundo estão a tentar dá-lo agora, instigando a população à revolta. Haverá por aí algum herdeiro militar de Jaime Neves? Não há Democracia sem democratas!
Retomando JMF: " Caso tivésemos tomado o poder - ou o PCP tivesse tomado o poder - não duvido que os nossos devaneios mais ou menos adolescentes em breve se tornariam num pesadelo totalitário. Pesadelo de que também nós seríamos vítimas." "Eu não deixei de ser comunista para me tornar num socialista moderado. Eu não continuei a acreditar na bondade dos fins por que lutam os comunistas, fins que em boa parte são partilhados pelos socialistas e por todos os que se reclamam da herança marxista ou são de alguma forma seus herdeiros. Não me limitei a achar que os métodos estavam errados. A minha rotura questionou toda a doutrina e os seus fundamentos mais longínquos, e sinto que isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque não fui um mero companghon de route, fui antes um verdadeiro devoto, ou, como então se dizia, um devotado "soldado do proletariado"." "Estes estudos, bem como o posterior desenvolvimento da ciência, a psicologia evolucionista, acabaram naturalmente por me fazer afastar da ideia de um homem puro original que a sociedade teria estragado. Sem querer entrar aqui nas longas e interessantes controvérsias sobre "nature versus nurture" (natureza versus educação), algo se tornou claro para mim; a natureza humana não é intrinsecamente boa, e não é a sociedade que a estraga. Pelo contrário, é a civilização que permite aos homens aprender a limitar características naturais que vemos como anti-sociais, tornando-os também capazes de viverem de forma pacífica e colaborativa em sociedade."
Interessante, porém, regressam, agora com chancela científica, as velhas teses fundadoras dos fundamentalismos racistas que tantos danos têm causado à humanidade! António Barreto
Neste jogo, o Benfica mostrou, em definitivo, o famigerado e muitas vezes arredio, estofo de campeão. Sabíamos que a qualidade futebolistica do Benfica é superior à do Fenerbace, mas também sabemos que nem sempre ganha o melhor. E mais conhecemos como o futebol turco é difícil; agressivo, veloz, corajoso, apoiado, como o fator sorte por vezes é decisivo tal como o critério da equipa de arbitragem. Desta vez não houve buraco no nosso meio-campo; Enzo e Matic partiram a loiça toda dando luta sem tréguas ao adversário numa zona onde este fora muito forte no jogo anterior. Excetuando os minutos finais, o Benfica dominou por inteiro a partida chegando a mesmo a baralhar por completo a adversário, apesar de se pressentir a possibilidade do contragolpe.
Os nossos golos foram fantásticos! Todos! Jesus mudou a forma de Cardozo finalizar, passando este a previlegiar a precisão em vez da explosão como ficou bem patente nos dois golos que marcou. Bonito! Espetáculo! Porém, não menos soberbo foi o golo de Gaitan, o mágico que pede messas a qualquer Messi! Quem faz tal remate de trivela com a bola a sair na direção contrária à deslocação do alteta? Quem? Não conheço outro além de Gaitan! Isto é espetáculo! É benfica!
A equipa de arbitragem não esteve à altura, tendo feito demasiadas asneiras graves que poderiam ter decidido a eliminatória. Aceito a grande penalidade assinalada, tal como a bola na mão a passe de Lima, como aceitaria se a decisão fosse contrária. Dou-lhes o benefício da dúvida nestes lances mas não noutros; o fora-de-jogo não assinalado que antecedeu a GP, o puxão na camisola do Cardozo à entrada da área impedindo Cardozo de se fazer ao lance após ter ganho vantagem, o duplo derrube ao Enzo na área, que o impediu de disputar a bola, outro derrube ao Gaitan à entrada da área ainda na 1ª parte...enfim..mais uma quantas faltas mal assinaladas e alguns cartões excessivos. Mas onde terão ido desencantar estes marmanjos?
Obstáculo ultrapassado, confiançpa reforçada e vamos ao próximo com...prego a fundo!
Em janeiro de 2011, o Tribunal da Relação de Lisboa confirmou a decisão do tribunal de primeira instância.
Pinto de Sousa, presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, e outros 15 arguidos eram absolvidos no processo relativo à viciação das classificações dos árbitros. As escutas reveladas pela CMTV – e que hoje voltarão a ser mostradas em exclusivo – eram a principal prova do Ministério Público, que defendia a condenação. Aí, Pinto de Sousa e outros dirigentes, como Francisco Costa, António Henriques e Azevedo Duarte (todos membros do órgão), acertavam as classificações. Os árbitros subiam e desciam de categoria conforme o interesse dos dirigentes e não diretamente devido às classificações dos jogos que apitavam.
As escutas que a CMTV revelou mostram ainda que estas alterações também aconteciam nos árbitros de 1ª categoria. Uma outra conversa dá conta de que Pedro Henriques subiu um lugar de forma a justificar uma nomeação para a Taça de Portugal. Foi na época 2003/2004, quando o FC Porto ganhou à União de Leiria. Pinto da Costa queria aquele árbitro.
O padrão de superioridade intelectual assimilado recentemente pelo treinador transmontano levou-o a não resistir ao sublinhado "limpinho" depois da vitória importante sobre o Nacional. Para os paladinos da verdade desportiva, um golo decisivo em evidente fora de jogo à Maicon não passa de uma pequena nódoa, facilmente disfarçável, quando comparada aos roubos de catedral ou de Capela. Um fora de jogo a valer três pontos ao Sporting é uma capelinha tão pequenina como a confraria que julga poder escrever a história diferente do que ela é.
Antes de ler a primeira vintena das 183 páginas deste romance, pensei que me esperava uma tremenda estopada. Enganei-me!, fui ganhando entusiasmo crescente até final. A autora soube gerir a espetativa do leitor com mestria.
É uma Amália amargurada que aqui é retratada; uma amargura profunda e constante parece ter acompanhado toda a vida da nossa diva. Uma amargura difícil de explicar mas que talvez tenha tido origem na sucessão de rejeições que sofreu; falta dos pais até aos 14 anos sofrendo depois com a sua austeridade, casada "à força" com o ambíguo torneiro-guitarrista o "Chico" que mais tarde, cansada e despeitada, abandonou, depois amante do enfatuado tenista-banqueiro "Pitta" que, cioso do seu ascendente social nunca lhe propôs casamento tendo-a tratado geralmente com desdém. Ostracisada por uma sociedade implacável para com as "imorais" mulheres enganadas na sua "virtude" e para com o marginal e decadente mundo "fadista", Amália nunca encontrou o amor que tão ardentemente desejava, apesar dos inúmeros e extraordinários pretendentes que teve; Ricardo Salgado, Charles Aznavour, Porfírio Rubirosa, Anthony Quinn, Onassis, Pablo Neruda...nenhum lhe acendeu a chama da paixão! A sua irmã Celeste dizia-lhe que tinha medo de amar, e talvez tivesse razão, mas, julgo eu, não totalmente. Julgo que Amália sempre sofreu com a falta de carinho e reconhecimento de seus pais, comum nas famílias das classes baixas de outrora; quando um dia mostrou com orgulho à mãe, a Grã-Cruz de Santiago da Espada, esta limitou-se a responder que ela, sempre tivera geito para bugigangas! Deve ter doído! Bem sabemos como certos pais detestam ser superados pelos filhos.
Dizia que a vida passara por ela e, de facto, Amália limitou-se a ser o que era; uma beleza discreta mas poderosa, uma voz invulgar, uma dor vivida que sabia transmitir e uma inteligência emocional fora do comum. A sua carreira foi compulsiva! Amália a todos encantava! Talvez tivesse medo de amar, sim, mas...talvez não soubesse amar. Só uma pessoa profundamente egoísta, paradoxalmente insensível, seria incapaz de amar quem a amparou e acarinhou com desvelo até ao fim dos seus dias; o seu marido e companheiro César. Um grande homem! Amália não percebia a indiferença de César pela música mas, simultaneamente, não compreendia a paixão dele por arquitetura! De certa forma, Amália foi uma mulher moderna, tendo sacrificado tudo à sua carreira, fumando compulsivamente,"comandando" os seus amores, controlando a sua carreira e adaptando-se com sucesso às variadas circunstâncias, apesar da sua baixa escolaridade! Surpreende a total falta de alusão ao designado "instinto maternal" em tudo o que li sobre ela, quer neste romance quer em outros escritos. Curioso como tem sido ignorada a sua passagem , ainda adolescente, pela pensão do seu tio no Fundão, onde terá passado as "passas do Algarve", antes de regressar definitivamente a Lisboa.
Só já no ocaso da vida Amália entendeu que o tal grande amor porque tanto ansiara era, afinal...o Público! Em toda a sua carreira parece não o ter percebido! Não dá para entender! Ou melhor; Amália amava-se demasiado; necessitava de companhia constante, ou...teria apenas medo, o terrível medo que dela se apoderava à noite. O reconhecimento da importância do amor do Público, quanto a mim, funcionou como uma espécie de compensação pelo sentido fracasso do amor definitivo! Cá para mim, o grande amor de Amália foi...Alan Ulman! Não físico, mas de alma! Havia uma sintonia total entre eles na forma de sentir - Alan ofereceu-lhe a pulseira da mãe que Amália usava com devoção e a sua mulher acabou por se divorciar.
Amália e Alan revolucionaram o fado substituindo a tradicional passacalha por harmonias complexas e os textos de "faca e alguidar" pelos de grandes poetas; Camões, Bocage, Alberto Janes, Pedro Homem de Melo, David Mourão Ferreira, Alexandre O´Neil, Manuel Alegre...Interessante a justificação de Alan pela opção por poetas não vivos; os outros não teriam talento adequado! Isso conduziu-o à descoberta da literatura portuguesa, tendo arrastado Amália no processo. Alan, além de excelente compositor e pianista era editor de profissão, como tal, um homem de cultura por excelência. Engraçado; tal como atualmente na economia e no passado com a Ínclita geração, também no fado foi necessário um impulso externo para lhe proporcionar alguma grandeza! Também no traje fadista, Amália revolucionou! Foi dela a "invenção" do xaile e vestido negros sem grandes adornos além de um único brilhante, contra a, até aí habitual, vestimenta multicor com muito oiro à mistura das fadistas.
Estranhamente, tendo em conta a sua intuição e conhecimento do mundo, Amália só percebeu o verdadeiro sentido do "Fado de Peniche" quando o seu autor, David Mourão Ferreira, lho explicou zangado, apesar de o ter cantado muitas vezes. Nem o "Meu Amor Marinheiro" de Manuel alegre parece tê-la despertado para a realidade do País! O marido César, que financiara Humberto Delgado e Henrique Galvão, acusava-a de ter estado "demasiado tempo em cima do muro", aludindo à sua incapacidade de assumir denúncia do regime. Amália dizia-se apaixonada por Salazar ,mas não percebi que raio de paixão seria, a não ser a de adolescente pobre pelo chefe. Só a obcessão pelo fado e consigo própria terá justificado esta indiferença pela política, mas...não só; as diferenças sociais e políticas que teve oportunidade de vivenciar em todo o mundo seriam suficientes para despertar qualquer um que se preocupasse mais com os outros.
Contudo, Amália foi a grande embaixatriz de Portugal, tendo dignificado o Fado e o País por todo o lado! Graças a ela os nossos artistas de hoje têm facilitada a projeção internacional das suas carreiras, muitos deles, adotando parte do reportório amaliano; Mariza, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, Ana Moura...A propósito, Amália dizia que não tinha clube mas simpatizava com o Benfica por causa do Eusébio, que "era quase tão famoso como ela".
Graças à sua Secretária Estrela, Amália editou um livro de poemas seus originais. Distraída, desprendida das coisas materiais como dinheiro e jóias, adorava flores, entretendo-se a "roubá-las" à noite nos jardins de Lisboa, razão pela qual a Câmara local passou a enviar-lhe semanalmente, ramos de flores. Adorava o sossego da sua quinta do Brejão, conheceu e conviveu com quase todas as grandes celebridades da época; Gilbert Becaud, Edith Piaf, Cantinflas, etc. Queixou-se, no pós 25 de Abril, do abandono de alguns "grandes amigos" de outrora, como Ary dos Santos, com quem fizera grandes tertúlias, com outros grandes artistas, como Natália Correia, Maluda, Fontes Rocha, etc
Fiquei a conhecer os seus acompanhantes, os eternos quase ignorados; Armandinho, Jaime Santos, Raul Nery, José Nunes, Domingos Camarinha, Fontes Rocha, Carlos Gonçalves (guitarristas), Santos Moreira, Joel Pina e outros (violas) e o grande compositor Frederico Valério.
Façanhas foram muitas, as maiores das quais, quanto a mim, a sua atuação num concerto de música erudita em Roma no âmbito do programa Marshall, onde, tendo sido a única artista de música ligeira, sobrelevou todos os restantes e o seu triunfo avassalador no Olympia após início atribulado, que a tornou muito querida dos parisiences, tendo sido condecorada por Mitterrand com a Legion d'Honeur. O tardio agraciamento das autoridades nacionais desgostou-a; Marcelo Caetano condecorou-a com a Ordem Militar de Oficial de Santiago da Espada em 1971 e Mário Soares em 1990 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada, no Coliseu dos Recreios, finalmente, em 1998 é condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique. Silenciosamente, pelos anos 80, foi operada com êxito em Nova York a um tumor maligno no rosto, depois de ter recuado na decisão de se suicidar. E eu que pensava que tinha cedido às patéticas operações plásticas agora em voga! Pobre Amália! Cerca de dez anos mais tarde, viria a ser operada, ainda em Nova York a outro tumor, desta vez num pulmão, graças ao empenho do seu dedicado marido César que, não confiando no diagnóstico dos serviços de saúde nacionais remeteu os exames para os Estados unidos onde detetaram a maleita, que por cá passara despercebida!
Este livro, porém, deixou demasiadas pontas soltas, ignorando o destino das pessoas que foram ficando pelo caminho e descurando o enquadramento político-social da época. Mostra uma Amália doentiamente amargurada! Tanto que nem acredito! Não acredito que Amália tenha sido só amargura! Há certamente uma outra Amália que aqui não foi retratada, apesar de compreender que, tendo sido compelida a viver como viveu, por vezes, invadia-a a amargura de não ter podido escolher a sua vida; afinal o eterno dilema das opções que nos interpela a quase todos diáriamente.
Cardozo no Banco e John na esquerda. 4' penalti; falta por trás sobre Lima à entrada na área. O central deve ter tido medo de Lima e deu-lhe nos jarretos; penalti. GR para a esquerda e bola para a direita; grande Lima! 7'; falta à entrada da área e bola no poste direito do Artur; estava batido! Tivémos sorte. 9'; Matic viu luzes e ficou estatelado após uma bolada em cheio na cara, num remate frontal à entrada da área! Fónix! Até a mim me doeu! Enzo é um lutador incansável, apesar de talentoso; um raro caso de carregador de piano e solista. 19'; o Marítimo assentou o jogo e pressiona o Benfica mas sem grande perigo. André Almeida no lugar de Melgarejo só agora reparo. Sálvio é o espelho da equipa recupera a bola e transporta-a para a frente apesar das faltas sucessivas de que é vítima. André ganha um canto numa bela arrancada pela esquerda. O canto não dá nada. 24'; o Benfica pressiona alto com três homens. 26'; André sofre agressão feia nas canelas; sai cartão amarelo. 29'; novo cruzamento da direita do ataque do Marítimo. Ninguém aparece ao 2º poste. 31'; Marítimo controla o jogo e ameaça fazer estrago. 38'; John perde uma bola na área adversária por falta de rapidez. 39'; defesa do Marítimo corta in-extremis o que seria o 2º tento. 40'; Sami ia fazendo estrago de meia-distância; saíu ao lado. 41'; Sálvio salva ao 2º poste, cruzamento da direita. 41'30"; golo do Marítimo! Adivinhava-se! Fónix! 42'; o meio campo do Benfica continua muito permeável. 49'; mais um ataque perigoso do Marítimo; deu canto. 50'; Rodrigo isolado falha o golo por milímetros; remate cruzado da esquerda ao 2º poste. 52'; tiro de primeira de Lima à trave. 54'; mais uma bola no poste a remate de Lima após assistência da esquerda de John! Fónix! 59'; merda de campo; é tudo ao molho! 61'; tiro ao boneco na área do Marítimo. Sinto o jogadores do Benfica com falta de frescura física. 65'; canto do Marítimo, não deu nada. 66'; continua o tiro ao boneco! 69´; Marítimo montou o autocarro de 2 andares e faz anti-jogo. 71'; jogada em força de Sálvio pela direita, remate cruzado com defesa à ilharda e golo! Auto-golo. Fónix! 73'; Marítimo desmonta o autocarro e sobe no terreno. 75´; sai Rodrigo e entra Martins para dar estabilidade ao meio-campo. 76´; falta sobre Cardozo; penalti ficou no bolso do árbitro! Olha o Capela! 78'; Sálvio é um bravo! 79'; Cardozo falha a receção-remate por milimetros. 80'; Sálvio é o homem do jogo a defender e a atacar. 83'; luta feia no meio-campo. 85'; Marítimo ataca a bola com muita agressividade em todo o terreno. Benfica aguenta-se. 89'; O Benfica é a melhor equipa. 89'50"; entra Urreta sai Lima. 90'; grande defesa de Artur a cruzamento perigoso da direita. 91'; Cardozo leva amarelo depois de derrubado por trás, na área. 93'; acabou! O campeonato é nosso! Muita alegria nas hostes vermelhas; não é caso para menos! Atenção Jesus; devíamos ter acabado com o jogo ainda na primeira parte na meia hora após o golo! Carlos Martins faz falta no meio campo.
Apesar de tudo foi uma derrota lisonjeira! Três bolas na trave prenunciavam maior tragédia, contudo, é minha convicção que o Benfica tem argumentos para passar este adversário.
Os Turcos apresentaram-se como esperado; muita emotividade, muita intensidade e entreajuda em todo o jogo, com apreciável qualidade técnica e tática, procurando garantir superioridade numerica na disputa dos lances, bloqueando bem as nossas alas, abrindo a frente de ataque, recorrendo aos charutos sobre o nosso eixo defensivo procurando tirar partido da ausência de Luisão e ganhando quase todos os ressaltos.
O Benfica abordou o jogo com alguma contenção, pensando já no Marítimo - André Gomes e Aimar a titulares, ausência de Lima e Gaitan no 2º tempo -, esperando sempre marcar o golo da tranquilidade o qual esteve bem perto de acontecer quando a bola beijou o poste adversário rematada por Gaitan. O jogo com o Sporting tinha induzido elevado desgaste físico e mental nos atletas que pensaram, julgo eu, equilibrar a partida essencialmente no plano tático. A falta de reação após as bolas na barra e poste poderá sustentar esta ideia.
Após o golo, porém, o Benfica, aumentou a velocidade , subiu no terreno e foi à procura do empate que esteve perto de acontecer, primeiro por André, depois por Gaitan. Compreendo José Augusto quando afirmou que o Benfica teria empatado se tem sofrido o golo mais cedo. É bam capaz de ter razão! Por outro lado, há muito que José Augusto manifesta o seu desacordo pela opção da marcação à zona nos lances de bola parada, os quais já nos custaram alguns dissabores, como foi o caso deste, na sequência de um canto mal assinalado. Estou inclinado a concordar.
Quanto a mim, o Fenerbace jogou tudo o que pode e o Benfica não jogou tudo o que sabe e é com base neste raciocínio que acho que temos condições efetivas de ultrapassar mais este adversário. Assim seja!
Historiador Ricardo Serrado defende que o futebol não foi um dos “efes” do Estado Novo. E também assegura que não houve um clube do regime.
O futebol esteve longe de ser um veículo de propaganda do Estado Novo, que até atrasou o desenvolvimento da modalidade. Eusébio só não saiu de Portugal mais cedo porque tinha de ir à tropa. E não houve um clube do regime, embora o Sporting tenha sido o emblema que teve mais figuras ligadas ao poder. Estas são algumas das ideias defendidas pelo historiador Ricardo Serrado, no livro O Estado Novo e o Futebol, recentemente publicado.
PÚBLICO: No seu livro contesta a ideia de que o Estado Novo se ancorou nos três efes: fado, futebol e Fátima. Porque diz isso?
Quando parti para a minha tese, que serve de base a este livro, ia com a ideia comum de que o futebol tinha sido intensamente politizado e instrumentalizado neste período. Desde que me lembro, ouço dizer que Portugal era futebol, fado e Fátima. Para grande surpresa minha, apercebi-me que as coisas não eram de todo assim. O futebol não foi instrumentalizado, da forma como se diz. Nem há provas, documentos ou indícios de que o futebol tenha sido politizado durante o Estado Novo. E apresento neste livro vários argumentos que suportam esta ideia, como o facto de o futebol não ter sido profissionalizado mais cedo. E podia tê-lo sido, porque logo desde a década de 1920 ganhou uma importância social muito grande, mas o Estado Novo, ainda nos princípios da década de 1940, proíbe o seu profissionalismo.
Porquê?
Porque a ideia que o Estado Novo tinha do futebol, e do desporto em geral, era que deveria ser amador, ao serviço da nação, da educação física, para o cultivo do corpo. O desporto de espectáculo, de massas, era amplamente condenável para o Estado novo. E apresento vários documentos dessa intervenção, no sentido de impedir que o desporto fosse um espectáculo, um entretenimento ou uma profissão. O Estado Novo nunca apostou no futebol, antes pelo contrário.
Apesar desse travão do Estado Novo, o futebol continuou a ser a grande modalidade. Podemos dizer que o Estado Novo não foi nesse capítulo muito bem sucedido? O ciclismo foi a modalidade rainha no final do século XIX e início do século XX, mas a partir de 1910, sobretudo em Lisboa e depois no Porto, o futebol ganha grande pujança. A partir da década de 1920, o futebol tem já um modus operandi e características que hoje em dia identificamos como fenómenos de massas: a agressividade dos adeptos, a contestação à arbitragem e os campos cheios de gente. Antes do Estado Novo surgir, já o futebol era o desporto-rei.
O Estado Novo tentou mais controlar o fenómeno do futebol do que aproveitar-se dele para a sua propaganda? O Estado Novo definiu uma política desportiva concreta, que era consonante com o resto da sua política. Sendo um regime autoritário à imagem do seu líder (reservado, que não ia em convulsões), e não tanto regime de massas como o fascismo italiano e o nazismo, o Estado Novo adapta o modelo fascista à realidade portuguesa e às ideias do seu líder. E no desporto segue essa linha. O desporto devia servir para educar, civilizar, desenvolver os valores defendidos pelo Estado Novo, que era completamente contra as massas e a profissionalização de qualquer modalidade. O nazismo usou os Jogos Olímpicos de Berlim 1936 e o fascismo italiano o Mundial de futebol de 1934. Não detectou nenhuma pulsão do Estado Novo para aproveitar por exemplo das conquistas europeias do Benfica na década de 1960 e dos bons resultados da selecção no Mundial 1966? Existe algum aproveitamento, mais como consequência. As coisas aconteciam. O Estado Novo não as potenciava, mas colava-se a elas. Um pouco como acontece actualmente… Sim. Quando o Benfica foi campeão europeu e a selecção ficou em terceiro lugar em 1966, a ideia era que não era o Benfica ou a selecção, mas sim o país. Aí o Estado Novo faz algum aproveitamento, mas é algo natural e espontâneo num governo que quer chamar a si alguns desses feitos. Não considero que seja um aproveitamento planeado. Foi algo que aconteceu e espontaneamente aproveitou para promover o país. O clube que teve mais personalidades ligadas ao regime foi o Sporting. Mas não estou a dizer que o Sporting era o clube do regime ou que foi o mais favorecido
Quer dizer que isso não é muito diferente do que acontece actualmente quando um clube português conquista um troféu internacional? Exactamente. Quando o FC Porto é campeão nacional, vai à Câmara do Porto [desde que Rui Rio tomou posse, essa tradição mudou]. E o Benfica à Câmara de Lisboa. Até tenho ideia de que o futebol é hoje mais instrumentalizado, também de uma forma espontânea, do que no período do Estado Novo. Basta ver o Euro 2004 e a aposta do Estado no futebol, para o potenciar e para retirar dividendos com a sua promoção. O Estado Novo nunca apostou no futebol, antes pelo contrário. Na década de 1920, o futebol estava em desenvolvimento. Esteve nos Jogos Olímpicos de 1928 e tinha alguns jogadores de relevância internacional, como o Jorge Silva, Pepe, Augusto Silva e Vítor Silva. Já na década de 1930 e 1940 o futebol entra em período muito negativo, sofre goleadas e nota-se que a selecção poderia ter algum talento individual, mas a conjuntura não potenciava. Porquê? Em 1942, o Estado Novo criou a Direcção-Geral de Educação Física, Desportos e Saúde Escolar (DGEFDSE), que é o organismo que vai tutelar todo o desporto nacional e o futebol ficou ali condensado e preso. E em 1943, lança as leis bases do desporto e diz que o profissionalismo é proibido. Foi preciso esperar até 1960 para alguma equipa portuguesa fazer algo relevante no panorama internacional. Penso que isso se deve em grande medida ao travão imposto pelo Estado Novo, ao aprisionamento do futebol, que já movia largas somas de dinheiro. O Estado Novo nunca quis potenciar o futebol. Uma das ideias do seu livro é que Salazar não gostava de futebol. Mas não houve outras figuras do regime a tentar instrumentalizar o futebol? O facto de Salazar não gostar de futebol não impedia que outros gostassem, como era o caso de Américo Tomás, Craveiro Lopes, Henrique Tenreiro, Cancella Abreu. Claro que havia agentes do Estado Novo que gostavam de futebol, mas sobre Salazar não há indícios de que tivesse clube. Aliás, poucas vezes se manifesta sobre desporto. Fá-lo para anunciar o Estádio Nacional, quando o Benfica foi campeão europeu em 1961 e no Mundial de 1966, mas é um homem à parte do fenómeno desportivo. Aliás, quando ele recebe o Benfica em 1961, vê-se que é um homem que não está muito à vontade com a gíria do futebol e nem sequer seguiu a carreira da equipa. Disse qualquer coisa como: ‘então foi muito difícil resolver o vosso problema de futebol?’. Mas terá ficado impressionado com o impacto social das vitórias do Benfica de 1961 e 1962? Sim, porque esse impacto social é algo sem precedentes no país. Foi uma manifestação da portugalidade e penso que o Estado Novo deixou as pessoas expandirem-se, embora não tenha valorizado em demasia essas conquistas. Aliás, em 1966, quando o Eusébio tem o seu grande Mundial e a consagração internacional, o Diário da Manhã, que era o órgão oficial do Estado Novo, escreveu nas páginas centrais que o melhor jogador do mundo não era o Eusébio mas sim o Pelé. Não foi o Eusébio-jogador que foi impedido de sair, mas sim o Eusébio-militar ou cidadão
Outras das ideias comuns é que Salazar impediu Eusébio de sair o país. Algo que também contesta no seu livro… Sim. Com todo o respeito pelo Eusébio, que foi um dos melhores jogadores de sempre, nunca encontrei nenhum indício que leve a pensar que Eusébio tenha sido “nacionalizado” ou impedido de sair do Benfica por ser um símbolo ou herói nacional. O que aconteceu, e o próprio Eusébio o diz numa entrevista em 1995, foi que em 1962-63, ele teve um pré-acordo com a Juventus e acabou por não sair por intervenção do Estado Novo, mas porque tinha de ir para tropa. À luz do Estado Novo, era impensável dispensar fosse quem fosse de ir à tropa. O que costumo dizer é que não foi o Eusébio-jogador que foi impedido de sair, mas sim o Eusébio-militar ou cidadão. Ainda para mais, em 1966, o Inter de Milão quis contratar Eusébio, que chegou mesmo a escolher casa, e só não foi porque a federação italiana fechou as portas a estrangeiros, por causa de ter feito um mau Mundial e de querer potenciar os jogadores nacionais. Ainda para mais, o professor Manuel Sérgio confidenciou-me que o director da DGEFDSE era seu amigo pessoal e que se houvesse uma “nacionalização” de Eusébio ele teria sabido. Trata-se de um mito. Eusébio foi impedido de sair, mas apenas por razões militares. Também defende que o Estado Novo não interveio de forma pensada nos clubes. Não há nenhum clube do regime, primeiro porque o mentor do regime não tem clube, ao contrário de Franco [em Espanha], que se diz que era do Real Madrid. Salazar não esteve nas inaugurações dos estádios dos principais clubes. Depois, o clube que mais ganhou durante a segunda metade do Estado Novo foi o Benfica, que era o clube que tinha mais oposicionistas ao regime e que, na sua direcção, teve menos pessoas ligadas ao mesmo. O clube que teve mais personalidades ligadas ao regime foi o Sporting, onde contabilizei cerca de 12 ou 13 dirigentes com ligações ao poder. Terá a ver com a génese mais elitista do Sporting? Penso que sim. Talvez pela posição social mais elevada esses dirigentes estivessem mais próximos do poder. Mas não estou a dizer que o Sporting era o clube do regime ou que foi o mais favorecido. Durante a primeira metade do Estado Novo, o Sporting é o mais ganhador, mas na segunda metade é o Benfica. O Belenenses também tinha algumas figuras ligadas ao regime e foi campeão em 1946. Houve algum traço de clube do regime? Não. O Belenenses entrou em decadência nos anos 1960, talvez por causa de ter construído um estádio com um esforço financeiro muito grande. O estádio do Restelo custou mais do que o da Luz. Em 1975, o estádio foi mesmo hipotecado e Américo Tomás até teve de intervir, mas nunca encontrei traço de clube de regime. O Benfica foi o clube que teve mais oposicionistas declarados. Pelo contrário, na confrontação com o governo foi o Benfica quem mais se aproximou desse papel, nomeadamente por causa do hino censurado a Félix Bermudes (Avante Benfica)…Sim. O Benfica foi o clube que teve mais oposicionistas declarados. E teve mesmo um presidente comunista… Sim, o que é inédito. Manuel da Conceição Afonso é o único caso conhecido de um comunista a presidir a um clube durante o Estado Novo. Naquela altura, todos os dirigentes de instituições tinham de assinar uma declaração a dizer que não eram comunistas. No caso do desporto, era uma declaração que vinha da DGEFDSE. E até li num livro que Manuel Afonso se terá recusado a assinar essa declaração. O próprio Félix Bermudes, que fez o hino Avante Benfica [que o Estado Novo censurou, dando origem ao actual Ser Benfiquista], fez parte das listas da oposição nas eleições de 1949. Norton de Matos acaba depois por desistir e Félix Bermudes ficou chateado. Estamos a falar de oposicionistas activos. Essas simpatias ou antipatias pelo regime traduziam-se apenas em actos simbólicos? A inauguração do Estádio de Alvalade foi a 10 de Junho, data escolhida pelo presidente Góis Mota, que foi um homem forte do Estado Novo, tal como outro presidente do Sporting Cazal Ribeiro. A escolha do 10 de Junho teve algum simbolismo, por ser uma data importante para o regime. Tal como o facto de a inauguração do Estádio das Antas ter sido feita a 28 de Maio de 1952 [aniversário da revolução que instaurou o regime do Estado Novo]… Também. Na altura, o presidente do FC Porto [Urgel Horta] era deputado à Assembleia Nacional. E o ministro das Obras Públicas tinha dado alguma ajuda e a direcção do FC Porto achou por bem inaugurar numa data importante para o regime. Mas essas conotações limitavam-se aos dirigentes? Sim, embora os dirigentes fossem o espelho da respectiva massa associativa. Das poucas vezes em que Salazar aparece com trajes desportivos, surge dentro de um veleiro e diz que se houvesse um desporto nacional deveria ser a vela, por estar ligada ao mar. Vislumbrou alguma tentativa de essas figuras próximas do regime tentarem chamar os adeptos para o seu lado político? Respondo com um sim, embora não um sim muito claro. O autor da letra [Paulino Gomes Júnior] “Ser Benfiquista” era um salazarista e chegou a ser director do jornal do Benfica. Os textos dele mostravam alguma propaganda salazarista, não algo que viesse de instâncias superiores, mas sim como tradução do que era a visão dele. Mas onde isso é mais clarividente é no jornal do Sporting. Não é por acaso que na inauguração do Estádio de Alvalade, a 10 de Junho [de 1956], expressões como império, raça ou génio lusitano são usadas. São palavras gratas ao regime e que denotam uma clara colagem ao Estado Novo, que é espontânea, porque essas pessoas eram salazaristas e não o procuravam esconder. A interracialidade no futebol português foi usada pelo regime para passar uma mensagem positiva para o exterior, de um Portugal colonial harmonioso? Quando Portugal foi à fase final do Mundial de 1966 essa mensagem passou. Foi uma oportunidade muito boa para transmitir uma harmonia entre a metrópole e as colónias, numa altura em que os impérios coloniais europeus se desmoronavam.
Olhando para o futebol em Portugal hoje, acredita que este desporto tem um papel mais central na sociedade do que aquele que teve durante o Estado Novo? O futebol alcançou um patamar social importante logo nos anos de 1920 e não era muito diferente daquilo que é hoje. Já movimentava muita gente e até tinha patrocinadores que procuravam aproveitar a popularidade deste desporto. Havia pequenos empresários a investir dinheiro no futebol, que já tinha uma organização relativamente complexa. Com o final do Estado Novo o futebol, e o desporto em geral, foram muito mais potenciados. Durante o salazarismo o futebol foi amputado da sua vertente mais profissional, de espectáculo e de entretenimento e hoje em dia isso não acontece.
É verdade que Salazar defendia que o desporto nacional deveria ser a vela? Sim, das poucas vezes em que ele aparece com trajes desportivos, surge dentro de um veleiro e diz que se houvesse um desporto nacional deveria ser a vela, por estar ligada ao mar. Na Mocidade Portuguesa, por exemplo, o desporto mais proeminente era o campismo.
Ricardo Serrado nasceu em Lisboa em 1980. É licenciado em história pela Faculdade de Letras de Lisboa, mestre em história contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e doutorando em história contemporânea pela mesma faculdade.
Sempre gostou de desporto e praticou futebol federado durante 10 anos. Talvez por isso, incidiu desde cedo a sua área de estudo na história do desporto em geral e do futebol em particular, onde tem desenvolvido vários trabalhos pioneiros, entre os quais se realça O Jogo de Salazar – A Politica e o Futebol no Estado Novo (edição Oficina do Livro) uma obra fracturante que constituiu o primeiro estudo sério sobre as relações do futebol com a ditadura salazarista, desmistificando algumas ideias popularmente aceites mas com pouca ou nenhuma veracidade. Merecem também referência os dois volumes da História do Futebol Português – Uma Análise Social e Cultural (edição Prime Books), onde analisa, com um olhar historiográfico, inovador e arrojado, mais de 100 anos do nosso futebol.
Destaca-se ainda, sobretudo, por ter sido o primeiro historiador em Portugal a fazer uma ligação nunca antes realizada no mundo académico – futebol e historiografia. É fundador e director do Centro de História do Futebol e do Desporto, e dá aulas de história do futebol português na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Lusófona de Lisboa.