domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Grande Distribuição e a destruição económica


É hoje claro o impacto demolidor na estrutura económica de Portugal do setor da Grande Distribuição a Retalho. O que a princípio parecia modernidade é hoje um pesadelo. De facto, toda aquela enebriante panóplia de oferta proporciona uma crescente concentração económica, paulatinamente destruidora do comércio tradicional e da sua função de distribuição universal de riqueza.
 
O domínio crescente do mercado pelas novas unidades, enfraquece a posição negocial dos produtores nacionais que acabam por se sujeitar à imposição de preços, prazos de pagamento e demais condições, resignando-se à condição de financiadores forçados e agradecidos.
 
Sempre insaciáveis, com o mercado na mão, os novos tiranos económicos tratam de alargar a sua ação a todos os setores lurativos, apropriando-se das respetivas fileiras, difundindo a sua ação destruidora a vastos setores da economia, provocando a falência de muitos milhares de micro e pequenas empresas e o despejo de muitos milhares de trabalhadores, agora inúteis, às portas dos Centros de Emprego.
 
Tudo isto com a complacência dos sucessivos governos, manietados nas teias económicas dos poderes de facto, condicionados por apoios estratégicos dos mesmos, seduzidos pelo argumento da produtividade empresarial tão do agrado dos sindicalistas, incapazes de perceber o impacto na competitividade nacional, que se tem revelado desastroso. Assinala-se o disfarçado desprezo pelas, hipocritamente propaladas, igualdade de oportunidades e solidariedade nacional princípios estruturantes da retórica sócio-política dominante. 
 
Alargando a perspectiva da análise, tendo em conta as contingências energéticas e ambientais, o atual modelo de comércio transcontinental desenvolvido pelas Grandes Superfícies, deverá retroceder em favor do fomento da produção local e do pequeno comércio, com a modernização dos Mercados Municipais, locais previlegiados de comércio humanizado, ao contrário dos apelativos mas frios e impessoais hipermercados, apenas onde o interesse se confina em captar o dinheiro do cidadão,  onde este jamais verá um sorriso de amizade ou compreensão.
 
No jornal "O Público" de hoje, na secção de economia, num trabalho sob o título "Comércio" da autoria de Ana Rute Silva e Luis Villalobos, pode ler-se que as duas grandes cadeias de distribuição Pingo Doce e Modelo Continente estão entre as dez maiores empresas importadoras, respetivamente, no 4º e 6º posto. É fundamental que estas organizações se abasteçam cada vez mais no mercado nacional, cientes do conceito do justo valor; aquele que proporciona a justa retribuição a quem produz. E é aqui que os governos têm que intervir, encontrando formas de impedir que o mercado livre destrua grande parte da população, condenando-a à inutilidade. Neste contexto, assinale-se a queda, em 2012 - dados até Novembro -, da 9ª para a 43ª posição na lista dos maiores imoportadores, da cadeia Lidl graças à sua política de substituição das importações por aquisições à produção nacional, conforme informação de Madalena Bettencourt Silveira, do  respetivo departamento de comunicação.

Preocupantemente, segundo "O Diabo" de 5 de Fevereiro de 2013", à parte a sua polémica passagem pela SLN/BPN, Frankelim Alves, o agora Secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação, tem no seu curriculo  o cargo de Diretor Financeiro na Administração da Jerónimo Martins, algo que parece preocupar os dirigentes da Confederação Nacional de Agricultura. E não é para menos, atendendo ao objetivo definido pelo próprio Frankelim de " aprofundar o trabalho desenvolvido até aqui e ajudar a transformar o tecido empresarial português, garantindo instrumentos estratégicos no apoio às empresas e empreendedores num período particularmente complexo."
 
José Almeida, investigador universitário, em "O Diabo" de 5 de Fevereiro de 2013, no seu trabalho "27 anos de destruição económica", denuncia o problema que todos parecem ignorar. A certo passo, diz José de Almeida: "...No dia 10 de Dezembro de 1985, há 27 anos, abriu portas o Continente de Matosinhos, ficando para a história como o primeiro hipermecado de Portugal. Nascido da parceria da portuguesa Sonae e da Francesa Promodés, este hipermecado tinha inicialmente uma área de venda de aproximadamente 9864 metros quadrados apoiados por 72 caixas de pagamento. Um verdadeiro colosso para a realidade do Portugal de então.
 
      O aparecimento desta superfície deu início a uma verdadeira revolução dos hábitos de consumo nacionais alterando irreverssivelmente o panorama comercial português, assistindo-se ao rápido fortalecimento da grande distribuição em detrimento do comércio tradicional. Fenómeno que contribuiu para o enfraquecimento dos centros das cidades em prol das periferias , onde este e outros estabelecimentos que lhe seguiram se acabaram por fixar.
 
      Não deixa de ser curiosa a forma como as ilusões de modernidade e desenvolvimento de ontem continuam, sistemáticamente, a transformar-se na miséria real de hoje."
 
Mais adiante: "Sem se reparar, estavam com isso a assinar uma certidão de óbito à nossa economia, deixando-se entrar um enorme cavalo de troia que acabaria por conquistar-nos e submeter-nos àquilo a que Guenon chamou "O Reino da Quantidade". Afinal, tudo isto não é mais do que "os sinais dos tempos", tendo os últimos 27 anos de destruição económica marcado apenas o princípio de uma nova idade, pouco ou nada próspera."
 
Junto as minhas às palavras de José de Almeida esperando que muitas outras apareçam a defender a economia Portuguesa e os Portugueses contra a concentração económica e a pobreza.
 
AB

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