domingo, 14 de setembro de 2014

João César das Neves em entrevista ao i

Publicou o jornal i em 6 de Setembro, uma extensa e curiosa entrevista a João César das Neves, conduzida por Isabel Tavares e Eduardo Martins, onde  aquele polémico professor catedrático da Católica do Porto, explanou os seus pontos de vista relativamente à crise que se vive em Portugal.
César das Neves (CdN) atribui a causa primordial da crise à imoderação salarial, que terá ocorrido quase em simultâneo com a entrada em vigor do euro, provocada pelas poderosas corporações que representam os trabalhadores do Estado e cuja consequência se traduziu na perda crescente de competitividade da economia nacional, endividamento e empobrecimento do país. Tudo sustentado em números de proveniência idónea e sem afastar outras razões, porém, de menor impacto.

Nesta entrevista, refere CdN dever-se à irresponsabilidade nacional, ao incumprimento  do pacto de estabilidade a que o país se vinculou, a austeridade a que tem sido sujeito, apesar de tudo com benevolência face ao que tem acontecido com, por exemplo, a Grécia, já que não terá cumprido com os critérios de avaliação, apesar de ter passado em todos os exames da troica.

Refere que teria sido mais fácil para todos se os mais poderosos tivessem feito o seu papel aceitando os cortes, e sublinha que os sacrifícios têm sido feitos de forma desequilibrada, destacando os desempregados, as falências das empresas, a emigração e a reconversão na recuperação económica do país, traduzida na redução do endividamento externo, enquanto enorme quantidade de grupos próximos do Estado ou do poder económico, como o BPN, o BES, funcionários públicos e outras entidades conseguiram proteger-se dos cortes, apesar de serem os mais reivindicativos.

Questiona o critério de igualdade suscitado pelo Tribunal Constitucional na defesa dos menos afectados, afirmando promover o contrário com as decisões que tomou, sobrecarregando o sector privado, que tem sofrido as principais consequências do ajustamento desde 2007. 

Face a tudo isto, afirma CdN, que a melhor maneira de resolver a crise é não haver dinheiro, única via de todos percebermos a importância decisiva de execução urgente das reformas do Estado necessárias à recuperação económica e ao crescimento, para as quais o BCE  criou,  temporariamente, as condições propícias, a que se seguirá o inevitável aumento das taxas de juro e da inflação.

Disse que a falência de BES se deveu essencialmente a maus negócios, contrariamente ao caso BPN que terá sido puro roubo, apesar do indício de irregularidades apontar para longas penas dos seus autores, afirmando-se ainda convicto de que a solução implementada é a que melhor protege os interesses do contribuinte ainda que, este, não esteja totalmente livre de consequências.

Surpreendentemente e paradoxalmente, revela compreensão pela incapacidade revelada pelos reguladores BdP e CMVM nestes casos, assegurando ter conhecimentos passíveis de comprometimento do seu desempenho, sustentando a enorme dificuldade da tarefa, para a qual, ele mesmo, não se sente com capacidade, e por isso não poder exigir-se mais aos titulares da regulação. Alega, apesar disso, que deve manter-se a confiança no sistema financeiro, sem a qual este não funciona e todos passaríamos a ter de viver com o dinheiro que teríamos nos bolsos.

Reconhece alguma qualidade na nossa justiça apesar da lentidão processual, apontando o caso do BPN como exemplo do condicionamento da mesma, traduzido na constituição de apenas um arguido e no desaparecimento de outros implicados devido precisamente à sua influência política, referindo o PS e o PSD como exemplos. Espera contudo que no caso BES, outro seja o desfecho.

Relativiza a genuinidade dos críticos sistemáticos do país, denunciando a sua falta de coerência, traduzida na auto-sujeição ao modo de vida que os angustia, em vez de procurarem a realização e tranquilidade pessoais em outras paragens.

Reconhece a corresponsabilização da UE na violação do pacto de estabilidade pelo país, logo secundado pela França e pela própria Alemanha, quando tal se lhes tornou inevitável. Acrescento eu que tal responsabilidade se agudizou ao permitir a desorçamentação da despesa pública através dos variados artifícios empresariais a que fechou os olhos ou mesmo sugeriu.

Mais considera CdN, não estar em pânico, por a economia ter dado a volta, graças ao tremendo esforço de reestruturação das pessoas, apesar das muitas coisas que ficaram por fazer e do peso morto de grupos instalados à volta do Estado que designa por cambada de parasitas, que, contudo, não impediu a máquina económica de dar sinais de funcionamento.

Mais uma vez nos surpreende CdN ao considerar a crise espanhola muito mais grave que a portuguesa - o endividamento é cerca de 90% do PIB -, e ao revelar-se mais satisfeito de estar em Portugal do que se estivesse em Espanha, França, Itália ou até na Alemanha, considerando que, a longo prazo, as maiores dificuldades serão para este último país.

Como solução para o crescimento económico em Portugal e na Europa, depois de afirmar terem-se acabado as abébias que conduziram o dinheiro aos bolsos do costume sem promover desenvolvimento algum, dá o exemplo dos EUA, apontando para a necessidade de estímulos de curto-prazo - empréstimos de curta-duração pelo BCE - acompanhados de uma reestruturação brutal de curto e médio prazo, considerando absolutamente indispensável que os cidadão compreendam que temos de ter um Estado que consiga pagar os empréstimos.

Fiscais para tudo e mais alguma coisa, invenção de impostos para tapar todas as facilidades, queimando a galinha dos ovos de oiro, graças aos fiscais da ASAE e de todos os organismos que estão montados para este propósito, ao seguidismo relativamente às directivas da UE, que serão feitas para países muito mais ricos que nós e que adoptamos, acabando por matar a economia, diz CdN. Refere a hipocrisia do acarinhamento às pequenas empresas denunciando a punição a que são submetidas logo que crescem, constituindo um paradoxal castigo do sucesso económico.

Considera Junker uma nulidade, simpático mas sem influência, razão decisiva na sua escolha para Presidente da Comissão Europeia mais vocacionada para destruir que para fazer algo de útil.

Termina, sustentando a inevitabilidade da maior influência da Alemanha no seio da UE em virtude da dimensão da sua economia e do financiamento maciço que àquela proporciona, face a países mais pequenos como Portugal ou o Luxemburgo, ponto em que estamos claramente em desacordo, visto que, quanto a mim, a soberania dum povo não se afere pelo tamanho do respectivo orçamento; antes pobre e livre que abastado e subjugado.

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