Desporto

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"Memórias de um PS desconhecido" de Rui Mateus

Inesperadamente, numa visita descontraída a uma feira de Artesanato na Figueira da Foz, entre várias inutilidades à venda numa tenda de uma associação de solidariedade, deparei-me com um exemplar do célebre livro de Rui Mateus, cujos trinta mil exemplares da primeira edição desapareceram sem deixar rasto, sem que, apesar disso, se tenha feito nova edição. Paguei 3,5 euros!, nem queria acreditar. Marinho Pinto afirmara recentemente não haver um único exemplar no mercado, a ponto de, gracejando, ter oferecido um doce a quem encontrasse um que fosse. O livro parecia intacto. Acabei de o ler.
 
Rui Mateus, oriundo da média burguesia da Covilhã, exilou-se cedo na Suécia onde se licenciou e casou, depois de ter passado pelos Estados Unidos onde frequentou um colégio de referência, ao abrigo de uma bolsa de estudos. A guerra do Vietname constituiu razão suficiente para recusar a permanência naquele país, optando então pela Inglaterra e depois Suécia onde viveu e se integrou social e profissionalmente longos anos. Fundou na Inglaterra o primeiro núcleo do, à época, insignificante Partido Socialista, repetindo o feito posteriormente, na Suécia. Neste partido, destacou-se enquanto dirigente do departamento de relações internacionais, área da sua formação, promovendo e dinamizando a realização de múltiplos eventos de natureza política ao mais alto nível, decisivos para a expansão internacional daquele partido, destacando-se o seu contributo para a integração deste, então, ainda Acção Socialista Portuguesa, na Internacional Socialista, organização que viria a dispor de enorme poder no contexto mundial. Toda a obra mostra uma pessoa politicamente convicta e leal ao partido e respetivo líder, Mário Soares, até ao célebre caso despoletado pelo "Fax de Macau", pelo qual viria a ser condenado a quatro anos de prisão por alegada participação num plano de corrupção do então Governador de Macau, Carlos Melancia, razão primeira da obra em causa.
 
Segundo Mateus, teria sido implementado um esquema de financiamento do Partido Socialista e suas fundações através de Macau, via Emáudio, empresa dirigida por conhecidos socialistas, proveniente de entidades que assim procurariam suscitar a "boa vontade" por parte das autoridades macaenses relativamente à adjudicação de várias obras, nomeadamente a do aeroporto de Macau e outras. Uma destas empresas "benfeitoras" a Wiedleplan, sentindo-se defraudada, terá exigido a devolução dos donativos via fax, entretanto intercetado e enviado pelo próprio Rui Mateus à imprensa, despoletando todo o imbróglio conhecido. Mateus, juntamente com outros fundadores do partido, teriam sido os bodes expiatórios do processo, a fim de despistar eventuais ligações ao diretório do Partido Socialista e a Mário Soares, à época, Presidente da República.
 
O que aqui me choca é a descrição que faz do funcionamento da justiça, nomeadamente do Ministério Público e dos Tribunais, neste caso. Chocam-me as denúncias de atitude persecutória que atribui ao Procurador Geral Adjunto Rodrigues Maximiano, por quem tenho extrema admiração, a parcialidade alegadamente demonstrada na separação dos processos permitindo desfechos opostos em Tribunais diferentes perante a mesma matéria de facto, as mesmas provas e as mesmas testemunhas demonstrando a discricionariedade dos juízes na pronúncia das sentenças que, segundo Mateus, neste caso, nem se dignaram em fundamentar, alegadamente, compelidos por vínculos ideológicos. Esta é, aliás, uma acusação frequente aos Tribunais e aos Juízes, nomeadamente por Marinho Pinto, que nos deixa aterrados e a suspeitar de que, o Direito, um dos pilares civilizacionais das sociedades modernas, não passa afinal, de retórica, tendo regredido à prática das sociedades primitivas, onde apenas os sábios e os feiticeiros conheciam a verdade a que todos tinham que obedecer.
 
Ler esta obra é também mergulhar profundamente nas turvas águas partidárias onde se desenrolam permanentemente lutas internas muitas vezes sórdidas, onde se destroem solidariedades que pareciam eternas, onde o interesse individual, muitas vezes, sobreleva o do partido e do País, afinal, causa primeira da fundação daquele. Aqui se pode constatar aquela que constitui uma das maiores chagas dos regimes democráticos a que muitos atribuem a principal origem da corrupção; a insaciável necessidade de financiamento partidário que acaba por tornar os partidos, ainda que, às vezes, subtilmente, reféns dos seus financiadores. Mostra a tremenda importância que os países nórdicos tiveram  - têm - no rumo político de Portugal e no mundo, através dos abastados e contínuos programas de financiamento dos "movimentos de libertação" das colónias e dos partidos da oposição, em especial, do Partido socialista. Mas não só; nunca me passaria pela cabeça que este partido pudesse ter sido financiado por Kadhafi e por Sadam Hussein!, percebo agora porque um dia, disse Mário Soares; "o terrorismo tem causas"!, mas também os Estados unidos o financiaram bravamente através de mecanismos vários, envolvendo a CIA! Ficamos aqui a saber que a União Soviética financiava o Partido Comunista com dez milhões de dólares por ano permitindo-lhe manter uma estrutura de duzentos funcionários deixando uma herança ainda hoje bem viva, que tanto tem contribuído para a instabilidade política em Portugal.
 
Rui Mateus destapa o véu dos mecanismos de financiamento partidário internacionais - fundações e quejandos - com que os grandes blocos económicos controlam as economias dos países, conduzindo-nos a refletir acerca do conceito de Liberdade comummente atribuído aos regimes democráticos. Como pode considerar-se livre um país onde os seus principais agentes políticos obedecem aos seus financiadores sob pena de soçobrarem politicamente?, livre é aquele país no qual os seus governantes  agem exclusivamente na defesa do interesse nacional e do bem comum, graças à independência financeira, ainda que conseguida com alguma dor. É assim que, afinal, o "orgulhosamente sós" pode ser, paradoxalmente, sintoma de liberdade.
 
Claro que o visado central desta obra é Mário Soares, emergindo aqui, para mim sem surpresa, com um perfil profundamente egocêntrico e prepotente, subordinando tudo e todos ao seu exacerbado desejo de notoriedade, incluindo o seu partido e o próprio país, de cujo primeiro governo constitucional, reconheceu ter sido um mau primeiro-ministro.
 
Não sei o que faz hoje Rui Mateus; imagino-o a dar aulas na "sua" Suécia ou nos Estados Unidos. Um homem amargurado, desiludido e revoltado, que me pareceu honesto ao longo de toda a obra, aliás, escrita num estilo muito leve e interessante.
 
Uma obra que muito contribui para o descrédito do sistema partidário hoje profundamente abalado, necessitando de soluções que aproximem o cidadão dos líderes políticos e os mantenham focados na persecução do bem comum e da tão famigerada e permanentemente ludibriada igualdade de oportunidades.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Marco Fortes nos campeonatos mundiais de pista coberta; parabéns Marco. Força!

"Marco Fortes, o melhor lançador português de todos os tempos, ainda não havia atingido mínimos de participação nos próximos Mundiais de pista coberta, que no início de Março se desenrolam em Sopot, na Polónia, mas neste domingo remediou com muito brilho essa situação.
Faltava-lhe chegar este ano ainda aos 20m e passou-os claramente, numa série em crescendo. De resto, o quinto ensaio valeu-lhe a melhor marca do ano, com 20,41m, e permitiu-lhe superar os 20,30m exigidos para ir a Sopot, num cenário de obtenção de mínimos reiteradamente dificultado para as disciplinas mais técnicas. O último ensaio, de 20,32m, veio confirmar a subida de forma de Marco Fortes, que acabaria por ganhar o concurso com larga vantagem sobre o sportinguista Francisco Belo (17,63m).
 
Com este resultado, Fortes passou a ser o 11.º mundial da lista anual, liderada com 21,37m pelo americano Ryan Whitting, e o sexto europeu." (in notícias do Google)

P. Ferreira-Benfica (0-2)

Vitória num campo tradicionalmente difícil, num jogo chato onde os golos foram os melhores apontamentos. Não dá; este futebol é suicidário, aceitável entre amadores, deplorável no âmbito profissional. Ponham termo a isto, ff; retomem a proposta de Mário Figueiredo, estudem-na e aperfeiçoem-na de forma a restituir o espetáculo ao público.
 
Resume-se por isso, o jogo, à história dos golos. Precisão nos passes, nos cruzamentos, nos remates e sincronismo. Foi o caso do primeiro, resultante de um centro colocadíssimo de Amorim a sobrevoar a defesa para cabeceamento mortífero de Garay. Gostei especialmente do segundo; recuperação de Amorim seguido de lançamento em profundidade para Rodrigo que não conseguiu evitar  o corte incompleto do defesa, seguindo-se a recuperação de Markovic que acompanhara o lance e, decido como habitualmente, rematou colocadíssimo ao primeiro poste, batendo o esforçado guarda-redes.
 
Julgo que o Benfica deveria ter colocado mais intensidade logo de início, promovendo passes de roptura junto da área adversária, forçando o erro da sua defensiva. Faltou meia-distância, mais jogo aéreo e mais amplitude. A opção por sucessivos toquezinhos frente a um adversário teimosamente recuado, fatalmente, acaba em sucessivas e perigosas perdas de bola. Enfim; a perder, lá subiu o Paços, sem grande convicção, não tendo criado uma única oportunidade de golo. A ganhar, o Benfica, ficou na expectativa do contra-ataque, que lhe renderia o golo da tranquilidade. Pareceu-me contudo ter havido a preocupação de evitar lesões e excessivo desgaste físico face ao próximo compromisso europeu.
 
O árbitro não esteve bem; mostrou, mal, o amarelo a Siqueira, quando deveria, no mesmo lance, ter mostrado o segundo amarelo ao jogador do Paços. Outros casos houve em que não sancionou o jogo violento dos canarinhos. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Benfica-Sporting (2-0)

O jogo de hoje foi um dos raros exemplos, em Portugal, nas últimas décadas, do caminho a trilhar para a sustentabilidade do futebol. Um ambiente de sã rivalidade substituiu a tradicional provocação incendiária implantada nos últimos tempos por gente sem talento, permitindo aos vários agentes concentrarem-se nas respetivas tarefas, com destaque para os jogadores. Sóbrias e pragmáticas foram as declarações de vários intervenientes, antes e após o jogo. É assim que deve ser; ganham os adeptos, ganham os clubes, ganha o futebol. Parabéns a todos, em particular aos Presidentes dos dois clubes.
 
O Benfica foi superior ao longo dos noventa minutos colocando grande intensidade na disputa dos lances; sufocante na primeira parte tentando marcar cedo, e solidário e letal na segunda; tapando os caminhos da sua baliza e procurando a do adversário sem delongas, uma vez na posse do esférico. Honra à equipa do Sporting que, jogando compacto e com agressividade, apesar de não ter tido boas oportunidades de golo, apesar de, por vezes, apresentar uma linha defensiva de cinco jogadores, e o meio campo sempre muito povoado, quis ganhar. E é isso que o público gosta de ver; duas equipas a tentar ganhar o jogo...à inglesa. 
 
Apesar da evidente determinação dos jogadores do Benfica e da excelência de alguns lances que produziram, faltou sincronismo nalguns deles e, noutros, serenidade na concretização. Gaitan poderia ter marcado no lance em que tentou fazer um chapéu de trivela, ainda na primeira parte, e Rodrigo, que tanto quis marcar, poderia tê-lo feito por duas vezes, já na segunda. É verdade que, em ambos os casos, Patrício, quanto a mim o melhor do Sporting a par de Heldon, tem o seu mérito. 
 
Não há dúvida que Oblak transmite grande segurança à equipa e aos adeptos pela eficácia com que intervém nos lances. Luisão destacou-se na defesa, tal como Máxi,  apesar de, já na segunda parte, se ter deixado ultrapassar pelo Heldon, o que poderia ter sido fatal. Aquele, com um cruzamento excecional, proporcionou a Gaitan o explêndido primeiro golo. Porém, também Siqueira e Garay estiveram à altura. Muito bem estiveram Fejsa e Gaitan, sobretudo este, pela sua faceta mais criativa e emotiva, bem patentes no magnífico segundo golo em que deixou Patrício pregado ao solo naquele soberbo remate. Na frente, todos trabalharam muito, destacando-se em Rodrigo a determinação de marcar, parecendo, por vezes, Markovic meio perdido e com défice de potência no remate. Já na ponta final, Amorim, fez o seu trabalho habitual de controle do meio-campo e Cardozo ainda aqueceu a camisola, que não as botas. A vitória nunca esteve em perigo, mas poderíamos ter feito mais um golito.
 
Cheguei a recear a equipa de arbitragem, mas...tudo correu bem, apesar de alguns erros sem consequências.
 
Estamos no bom caminho.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Penafiel-Benfica (0-1)

Fiquei deveras surpreendido com o bom estado do relvado; parabéns ao Penafiel. Foi um jogo tranquilo, felizmente sem lesões e sem casos, que revelou as tão famosas características dos jogos da Taça, as, quais, durante muito tempo, julguei conversa fiada. Não é. Efetivamente, apesar das diferenças competitivas entre equipas em confronto, o jogo é sempre mais aberto do que seria se se tratasse da Liga. Isto porque, na Taça, só quem ganha passa, e na Liga, no início do jogo, ainda sem fazer coisa nenhuma, cada equipa já tem um ponto!, portanto, a mais fraca defende com tudo  destruindo o espetáculo. Isto deveria mudar. Descobrir como, é um excelente desafio.
 
O Penafiel bateu-se bem, muito compacto e agressivo, sobrepovoando o meio-campo e pressionando alto com vários jogadores, levando, apesar disso, esporadicamente, a bola até à área, sobretudo nos lances de bola parada. O Benfica, alinhando com vários jogadores menos habituais - Artur, Jardel, Sílvio, André Gomes, Djuricic, Ivan Cavaleiro, Sulimani e Cardozo -, esteve muito pêrro, sobretudo na primeira parte; em inferioridade numérica no meio-campo, com falta de criatividade, com o flanco direito pouco ativo, sem meia distância nem jogo aéreo e Cardozo ainda muito preso, apesar do bom sentido posicional. Cedo percebi, não sei bem porquê (uma fezada resultante da elevada concentração e soluções técnicas que apresenta no decurso do jogo), que Suleimani iria ser a chave da eliminatória. E foi. A forma como recebeu, trabalhou e rematou para o golo, distingue a sua elevada qualidade técnica.
 
Jardel deve jogar com maior racionalidade pois faz muitas faltas em zonas perigosas, Sílvio abanou fazendo temer uma recidiva felizmente, não confirmada, já que voltou ao jogo. Max parece em forma, André Gomes anda à procura dela, da forma, Amorim fez minutos, tal como Djuricic de quem esperava mais e melhor. Ivan esteve bem e deve jogar mais, tal como Suleimani, Rodrigo, Lima e Markovic, trouxeram maior dinâmica ofensiva. Artur respondeu bem nas poucas situações em que foi convocado. Talvez tenha havido alguma contenção, devido ao próximo e importante dérbi com o SCP.
 
Capela e a sua equipa, pareceram-me bem, apesar de alguns casos duvidosos, tais como a marcação frequente de faltas ofensivas e defensivas ao Benfica.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Gil-Vicente-Benfica (1-1)

E lá vão mais dois pontos!, de sua exclusiva responsabilidade, o Benfica, soma um total de seis pontos perdidos para a concorrência em jogos com equipas "menores"; Belenenses, Arouca e Gil-Vicente. O padrão é comum; a consciência de inferioridade competitiva leva os adversários à prática do anti-jogo, que acaba por os beneficiar, graças à complacência dos árbitros. Nada, porém, justifica alguma displicência dos vermelhos, cujas causas devem ser identificadas e debeladas. Neste particular identifico a excessiva rotação de jogadores nucleares como uma delas, pelo desgaste motivacional que provoca nos restantes, bem como nos adeptos.

O péssimo estado do terreno agravou os fatores de risco, já que, como sabemos, atenua grandemente a dinâmica de jogo da equipa mais evoluída. Perde o espetáculo, ganha a mediocridade, perde o futebol. Este é o tipo de terreno que exige massa muscular e compacticidade. Faltou mais consistência no meio-campo - Ruben Amorim - e mais músculo na frente - Ivan Cavaleiro. Este não é jogo para Markovic. Deveria ter-se recorrido com mais frequência ao jogo aéreo. Na grande-penalidade que daria a vitória, Cardozo denunciou o remate, o que era previsível dado o prolongado tempo em que esteve fora de competição. Apesar disso, o seu efeito e o do Cavaleiro aumentaram claramente o poder ofensivo da equipa. Muito bem o Lima na GP. Muito mal Siqueira provocando a sua expulsão; sem controlo emocional, no Benfica, perdem-se pontos, no Porto, ganham-se os ditos.
 
Paixão esteve mal; muito mal ao não sancionar disciplinarmente sucessivas faltas e agressões dos gilistas. Deveria ter sido expulso o jogador que pontapeou Gaitan nas costas, no lance da primeira GP. Deveria ter sido assinalada GP e expulso o jogador que impediu Rodrigo de rematar, na pequena área, agarrando-o. Lá está; apesar dos erros próprios, o Benfica teria ganho. É o que me parece. Quando é que isto muda de vez?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A República, de Platão



Aos 380 anos AC, conta Platão:
 
SÓCRATES — Fui ontem ao Pireu com Glauco, filho de Aríston, para orar à deusa, e também para me certificar de como seria a festividade, que eles promoviam pela primeira vez. A procissão dos atenienses foi bastante agradável, embora não me parecesse superior à realizada pelos trácios. Após termos orado e admirado a cerimônia, estávamos regressando à cidade quando, no caminho, fomos vistos a distância por Polemarco, filho de Céfalo. Ele mandou seu jovem escravo correr até nós, para nos pedir que o esperássemos. O servo puxou-me pela capa, por trás, dizendo:— Polemarco pede que o esperem.
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Foi assim que Sócrates e seus amigos-discípulos, Trasímaco, Adimanto, Glauco e outros, ainda entusiasmados pelas festas da cidade, dedicaram boa parte do dia ao desporto que mais lhes agradava praticar refletindo em grupo e disciplinadamente acerca dos mais variados temas, alguns dois quais bem atuais.
 
Desta feita, a certa altura, discutindo-se a Justiça, face à convicção geral da superioridade da injustiça constatada pelos discípulos, resolveram estes desafiar o mentor a demonstrar o contrário. Sem grande relutância, aceitou Sócrates o pesado fardo e, após algumas considerações preliminares, obtido o acordo dos interlocutores, adotou como método o de constituir uma cidade a fim de, passo a passo, materializar o seu conceito de Justiça determinando a sua concreta superioridade sobre a injustiça, fazendo de seguida a extrapolação para o indivíduo concluindo, finalmente, das vantagens do Homem justo sobre o injusto.
 
Assim nasceu esta fascinante obra - Arte, segundo Tolstoi -, que nos permite acompanhar o processo de arquitetura constitucional de uma cidade pretensamente justa, descobrindo, surpreendentemente, como, há quase dois mil e quatrocentos anos se trataram esclarecidamente, temas ainda hoje melindrosos - como o da igualdade de género -, da educação, da defesa, da família e do governo.
 
E não é que a primeira preocupação de Sócrates é com a educação dos jovens, retirando-os aos 10 anos da influência perniciosa dos pais e enviando-os para campo  onde durante os 10 anos seguintes se dedicariam à ginástica - um corpo harmonioso é sinónimo de alma virtuosa - , à música - excluindo algumas harmonias certamente da família do nosso fado -, à geometria, cálculo e astronomia - não é que o bacano considerava o cálculo necessário ao conhecimento de todas as ciências e artes?, não é que considerava ainda que o ensino não devia ser imposto sob pena de total ineficácia?, e não é que centrava o processo educativo na descoberta da vocação de cada um?  Pois é, era!, mas não só - como diz o Mantorras - o caso é que o bom do Sócrates considerava que só a Filosofia proporciona a sabedoria necessária a uma governação competente e por isso atribuia aos que se tivessem revelado mais aptos, 10 anos adicionais a filosofar! Porém, completado este ciclo e para temperar eventuais tendências aleatórias ou elitistas, os nossos filósofos tinham que exercer a função de guerreiros ativos durante 15 anos, pelo que, os sobreviventes, estariam finalmente aptos para a governação e as honrarias populares aos 50 anos.
 
Mais considerava Sócrates, que era imperativo prevenir a ambição de riqueza dos guerreiros a fim de garantir a sua dedicação plena à causa da defesa da República contra ameaças externas. Para tal, seriam destituídos de património, assumindo os cidadãos os plenos encargos da sua manutenção e das respetivas famílias. Note-se que, no lote dos guerreiros, Sócrates, incluía as mulheres em pé de igualdade com os homens, limitando-se, gentilmente, a poupá-las aos trabalhos mais pesados devido à sua menor robustez muscular, pois considerava que a condição da maternidade, sob nenhum pretexto, deveria ser motivo de descriminação. Por esta razão, as mulheres, deveriam receber educação semelhante, nomeadamente na ginástica, onde a nudez não constituiria motivo de embaraço dado que a virtude substituiria as vestes!, pelos vistos, naquela época, na Grécia, os ginastas exercitavam-se nus para se livrarem do condicionamento do vestuário (ainda não tinham sido criadas a Adidas nem a Nike!). Aqui chegados temos de considerar que, há dois mil trezentos e oitenta anos, neste particular, se registava um enorme avanço civilizacional..
 
Curioso mesmo era a conceção do processo de acasalamento, casamento, da comunidade dos filhos e das mulheres. Se bem percebi, na idade ativa, todos tinham direito de acasalar e casar, mediante um processo de escolha espontânea...condicionada por um processo de sorteio aparentemente universal pelo qual, manhosamente, os menos aptos iam ficando para trás, sem perceberem a tramoia, garantindo-se assim, à República renovação geracional de qualidade superior!, esta é forte e serviu de inspiração ao racismo moderno! Para suprimir os egoísmos com origem nos laços familiares tradicionais e, por outro lado, difundir o afeto e a solidariedade próprias das mesmas famílias, estabeleceu que os casamentos seriam coletivos e que os filhos emergentes em certo período, seriam comuns a todas as mulheres e todos os homens que tivessem casado no período relacionado, previamente definido. Assim, constituir-se-ia uma comunidade onde todos respeitariam todos, por força dos laços afetivos comuns. (Interessante!). Antes da idade ativa - 20 anos - seria criminalizado o relacionamento sexual. Depois desta - 50 anos - seria permitido o acasalamento, mas fora do grupo familiar de origem! (interessante!).
 
Já que estamos com a mão na massa, refira-se que, o nosso Sócrates, dividia a população em castas, designando-as, ouro, prata, bronze e feno, considerando que, estas não deveriam misturar-se visto que daí resultaria decadência genética!, (está visto que Hitler devia ter ascendentes gregos desta época!). Mas atenção; o nosso filósofo, que permanentemente buscava a sabedoria, considerava necessário dispensar cuidados médicos apenas aos cidadãos mais promissores!, todos os que apresentassem moléstias incapacitantes, deveriam ser abandonados nos campos para evitar a degradação social da República!, (hoje cortam-se-lhes as pensões embora haja para ai campos abandonados com fartura!).
 
Relativamente ao modo de governo considerava quatro modelos, a saber; Monarquia, Timocracia, Oligarquia, Democracia e Tirania, sendo o primeiro o mais virtuoso e o último o mais iníquo. Muito interessante, aliás, interessantíssimo, é acompanhar o seu raciocínio na explanação dos mecanismos de degradação social que conduzem, digamos assim, ao decaimento da Monarquia até à Tirania. E é interessantíssimo porque parece um relato fiel do que se passa hoje em dia, por exemplo, em Portugal e na Europa. Se Sócrates estiver certo, as democracias ocidentais encontram-se num processo de degradação que, fatalmente, acabarão em regimes tirânicos, ou seja, em linguagem "náutica", estamos a enrolar o cabo.
 
Engraçado é verificar o fraco conceito que tinha de Homero - seu amigo de infância -, apesar das sua profusa obra poética. Isto porque considerava os poetas, pintores e outros artistas como imitadores, já que detinham um conhecimento de terceiro grau, demasiado afastado, portando do conhecimento autêntico e, como tal, aleatório e perigoso. Apesar disto, o nosso Sócrates, estava disposto a aceitar os poetas e a sua poesia desde que não desvirtuassem os princípios virtuosos estabelecidos constitucionalmente. (ora cá está; a censura pode ser boa!). A demonstrar que Homero não era grande coisa, invocava Sócrates a inexistência de discípulos próprios e a relativa indiferença das cidades, razão da sua itinerância declamatória como recurso de obtenção do fraco sustento (desconhecia Sócrates a tradicional  incompreensão dos génios na sua época!).
 
Muito mais curioso é constatar a sua convicção relativamente à imortalidade da alma e a forma como a fundamenta. Tal como, aliás, o seu conhecimento do Hades, transmitido por Der, quando por lá parece ter andado durante a semana em que permaneceu em morte aparente em pleno campo de batalha, da qual ressuscitou, já em plena pira, com grande lucidez de memória. Foi assim, que, ficou a conhecer o processo da reencarnação, onde cada alma, homem ou animal, escolheria o que queria ser na vida futura, por ordem de chegada e de acordo com a origem; do céu ou do inferno - ou equivalente.
 
Uma obra fascinante, sem dúvida, digna de revisitação - como foi o caso -, com partes chatíssimas, onde podemos constatar a relatividade de certas verdades, a importância da justiça, bem como alguns fundamentos e vicissitudes das sociedades modernas. Particularmente interessante, a metodologia de análise por dedução e analogias sucessivas previamente acordadas pelo o interlocutor, cuja validação das conclusões condicionava a progressão do processo. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Benfica-Gil Vicente (1-0)

Num jogo em que o Benfica apresentou uma equipa pouco rodada, o Gil Vicente, que já mostrou, esta época, bom futebol, remeteu-se a uma defesa maciça demonstrando, mais uma vez, o estado deplorável em que se encontra o futebol nacional, caracterizado pelo pobre espetáculo desportivo resultante da enorme diferença desportiva entre grande parte dos concorrentes. Também aqui, as reformas necessárias são inviabilizadas, precisamente, pelo clubes menos competitivos. É o designado nivelamento por baixo que, de modo geral e salvo exceções, tem afetado a sociedade portuguesa nas últimas décadas, razão primeira do estado de exiguidade a que chegámos.
 
Muita dinâmica dos vermelhos, naturalmente desejosos de mostrar serviço ao Técnico, sempre na busca do golo. Pressão sobre a bola, amplitude e profundidade. Algum atabalhoamento nos cruzamentos, meia-distância interessante e jogo aéreo incipiente. Em especial, interessava-me ver o Steven, o Djuricic, o Mori, o Bernardo e o Hélder. O lance que precedeu o golo foi bonito de ver; o Mori merecia o golo naquela entrada de cabeça ao cruzamento de Cavaleiro à qual sucedeu a recarga portentosa de Suleimani, que não brinca em serviço. Na grande penalidade, aquele, denunciou o remate, que o excelente GR contrário não teve dificuldade em defender. Muito bem estiveram Amorim e Cavaleiro induzindo roturas no adversário, cada um ao seu estilo. Bernardo e Hélder protagonizaram bons apontamentos no reduzido tempo que estiveram em campo. Ainda tenho dúvidas no lance do canto direto de Gomes; terá a bola ultrapassado a linha de baliza?, este, mais uma vez, mostrou a sua aptidão para os remates de meia-distância dos quais a equipa tem andado carenciada.
 
Como referi acima, a equipa do Gil Vicente defendeu com tudo, muito recuado, abusando do anti-jogo e de alguma complacência do árbitro da partida.
 
Enfim, ganhando, os jogadores deram boas indicações ao Treinador, alargando o leque de alternativas para a equipa principal. Uma boa utilidade dos jogos da Liga. 

Promoção do jogador nacional; hipocrisia e cinismo

Longe vão os tempos em que os jogadores de futebol portugueses afirmavam, com alguma razão, sentir-se mercadoria na mão dos clubes. Hoje, invertidos os papeis, parecem não se importar com a  condição de mercadoria nem com a sorte dos clubes que os acolheram, desde que daí retirem benefício. Por isso, em geral e salvo exceções, não têm autoridade moral para formular juízos de natureza ética relativamente aos clubes que lhe pagam os salários. Nem os seus representantes; empresários ou sindicalistas. 
 
Antes de mais, compete aos Estados criar condições para a promoção desportiva da população, seja através do desporto escolar seja através do apoio  às Associações Desportivas, algo que Portugal, desde sempre, negligencia, revelando-se incapaz de perceber a importância do desporto na educação da população, apesar de, há já dois mil e tal anos a sociedade helénica ter por adquirido. São os clubes, com todas as suas fraquezas que tratam da formação e promoção dos atletas em todas as modalidades. Sem clubes, o desporto em Portugal seria pouco mais que nulo.
 
Gerir um clube de futebol, hoje, é tarefa ingrata, devido aos inúmeros fatores aleatórios que a condicionam. Como em qualquer outro caso, um clube de futebol deve ser gerido por critérios de racionalidade, e, se há cada vez menos jogadores nacionais nas equipas principais dos maiores clubes, talvez a causa não resida exclusivamente na alegada irracionalidade dos seus dirigentes. De todo o modo, Joaquim Evangelista poderá sempre fundar o clube do Sindicato e mostrar-nos como se faz, concorrendo nas inerentes provas desportivas. Então sim, ganharia a admiração de todos. Protestar e reivindicar, sendo necessário quando justo, não passa de hipocrisia e cinismo quando injusto; como é o caso. 
 
É a União Europeia, os Estados, a FPF, a UEFA e a FIFA, que têm a maior quota de responsabilidade na situação atual. Não se valorizam jogadores com fracas equipas. O Sporting é um caso paradigmático; não tira proveito da excelente formação que tem devido às equipas pouco competitivas que apresenta. Os jovens atletas, logo que começam a despontar, receosos da estagnação nas suas carreiras, pela mão de ambiciosos e oportunistas empresários, com desculpas hipócritas, apressam-se a procurar outras paragens sem o menor escrúpulo pelo clube que, esperançosamente os financiou e promoveu a sua formação. Os exemplos são muitos e bem conhecidos, não só no Sporting mas também no Benfica.
 
Evangelista - alegadamente, sportinguista - deixou este clube de fora da sua crítica, como se não soubéssemos todos que o  contingente de jovens portugueses que apresenta na equipa principal se deve ao grave estado de penúria financeira em que se encontra. Que a atual brisa de ar fresco que parece pairar sobre o clube e o futebol português talvez se deva ao iminente incumprimento daquele face aos seus credores, os efetivos mandantes do futebol, os quais, quem sabe, terão percebido, finalmente, o esgotamento do modelo da batoteira preponderância portista, à vista da inevitável  falência global do futebol nacional.
 
Cerca de dez milhões de euros por ano é o que custa a formação num grande clube!, na altura de colher os frutos pacientemente cultivados, são os empresários e os atletas que, cinicamente ofendidos, se apressam a recolhê-los, deixando os clubes de mãos quase a abanar. Para bem do jogador Português, do futebol nacional e do senhor Evangelista! Ter-lhe-á ocorrido que, moderando os salários talvez fosse possível maior recrutamento de jogadores nacionais?...provavelmente não, ou, se ocorreu, logo se levantou o argumento do mercado, ou seja; o atleta pode jogar com o mercado, já o clube não!
 
Desconhece Evangelista que, apesar dos contratos, os clubes se tornaram, hoje, reféns dos jogadores, estes aplicando-se como lhes convém e ao seu empresário?, estabelecendo compromissos secretos, por ilegais, com quem quer que seja, incluindo rivais do clube de origem, a troco de maior estipêndio? No entanto, se, efetivamente, se pretende - e deve - valorizar o jogador nacional, torna-se necessário proteger o clube formador. Que faz o sindicalista, para moderar esta situação?, nada!, que eu saiba. Porém, protagonismo não lhe falta.
 
Perceberá Evangelista os danos na formação e na promoção do jogador nacional causados pela subjugação do futebol aos interesses do Porto e dos clubes do norte em geral, em detrimento de todos os outros?, perceberá que o hiato na formação do Benfica se deve, em última análise, a essa circunstância?, perceberá que o definhamento do Sporting tem muito a ver com ela?, percebendo, que contributo tem sido o seu para contrariar o atual estado de coisas?
 
Não devemos, porém, ignorar as consequências da integração no espaço europeu, da qual emerge o conceito de cidadão europeu, cujas inevitáveis consequências se traduzem - por enquanto - na relativização dos nacionalismos e, por extensão, dos clubes nacionais. Como testemunho disto mesmo, assistimos, cada vez com maior frequência e sem espanto, ao recrutamento de jovens formandos nos clubes nacionais por parte dos colossos europeus.
 
Claro que aqueles, devem apostar mais nos jogadores portugueses...mantendo-se solventes e competitivos. No atual contexto, é uma tarefa que extravasa em muito a sua competência.
 
Não é assim Sr Evangelista?
 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014