Desporto

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Guerra na Ucrânia

 

Guerra na Ucrânia

Algumas reflexões

   Antes de mais expresso a minha total solidariedade para com o povo ucraniano e incondicional condenação da agressão de Putin que, dominado pelo saudosismo imperialista, parece apostado em reconquistar pela força os territórios que integraram a União Soviética.

   Este conflito mostra, com grande evidência, os reais perigos dos regimes autocráticos atuais e a decadência em que se encontra a Europa e, em geral, todo o mundo Ocidental, cujos líderes, perdidos no labirinto de questões menores ou fictícias, o tornaram vulnerável a loucos do calibre de Putin, sedentos de poder e glória.

   Os sinais de perigo, apesar de bem visíveis, foram ignorados pela União Europeia. O que caracteriza o mundo livre, o Ocidente, é a transparência institucional, a rotatividade do poder e o respeito pela soberania e autodeterminação dos povos. Nenhum destes requisitos tem sido respeitado pela Rússia de Putin.

   Não se deve confiar em países não escrutináveis; a sujeição voluntária dos países ao escrutínio internacional; a observação por organismos internacionais idóneos, das condições de funcionamento das suas instituições e da respetiva sociedade civil em geral em todas as vertentes, compará-las entre pares e confrontá-las com as normativas internacionalmente estabelecidas e aceites. Nada disto é possível na Rússia de Putin, a não ser indiretamente.  

   Por outro lado, a regra da rotatividade não se verifica na Rússia; Putin, com o apoio de uma oligarquia ávida de poder e privilégios, impôs a sua liderança dando-lhe uma aparência de legalidade após manipulação descarada da lei constitucional, sem escrutínio popular.

     Não tardaram as provocações e anexações diretas ou implícitas de países fronteiriços, como a Crimeia, a Georgia, a Bielirrússia e a Tchetchénia. Ainda sob os efeitos do terror da 2ª GM, pressionada pela febre consumista das suas populações só possível de satisfazer com robusto e contínuo crescimento económico, a Europa tentou salvar face perante a opinião pública respondendo com inúteis sanções económicas, de que a crise migratória é, em parte, consequência e, por sua vez, causa do Brexit. 

    Perante este cenário, os líderes europeus, obcecados pela descarbonização imposta pelos ecologistas radicais, comunicação social e ONU, desataram fechar centrais de produção de energia elétrica, térmicas e nucleares, substituindo-as por centrais de fontes renováveis e de gás natural,  em grande parte de proveniência russa! Uma tremenda irresponsabilidade, percetível desde o início ao cidadão comum. 

   Porém, nos EUA não se fez melhor; a administração Joe Biden declarou de imediato a sua adesão ao Acordo de Paris invertendo a política energética de Donald Trump, cancelando a construção do oleoduto de Keystone e restringindo a exploração das ramas de petróleo e do gás de xisto. Com isto regrediram os EUA à sua condição de importador energético, colocando-se na dependência externa e entregando à OPEP o privilégio, em prática desde 1973, de controlo das economias ocidentais através da manipulação dos preços do petróleo, que tinham perdido com a administração Trump, uma das principais causas dos baixos custos de petróleo na época.  

   Em Portugal, o Partido Socialista, derrotado nas eleições de 2015, cego pela ânsia de poder e de vingança, não hesitou em se associar aos partidos da extrema-esquerda, acedendo à sua exigência de cancelamento dos projetos de prospeção e exploração de petróleo e gás natural on-shore e off-shore. Como tal não era suficiente, cedendo à pressão de Bruxelas e à necessidade premente das transferências comunitárias, o Governo desatou a fechar as centrais termoelétricas que nos forneciam energia a baixo custo, aumentando a nossa dependência do exterior.  

     Naturalmente que, agora, os responsáveis, justificar-se-ão com uma arenga qualquer, mas a verdade é que as democracias ocidentais estão a ser conduzidas pela comunicação social, transformada em plataforma de controlo da opinião pública pelos poderes de facto internos e externos. Os eleitos, em quem as populações delegaram as respetivas soberanias, adotam as ideias prevalecentes sem atitude crítica incapazes de resistir aos apelos do dinheiro fácil e da demagogia com que seduzem e alimentam os respetivos eleitorados, que, por sua vez, os mantém no poder; um ciclo vicioso que não se perpetuará, um dia terá fim.

   Conclusão: No Ocidente, é a natureza estrutural das democracias que está em causa; ou evoluem ou morrem às mãos de um ditador qualquer, como Putin.




Peniche, 26 de Fevereiro de 2022.

António Barreto

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O Paradoxo da Abundância

 

O Império Romano I

Como difusão da abundância destrói a Liberdade

 

   As frequentes e regulares distribuições de vinho e azeite, de trigo ou de pão, de dinheiro ou de víveres quase dispensara os cidadãos mais pobres de Roma da necessidade de trabalhar. A magnificência dos primeiros Césares foi, de certa forma, imitada pelo fundador de Constantinopla; mas a sua prodigalidade, embora tenha suscitado o aplauso do povo, incorreu na censura da posteridade. Uma nação de legisladores e conquistadores podia reclamar os seus direitos às colheitas de África, que tinham sido adquiridas com o seu sangue; e foi habilmente congeminado por Augusto, que, no gozo da abundância, os Romanos perdessem a memória da Liberdade.”

Edward Gibbon

História do Declínio e Queda do Império Romano

                                                   Igreja de Santa Sofia em Constantinopla


Peniche, 20 de Fevereiro de 2022

António Barreto

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Eleições 2022; a maldição da demagogia

 

Eleições 2022; a maldição da demagogia

 

   Ponderando os recentes resultados eleitorais, a dinâmica política precedente e as análises de comentadores que considero, cheguei à conclusão de que estas eleições, legislativas de 2022, foram marcadas pelo programa de assistência financeira apresentado pela troica - comissão tripartida constituída por técnicos da UE/BCE/FMI - em 5 de Maio de 2011, na sequência do pedido de ajuda do Governo português em 5 de Abril do mesmo ano após constatar a inviabilidade de financiamento nos mercados financeiros internacionais.

   Paradoxalmente, o partido que mais beneficiou, nestas eleições, do tenebroso programa de ajustamento, foi o que o causou, graças a um bem elaborado plano de propaganda política de “passa-culpas”, de que a generalidade da comunicação social foi cúmplice, da sedução do seu eleitorado de base, constituído essencialmente por funcionários públicos, reformados e beneficiários do assistencialismo, de uma demagogia descarada que culminou na promessa tresloucada da semana de quatro dias de trabalho e aumento de salários e pensões e da quase total ausência de oposição política.

   Com efeito: Perdidas as eleições de 2015 para o PSD/CDS, o PS, que com o afastamento do António José Seguro e a ascensão de António Costa sinalizara o seu deslizamento político à esquerda, liberto de Mário Soares, não hesitou em aceder ao convite dos partidos radicais de esquerda para formar governo, impedindo, num gesto inédito na democracia portuguesa, o partido vencedor de formar governo. Instalado o Governo, o agora Primeiro-Ministro e seus aliados trataram de imediato de declarar o fim da austeridade, deixando subentendido que tal tinha sido opção do governo precedente e não uma inevitabilidade criada pelo governo anterior. Na verdade, quando António Costa formou Governo, Portugal tinha concluído com sucesso o programa de assistência financeira, recuperara o acesso aos mercados financeiros internacionais, a economia estava numa trajetória de crescimento, a balança comercial apresentava excedente desde 2013, o rácio das exportações quase duplicara - de cerca de 20% para cerca 40% do PIB - o défice orçamental tinha sido reduzido em cerca de 15 mil milhões de euros - em três anos - havia nos cofres cerca de 16,5 mil milhões de euros e tínhamos a garantia do BCE de comprar toda a dívida soberana necessária - razão das baixas taxas de juro verificadas a partir daí. Confiante no longo ciclo de crescimento económico que se iniciara, o Primeiro-Ministro decretou o fim dos “sacrifícios”, revertendo, uma a uma, todas as parcas reformas consentidas pelo Tribunal Constitucional ao governo anterior. De facto, António Costa e seus aliados prosseguiu a política que conduzira o país ao pedido de assistência financeira; aumento da despesa pública, do endividamento e da carga fiscal. Mas também ausência de investimento público, desinvestimento nos serviços públicos, na educação, na saúde e nos transportes, num contexto de concentracionismo estatal crescente, típico dos regimes socialistas. Ironicamente, a crise sanitária acabaria por beneficiar a governação fornecendo-lhe um alibi para os erros cometidos e justificando uma ajuda financeira extraordinária a fundo perdido de 16,5 mil milhões de euros.

   O “génio” de António Costa consistiu em negar a tradição democrática de garantir a governação do partido vencedor, como fizera o PSD/CDS em 2008, e em unir toda a esquerda - quebrando a tradição do seu próprio partido - sob a bandeira do “fim da austeridade” passando, erradamente como se viu, para a opinião pública, a ideia de que tal jamais ocorreria sob o seu governo. Na hora da dúvida, quando as sondagens, surpreendentemente, anunciaram um empate técnico entre os dois maiores partidos, fizeram soar o alarme nas hostes esquerdistas, que não hesitaram em aderir ao voto útil, proporcionando a maioria absoluta do Partido Socialista.

No PSD verificou-se também uma clara intenção de desvinculação da governação de Passos Coelho, patente no afastamento de todos os “passistas” dos órgãos do partido e do grupo parlamentar, na declaração pública de Ferreira Leite de que preferia um partido mais pequeno sem o rótulo de direita, na afirmação, também pública, de Rui Rio da sua vinculação ideológica à social-democracia e desafiando todos os dissidentes a abandonar o partido.

   Esta atitude teve como consequência a fragmentação do PSD, saída de Santana Lopes e de André Ventura, que formaram novos partidos e a definição de um amplo espaço à sua direita onde se “encaixou” o partido de João Cotrim, há muito na forja. Para culminar esta desastrosa estratégia, Rui Rio recusou a reativação da coligação tradicional com o CDS, contribuindo para o afastamento deste partido do Parlamento e para a maioria absoluta do Partido Socialista. Juntando a isto uma oposição incipiente em todo o período, pergunto-me se Rui Rio queria mesmo ganhar as eleições, ou somente ser um apêndice de António Costa em nome de cumplicidades passadas e da Regionalização.

   Em conclusão, ambos os partidos agiram com a intenção de se demarcarem da austeridade imposta ao país no período de 2011 a 2014, mas enquanto o PSD o fez fragmentando-se e dispersando toda a direita, o PS fez o contrário; uniu toda a esquerda e prometeu menos trabalho e melhores salários.

   Para o futuro, não antevejo melhorias, pelo contrário; com a subida da inflação - média na UE em cerca de 4,6 %, EUA a 7,5 % -, e consequentemente das taxas de juro, os custos de financiamento aumentarão pressionando a carga fiscal. Juntando a este cenário o aumento do preço do petróleo - atualmente acima dos USD90,00/barril, no pico sanitário atingiu os USD20,00/barril -, o aumento do preço da energia elétrica no mercado internacional - de cerca de €40,00/MWh para cerca de €400,00/MW/h - o baixo nível de água das barragens e o aumento da contestação social e laboral - O “avô” Jerónimo já o prometeu - e teremos razões de sobra para estarmos céticos. Nestes seis anos perdemos uma oportunidade histórica de efetuar as reformas que nos permitiriam encarar o futuro com alguma esperança. Apesar de impopular, as reformas são necessárias. Sem elas não haverá progresso económico.

   Quanto ao PSD, dizem os seus notáveis que vão refletir, consertar estratégias para o futuro. Quanto a mim perdeu o “comboio”; por ter alienado o seu eleitorado de base popular, por se revelar incapaz de eleger um líder mobilizador e porque a liderança da direita parece vir doutras paragens, onde não há medo de ser de direita. A História não espera pelo PSD, que já não é PPD. Talvez o declínio seja irreversível.


Stairs - Michael Caven


Peniche, 05 de Fevereiro de 2022

António Barreto

domingo, 9 de janeiro de 2022

Benfica, um novo rumo

 

Benfica, um novo rumo

 

                O regresso de Jorge Jesus ao Benfica deveu-se a critérios não desportivos. A forte oposição que se perfilava para as eleições de 2020 a Filipe Vieira impunha uma aposta mobilizadora dos sócios. A popularidade do antigo treinador pelos feitos alcançados no Brasil e o reconhecimento geral da sua valia técnica era garantia de sucesso. O lote de supostas estrelas anunciado reforçava a confiança, gerando, nos adeptos, um estado de euforia pelo futebol “arrasador” que se adivinhava.               

                Apesar do animador arranque inicial na época, o fracasso foi total. Uma vaga de infeções, na sequência do jogo com o rival do Porto, destroçou plantel e técnicos. Indiferentes, os adversários, alegavam tratar-se de falsa desculpa, recusando-se, pelo menos no caso de Nacional, a adiar os respetivos jogos. Recorreu-se aos habituais suplentes, ao juniores e à equipa B. No regresso, os recuperados arrastavam-se no campo em claro défice físico.

                Em simultâneo, eram anunciadas sucessivas condenações de interdição do estádio, nada mais nada menos que sete! As multas ao clube e os castigos aos jogadores prosseguiam ao ritmo pré-pandemia! No terreno de jogo, foram quase totalmente suprimidas as grandes penalidades favoráveis ao Benfica! Duas grandes penalidades em trinta e quatro jogos! Pelo menos uma delas no final da época, já com o campeão decidido! Inexoravelmente, os pontos foram ficando pelo caminho, e o terceiro lugar foi um quase milagre! Não, não pode ser coincidência! Porto e Sporting tiveram a favor, respetivamente, dezasseis e oito grandes penalidades! Com o mesmo critério, apesar de tudo, o Benfica teria sido campeão. As equipas de arbitragem decidiram o campeonato! A responsabilidade deve ser assacada à Liga e à Federação.

                Entretanto, na sequência da audição da Comissão de Inquérito Parlamentar aos Grandes devedores do Novo Banco (NB) e da denúncia pública do sócio Mata-Mouros, o Presidente do Benfica foi detido, acabando por se demitir do cargo por manifesta impossibilidade de o exercer. Pela segunda vez na história da terceira República um Presidente do Benfica é conduzido à cadeia envolto num labirinto de acusações que promete processos por décadas, tal como sucedeu na primeira com Vale e Azevedo. Um caso que merece reflexão quando constatamos a complacência com que outros dirigentes desportivos e outros grandes devedores do NB têm sido tratados por parte da Comunicação Social e autoridades parlamentares e judiciais. O Benfica é o “patinho feio do regime. Ou nem isso; é, simplesmente o “símbolo do salazarismo” que é imperioso abater, impedindo-o de voltar a ser o que foi no passado longínquo.

                Após grande turbulência e vicissitudes várias, Rui Costa, o “delfim” de Filipe Vieira, com toda a legitimidade e a autoridade que lhe confere o seu estatuto de grande benfiquista, assumiu a presidência do clube. Transparência e resultados desportivos foram as prioridades anunciadas de imediato, mantendo-se contudo os planos de desenvolvimento de infraestruturas da gestão precedente.

Recuperada finalmente a equipa do impacto viral, iniciou-se a nova época com renovadas espectativas, ainda dentro das opções técnicas anteriores, melhoradas com um novo avançado prometedor, Yaremchuk. O auspicioso início porém, foi contrariado no primeiro grande embate, pela derrocada defensiva da equipa ante o rival de Lisboa, o Sporting, agravada posteriormente pelas pesadas derrotas ante o rival do Porto, na eliminatória da Taça de Portugal e na jornada do campeonato.

Curiosamente qualquer dos casos foi antecedido por acontecimentos desestabilizadores do grupo de trabalho; o episódio do jogo com a B-Sad, essa ópera bufa que me pareceu orquestrada do exterior, e a investida dos dirigentes do Flamengo na tentativa de contratação de Jorge Jesus, desviando porventura a sua concentração na preparação do jogo com o Porto e minando a confiança e motivação dos jogadores. Agravando este turbulento cenário, o Concelho de Disciplina da Liga tira da gaveta um episódio da época transata - com cerca de sete meses - salvo o erro -, aplicando um castigo ao Treinador que o afasta do jogo capital, o do campeonato, que o Benfica acabou por perder na forma do costume, com muita polémica. A repetição incessante destes episódios levam-me a considerar o Porto como o Canelas da primeira divisão.

Apesar de tudo isto era óbvio que o novo ciclo de Jorge Jesus no Benfica tinha chegado ao fim; a equipa apresentava desequilíbrios em todos os setores, especialmente nas alas, com um claro défice na dinâmica de jogo, baixa intensidade, fraca agressividade e reduzida mobilidade. Com estas características predominando não se ganham jogos a adversários fortes. A passividade geral dos jogadores mostrava que, na sua grande maioria, já não acreditavam no projeto do Treinador.

Jorge Jesus, um dos treinadores atuais que mais sabe de futebol, sem dúvida alguma, consagrado ao serviço do grande clube do país irmão, o Flamengo, regressou confiante, algo sobranceiro, desejoso de exibir seu estatuto de grande treinador mundial ao público português, em especial aos comentadores locais, que habitualmente o tratam com desdém. Falhou nos, caríssimos, reforços que trouxe, salvo o caso do Lucas Veríssimo - cuja lesão pôs a nu a fragilidade defensiva da equipa - de João Mário, um excelente armador, apesar de algo lento, e do Gilberto, que agora se revela forte candidato a titular. Falhou ao não afastar liminarmente os dirigentes do Flamengo, alimentando a novela da comunicação social e falhou nalgumas opções que tomou nos jogos com os rivais, ressuscitando velhos fantasmas, aparentando falta de energia para inverter a trajetória desportiva da equipa. Filipe Vieira era o seu vínculo, a sua saída deixou uma semente de desconfiança com os novos dirigentes. Perante os resultados a sua saída era inevitável.

                Os dirigentes procuram agora um novo rumo, recorrendo no imediato ao treinador da equipa bê, que tão boa conta tem dado neste escalão, e anunciando uma aposta mais consistente na formação. Uma estratégia com que concordo, sempre com o critério da competência como prioridade.

                No plano da equipa técnica, sou um acérrimo defensor do recurso a treinador estrangeiro assessorado por ex-atleta do clube. Só um técnico estrangeiro garante imunidade à teia de influências e manipulação interna e capacidade para denunciar no exterior a miserável gestão do futebol português, onde os critérios políticos asfixiam a verdade desportiva.

                Os dirigentes do Benfica devem deixar os “punhos de renda” e defender o clube perante os órgãos próprios, internos e externos, olhos nos olhos, confrontando-os com a desigualdade de tratamento que têm dispensado ao clube, segregando desportiva e economicamente as suas equipas, seja na área profissional ou na amadora; nada escapa ao cerco desportivo montado em torno do Benfica. Devem dar publicamente um sinal aos adeptos e à classe política da insatisfação pelo tratamento discriminatório e até persecutório que tem sido dispensado ao clube. Ninguém! Ninguém, além de nós, adeptos, sócios ou não, defenderá o nosso clube. A história recente demonstra-o.



Peniche, 9 de Janeiro de 2022

António Barreto

sábado, 20 de novembro de 2021

Mansos, os portugueses? Não!

 

 A propósito dos portugueses:

O Povo português andou sempre em guerras, desde antes da fundação da nação! Primeiro com o imperador castelhano Raimundo, até ao tratado de Zamora em 1143, depois com os árabes e castelhanos, pela expansão territorial até 1279. Seguiu-se o povoamento em ambiente de guerra permanente, com auxílio dos francos e ordens religiosas, até ao início da epopeia marítima, em 1415, com a conquista de Ceuta. Toda a expansão ultramarina está recheada de episódios militares, sobretudo, ao longo das costas ocidental e oriental de África e Ásia; Guiné, Congo, Angola, África do Sul, Moçambique, Índia, Indonésia e Japão. Por ocasião da restauração, no século XVII, os portugueses, pobres, famintos, sob a égide da nova aristocracia que levou D. João IV ao trono, foram grandes ao travar várias guerras em simultâneo, na Europa, contra os Espanhóis, no Brasil, em Angola e no atual Ghana, contra os holandeses. No século XVII, na Campanha do Rossilhão, dos Pirinéus ou da Catalunha, ao lado dos espanhóis, contra os franceses! Quase todo o século XIX foi passado em guerras, logo a abrir, em 1801, na sequência da Campanha do Rossilhão, a Guerra das Laranjas, ou Guerra Fantasma, contra "nuestros hermanos" em que perdemos Olivença, logo a seguir, em 1807, iniciou-se a guerra Peninsular contra os franceses. Finda esta, com o país devastado, tivemos em 1820 a 1822, a Revolta Liberal e independência do Brasil a que se seguiu a Guerra Civil de 1832 a 1834, e em 1846 a Revolta da Maria da Fonte que deu lugar à Guerra Civil da Patuleia, entre cartistas e Setembristas - guerra em que o Povo de Santo André de Frades, com a filha do sapateiro à frente (alegada Maria da Fonte), vestida de vermelho, destruiu à machadada as portas da igreja onde a D. Maria tinha mandado prender as mulheres que correram com os fiscais que queriam cobrar a taxa funerária e impedir o funeral tradicional. Sim, esta foi a verdadeira, espontânea, revolta popular, iniciada pelos camponeses minhotos, secundados por todo o povo, contra a asfixia tributária de Costa Cabral e D. Maria II. Uma luta desigual entre pobres camponeses e alguns soldados - miguelistas (é desse tempo o célebre Zé do Telhado; um apoiante miguelista que, finda a guerra liberal, continuou a guerra de guerrilha) - lutavam com varapaus, foices, ancinhos, calhaus e o que viesse à mão, contra armas de fogo e a cavalaria do general Saldanha! Neste século, em 1847, ainda tivemos as épicas greves do Porto, de Santo Tirso e de Gouveia! Não me digam que este povo é manso e carrancudo. Não! Não é! Nunca foi! Mas querem que seja! Tivemos o golpe republicano de 1910 e uma atribulada 1ª República, com golpes de fações políticas, prisões arbitrárias execuções sumárias - a detenção dos operários da Calçada do Combro e o morticínio da Noite Sangrenta -, e greves - a de 1912 dos camponeses de Elvas a que solidarizaram os operários de Lisboa, a greve dos operários das conserveiras de setúbal, onde foi morto pela GNR um operário, a dos camponeses do Ribatejo - até à intervenção militar de 1926 que fundou a 2ª República e trouxe Salazar que ainda se viu a braços com a Revolta dos Marinheiros, a Revolta da Marinha Grande e a Revolta da Madeira. Durante 13 anos, travámos uma guerra externa em três frentes com inimigos apoiados por todos os n/"amigos" de hoje; Suécia, Noruega, Holanda, Bélgica, Alemanha, França, Inglaterra, USA, e ainda URSS, Cuba e China! Não me digam que este povo é manso e macambúzio. Os Portugueses foram e são bravos, apenas os maus líderes os fizeram esquecer isso! Miguel de Cervantes, no regresso da batalha de Lepanto, descrevia ao seu camarada de armas, na amurada do galeão à chegada a Lisboa, com comovente admiração e respeito, o magnífico povo de Lisboa, cortês, corajoso, leal e justo da maior cidade da Europa desse tempo, onde o Tejo era uma floresta de mastros interminável. Leiam e comovam-se com a história de Portugal, como me aconteceu. Respeitem os portugueses. Respeitem-se.


A Revolta da Maria da Fonte

Peniche, 20 de Novembro de 2021

António Barreto

domingo, 14 de novembro de 2021

A Batalha de Zama

 A Batalha de Zama 

      “Na cauda de tudo, atrás dos carros das máquinas de guerra e das últimas filas dos esquadrões, desenrolavam-se as récuas de camelos e dromedários, mugindo rouca e longamente, carregados de bagagens, de vitualhas, de munições, com colares de guizos e chocalhos ao pescoço; e por entre as récuas insinuava-se a multidão de mulheres de mercenários, de todas as formas, de todas as cores, de todas as idades: umas trigueiras como tâmaras maduras, outras da cor esverdeada das azeitonas, outras amarelas como cidras; vendidas umas pelos marinheiros, roubadas outras às caravanas, tomadas nos saques das cidades, amadas enquanto moças e belas, deitadas para o monturo da imundice depois de terem servido às orgias do exército inteiro, para irem morrer pelas margens dos caminhos com as bestas de carga abandonadas. Eram númidas vestidas de pele de dromedário, cirenaicas de sobrolhos pintados a azul acocoradas sobre esteiras tocando liras e cantando, siracusanas com placas de ouro nos cabelos, lusitanas de colares de conchas, gaulesas vestidas de peles de lobo, líbias montadas em burros, negras do Sudão e dos confins da África incógnita - esperando todas que a batalha terminasse para começar a orgia e se entregarem nos braços dos soldados ensopados em sangue. Por entre as mulheres estavam os velhos, as crianças, os estropiados, os coxos detritos das batalhas, resíduos miseráveis da guerra, curando as suas chagas, com um resto de armadura amolgada por pedras de catapulta, com as barbas e os cabelos espessos empastados em lama, com cotas de malha despedaçados através de cujos rasgões se viam as cicatrizes mal fechadas de feridas horrendas que os cães lambiam caridosamente. Os coxos abordoavam-se aos cotos das lanças partidas.”


Batalha de Zama

Peniche, 14 de Novembro de 2021

António Barreto

Créditos:

“A História da República Romana” de Oliveira Martins

Aforismos

 Aforismos, nova fornada:


De prudência é não querer o que se não pode haver.

Depois de um bom poupador, um bom gastador.

Depressa se gasta o que depressa se ganha.

Do indigente ninguém é parente.

É bastante rico quem nada deve.

Frade, freira e mulher rezadeira, três pessoas distintas e nenhuma verdadeira.

As mulheres são sempre melhores para o ano que vem.

Cantar, andando, encurta caminho.

Caminho começado é meio caminho andado.

Conhece-se o marinheiro quando vem a tempestade.

De graça, nem os cães vão à caça.

Deus ajuda a quem muito madruga.

Estrada de mil léguas começa por uma passada.



Peniche, 14 de Novembro de 2021

António Barreto

Créditos : "A Sabedoria dos Provérbios"

sábado, 13 de novembro de 2021

Arquimedes de Siracusa

 

Arquimedes de Siracusa

 

   “Durou o cerco oito meses; veio o exército cartaginês de Himilco socorrer Siracusa e ocupou Agrigento. Marcelo viu-se entre dois fogos, quase perdido: a ilha inteira, com medo dos romanos, dera-se ao púnico; mas batido Himilco, o Verão com as febres paludosas do Anapo acabou de destruir o exército cartaginês. Finalmente, no Outono de 542, Siracusa foi tomada de assalto, saqueada, exterminados os habitantes. Conta-se que durante a matança, um soldado descobriu Arquimedes, só e indiferente a tudo, na contemplação de um problema que o preocupava; o soldado mandava-lhe que fosse à presença de Marcelo- - Onde? -. Volta Arquimedes; e tornou à sua contemplação. O soldado atravessou-lhe o ventre com a espada. É assim que a realidade se vinga duramente dos povos contemplativos: mata-os.”

“A História da República Romana”

Oliveira Martins

Arquimedes de Siracusa


Peniche, 13 de Novembro de 2021

António Barreto

sábado, 30 de outubro de 2021

Escola Náutica e Camaradagem

  Esta é uma medalha comemorativa dos 50 anos do meu curso elementar de Máquinas na Escola Náutica, atribuída igualmente a todos os alunos de então. Um evento organizado por alguns colegas com o patrocínio da Escola Náutica Infante Dom Henrique e que teve lugar no último sábado nas suas instalações de Paço D’Arcos.

    É espantoso como, num período social e economicamente difícil, em tão pouco tempo, cerca de dois anos, se estabeleceu entre todos nós, independentemente da especialidade, máquinas, ponte, comissariado ou telegrafia, tão persistente vínculo de amizade e camaradagem, nalguns casos fortalecido pela vida marítima conjunta que se seguiu.

   No que me diz respeito, tive oportunidade de rever e abraçar alguns grandes amigos desse tempo, daqueles que estão sempre connosco e que não via há 50 anos. Igualmente gratificante foi rever e refrescar a memória relativamente a todos os outros.

   Desculpem a imodéstia, mas, somos gente boa, gente de coração nobre, com espírito de camaradagem e de missão, gente com talento e memória. Desta "fornada" saíram Comandantes, Chefes de Máquinas, Engenheiros, Médicos, Advogados, Armadores, Empresários - grandes, médios e pequenos - ciclistas, desportistas e artistas. Recordo um dos colegas que foi de bicicleta a Roma para cumprimentar o Papa e outro, o Jorge Mendes, da "fornada" seguinte", que conquistou o seu lugar na cena musical nacional ao vencer o Festival da Canção de 1987 com o belíssimo tema “Neste Barco à Vela”, integrando o Duo Nevada, que acaba de editar o seu novo trabalho, “Ruas de Mar”, com temas originais, e que nos brindou com uma bela atuação.

   Foi uma homenagem bonita e comovente onde os que “já partiram” não foram esquecidos. Naquele minuto de silêncio, de pé, recordei o colega Melo, o reguila de Alfama, gingão, irreverente, cordial e descontraído, que me convenceu a comprar a primeira viola, por 1750$00 (cerca de €8,50), no João Pedro Grácio, ali mesmo frente à prisão do Limoeiro onde tinha a sua oficina. No que me diz respeito, ficou fortalecido o vínculo afetivo aos navios, ao mar e aos meus queridos colegas. Deixei os navios e o mar há cerca de 40 anos, mas sou e serei sempre um homem do mar. Um entre muitos, um entre todos os que estiveram presentes.

   Do fundo do coração, agradeço à minha Escola ter-se lembrado de nós e aos colegas Mota, Soares e João, a persistência, a paciência, com que, durante meses, reuniram a "tripulação" dispersa e organizaram esta singela e comovente homenagem. É preciso ter os "porões" cheios de amizade para o fazer.

   Aqui em Peniche ou em Buarcos, a minha porta e o meu coração estarão sempre prontos a receber-vos.

.   



Obrigado

Peniche, 25 de Outubro de 2021

António Barreto

domingo, 26 de setembro de 2021

"Duas Palavras Sobre Jorge Sampaio"

 

Respeito quem, obedecendo a imperativo de consciência, tem a capacidade de dissidir das ideias ou poderes dominantes. Geralmente gera desconforto, e até represálias, aos respetivos autores, mesmo em regimes democráticos, onde a liberdade de expressão é um dos pilares vitais. Jorge Sampaio teve a coragem de o fazer num tempo em que tal poderia implicar, não apenas desconforto social, mas tortura e morte. Por isso o respeito.

   Dito isto, confesso que não tenho grande consideração por pessoas cultas que defendem o socialismo. Além de gerador de pobreza, como a história demonstra à saciedade, o socialismo assenta na total submissão do cidadão ao Estado, por sua vez controlado e ocupado pelo partido. A liberdade é o maior bem a que o ser humano aspira. Ao impor ao cidadão a sua visão de felicidade, o socialismo, retira-lhe o seu bem mais precioso, a liberdade.

   Contudo, o vínculo democrático de Jorge Sampaio é inegável; na Faculdade de Direito de Lisboa, onde se licenciou em 1961, exerceu intensa atividade política de oposição à ditadura, primeiro enquanto Presidente da respetiva Associação Académica, depois como Secretário-Geral da Reunião Inter Associações Académicas (RIA) - em 1961-1962 - coprotagonizando a contestação estudantil que se manteve até ao 25 de Abril. Enquanto Advogado, teve ação de relevo na defesa de Presos políticos no Tribunal Plenário de Lisboa. Nas eleições de 1969 foi candidato à Assembleia Nacional pelo CDE (Comissão Democrática Eleitoral). Posteriormente manteve intensa atividade política e intelectual de oposição à ditadura, integrando vários movimentos de resistência, defendendo uma alternativa democrática de matriz socialista.

   Impulsionador do MES (Movimento de Esquerda Socialista), agremiação de intelectuais de esquerda de formação marxista, desvinculou-se em pleno congresso fundador ao perceber a natureza radical do movimento. Já em pleno PREC (Período Revolucionário em Curso), apoiou Grupo dos Nove do MFA, que se opôs à deriva totalitária, a que foi posto termo no 25 de Novembro de 1975. Estes factos, por si só, comprovam, em contextos diferentes, a cultura democrática de Jorge Sampaio.

   Posto isto, há rumores de queixas de vítimas dos excessos praticados no PREC, caso de Artur Agostinho, preso em Caxias, a quem Jorge Sampaio terá recusado defesa judicial, alegando insuficiente conhecimento do prisioneiro, apesar de ter sido seu patrono anteriormente, em vários casos de pequena monta. A ser verdade, não é bonito.

   Por outro lado, que saiba, não se terá oposto à tragédia que foi a descolonização, sendo por isso, quanto a mim, cúmplice do genocídio de que os portugueses, pretos e brancos, civis e militares, foram vítimas no decurso do processo, em todas as ex-colónias.

   Mais recentemente, considero-o, em parte, responsável pelos danos causados ao país pelo governo de José Sócrates. Ao dissolver a Assembleia da República, pondo fim ao governo errático de Santana Lopes, atirou o país para os braços do seu partido, que se revelou incapaz de o preparar para as crises que já se vislumbravam no horizonte.

   Parece-me também que Jorge Sampaio foi o precursor da “geringonça” - que, alegremente, conduz o país para a ruina económica e anarquia social - quando se aliou à esquerda radical na Câmara Municipal de Lisboa.

   Recordo ainda, quando, nos primórdios do Governo de Durão Barroso, perante a avalanche reformadora deste, Jorge Sampaio, então Presidente da República, recorreu ao caso dos toiros de morte de Barrancos para a travar. E conseguiu.

   Finalmente, ficou-me na memória a resposta que deu a um jornalista que o interpelava acerca das soluções para a crise. Respondeu Sampaio, refletindo uma característica eminentemente socialista: “ os empresários têm que trabalhar mais”! Lembro-me de ter pensado, “se quiserem!”. E logo depois: “mas como podem os empresários trabalhar mais se já trabalham 12, 14 e 16 horas diárias, muitos sem fins-de-semana nem férias? Trabalhar melhor, sim, seria possível, sem a crescente asfixia do Estado”. Mais tarde percebi; os governos socialistas, não se preocupam em criar as condições para o desenvolvimento da Sociedade Civil, consumidores e empresas, para que esta crie mais empregos e riqueza: aumenta o contingente do funcionalismo público e apresenta a fatura às empresas e cidadãos, agravando os impostos, criando outros, tal como novas e intermináveis taxas, e fazendo uso de uma infinidade de artifícios, diretos e indiretos, sempre por “boas e indiscutíveis causas”, onerosos para cidadãos e empresas. A fórmula do empobrecimento!

   E é isto que se me oferece dizer quanto a Jorge Sampaio; enquanto homem e político, respeito a sua dimensão humanista e democrática mas, enquanto político, reprovo o seu envolvimento num caminho em que não acredito.


Peniche, 26 de Setembro de 2021

António Barreto