Desporto

domingo, 16 de novembro de 2014

Operação Mar Verde

      O burburinho mediático a que assistimos na sequência do falecimento do Comandante de Mar e Guerra Guilherme Almor de Alpoim Calvão em que a Marinha de Guerra, num gesto de nobreza, cumpriu a última vontade de um dos seus maiores apesar do histerismo ressabiado de vários sectores ditos "progressistas", revelou desconhecimento quase generalizado relativamente àquela que foi a operação de maior envergadura realizada pelas forças armadas portuguesas em território exterior e que aquele militar, - na ocasião Capitão-Tenente - concebeu, planeou e comandou; a "Operação Mar Verde" - nome inspirado num quadro de Boticelli -, que ocorreu na madrugada e manhã de 22 de Novembro de 1970, sábado, em Conakri.
 
      Terá sido um sucesso ou um fracasso? Foi, claramente, um fracasso. Julgo mesmo que, dado o contexto internacional da época estava condenada ao fracasso independentemente do desfecho militar. O primeiro objectivo desta operação foi o de induzir um golpe de Estado na República da Guiné Conackri, base de apoio logístico e operacional do PAIGC, colocando no poder os opositores do sanguinário Sekou Touré, o que não se verificou. Igualmente ficou por concretizar a detenção ou neutralização deste ditador e de Amílcar Cabral, bem como a destruição dos dois caças MIG oferecidos pela união soviética ao regime de Conackri, e das emissoras de rádio locais. O caso dos MIG levaria ao abortar da operação devido à perda, pelo menos teórica, da supremacia aérea susceptível de comprometer politicamente Portugal, algo que deveria ser evitado a todo o custo conforme orientação do próprio Marcello Caetano - António Lobato revelaria mais tarde não haver capacidade operacional destas naves por impreparação dos pilotos guineenses, sendo certo que uma delas sobrevoou a grande altitude o teatro de operações já na fase de retirada, sem fazer fogo. Por esta razão foram canceladas a parte final e a segunda fase da operação,  que consistia no silenciamento das rádios, no apoio à revolta popular e no bombardeamento dos aquartelamentos do PAIGC na Guiné Conakri e de outros alvos estratégicos, pelos caças-bombardeiros FIAT. 
      Por outro lado, a preparação e execução da operação revelou divergências por parte de alguns oficiais, que acabaram por conduzir a um episódio de deserção e mostraram como a superestrutura militar estava já "minada", traduzindo-se num risco efectivo de enfraquecimento da moral de algumas tropas.
      Finalmente, as forças inimigas tinham o apoio efectivo da união soviética e seus satélites, das Organizações de Unidade Africana e dos Países não-alinhados e ainda de vários países ocidentais - basicamente, os mesmos que agora nos apertam "o gasganete" incluindo os EUA, que no rescaldo da operação, para não ficarem atrás dos soviéticos, ofereceram ao ditador guineense 4,7 milhões de dólares para reconstrução da cidade  -, daqui resultando o tremendo fracasso político consequente que fragilizou ainda mais a posição de Portugal no contexto internacional, apesar de as autoridades nacionais nunca terem assumido o raide. Ainda que o golpe de Estado se tivesse verificado, julgo que o desfecho político teria sido o mesmo, apesar de os EUA serem useiros e vezeiros em provocar golpes de estado em países soberanos, desde o episódio da Cuba que os EUA usurparam a Espanha com o pretexto da "libertação" do jugo colonial, violando um dos seus princípios fundadores de não intervenção na política interna de outros países.
      Quem não teve dúvidas do fracasso da operação foi António de Spínola que ficou decepcionado e furibundo, responsabilizando em privado Calvão pelo insucesso, pois considerava vital a mudança de regime de Conakri  para a supressão do apoio que prestava ao PAIGC. Julgo que, apesar dos MIG, Spínola entendia que Calvão deveria ter prosseguido com a operação forçando o golpe de estado e a mudança de regime. Afinal, os MIG, estavam militarmente, ainda, inoperacionais, embora Calvão determinado a respeitar do compromisso assumido com Caetano, não o soubesse na altura. Para este, a libertação dos prisioneiros portugueses, por si só, justificava a operação e deveria evitar-se a todo o custo qualquer indício da presença das tropas portuguesas no teatro de operações.
 
      Posto isto, no plano militar, efectivamente, a operação foi um sucesso na medida em que vários objectivos estratégicos foram alcançados, entre os quais, o mais importante de todos; a libertação de 26 prisioneiros portugueses das masmorras do PAIGC, entre as quais o nobre António Lobato - sargento aviador -, que resistiu 7 anos ao cárcere sem trair a sua Pátria e que fora o inspirador desta operação. Outros dos objetivos alcançados consistiram na destruição das instalações do quartel General do PAIGC durante a qual foram eliminados dezenas de militantes e guerrilheiros, entre os quais Aristides Pereira, na neutralização do aquartelamento da Guarda Republicana onde foram silenciados dezenas de elementos e soltos cerca de 600 prisioneiros civis, da destruição do campo de treino Boiro, na neitralização da Gendarmerie, na destruição de vários edifícios na zona do palácio presidencial e no afundamento e incendiamento da moderna frota de lanchas rápidas do PAIGC e da Guiné Conakri.
 
      As razões para o fracasso, apesar do sucesso militar, prendem-se com a perda da superioridade aérea em virtude da não destruição dos MIG - por não se encontrarem no local previsto, devido a deficiente informação, que terá também sido a causa da não detenção de Amílcar Cabral já que este se encontrava ausente no estrangeiro. Quanto a Sekou Touré, conseguiu escapar refugiando-se em casas próximas graças ao aviso "in extremis" de elementos das forças locais, tendo sido acometido por um ataque de pânico ao julgar-se perante forças invasoras, ainda a caminho, tendo chegado mesmo a suplicar a morte em vez da entrega às mãos do povo (posteriormente mandou fuzilar estes elementos talvez por terem testemunhado a sua fraqueza). Outra das causas do fracasso prende-se com os dissidentes políticos do Front - movimento de oposição ao regime de Conakri -, escolhidos para parceiros desta aventura e treinados na ilha de Soga, no arquipélago dos Bijagós, juntamente com as restantes tropas,  que parecem não se terem revelado à altura da empreitada, apesar de terem decidido ficar em Conakri  para fomentar o golpe, acabando, mais tarde, executados por ordem de Sekou Touré.
 
      Discordaram da operação; o Primeiro-Tenente Costa Correia, comandante da LDG "Montante" preocupado com as implicações políticas da mesma, bem como o Major Hugo Leal de Almeida, supervisor da Companhia de Comandos Africanos, cujo 2º comandante, Tenente Januário, acabaria por desertar arrastando os seus homens para a morte, não sem antes terem servido os desígnios  de propaganda política de Sekou Touré. Hugo Leal de Almeida acabaria mesmo por receber ordem de prisão de Calvão, que o conduziu à presença de Spínola, o qual, na presenta dos seu Estado-Maior o insultou e agrediu tendo chegado mesmo a arrancar-lhe os galões, para estupefacção geral, acabando por aquela anuir à inclusão na operação tendo porém deixado a semente de insubordinação na sua companhia, como veio a verificar-se. Mal visto ficou também o Alferes Jamanca que inexplicavelmente, não executou a missão do seu grupo que consistia na destruição das instalações da rádio local, alegando mais tarde desconhecimento da localização das respectivas instalações. Caricato o desertor prisioneiro "libertado" à força, injuriado e agredido por Spínola ao despedir-se dos prisioneiros antes do embarque  dos mesmos para Lisboa, cerimónia em que ofereceu o seu sobretudo ao "escanzelado" mas nobre Lobato para se proteger do frio da capital .
 
      Registou-se uma baixa nas forças portuguesas, o Alferes Ferreira, abatido com uma rajada de metralhadora no assalto ao quartel da Guarda Republicana, cujo corpo foi recuperado, um ferido grave e vários ligeiros. 
 
      A ideia da "Operação Mar Verde", germinou na mente de Calvão ao ter conhecimento logo após a sua chegada à Guiné, da longa prisão do corajoso António Lobato - Sargento aviador, capturado na sequência do despenhamento do seu T6 na ilha de Como no início do conflito, em Maio de 1963 -, foi adoptada pelo General Spínola na perspectiva da alteração do curso da guerra e foi aprovada informalmente por Marcello Caetano perante Alpoim Calvão que para o efeito se deslocou a Lisboa, recurso de Spínola à prévia reprovação do Ministro do Ultramar, Silva e Cunha e do Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, que receavam fortes repercussões internacionais negativas para Portugal, como veio a verificar-se. A operação teria de ser secreta- usaram-se fardamentos semelhantes aos das forças armadas da Guiné Conakri e do PAIGC, cigarros e fósforos das mesmas marcas e armas de origem russa -. Para Caetano, bastaria conseguir a libertação dos soldados portugueses para  considerar a operação bem sucedida e não deixar vestígios das forças portuguesas.

Principais intervenientes:

Na instrução na ilha de Soga:

      Primeiro-Tenente Rebordão de Brito - chefe do grupo -, Segundo-Tenente Fuzileiro Especial Benjamim Abreu, Alferes Ferreira, Furriel Comando Marcelino da Mata - que se viria a destacar na execução da operação, o Cabo Rossa - o sono -, o Marinheiro Tristão - o Setúbal - e o Marinheiro António Augusto da Silva - o Touré, estes últimos fuzileiros que acompanhavam Calvão para todo o lado.

Forças intervenientes na operação:

      Para 25 objectivos primordiais; 200 combatentes do Front, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 21 - com 80 efectivos africanos - comandado pelo Primeiro-Tenente Cunha e Silva e a Companhia de Comandos Africanos constituída por 150 homens e comandada pelo Capitão João Bacar.

Armas utilizadas:

      A cargo do Major Carlos Azeredo; 250 espingardas automáticas AK47 Kalashnikov, 20 Morteiros 82 e 12 RPG 7 e outras.

Colaborador especial de planeamento:

      Grumete Fuzileiro e desertor arrependido Alfaiate, contribuindo com os seus conhecimentos da cidade de  Conakri onde tinha permanecido algum tempo durante a deserção.

Meios navais:

      Quatro Lanchas de Fiscalização Grandes; "Orion", comandada pelo Capitão-Tenente Faria dos Santos, "Cassiopeia", comandada pelo Capitão Tenente Lago Domingues, Dragão, comandada pelo Primeiro-Tenente Duque Martinho e a "Hidra", comandada pelo Primeiro-Tenente Fialho Góis. Duas Lanchas de Desembarque Grandes; "Bombarda", comandada pelo Capitão-Tenente Aguiar de Jesus, e "Montante", comandada pelo Capitão Tenente Costa Correia.

      Elo de comunicação permanente entre Calvão e Spínola, o Comodoro Luciano Bastos que acompanhou desde o seu gabinete toda a operação.

Grupos de acção:

      "Victor" comandado pelo Segundo-Tenente Rebordão de Brito, constituído por 14 fuzileiros especiais, o primeiro a entrar em acção, junto ao Yacht Club afundando três vedetas, incendiando mais quatro e abatendo cerca de quinze inimigos que disparavam de terra, tendo sofrido um ferido ligeiro.

      "Índia", comandado pelo Furriel Demda Seca, tomou e desactivou, após eliminação das sentinelas, a central eléctrica cortando o abastecimento de energia à cidade.

      "Sierra", comandado pelo Capitão-Paraquedista Lopes Morais que invadiu e "varreu"a pista e hangares do aeroporto não tendo encontrado os MIG - estavam estacionados na cidade de Labé, a cerca de 150 Km -,  e cuja destruição era vital para levar a missão até final. Foi deste grupo que o Tenente Januário desertou com vinte homens. Regressaram por ordem de Calvão abrindo caminho a tiro entre tropas inimigas incluindo blindados.

      "Zulu", comandado pelo Subtenente Falcão Lucas que ataca as instalações do PAIGC destruindo cinco edifícios, diversas viaturas e vários militantes e guerrilheiros, atacando também as residências dos dirigentes em busca de Amílcar Cabral que para sua sorte se ausentara do país.

      Segundo grupo de assalto comandado pelo Segundo-Tenente Benjamim Abreu, constituído por quatorze fuzileiros, incumbido de eliminar Sekou Touré, invade a residência do ditador, já deserta, constatando a sua ausência, tendo os guardas fugido a grande velocidade ao avistarem-nos. De seguida destroem vários edifícios do complexo residencial e tomam de assalto o Complexo das Milícias Populares a cerca de 100 metros eliminando todos os que lá se encontravam, regressando finalmente ao local de embarque.

      Terceiro e quarto grupos de assalto comandados pelo Primeiro-Tenente Cunha e Silva dirigem-se para a prisão "La Montaigne", em cujos muros abriram um rombo a tiro de bazuca que lhes permitiu libertar os prisioneiros portugueses, um civil e 25 militares - um dos quais desertor trazido à força -, após terem abatido oito guerrilheiros do PAIGC.

      "Óscar", comandado pelos Alferes Ferreira e Tomás Camará, constituindo por quarenta homens, entre membros do Front e dos comandos africanos, entre os quais o conhecido Furriel Marcelino da Mata, que tinha como missão principal a neutralização do quartel da Guarda Republicana. Marcelino da Mata desbloqueou o acesso ao quartel ao abrir o portão de entrada depois de se ter lançado de cabeça pela janela  da casa da guarda e eliminado a golpe de sabre o respectivo guarda, não tendo conseguido evitar a morte do Alferes Ferreira abatido pela guarda a rajada de metralhadora enquanto Mata abria o portão. Aberto este, as forças portuguesas invadiram as casernas tendo abatido todos os que lá se encontravam e solto cerca de seiscentos prisioneiros políticos civis, amontoados e maltratados em celas exíguas, alguns deles cegos. Tendo entretanto soado o alarme, chegam reforços inimigos ao quartel, sendo sistematicamente abatidos, tendo as forças invasoras capturado um jipe para transporte do corpo do Alferes Ferreira, abrindo caminho por cima de uma barreira de cadáveres. Incumbido entretanto de calar a Rádio Conakri II, devido à ineficácia do grupo "Hotel" no cumprimento desta missão, dirige-se ao edifício referenciado destruindo-o, verificando-se porém ser outra a rádio que transmitia; a Rádio Conakri I. Mais uma falha do departamento de informações. a neutralização do Camp Boiro - campo de treino militar - ficou a cargo dos vinte homens do Front, comandados por Ibrahima Barry que preferiram não regressar, para incentivar  a revolta popular, distribuindo as armas e munições  que se encontravam nos respectivos paióis pela população e neutralizando as forças leais ao regime de Conakri, acabando dizimados pelo exército da Guiné Conakri.

      "Mike", grupo constituído por cinquenta homens e comandado pelo Alferes Sisseco da Companhia de Comandos Africanos e por Therno Dialo - chefe militar do Front -, após um quilómetro em marcha acelerada toma sem grande dificuldade o campo militar de Samory onde se depara com grande quantidade de munições e armamento. Sisseko acaba por ser atingido na boca por uma roquetada inadvertidamente disparada pelos inábeis homens do Front eventualmente assustados pelo black-out repentino da cidade. 

      "Hotel", grupo constituído por dez homens, comandado pelo Alferes Jamanca, assessorado por Técnicos do Front, incumbido de destruir a emissora Boulbinet e que inexplicavelmente ficou "colado" ao solo até à ordem de reembarque, frustrando mais uma missão. Alegou mais tarde Jamanca, desconhecimento da localização do edifício onde estava instalada a rádio.

      "Alfa", "Bravo", "Charlie" "Delta", "Echo" "Foxstrot" e "Golf", compostos por comandos africanos e elementos do Front, largam da "Bombarda" em quatro vagas e tomaram a Gendarmerie, graças ao apoio do Capitão João Bacar que atacou uma coluna de blindados prestes a intervir, provocando várias baixas. Foi o grupo "Alfa" encarregado da neutralização de Sekou Touré, missão fracassada pela fuga deste à última hora refugiando-se num edifício não muito longe, após fuga da guarda do palácio ao avistar os invasores.

      O grupo "Papa", viu revogada a sua missão de "cortar a cidade em dois tomando o istmo.

Curiosidades:

      Parece que havia uma relação de parentesco remota entre Alpoim Calvão e Amílcar Cabral; o 5º avô daquele era irmão do 6º avô da mãe de duas filhas deste.
      No reembarque, que dura até às 0915, é efectuado perante numerosa multidão que se aglomerava à beira-mar vitoriando as forças invasoras num ambiente quase festivo. 
      Os prisioneiros resgatados, comprometeram-se ao silêncio por escrito perante o governo português.

Reflexão:
      Também aqui fica demonstrado que há ditaduras boas e más conforme a origem do ditador e dos interesses em jogo, independentemente do grau de opressão. Tal distingue os Libertadores dos libertários.           

Créditos: "Honra e Dever" por Rui Hortelão, Luis Sanches de Baêna e Abel Melo de Sousa, editora "Caminhos Romanos".     

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Nacional-Benfica (1-2)

Interpretação do 2º golo do Benfica inspirada na crónica correspondente do CM:
      Jonas, vagueando pela área da equipa adversária, ao deparar-se com uma bola a menos de um metro de distância, perguntou-lhe surpreendido:
   - Olá linda bola, que fazeis por aqui?, pareceis perdida!, como eu mesmo.
   - Bem - respondeu a bola esperançosa -, eu não sei bem; andam todos a correr atrás de mim há que tempos, e depois de muitas patadas, vim aqui parar e nem sei bem o que fazer! 

   Respondeu o Jonas apiedado:
   - Ora nem de propósito!, eu sou especializado em encaminhar esferas flexíveis saltitantes para o fundo das balizas; talvez fosse uma boa solução para si. Sempre descansava uns minutinhos e nem seria necessário grande patada, bastava dar um encostosinho. Que acha Srª bola?, não é uma boa ideia?
   - Não digo que não!, até porque a outra baliza está demasiado longe e já estou muito cansada. Dê lá o encostosinho mas não abuse!
      E foi assim que, Jonas, animado do mais puro altruísmo, encheu o pé à meia-meia-volta fazendo a felicidade da redondinha, que, contente, correu a acariciar as redes do Nacional.
     - Esta foi a verdadeira história do 2º golo do Benfica; o golo dos três pontos.

sábado, 8 de novembro de 2014

Em "Mitos Climáticos" por Rui G. Moura


A grande seca do Sahel

Nas latitudes médias, o processo que conduz às secas de longo prazo envolve a formação de aglutinações anticiclónicas (AA) produzidas por anticiclones móveis polares (AMP).

Nos trópicos, as condições da pluviogenesis podem sofrer perturbações que dificultam a precipitação. As condições do transporte de vapor de água de longa distância e a ascendência podem ser especialmente perturbadas.

As perturbações advêm, fundamentalmente, de fenómenos de interferência dos alísios, que sopram dos continentes para os oceanos, e do equador meteorológico. Tanto uns como o outro podem dificultar a precipitação.

A definição clássica de equador meteorológico pode ser encontrada na internet, por exemplo, nos seguintes links: (1), (2), (3), (4). Em relação à definição moderna só em livros é possível encontrá-la como no referido no fim deste post.

O equador meteorológico (EM) forma-se na zona de confluência dos AMP boreais e austrais junto ao equador geográfico (EG). Em termos gerais, no Inverno do Hemisfério Norte, o EM é empurrado para Sul.

Nas fases frias, como aconteceu na Pequena Idade do Gelo, o EM situa-se a sul do EG sobre o continente Africano. Em fases quentes, como sucedeu no Óptimo Climático do Holoceno, o EM situa-se a norte do EG por cima do continente Africano.

Consequentemente, a posição do EM sobre o continente Africano é definidora da fase ou do cenário quente ou frio que se vive, pelo menos, em África. E na fase actual situa-se, manifestamente, a sul do EG, desde os anos 1970. Isto é, após o shift de 1975/76.

A trágica e alarmante falta de chuvas de Verão ao sul do Sara que se verifica desde os anos 1970 continua a subsistir nos dias de hoje com pequenas remissões locais. Essa tragédia faz-se sentir em lagos que estão a secar na região de Dakar e na República do Chade.

O caudal do rio Níger reduz-se a zero. As colheitas minguam. Verifica-se um êxodo forçado das populações rurais que sentem falta de alimentos para a sua subsistência. Daqui resultam muitos conflitos sociais.

Têm sido adiantadas hipóteses sem consistência para tentar explicar este fenómeno meteorológico local. Vão desde a interferência do Homem africano – que alteraria o albedo – até ao inevitável «global warming» devido aos malfadados gases antropogénicos do Homem planetário.

Mas a verdade é que grande seca do Sahel resulta da alteração da circulação geral da atmosfera que tem vindo a provocar aglutinações anticiclónicas não só sobre o Atlântico (Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde) mas também sobre o continente Africano (Mauritânia, Senegal, Mali, Níger, Chade, Sudão).

O aumento das pressões atmosféricas que se tem vindo a verificar na Europa também se estendeu para Sul. Especialmente, sobre o norte do continente Africano. A pressão tem subido da Mauritânia ao Djibuti, passando pelo Senegal, Sudão, etc.

A propósito, nenhum modelo informático do clima inclui quer a inversão dos alísios quer o equador meteorológico. Não existem equações matemáticas capazes de reproduzir estes fenómenos reais como muitos outros (representação das nuvens, p.e.).

O fantasista Al Gore, no livro/filme «Uma Verdade Inconveniente», culpa o aquecimento global pelo desaparecimento do Lago Chade o que, por sua vez, contribuiu para a fome e o genocídio. O seu émulo português Filipe Duarte Santos disse o mesmo no programa da RTP2no dia 8 de Junho de 2008.

A falta de rigor das afirmações de ambos tem consequências deploráveis na desinformação da opinião pública. E tais intervenções, por estranho que pareça, são mais graves da parte de Filipe Duarte Santos porque, ao contrário de Al Gore, se apresenta como investigador universitário, mas denota uma grande falta de conhecimentos nesta matéria.

A grande seca do Sahel e demais fenómenos meteorológicos e climáticos do continente Africano são descritos por Marcel Leroux no livro The Meteorological and Climate of Tropical África, Springer & Praxis, 2001, 548 páginas, ISBN 3-540-42636-1.

Esta obra resultou do estudo encomendado pela Organização Meteorológica Mundial ao climatologista que mais percebe do clima de África e não só. O livro inclui 225 figuras e um CD com 350 mapas que relatam os vários factores da meteorologia e climatologia e os seus efeitos no continente Africano.

Foi durante a execução deste estudo que Marcel Leroux encontrou inconsistências na teoria clássica relativamente às explicações da estrutura troposférica da África tropical. Pôs em dúvida o esquema tricelular clássico da circulação geral da atmosfera que é o pilar básico da climatologia clássica.

Marcel Leroux procurou então um outro esquema que se ajustasse à realidade observável. Estando em Cabo Verde, imaginou que a circulação tinha origem nos Pólos. As imagens enviadas pelos satélites meteorológicos vieram confirmar esta hipótese. A dinâmica dos anticiclones móveis polares era manifestamente visível.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Benfica-Mónaco (1-0)

      Um grande aplauso para jogadores e Técnicos do Benfica!, mereceram a vitória...mas também uns puxõezinhos de orelha!  Um jogo equilibrado onde foi notório o ascendente físico dos jogadores do Mónaco os quais ostentam considerável acerto tático  e capacidade técnica assinalável. Quarenta minutos fortíssimos dos encarnados; vinte no início onde poderiam ter marcado por umas duas vezes - por isso os referidos puxões de orelhas -, ouros tantos no final onde "carregaram" implacavelmente sobre o adversário e que rendeu o golo da vitória num remate cheio de "soupless" de Talisca. No restante tempo da 1ª parte houve equilíbrio entre as duas equipas, no restante da 2ª parte a superioridade  foi da equipa do Mónaco, que além do bom futebol que pratica, joga com o baralho todo...do antijogo, com destaque para Ricardo Carvalho. Excepto na excelente ponta final, continuou a notar-se défice de criatividade e de dinâmica no meio-campo, com jogadores a agarrarem-se demasiado à bola. mas são bem visíveis os ganhos de entrosamento na equipa, com algumas unidades em notório crescendo de forma. Júlio César dissipou todas as dúvidas com várias defesas de grande categoria, delas delas decisivas. Jardel surpreendeu pelo acerto no posicionamento e nas dobras, sobretudo à esquerda onde André Almeida tinha dificuldade em parar "Carrasco". Apesar do bom jogo de Gaitan ia "jurar" que ainda tem mazelas físicas do "massacre" de Braga. Samaris não engana; é um excelente jogador mas precisa de tempo. A entrada de Lima desassossegou a defesa contrária introduzindo imprevisibilidade nos lances.  Apesar da dificuldade em superar o seu oponente Sálvio, ainda disfrutou de uma excelente oportunidade de golo logo na 1ª parte que não concretizou. Quanto a Talisca, não contemos com ele para criador do meio-campo; segurar a bola, rodar, mudar de direcção, fintar em curto espaço e entregar...tem de ter panorâmica e corredor. Todos os outros estiveram bem, com dificuldades para André, havendo a destacar um corte "in extremis" de Máxi.
      O árbitro portou-se muito mal ao beneficiar o infrator assinalando uma falta sobre Gaitan, quando este corria já isolado para a baliza contrária com um colega pronto a tabelar. Mais um lance que deixa suspeitas sobre a UEFA.     

Movimento contra a mentira climática!

Espectador interessado: Compensa errar redondamente anos a fio (pelo menos...: Assisti, observando uma recatada distância, aos vigorosos protestos das entidades domésticas "produtoras de ciência" que se senti...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

sábado, 1 de novembro de 2014

Mário Figueiredo; derrotado ou vitorioso?

      Saído das "catacumbas" do gabinete de Gil Moreira, dedicado quase exclusivamente à prestação de serviços jurídicos ao FCP, a surpreendente eleição de Mário Figueiredo (MF), apoiado maioritariamente por clubes da 2ª Liga, para a presidência da Liga de Clubes, parecia constituir mais uma "jogada" da "exemplar estrutura" para a retoma do controle desta superestrutura, que tanto se empenhara no afastamento de Hermínio Loureiro - já sob a sua asa protectora - e de Ricardo Costa, que, corajosamente e a despeito de todas as dificuldades, não fora a vergonhosa intervenção da FPF e da UEFA, teria extirpado o "tumor" que há cerca de 40 anos corrói o futebol nacional.
 
      Mas MF tinha um projecto que, basicamente, consistia em aumentar a receita de alienação dos Direitos Desportivos dos clubes e contemplar os seus apoiantes com maior fatia do bolo. Para isso propunha centralizar a negociação na Liga e acabar com a exclusividade da Olivedesportos no acesso à concessão. Não foi de modas e apresentou queixa à AdC contra a Olivedesportos por abuso de posição dominante, esperando a inevitabilidade de uma decisão favorável em tempo útil.
 
      Foi a componente da competitividade do seu projecto que tramou MF afastando a sua base de apoio institucional. Ciente de que a optimização das receitas está directamente relacionada com a incerteza dos resultados e que esta é função do equilíbrio das equipas em confronto, bem como da necessidade de reduzir custos, encomendou um estudo a um especialista holandês que propôs a alteração do quadro competitivo para um modelo em que, as então dezasseis equipas seriam divididas em dois grupos de oito jogando em cada grupo todos contra todos constituindo-se de seguida dois outros grupos, um deles pelos quatro melhores classificados de cada grupo anterior e outro pelos quatro piores classificados dos mesmos grupos. Com o modelo que MF apresentou à discussão, em cada época haveria clubes que não jogariam com os "grandes".  E foi aqui que MF "morreu"!, nenhum dos pequenos clubes quer saber do futebol nacional como um todo, todos querem apenas mais receitas, seja como for e, sobretudo, querem a jogar com os "grandes" para se sentirem maiores do que são efectivamente.
 
      Com MF sem base de apoio, a Olivedesportos ganhou novo fôlego e, pacientemente, recorrendo aos aliados de sempre, foi tecendo a sua teia, renegociando a dívida com bancos em graves dificuldades e agregando no mesmo projecto os principais operadores do cabo, com a curiosidade de integrarem gente ligada ao FCP, prevenindo-se contra eventual decisão desfavorável da AdC, obrigando o futuro concessionário dos direitos a cair-lhes nas garras. Felizmente que aquela entidade, num assomo de decoro,  impediu a exclusividade de emissão dos jogos concessionados à STV, como pretendia a Olivedesportos, conseguindo com este estratagema reconstruir o monopólio eventualmente  perdido. Tudo isto nas "barbas" de todos e nem uma vozinha contra se ouviu!
 
      Enquanto isso, perante a impossibilidade de "dobrar" MF, uma estrutura que serviu tantos anos de suporte às vitórias do FCP, deixou de ser adequada quando estas ameaçavam escassear, e começou pacientemente a ser esvaziada, desde logo com a passagem dos Conselhos de Arbitragem e de Justiça para a FPF ainda controladas pela "exemplar estrutura". Desta forma eventuais decisões desfavoráveis no Conselho de Disciplina (CD) da Liga, recentes ou remotas, desfavoráveis ao FCP, seus dirigentes ou atletas, poderiam ser revogadas, como veio a suceder em várias ocasiões, entre as quais a anulação da condenação de Pinto da Costa, essa pérola da indigência jurídica. Por outro lado ficaram os árbitros sob apertado controlo, em favor dos mesmos de sempre, como se tem continuado a verificar, embora de forma menos aguda.
 
      A "martelada" final foi dada por Emídio Guerreiro e o Conselho Nacional do Desporto (CND) com a publicação da nova lei das Federações Desportivas, concedendo à FPF o poder de alocar a organização do futebol profissional em caso de força maior! Foi o fim do projecto de MF que bravamente resistia a todas as ameaças, sem dinheiro, aguentando os clubes e árbitros como podia perante a abundância sumptuária da FPF que "afogada" em recursos exigia à falida Liga o pagamento de avultadas vferbas, em vez de mostrar a sua solidariedade.
 
      Finalmente, com MF definitivamente afastado, desavergonhadamente, a AdC fez-se ouvir, dando razão, pelo menos parcialmente, à queixa daquele, desacreditando uma instituição constituída para, na sua esfera de acção, zelar pelo cumprimento das leis.
 
      É esta a força de Pinto da Costa e do "Sistema"!
 
      Mário Figueiredo cometeu um erro de avaliação ao pensar que tinha os pequenos consigo incondicionalmente e ao afrontar o "sistema" de frente. O país não está preparado para tal e o sentido crítico das populações continua a ser controlado pela Comunicação Social, amplamente "colonizada" por adeptos azuis ou simplesmente destituída de coragem para contrariar certos "poderes de facto". Todos sabem que MF tem razão mas muito poucos estiveram do seu lado, preferindo os outros a submissão "dourada" à independência!
 
      O grande mérito de MF consistiu em desmascarar todos; dirigentes desportivos, governantes, jornalistas, comentadores e adeptos, que "todos os dias" enchem a boca a favor da necessidade de credibilização do futebol nacional mas quando chega a hora "metem o rabinho entre as pernas e calam-se bem caladinhos que nem ratos".
 
      Tenho lido e ouvido algumas crónicas desabonatórias de MF; porque tinha um alto salário, porque tinha despesas de representação, porque a Liga devia dinheiro aos árbitros e aos clubes - Até o Calado!. Nenhum deles, nenhum, se debruçou sobre o seu projecto e as causas da falência financeira da Liga; nenhum foi capaz de denunciar a política de "engorda do porco do endividamento" até ao aparecimento do grande salvador dos clubes e do futebol nacional que, para gáudio de Pinto da Costa e do seu falido clube há-de ser mais uma vez a Olivedesportos. Para facturar 50 a 100 ME todas as épocas é necessário passear no campeonato nacional  e ter um bom calendário na europa.
 
      Os efeitos do "acordo" clubístico já se fizeram sentir em Braga, com violência excessiva e a permissividade da equipa de arbitragem. Já todos "sabem" quem manda!
 
     Daqui endereço os parabéns a MF pela coragem que teve, não pela tática, e aos que o apoiaram até ao fim, em especial ao SCP e ao seu Presidente, fazendo votos para que aquele encontre maneira de dar o seu contributo na luta pela independência dos clubes de futebol, sem a qual os campeonatos constituirão uma farsa deprimente.
 
      Quanto ao Benfica, como já referi em comentário anterior, julgo que deveria ter-se demarcado de qualquer solução de falso consenso como é a que foi alcançada, em que os intervenientes, à excepção de um, estavam sob "chantagem" implícita; ou chegavam a acordo ou os campeonatos profissionais passavam para a FPF onde "manda" o FCP! Uma vergonha!, dito de outra forma; pode qualquer clube ficar de fora de qualquer consenso, excepto o FCP!, os clubes são todos iguais, excepto o FCP! Porquê?
 
      Relativamente à escolha de Luis Duque para a presidência da Liga, julgo que foi uma decisão infeliz; por ser uma atitude hostil ao SCP com quem tem contencioso, por ser uma figura demasiado controversa no desporto - condenado por fraude fiscal, salvo o erro -, por ser compulsivamente hostil ao Benfica, como no caso Mourinho, e no caso do incêndio do Estádio da Luz do qual nunca se demarcou publicamente.
 
      Esta atitude constitui a primeira vitória de Pinto da Costa, ainda por cima dupla, pois mais uma vez afasta os dois rivais de Lisboa e divide os Benfiquistas, como tão bem sabe fazer.
 
     PS: no decurso do processo, António Fiúza, a respeito da auto-exclusão do SCP do "acordo" alcançado, terá dito mais uma vez, o que de vez em quando é dito a propósito do Benfica; que o Sporting é um clube como outro qualquer!, Não é não Sr Fiúza! Todos os clubes sofrerão consequências financeiras graves se o Sporting faltar no campeonato o que não é o caso de muitos outros cuja falta nunca se fará sentir.  
 
Estarei enganado? A ver vamos!