Desporto

sábado, 30 de julho de 2022

As 35 horas

 

PREC – Curiosidades

As 35 horas

   A lei das 35 horas retomada em 2015, contrapartida do PS ao apoio do PCP e do BE para formar governo, é uma velha reivindicação sindical que remonta aos tempos do PREC e do 1º Governo Provisório de que Cunhal fazia parte. Vejamos o que este pensava do assunto em 17 de Junho de 1974 e publicado em “O Século” em 20 de Junho:

   “São por vezes apresentadas reivindicações que, na atual situação económica e social, não podem manifestamente ser satisfeitas. É impossível sem uma grave perturbação na estabilidade económica alcançar ao mesmo tempo consideráveis aumentos de salários, diminuição do número de horas semanais, aumento de férias pagas, etc. O PCP alerta para o perigo de reivindicações irrealistas e chama particularmente a atenção para as exigências de súbita e radical diminuição da semana de trabalho, que em alguns casos que em alguns casos desceria a níveis não praticados mesmo nos países desenvolvidos. Semanas de 35/36 horas não correspondem ao nível do atual desenvolvimento económico. As reivindicações irrealistas conduzem a um beco sem saída, à perturbação do equilíbrio económico, ou ao aumento dos preços e ao agravamento da inflação, que anulam os aumentos de salários alcançados.”

   Quem recorda esta surpreendente sensatez de Álvaro Cunhal? O que mudou entretanto para justificar as 35 horas semanais da função pública? A economia nacional é mais próspera? Sim em termos absolutos, mas não relativamente aos nossos parceiros europeus! De facto a economia nacional ocupa os últimos lugares; o PIB per capita em paridades do poder de compra, em 2021, situou-se 26 % abaixo da média da comunidade europeia, o 7º mais baixo da EU, segundo dados do Eurostat (Jornal Eco, Mariana Espírito Santo, 23 de Março de 2022).

    Este episódio é mais uma demonstração de que a democracia portuguesa se movimenta de acordo com a lógica de poder partidário e não com a do interesse nacional, constituindo causa primordial da decadência e inevitável falência das democracias.


Foto de Eduardo Gageiro

Peniche, 30 de Julho de 2022

António Barreto

domingo, 17 de julho de 2022

Uma Viagem Atribulada

 

Uma viagem atribulada

 

  Enchi-me de coragem e exclamei - Vou a Vigo! Preparei o calhambeque, vi o mapa do percurso, defini a hora de saída e “arranquei” no dia seguinte. A extensão da viagem preocupava-me mas os assuntos que lá tinha justificavam o desconforto.

   Seis horas, radio a tocar, arzinho fresco nas ventas para desencorajar o sono, pé na tábua afinado para os 120 a 140 km/h, ele aí vai em expedição rumo a “terras de Espanha”.

   - Trá, lará, rebéu, béu, béu - ia trauteando o que o rádio debitava. - Quatro horas! Com esta zoada…ainda me dá o sono!...Bela autoestrada!... Afinal nem todo o dinheiro foi mal gasto!…Ainda dizem mal do homem!...Ui! O Dragão ali mesmo por bombordo! Deixa-me cá olhar para o outro lado antes que me dê um treco! Hum…, tá jeitoso o Estádio!... Ah, já passou; agora Braga.

   À entrada de Braga, subitamente descobri que estava numa estrada nacional! Eh, pá; que foi isto? Agora vai ser assim? Vinha tão bem! Vai ser bonito! - Volta p´ráqui, volta p’ráli, milagre! Subitamente encontrei-me de novo na autoestrada em direção de Vigo! - Como é que fiz isto? Não interessa, siga! Está quase!

   Chagado a Vigo - por volta das dez, o drama de chegar ao destino - não tinha GPS; pergunta a este, pergunta aquele, ao fim de muitas voltas e reviravoltas lá cheguei onde queria.

   - Bom dia, Pepe. - Olha o António! fixeste boa biaxe? Miguel, aqui o António! - O Miguel é o filho do Pepe; na Galiza acho que são todos Pepe - cumprimentámo-nos e fomos tratar dos assuntos pendentes. Almoço bem caprichado num pequeno restaurante ali perto.

     Enquanto dava ao dente e conversávamos sobre banalidade, ia pensando: - Eles são como nós! Galegos e portugueses são o mesmo povo! O mesmo tipo físico, idiomas muito idênticos - percebe-se tudo, um ou outro termo diferente -, gente simples, despretensiosa e trabalhadora…até tocam gaita-de-foles, como os minhotos - o famoso ninário, como lhe chamávamos na minha rua: - “É malta, vem aí o “ninário”; clamava o Zé Pratas, correndo esbaforido a dar a novidade!

 - Não admira, os entrelaçamentos das populações, na época, eram correntes, sobretudo entre a nobreza de corte e de província. O Condado Portucalense, em plena Reconquista, esteve subordinado ao Reino da Galiza - de 1095 a 1139, salvo o erro, sob o reinado de Raimundo, primo do nosso D. Afonso. O acordo estabelecido entre eles, fundamentando a recusa de D. Afonso ao convite de alguns nobres galegos para reclamar o respetivo reino, veio a culminar no Tratado de Zamora, início do processo de independência de Portugal.

   - E se Portugal e a Galiza fossem o mesmo país? Se o povo é o mesmo! - Ia pensando, recordando-me da “minha” velha teoria segundo a qual o plano da D. Tereza consistiria na constituição dum reino único independente de Castela. Um reino em cuja cortena nobreza portuguesa não teria lugar e por isso se opôs através de D. Afonso. - Ganharíamos massa crítica, seríamos mais fortes, economicamente e socialmente! Que pena! - Pensei.

   - Quantos estaleiros há em Vigo, Pepe? - Seis. - Seis? Só em Vigo? Em Portugal, os poucos que resistiram estavam em agonia. - Bamos ver a Feira, António? Vamos! - Uma feira alimentar anual que há na cidade, com razoável dimensão. E fomos.

   Terminada a visita entrámos num cafezito para a despedida. Logo que entrámos, deparei-me com um par de “meloazinhas” insinuantes cirandando por detrás do balcão. Pensei logo ficar para o dia seguinte. - ; não dá! Ala para Peniche e deixa-te de m----s! Pepe, como faço para apanhar a autoestrada para Portugal? - Xá Bais? Chega aqui! - Disse o Pepe junto à porta. - Táx a ber aquela abenida? É a abenida Ricardo Mellia - Um herói local como vi mais tarde.

- Bás por aqui, biras ali, xegues in frente até lá ó fundo, táx a perxeber? - Estou, disse, pouco convicto, reparando nos bês. – Depoix biras á esquerda e num tem nada que xaber; é xempre in frente até Portugal! - OK. - Respondi, meio confuso. - Adeus Pepe, obrigado, Lá te espero em Peniche! – Quando quixeres vem cá paxar uns dias, boa biaxe. – Despediu-se o Pepe.

   E lá fui, ainda a pensar nas “meloas”. - Ora…Ricardo Mellia…é aqui….Sempre em frente, ok - e as meloas sempre na cabeça -, agora à esquerda…já está…e sempre em frente outra vês!... Portugal, aí vou eu - as “meloas” é que era! - Rádio a tocar, fresquinho nas ventas, pé na tábua, ele aí vai rumo ao paraíso lusitano.

   - “Ai que lindeza tamanha, meu chão, meu monte meu vale, de folhas flores frutas de oiro….”, ia trauteando o poema de José Régio, imortalizado pela Amália. Passado cerca de meia hora, comecei a estranhar: - Não me lembro de ter visto isto!...é a primeira vez que aqui venho…tudo isto é estranho. Siga. - Portagem espanhola. - Siga! - Outra portagem espanhola; - eh lá! Outra? Os espanholitos não brincam! É sempre a abrir! Afinal é como lá, ou pior. - Já noite, cada vez mais desconfiado, resolvi sair na primeira oportunidade, para conferir o rumo.

   Assim fiz; casario por estibordo quatro ou cinco metros abaixo; apanhei a saída e aproximei-me da única luz visível, um café. - Tou safo, pensei, não avistando vivalma nas proximidades. - Franqueada a porta, lá ao fundo uma grande bandeira de Portugal fixada na parede! - Eh, pá, tou em casa! - Dirigi-me à primeira pessoas que avistei; - Viva! Pode indicar-me o caminho para Portugal? - Venha aqui; - respondeu, solícito, um sujeito, ainda novo, em bom português. - Está a ver ali ao fundo? Vai por aqui, sempre em frente, lá ao fundo vira à esquerda, entra na autoestrada e depois é sempre em frente! - Disse, apontando com o braço. - Ah, pensei aliviado, afinal vou bem. Obrigado.

   E lá fui mais descansado. Rádio a tocar - o melhor amigo do itinerante - e lá vai o Tóno Barreto rumo a Portugal. - Eh, pá, que bela música! Trá, lará, larilolé…uma placa!...ora…Santiago! Santiago? Santiago de Compostela! Ai aqueles f….da p…a que me enganaram! E agora? Agora? Agora estou f….o! É sempre em frente até Santiago e dar a volta na primeira possibilidade. Assim fiz, vociferando impropérios enquanto contornava a primeira rotunda logo à entrada da cidade.

   Valeu-me que tinha atestado o depósito em Vigo e ia bem abastecido de l’argent, senão ficava na estrada que nem um cão! Finalmente na autoestrada, agora sim, tinha a certeza que ia para Portugal. - Mais duas horas de viagem! - Exclamei furioso! - Vou chegar tardíssimo! Cheguei a Peniche sem incidentes, aí pela meia-noite.

Posto isto, o conselho que dou aos meus amigos quando viajarem sozinhos longos percursos é para terem cuidado com as “meloas” que possam encontrar pelo caminho, sobretudo se forem fresquinhas.


Nathalie Wood

Peniche, 17 de Julho de 2022

António Barreto

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Um Pouco de História (5)

 

O Império Romano (cont.)

 

   O 5º Período ocorre nos dois quarteis centrais do século VII da Era Romana - 620 a 671: 133 a 82 a.C. - começa com a revolução agrária de Tibério Semprónio Graco - 162 a 133 a.C. - e termina com a morte de Lúcio Cornélio Cina - 135 a 84 a.C.

   Este período caracteriza-se por uma sucessão de graves conflitos sociais, cujas causas são em tudo semelhantes às que na Europa, nos séculos XVII e XVIII - inerentes ao absolutismo monárquico, ao regime de colonização em vigor e ao industrialismo do século XIX -, criaram uma nobilitas poderosa e um Capitalismo opressor, gerador das revoluções sociais dos séculos XVIII XIX e XX. 

   Tiberius Sempronius Gracchus, Tribuno da plebe, eleito pelos Semprónios, com seu irmão Caio Graco, elaborou um conjunto de propostas de leis agrárias que consistiam na distribuição pelos pobres, das terras dos Patrícios que excedessem as 500 jujera - cerca de 125 hectares. Tal suscitou grande contestação por parte dos optimates - Cônsules conservadores -, mesmo após o acréscimo de 250 jujera por filho.

   Visava com isso corrigir a injustiça que decorria da perda, por insolvência, das pequenas propriedades dos camponeses durante as longas campanhas militares em que participavam, atirando-os, e às suas famílias, para a indigência. Arruinados, desapossados das suas terras, os legionários eram excluídos do serviço militar. Estas eram adquiridas pelos Patrícios que, desta forma, constituíam grandes latifúndios.

   Por outro lado, as legiões romanas foram enfraquecendo devido à diminuição de efetivos. A distribuição de terras aos pobres em lotes de 30 jujera, tornava-os autossuficientes e elegíveis para o pagamento de impostos e para o serviço militar, resolvendo dois dos graves problemas da época.

   Acusado de querer tornar-se rei por, contrariamente à tradição, se candidatar ao cargo pelo segundo ano consecutivo, Tibério Graco acabou espancado até à morte pelos seus pares em plena assembleia da plebe.

   Este episódio levantou um problema político que perdura até hoje, que reside no vínculo do representante do povo; deverá o Tribuno (deputado) defender os interesses de quem representa ou defender os seus pontos de vista pessoais?  

    Lucius Cornelius Cinna, conhecido por Cina, foi um político da gente Cornélia, eleito cônsul quatro vezes seguidas, de 87 a 84 a.C. O período do seu consulado ficou conhecido como Regnum Cinnanum, e caraterizou-se pelo controlo das instituições romanas pela facção dos populares, que liderava. Foi pai, ou avô, da esposa de Júlio César, Cornélia Cilina.

   Aliado de Caio Mário - exilado em África onde aguardava oportunidade de retaliar contra Sula, seu inimigo e defensor dos interesses da ala conservadora do Senado, os Optimates -, Cina instituiu uma autocracia, rompendo com a tradição democrática ao fazer do alargamento da cidadania romana a todos os italianos, a sua causa. Acabou morto pelos seus próprios soldados, ao que consta, devido a equívocos de comando e desinteresse dos soldados na campanha militar em curso por não haver saque.

   Foi nesta época que, pela primeira vez, apareceram os povos germânicos, Cimbros e Teutões, prenunciando a ruina que se abateria sobre o Império seis séculos depois. Estas tribos provenientes da Jutlândia - atual Dinamarca continental - migraram para a Gália onde foram derrotadas por Caio Mário..

   A ameaça constituída pelos bárbaros introduziu uma alteração importante na formação das Legiões, que passaram a recorrer ao voluntariado, induzindo uma rotura entre o corpo militar e a população camponesa, e consequentemente, uma mudança de vínculo.

   Enquanto os milicianos lutavam para defender a suas terras e famílias, os voluntários lutavam por um salário. A nova classe dos soldados passou a ter papel decisivo nas revoluções sociais, do Socialismo contra o Capitalismo, da Democracia contra a Plutocracia oligárquica.

   Fundada a igualdade civil e Política com as Leis Licínias, a sociedade romana chegara ao momento, definido por Aristóteles, em que só o equilíbrio na distribuição da riqueza permitiria alcançar a paz social. O estado de opulência absoluta desafiava a cobiça dos pobres, apesar de sua drástica redução.

   É exatamente neste ponto que se encontram a sociedades europeias - do primeiro quartel do século XX; regimes de capitalismo plutocrático num ambiente de igualdade civil e política. A diferença reside em que, na sociedade romana, o capitalismo instalou-se depois de obtida a igualdade civil e política e na Europa foi ao contrário; o capitalismo instalou-se nas monarquias aristocráticas em resultado do expansionismo marítimo e só três séculos depois, com a Revolução Francesa, se instituíram os regimes democráticos.

  Em tudo o mais a dinâmica das revoluções é a mesma; as plebes proletárias, conscientes de que a igualdade política sem equiponderação da riqueza é uma ficção, revoltaram-se contra a plutocracia reinante, quer em Roma, em 671 da Era Romana - 82 a.C -, quer em Paris em 1848.

  Do ponto de vista da representação política constata-se uma certa semelhança na sociedade romana da época e na europeia atual - do primeiro quartel do século XX. Se em Roma o processo eleitoral se restringia aos eleitores da cidade, em detrimento dos habitantes no restante território sob sua jurisdição, também nas sociedades modernas europeias são as plutocracias oligárquicas das capitais que determinam as ações dos respetivos Governos A diferença é que estas não estão estatutariamente consagradas, contrariamente ao que sucedia em Roma. O atual modelo aritmético-geográfico de representação adotado em 1793 em França e depois na Europa, é, afinal, uma imitação dos comícios de tribo dos romanos.

                              


    Caio Mário, líder dos populares e aliado de ocasião de Cina, nas ruínas de Cartago durante seu exílio na África romana depois da Primeira Guerra Civil de Sula.

Créditos a:

História da República Romana, de Oliveira Martins

Wikipédia, relativamente a Tibério Graco e Cina.

Peniche, 4 de Julho de 2022

António Barreto

sábado, 2 de julho de 2022

O "Canacho"

 O “Canacho”

 

        Entre os meus melhores amigos de infância contavam-se os “Vilões”; o Tó - o mais velho, “mau como as cobras”, o João - meu amigo dileto e companheiro de carteira na escola primária, homem bom - e o Manel, pequenote - ainda não alinhava nas nossas brincadeiras de rua.

   Moravam também na Rua do Pinhal, numa casa da Ti Bragila, mãe do amigo e colega Gil Saraiva, que todos admirávamos - já adulto, tinha uma pressão de ar e quando chegava de viagem íamos todos atrás dele vê-lo à “caça” dos passaritos pelos pinhais do Sotto Mayor e do Faustino, era o nosso “herói”; educado, cordial, respeitava-nos, enaltecendo-nos.

    Os nossos pais eram muito amigos, o pai deles era o ti Bagueira, homem bom, sempre atencioso connosco. Andavam ambos na chalandra, salvo-o-erro da “Estrela da Madrugada”, onde era mestre o ti Manel Vidas aqui de Peniche, e vizinho - certa vez, ao largo da Figueira, durante a manobra da rede, caíram ao mar, mas safaram-se; o meu pai nadava bem e o ti Bagueira, que nadava pouco, agarrou-se à única boia disponível.

   Quando, numa manhã de primavera, apareceram na nossa rua, cada um com a sua bicicleta nova, quase iguais, de guarda-lamas e quadros em dourado matizado e guiador lançado para os lados, suscitaram a admiração geral da criançada, que nunca vira bicicletas tão bonitas! De modo que, instigado pelos meus queridos primos Tó Fernando e Quim João, que me sentaram no selim e deram o impulso inicial, lá dei umas pedaladas mal dadas que me custaram uma palhaça e os joelhos esfolados; não andara antes de bicicleta. Nem sequer chegava aos pedais! Desequilibrei-me e "catrapumba", parti-me todo! Feliz, não dei parte de fraco; afinal, a bicicleta do meu pai era a mais linda de toda a rua!

     Um dia, a mãe dos “Vilões”, senhora forte e sempre sorridente, nossa amiga, disse à minha mãe que me tinha visto, à noitinha, pela rua acima, estranhamente a falar alto sozinho e a esbracejar. A minha mãe ficou preocupada pensando que me estava a passar dos “carretos”; "Ai que o meu filho está a ficar tolinho"! Exclamou!

   Quando me perguntou o que andara a fazer expliquei-lhe que vinha da casa do Manuel dos Santos - nosso querido amigo -, onde estudáramos os pontos cardeais. E então, de regresso a casa, eu repetia alto a lição para ver se não me esquecia: - Norte, Sul, Este, Oeste. Ia dizendo, uma e outra vez, fazendo gestos com os braços indicando as respetivas direções. A minha mãe, aliviada, fartou-se de rir. Gostava de ver a minha mãe rir, o que raramente acontecia.

 O Tó "Vilão" era bem mais velho. Tinha uma habilidade invulgar para trabalhos manuais, adorava as traineiras - a “Calma” a “Sarda”, a “São Domingos”, a “Estrela D’Alva”, etc. -, as suas formas sinuosas, em especial as proas. Esculpia-as à navalha em troncos de palmeira secos. Ficavam lindas! Todos andávamos à procura de palmeiras velhas para ele fazer barquinhos.

 Um dia, ouvi-o cantar baixinho: “As ondas do mar são brancas, são brancas e amarelas, coitadinho do “canacho” p’ra morrer debaixo delas”. Eu era pequeno, gostava da canção mas não percebia o que aquilo queria dizer; “Canacho? Seria algum tipo de canário ou outro pássaro?” “Uma ave marinha?”. Pensava. O Tó "Vilão" gostava muito de passarada; serenos, pios, pintassilgos, pintarroxos, etc. Imaginava o “canacho” amarelo, aflito, a bater as asas frente às ondas do mar encanecidas. Perguntar, não perguntei; o Tó "Vilão" era ruim, mais velho, maior e tinha cara de mau!

    O tempo foi passando e, de vez em quando, lembrava-me daquilo! A melodia era bonita, mas…”canacho”? Um dia, não sei, um ou dois anos mais tarde, talvez três anos, fez-se-me luz! "Canacho...canacho!!!" ia pensando...” mas que raio quereria ele dizer"…quem nasce...quem nasce...canacho...!"; seria isto? era isto! O Tó Vilão pronunciara mal as palavras, “engolira” algumas letras; queria dizer "quem nasce" e não "canacho", como soava! E a canção ficava: "As ondas do mar são brancas, são brancas e amarelas, coitadinho de quem nasce, p’ra morrer, debaixo delas”.

   O caso mudava de figura! O que estaria, então, a apoquentar o "ruim" do Tó "Vilão", que se fechara a ponto de eu ter medo de o importunar com perguntas?

          Ficou-me para a vida e ainda hoje me sensibilizo ao pensar nisto. Talvez tenha, na ocasião, acontecido algo que me tenha escapado e afligia o Tó "Vilão".

   Afinal, estes singelos versos resumem a abnegação do homem do mar, do povo, sempre com a morte por perto, a lutar por uma vida digna.

        Vem tudo isto a propósito da morte dum pescador, que não conhecia pessoalmente, mas era irmão dum colega de todos os dias, que, aqui em Peniche, acaba de ocorrer. É triste ver um homem chorar.

 Durante a faina, foi à proa fazer qualquer coisa, caiu ao mar e, apesar de resgatado e assistido pelos camaradas, acabou por falecer. Paz à sua alma.

 "As ondas do mar são brancas, são brancas e amarelas, coitadinho de quem nasce, p’ra morrer...debaixo delas."

O Lugre é o Santa Isabel onde o Zé Barreto, meu pai, nos anos 50 foi tripulante e lá passou uns maus bocados, tal como os seus camaradas.

Argus navegando à vela.


 Peniche, 28 de Julho de 2022

 António Barreto

A dimensão social do Benfica

 

O Benfica extra futebol:

A AJUDAR QUEM MAIS PRECISA

Nesta edição da News Benfica fazemos um balanço intercalar da atividade da Fundação Benfica em 2022.

1

Este ano será o maior de sempre em número de beneficiários da Fundação Benfica. No primeiro semestre de 2022, as pessoas ajudadas ultrapassam já as 57 600, uma quantidade próxima do máximo de 64 728 registado em 2019.

Os beneficiários em Portugal totalizam 27 634, os restantes distribuem-se pela Ucrânia e pelos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

2

A atividade da Fundação Benfica incide em três grandes áreas: Projetos Educativos; Desporto Inclusivo; Benfica Faz Bem. O conflito no leste europeu motivou ainda a campanha "Juntos pela Ucrânia", com enorme adesão e contributo.

3

No que respeita aos Projetos Educativos, são cinco as iniciativas. A "Para ti se não faltares" tem cinco projetos ativos e dois a ativar, havendo presentemente 335 beneficiários. A "Community Champions League" auxilia 144 pessoas. A "Hat-trick: Treinar, Jogar e Vencer" intervém junto de 62 jovens. A "KidFun – Educação para valores" envolve 157 escolas em 50 municípios e é dirigida a 21 184 crianças. E a "Show Racism the Red Card" incidiu sobre 4148 alunos de 46 escolas em 9 municípios.

4

No Desporto Inclusivo, houve um total 1185 beneficiários no primeiro semestre do ano. No "Walking Football" foram 1060, enquanto no Desporto Adaptado foram 100 e no "Welcome Through Football" 25.

5

No âmbito do "Benfica Faz Bem", além das crianças que viram realizados os seus sonhos de conhecer e conviver com elementos do plantel da nossa equipa de futebol, realizaram-se ações no Dia Mundial da Criança e na Semana da Criança no Hospital de Santa Maria. Assinalam-se também as múltiplas ações e convites (visitas ao estádio e jogos) e a doação de bens ao AMINGA, um projeto solidário empreendido pelo casal João "Betinho" Gomes e Sofia Ramalho, respetivamente basquetebolista e ex-basquetebolista do Sport Lisboa e Benfica, e as irmãs de Betinho, Fauzinda e Elizabete, também desportistas, ligadas ao voleibol e andebol.

6

Foi extraordinária a mobilização em torno da campanha "Juntos pela Ucrânia", que contou com 120 pontos de recolha nacional (75 Casas do Benfica; 20 Escolas de Futebol Benfica; 5 Lojas Oficiais e 20 IPSS) e dezenas de voluntários, resultando na doação de cerca de 125 toneladas de alimentos e bens de primeira necessidade ao povo ucraniano, estimando-se em cerca de trinta mil os beneficiários.

Verificou-se ainda o acolhimento de ucranianos das Escolas de Futebol Benfica localizadas em Kharkiv e Kiev, apoiando-se dez famílias provenientes destas cidades e a inserção de jovens em treinos das Escolas de Futebol Benfica e nas piscinas do Complexo Desportivo do Estádio da Luz, além de 17 adultos beneficiários de um Curso Certificado de Língua Portuguesa totalmente gratuito.

A Fundação Benfica e todos os que participam nas diversas iniciativas merecem o nosso enorme apreço e gratidão. Muito obrigado!

In Newsleter do Benfica

Gimnáguia 2022

Peniche, 1 de Julho de 2022

António Barreto

domingo, 26 de junho de 2022

Boa sorte Benfica

 

Boa sorte Benfica

  

   Iniciaram-se os trabalhos de preparação da nova época futebolística. A equipa técnica parece unida e otimista. Um técnico estrangeiro tem a vantagem de estar fora do alcance da teia, pessoal e institucional, que condiciona o desporto em Portugal desde há cerca de 40 anos. Por outro lado, sendo alguém respeitado na comunidade internacional funciona como dissuasor de “manobras” mais grosseiras por parte da dita “máfia do futebol” luso.

   Esperemos que Roger Schmidt, com essa liberdade traga a disciplina, a força física e mental que caracteriza o futebol alemão e a cultura tática do futebol holandês onde a criatividade tem papel predominante. Agrada-me o regresso, agora como adjunto, de Javi Garcia, um jogador que ficou no goto dos adeptos pela combatividade e benfiquismo que demonstrou enquanto representou o clube.

   Porém é necessário que os dirigentes do clube se entendam com os responsáveis da FPF e da LPFP, a fim de pôr cobro à discriminação de que o clube tem sido alvo, em especial nos últimos anos. De facto, os casos suscitados pelo VAR, legitimam o adepto comum a questionar-se se este instrumento não terá sido implementado em Portugal, precisamente com o intuito de mais eficazmente prejudicar o Benfica. Quem pode considerar natural que, em 34 jogos tenham sido assinalados apenas dois penaltis a favor do Benfica, já com o campeão decidido, enquanto um dos rivais teve 16 e o outro, salvo-o-erro 12? Como é possível que as autoridades não tenham investigado esta anormalidade? Como é possível que não se tenham indignado os habituais comentadores desportivos nas mais variadas plataformas? Serão todos cúmplices? Em nome de quê? Da justiça desportiva? Da democracia? Não me parece! É tempo de acabar com ressentimentos e frustrações e aceitar o Benfica como é e sempre foi; o maior, melhor e mais titulado clube português.

 Estão de parabéns as equipas femininas de hóquei e de futsal, ambas um exemplo de talento e determinação, vontade de vencer até ao fim. E ganharam, respeitando os respetivos adversários. Assim é que é!

   No hóquei masculino ainda estamos na luta. A equipa deve manter a determinação e não se deixar condicionar pelo ruído e insultos habituais do Dragão-Caixa. Apesar de desfalcados a vitória é possível; não seria a primeira vez que, de lá trouxemos a vitória.

   No futsal masculino, apesar de grande réplica, acabámos de perder para o Sporting, que ganhou todos os jogos, pela margem mínima e com grande dificuldade. Do que vi, o vencedor está ligeiramente acima do Benfica. A diferença, quanto a mim, reside no guarda-redes, na dinâmica, na disciplina tática e na intensidade e agressividade. Nota-se alguma desconcentração defensiva devido a mau posicionamento e lentidão de reação da equipa encarnada. Porém, nunca desistiram, perderam com dignidade. Faltam uns “pozinhos” para superarmos e equipa verde-branca. Vamos a isso.

   NO andebol masculino demos um grande salto com a conquista de um trofeu europeu e batemo-nos muito bem com os rivais diretos. Há que continuar o processo de evolução melhorando ainda mais.

   Porém, não basta melhorar o desempenho desportivo das equipas; é necessário acompanhar o desempenho das equipas de arbitragem de forma a garantir a sua neutralidade. Por exemplo, em qualquer das modalidades anteriores houve pormenores “curiosos”: no jogo de andebol com o Sporting, segundo creio na final da Taça, Alexis Borges, um dos melhores jogadores da equipa, foi expulso quando, já próximo do final, a contenda estava equilibrada. Resultado, ganhou o Sporting! No primeiro jogo da final de futsal, com o resultado ainda em discussão, Jacaré, agredido pelos adeptos leoninos, acabou afastado do jogo e dos restantes jogos. Resultado; ganhou o Sporting! No recente jogo de hóquei com o Porto em que o Benfica equilibrou a contenda, foram castigados dois dos melhores jogadores do Benfica, Nicolia e Alvarez que, naturalmente, estarão impedidos de jogar a “negra”! Esperemos que, desta vez, seja diferente e, ainda que jogue o roupeiro, o Benfica ganhe!

   Apesar do absurdo, parece que as entidades que regulam as competições desportivas em Portugal, por um qualquer ”desígnio superior”, estão empenhadas em impedir o Benfica de ganhar! Será preconceito? Ajuste de contas? Democratização à força? Não sei, mas sei o que parece!

   Hoje realizou-se, no pavilhão Fidelidade a 40ª edição da Gimnáguia, um evento anual que junta gente de todas as idades, crianças, meninos e meninas, adultos, séniores, etc, todos a fazer ginástica, cada um ao seu nível; as criançada, meio trôpega a dar saltinhos, a meninada a dar saltinhos e cambalhotas, os adultos a apresentarem números de ginástica elaborada, e a velhada a fazer exercícios de manutenção. Algo que me encheu de satisfação e até um pouco orgulhoso; que bonito é ver o meu clube a levar tanta e tão variada gente a fazer desporto alegremente! Se pudesse recomendaria a comunidade política da Câmara de Lisboa, com destaque para a Srª Roseta, do Governo e partidos políticos em geral, para verem e avaliarem a dimensão social do Benfica! Duvido muito de que, quer a Câmara de Lisboa quer o Governo, façam pelo desporto nacional, tanto como o Benfica. Só por isso deveriam respeitar este clube.

                                                                        Gimnáguia 40


Peniche, 26 de Junho de 2022

António Barreto

sábado, 25 de junho de 2022

Um Pouco de História (5)

 

Um Pouco de História (5)

  

      O quarto período vai de meados do século VI ao primeiro quartel do seguinte da era romana (554-625; 299 a.C-128 a.C.). É a época de maior esplendor da República em que, vencida Cartago (em 553; 200 a. C, dissolução final em 680; 73 a. C), Roma submete toda a Espanha e todo o Oriente helénico.

   Esta expansão territorial não foi consequência de uma planificação política preconcebida, como sucedeu com Alexandre e com D. João II. A tradição da República, Catão e a maioria dos romanos eram contrários à ideia imperialista defendida pelo grande Cipião.

   De um lado a espectativa de prosperidade com a expansão territorial, como nas campanhas da Ásia, do outro as complicações diárias com a posição da Itália no Mediterrâneo. A ausência da ideia de equilíbrio internacional e a tradição de impérios universais, conduziram Roma a transformar em províncias dependentes da metrópole, todos os antigos Estados mediterrânicos. Algo semelhante às modernas colónias europeias, afinal, uma imitação do anterior império cartaginês, que se estendia por todo o norte de África até ao Egipto, a Sicília, a Sardenha e a Espanha.

   Tal como as colónias europeias do século XVI influenciaram as respetivas metrópoles, em especial as da Península Ibérica, também as províncias romanas modificaram os costumes de Roma, pervertendo-os; a escravidão, fenómeno normal na vida familiar primitiva, transformou-se numa exploração desalmada; a grande a especulação comercial, com a expansão súbita da riqueza, provocou uma séria de transformações sociais caracterizadas pelo atrofiamento da classe média, pela destruição das pequenas granjas, pelo aparecimento da burguesia capitalista e pelo aumento dos privilégios da antiga ordem equestre.

   Uma nova fidalguia substituiu a antiga, institucionalizando-se. A nobilitas dos cavaleiros, organizada em parcerias comerciais e bancárias, constituiu-se numa plutocracia dos tempos modernos, sustentando a sua influência governativa na arrematação dos impostos Provinciais e nos fornecimentos do Estado. Autênticos Estados perante o Estado tinham a seu cargo todos os serviços públicos como os bancários, a rede viária, o abastecimento de águas, etc. Ao Estado restava a agitação política, sempre estéril quando se separa da ação económica.

   A entropia social e económica característica deste período, resultante da expansão territorial e consequente prosperidade, foi a causa das revoluções sociais que se seguiram, tal como ocorreu na Europa nos séculos XVII, XVIII e XIX, pelas mesmas razões.

                                 Corunha (Galícia) – O farol romano mais antigo do mundo


Créditos a:

História da República Romana

Oliveira Martins

Peniche, 25.06.2022

António Barreto

sábado, 18 de junho de 2022

Um Pouco de História (4)

 

Um Pouco de História (IV)

 

     "É este o terceiro período, que vai desde o fim do V século até o meado do VI - 490-553 (263-200 a.C.).É durante este período que as guerras púnicas lançam a república numa vida nova. Aníbal acorda os sentimentos particularistas dos italianos, e as sedições internas, combinadamente com os resultados das vitórias sobre os inimigos externos, trazem consigo a paralisia do movimento de assimilação nacional.

   

Era fatal que Roma se chocasse com Cartago e a vencesse; mas essa oportunidade excelente importava, importou, gravíssimas consequências. A assimilação dos povos italianos na nação latina ou romana, assimilação que procedia gradualmente como todas as coisas naturais orgânicas, paralisando, desorientou a política romana cuja originalidade, e cuja força portanto, estavam na ideia nacional. Ofuscada esta, a república teve de imitar o tipo cartaginês, o próprio tipo dos vencidos, petrificando numa oligarquia que desorganiza a ordem social interna e domina tirânica ou imperialmente sobre províncias sem outro nexo com a Itália metropolitana além o da dependência e do imposto. Nos impérios antigos governava um homem; em Cartago imperador era uma cidade; em Roma foi uma nação embrionária, entregue também às mãos de uma oligarquia aristocrática.

   Um tal facto impediu que a nação, fundada já como ideia e como sentimento, viesse a encontrar a consagração necessária de instituições adequadas; e daí se seguiu a ruína inevitável da república, a sua dissolução num Império, e o abortamento do plano tão extraordinariamente iniciado; porque só nos tempos modernos as nações puderam achar instituições representativas mais ou menos adequadas no congresso dos procuradores das cidades, as cortes medievais.

   Todavia ainda neste acidente a história romana, desencaminhada do seu desenvolvimento próprio pelas condições do local em que se deu, é um paradigma das histórias de muitos povos; e entre esses, do povo hispano-português, cuja evolução foi também sufocada pelo imperialismo que, achando no ouro ultramarino um apoio, reagiu no nosso XVI século contra o movimento normal orgânico dos concelhos, fazendo abortar o fomento da vida local democrática. Os conflitos entre as duas evoluções, a interna ou orgânica e a externa ou expansiva, são de todos os tempos. A conquista do mundo mediterrâneo pelos romanos é como a descoberta das Índias e das Américas: as consequências e os resultados imediatos sobre o organismo nacional são idênticos. Ao mesmo tempo que se paralisa a evolução nacional, perverte-se a economia social; o poder petrificado torna-se pessoal - oligarquia em Roma, absolutismo monárquico nos tempos modernos; a ponderação da riqueza na mediania da vida agrícola desaparece perante o grande comércio; forma-se um Capitalismo mais gravemente opressor do que o poder político, e com o Capitalismo aparece sistematizada a exploração da maioria dos homens - escravos na Antiguidade e na Renascença, proletários hoje em dia.

   O velho que n’Os Lusíadas condena a viagem de Vasco da Gama no ato da partida das naus, parece uma evocação de Catão, o Censor, condenando pela boca da Roma antiga o desvairamento da nova república imperial cipiónica."

História da República Romana

Oliveira Martins

    
                              Aníbal cruzando os Alpes, detalhe de um afresco de 1510, 
                                                   nos Museus Capitolinos, Roma   

Buarcos, 18 de Junho de 2022

António Barreto


quinta-feira, 16 de junho de 2022

Um Pouco de História (3)

 

Um Pouco de História (3)

 

     O segundo período protrai-se até ao fim do V século romano (490: 263 a.C.), iniciando-se ainda antes de encerrado o antecedente, com a primeira guerra importante contra os Équos e Volscos em 323 (430 a.C.): abrange pouco mais de século e meio. Durante ele a democracia militar regida por uma aristocracia - tal é o carácter da sociedade romana nesta época – exercendo já em todo o Lácio uma hegemonia que tende a transformar-se em unificação, apresenta o espetáculo de um corpo social homogéneo, equilibrado, forte, e por tudo isso expansivo. A sociedade latina, tendo a sociedade romana por capital, obedece às leis naturais da propagação e expansão, leis comuns a todas as sociedades de todos os tempos, e tão óbvias que escusado é insistirmos em demonstrá-las. A população cresce, e, numa república de pequenos lavradores, esse crescimento ocasiona guerras só evitáveis pela emigração, fenómeno todavia mais geral em épocas mais adiantadas.

   Expandindo-se, a República Romana submete ao seu domínio a Itália inteira, e a invasão dos epirotas de Pirro precipita o movimento de anexação - facto tão frequente nos tempos antigos e modernos, que a intervenção eficaz das invasões estrangeiras no sentido de determinarem as unificações de povos pequenos e rivais se pode considerar uma lei de dinamismo internacional.

   Mas o traço singular e eminente da história romana, neste período, é a invenção de um tipo novo de agregação social, tipo sem precedentes nas sociedades indo-europeias. O tipo federal e o tipo imperial - isto é, as ligas de cidades autónomas e o regime pessoal e militar congregando povos sem outro laço de união além da obediência comum a um soberano e de um imposto universal – tinham sido até aí os moldes em que se vazara a força expansiva das sociedades.

   Ora no seio de um mundo que todo ele girava em torno de duas ideias de agregação social, a federal e a imperial, Roma teve esta fortuna incomparável de conceber espontaneamente, e como dedução óbvia da suas instituições abstratas primitivas uma ideia nova – a de Nação; ideia que gerou um sentimento também até aí desconhecido - o Patriotismo; ideia e sentimento abstratos, sem relação fixa com o solo nem com o sangue. Romano era todo o habitante da cidade legal, fosse qual fosse a sua estirpe: o patriciado dos quirites tornara-se já obsoleto. Roma era, não só a cidade do Tibre como todas as do Lácio a que o foro romano se transmitira. A Pátria e o patriotismo tinham assim como base, não uma terra ou um sangue comum, mas sim uma comunidade de direitos e aspirações. A Terra deixou de significar a Pátria, desde que a abstração inventava mais de uma Roma; o sangue deixou de a encarnar também, desde que na cidade generalizada, todos, até o estrangeiro, eram cidadãos.

   A invenção de um semelhante estado mental é uma obra tão prodigiosa que, a vinte e cinco séculos de distância, todos nós, europeus – os iberos e os celtas latinizados, os teutões e mais os eslavos – vivemos socialmente dos sentimentos elaborados em Roma e somos sem dúvida romanos.

   Criada assim, no campo das ideias e dos sentimentos, mas não ainda no das instituições, a Pátria romana, e abrangendo no seu seio a Itália peninsular ítalo-grega, o progresso da expansão não pára. A área da nação novíssima abrange inteira uma região, e desde que se estende a toda essa região que é marítima, e desde que se estende a toda essa região que é marítima, o mar chama-a, pondo-a em contacto e portanto em conflito com a Inglaterra de então - Cartago, ao tempo a senhora de todo o mediterrâneo.”

História da República Romana

Oliveira Martins

                                              Breno e sua parte dos despojos, por Paul Jamin 


Peniche, 16 de Junho de 2022

António Barreto

domingo, 12 de junho de 2022

Um Pouco de História (2)

 

Um Pouco de História (2)

   “No fim deste primeiro período (387 da “era romana”, 366 a.c.), Roma apresenta-nos o espetáculo de uma sociedade constituída politicamente, isto é, homogénea nas suas classes e nas suas tradições; sociedade democrática, pois a constituição franqueia o acesso de tudo a todos, mas regida por instituições aristocráticas. É uma república semelhante à de Veneza; mais ainda talvez à monarquia representativa inglesa, onde também os foros da igualdade política provêm de conquistas de facto e não de afirmações jurídicas, à maneira do que sucede desde 1789 no continente, onde também uma aristocracia regeu quase até aos nossos dias o corpo social agora democratizado.”

História da República Romana

Oliveira Martins

Monarquia Romana

Peniche, 12 de Junho de 2022

António Barreto