Cabeça de Cão: Bonjour Mundo!
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
domingo, 19 de janeiro de 2014
Benfica-Marítimo; 2-0
Eusébio branco?, não sei, mas lá que há algumas semelhanças é verdade, como bem ilustra a foto.
Oblak é o GR que o Benfica procura há vários anos!, com ele, a história do final da época passada teria sido outra.
Como se esperava, Hugo Miguel fez asneira da grossa; não assinalou fora de jogo no lance que precedeu o 2º golo, não assinalou uma GP clara contra o Marítimo, mostrou indevidamente o amarelo a Markovic e ofereceu vários lances ofensivos ao Marítimo assinalando erradamente várias saídas de bola. Lembremo-nos que é graças a ele que o Benfica tem menos dois pontos do que devia - estaria agora a 5 pontos do Sporting.
O Benfica foi uma equipa laboriosa solidária, racional e arguta; na primeira-parte e no final da segunda, empurrou o adversário para o seu meio-campo baixo onde este se acantonava com muitos jogadores muito próximos entre si, e, depois de alguns ameaços, acabou por fazer o primeiro tento numa potente recarga de pé esquerdo de Rodrigo, que não pede licença para rematar nem se perde em inúteis rodriguinhos frente à baliza.
O Marítimo é uma boa equipa e o Pedro Martins é um bom Treinador, mas, lá está; bloco baixo, chegando a apresentar seis defesas em linha e dois trincos!, esta postura é invariável nos jogos com o Benfica e enquanto for dominante não atrairá mais público nem mais investidores ao futebol nacional. Apesar disso não se coibiram, os maritimistas, de atacar coletivamente sempre que recuperavam a posse da bola; ficaram-me na retina dois belos lances, um na primeira parte com um remate colocadíssimo de Eldon ao primeiro poste a que Oblak correspondeu com soberba defesa, outro já na segunda parte num remate frontal - não fixei o autor -, mais uma vez desviado sobre a barra, em grande estilo, por Oblak.
Lima trabalha muito para a equipa mas continua desinspirado no momento da concretização, tendo desperdiçado uma bela oportunidade, rematando à figura do GR, quando se encontrava isolado. O que faltará?, um golo?, condição física?, conhecimento é que não é.
Fejsa esteve bem tal como Enzo e Gaitan, não se tendo feito sentir a falta de Matic. De recordar o tremendo remate de cabeça do Enzo a cruzamento de Maxi - salvo o erro -, desviado pela trave. Entrou bem o Ruben, a dar mais solidez e criatividade ao meio-campo, num período de grande assédio do Marítimo, que assim, teve que se preocupar mais com a sua baliza. Gomes e Cavaleiro ainda fizeram uns minutinhos para aquecer e animar.
A defesa esteve bem, à exceção do lance em que Maxi perdeu a posição para Eldon e quase deu golo. Não há dúvida que Siqueira manda na esquerda e Maxi está a recuperar a forma, tal como Luisão - com cortes soberbos - e Garay. Oblak inspira confiança e isso otimiza o desempenho de toda a equipa. Um grande reforço, sem dúvida!
Lima, Rodrigo e Markovic formam um trio ofensivo muito dinâmico e criativo ainda em busca do melhor sincronismo, deixando boas perspectivas para o futuro tendo ainda em conta a inclusão de Cavaleiro.
Não há dúvida que a equipa do Benfica está mais madura e confiante, adotando os modelos de jogo mais adequado a cada período, gerindo o esforço, embora seja necessária maior segurança na fase passiva bloqueando o adversário mais longe da sua área.
Muito bem; sobriedade e eficácia.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Benfica-Leixões 2-0
Vitória simpática contra o histórico e popular Leixões, que no passado remoto foi berço de excelentes jogadores, entre os quais se destacou o talentoso extremo Praia, que viria a alinhar ao serviço do Benfica.
Jogo rasgadinho, sob grande aguaceiro, mostrando um Leixões aguerrido e bem arrumado em bloco baixo, soltando-se ofensivamente com amplitude sempre que recuperava a posse do esférico. O Benfica, como convinha, rodou jogadores menos utilizados que deram, bem, conta do recado batendo-se com empenho, aqui e ali com pinceladas de bom futebol. Tal foi o caso dos lances de golo, ambos de bom recorte técnico, com destaque para o segundo, numa excelente jogada coletiva culminada com o poderoso remate de Cavaleiro após primorosa simulação sobre um adversário. Também o primeiro golo resultou de lance coletivo na sequência de um livre indireto onde Djuricic, mais uma vez, mostrou sagacidade ao rematar forte e colocado a tempo de evitar a entrada dos dois defesas que tinha pela frente.
Artur mostrou alguma ansiedade inicial numa fífia que poderia ter sido fatal, Vitória ia molhando a sopa num remate acrobático de costas para a baliza a que o guardião contrário respondeu com excelentes reflexos, John deambulou pelos flancos debitando boas assistências entre elas a do primeiro tento e Cavaleiro mostrou os argumentos que já se lhe conhecem, força, técnica, coletivo e decisão. De resto, em geral, todos estiveram bem, exceto nalguns descuidos defensivos.
A equipa de arbitragem não parece ter feito avaria e, disse Jesus, haver algo errado com o relvado.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
E depois de Eusébio?
Julgo que foi António Costa que disse ter sido o fim de um ciclo. Referia-se ao ciclo colonial de Portugal, um ciclo que marcou cinco séculos da nossa história e que se refletiu no futebol nacional a partir do final da 2ª guerra mundial, onde, sobretudo no Sporting e no Benfica brilharam vários atletas provenientes das províncias ultramarinas de Angola e Moçambique; Peyroteu, Hilário, Coluna, Santana, Costa Pereira, José Águas, Eusébio, Nelson, Néné, Jordão, etc. Na verdade, alguns destes extraordinários atletas, felizmente, continuam entre nós, o que nos leva a indagar da razão pela qual alguns vêm no desaparecimento do Pantera Negra o fim de um ciclo. Logo nos ocorre dever-se tal sorte ao prestígio e popularidade impares alcançado pelo Rei em virtude das suas extraordinárias façanhas desportivas. Porém, há algo de mais profundo, relacionado com o pavor que algumas forças políticas têm perante o fracasso do regime que ajudaram a promover e que as sustenta. Fracasso que leve as pessoas a indagar da fiabilidade da doutrina sociopolítica dominante e a procurar conhecer melhor o regime anterior, em especial a primavera marcelista. Pavor de que as pessoas descubram, por fim, que, afinal, as coisas não são bem como lhes tem sido dito. E é por isso que tais forças têm desenvolvido especial atenção ao desmembramento dos elementos conservadores, como sejam os relacionados com a tradição, a igreja, o mundo rural e a família. E o Benfica e Eusébio; os últimos grandes símbolos do Portugal imperial, multirracial e multicultural. Esses, sentir-se-ão, finalmente, aliviados, apesar das lágrimas de crocodilo. Ao referir o fim de um ciclo, saltou-lhes o pé para o chinelo, visto que, tal apreciação não tem a menor relevância face à perda.
Um vazio emergiu após o desaparecimento de Eusébio e, ao olhar em volta, surge-nos a obra de Filipe Vieira. Enquanto o Benfica tem sido, artificialmente, ano após ano, relegado para 2º plano, Filipe Vieira tem mantido o ânimo dos Benfiquistas, enaltecendo a sua história e os seus atletas, enquanto tem construído o Benfica do futuro. Eusébio já cá não está, mas está o seu legado e uma obra notável que nos permite lutar de acordo com o estatuto granjeado pelo nosso clube durante décadas. E isso é obra do atual Presidente do Benfica. Estou-lhe grato por tal mas sobretudo pela forma honrosa como conduziu as cerimónias fúnebres.
É o fim de um ciclo para o Benfica, sim; é tempo de correr a cortina translúcida do passado e olhar para a frente. Olhar com inteligência e persistência para o que nos rodeia e perceber quais são as alavancas da excelência, mobilizando-as; os melhores Técnicos, os melhores Atletas, a melhor Motivação, os melhores Adeptos, os melhores Aliados, etc. É tempo de abolir uma certa falsa cultura de excelência que reina entre os adeptos e que mais não é do que patetice disfarçada, e fomentar a união por um Benfica maior e melhor onde a crítica inteligente é indispensável. É este o desafio após Eusébio; voltar a subir a montanha da glória.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Reconhecimento:
Ao Real Madrid, Ao Manchester United, ao Sporting Clube de Portugal e ao Marítimo, pela forma como souberam homenagear Eusébio. Com este gesto, conquistaram a minha simpatia, sem desprimor para os restantes, em especial o Real Madrid; foi bonito de ver Butraguenho e Amâncio entre nós partilhando a nossa mágoa. Amâncio; o temível génio da bola entre Puskas, Di Stefano, Santa Maria & Cª tantas vezes adversário de Eusébio.
domingo, 12 de janeiro de 2014
O derradeiro jogo de Eusébio
O Pantera Negra, intencionalmente ou não, uniu e motivou atletas, dirigentes e adeptos do seu clube, impondo, simultaneamente, respeito aos adversários, em especial, ao do jogo desta tarde. Os atletas puxaram pelo público e o público puxou pelos adeptos, a vitória aconteceu e foi bonita. Não menos bonito foi ver os valores que unem todos os antagonista desportivos, para além da vitória, desde logo, o do respeito, que esteve patente até nas bancadas. Pela derradeira vez, isto foi-nos mostrado por EUSÉBIO DA SILVA FERREIRA. Obrigado Eusébio.sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
A minha "verdade" sobre Eusébio.
Sem dúvida, um homem simples que, sendo iletrado era culto. E era culto porque, conhecendo a essência do seu ofício, com ele se fascinava e contagiava todos os outros, elevando o desporto que praticava à qualidade de Arte. E Arte, é cultura da boa! Tal, foi e é reconhecido pelos melhores entre os seus pares; de ontem e de hoje. Colegas de equipa ou adversários. Tal fascínio derrubou os muros da rivalidade e do nacionalismo trazendo novos adeptos ao desporto e provocando um sentimento de alegria e união coletiva. Tal, foi o que se constatou nas cerimónias fúnebres entre os seus concidadãos e por todas as remotas paragens do planeta que, alguma vez, tiveram o privilégio de assistir, ainda que indiretamente, às suas exibições.
Arte, sim; bailado com causa, com bola, é no que se transforma o futebol quando praticado por alguns atletas. Atletas como Eusébio. Arte, sim, pelo respeito que sempre demonstrou pelos colegas, adversários ou não. Ser culto não é, pois, necessariamente, conhecer muitas coisas, mas conhecer a essência do que é, efetivamente, importante a um grande número de pessoas. É o que foi Eusébio. E é por isso que foi um Homem de cultura.
Não sei porque morreu Eusébio; dizem que foi paragem cardiorrespiratória, referem ter ele dito estar cansado de viver devido às dores. Sabemos que tinha fortes limitações de natureza cardiovascular. Testemunhámos, nos últimos meses, o seu mal disfarçado decaimento físico. Tudo isso será verdade, mas, quanto a mim, Eusébio morreu de desgosto. Desgosto pelo enxovalho de que nos últimos tempos estava ser alvo por parte de uma comunicação social enfeudada aos interesses dos principais rivais do seu clube do coração, que, despeitadamente e desrespeitosamente, ousaram pôr em causa o oficioso título de "rei" que lhe fora carinhosamente atribuído pelos comentadores da época, virtualmente ratificado pela generalidade da população e que lhe era caro.
Um desfecho com forte contribuição da Federação Portuguesa de Futebol, desde há várias décadas subjugada aos interesses do atual maior rival do clube de Eusébio, pelo frequente agendamento de jogos de preparação da seleção nacional com seleções de 3ª ou 4ª categoria, a fim de proporcionar a superação do seu máximo de golos pelos avançados subsequentes, como se verificou.
Eusébio morreu, porque não quis assistir à intensificação do enxovalho público em curso, após a entronização de Ronaldo, com a iminente atribuição da 2ª bota de ouro. Na sequência do falecimento de Eusébio, alguns terão a consciência pesada, como estou convicto será o caso de Madail, Pauleta e Ronaldo.
Esta é a minha verdade!
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
domingo, 5 de janeiro de 2014
Eusébio da Silva Ferreira, meu Deus; publicado em Janeiro 5, 2014 por Manuel S. Fonseca
Se Eusébio morreu hoje, como dizem as infatigáveis notícias, morreu hoje o que restava dos meus anos 60 e o que restava de Portugal ter sido um império.
E embora morrendo hoje, como dizem as indesmentíveis notícias, as cores do mito – esse belo negro da sua pele, esse vermelho vivo da sua camisola – não deixarão nunca morrer Eusébio. E nem é preciso dizer aqui a palavra Benfica, porque a palavra Eusébio e a palavra Benfica beijam-se, fundem-se, são uma combinação amorosa de que a gramática tem ciúmes.
Eusébio era feito da mesma terra vermelha dos heróis. A força de pernas de um Hércules, veloz como Ulisses, o joelho onde Aquiles tinha o calcanhar. Há romance, mistério e aventura em toda a sua vida. Vejam como, da cidade colonial de Lourenço Marques, o trazem para Lisboa.
Numa noite de trópicos, um jipe leva-o à porta do avião. Clandestino quase. E em Lisboa escondem-no da bruxa má. Tudo porque Eusébio, personificação da bondade, fez o que um filho deve fazer, a vontade à sua mãe. O clube onde jogava queria mandá-lo à experiência para outro clube. Mas a mãe, como todas as mães, decidiu pela vontade do filho: recusar vir à experiência porque, como todos os verdadeiros humildes, Eusébio sabia o que valia.
E o que valia Eusébio? Outros dirão muito melhor do que eu. Eu conto-vos só as minhas perplexidades. Eu nunca conseguia saber se era o seu pé esquerdo, se o seu pé direito que chutava. Porque, em boa verdade, não era ele que chutava. A velocidade rematava por ele. E já estou a mentir ou a enganar-me, porque, em boa verdade, foi com Eusébio que a velocidade aprendeu a jogar à bola. Num tempo em que os carros tinham quatro velocidades, Eusébio já tinha a sexta.
Deixem deliciar-me vergonhosamente no vício das minhas recordações. Estou a vê-lo, em Amsterdão, alinhado com Águas, Coluna, Simões, antes da final com o Real Madrid começar. Está perfilado, a carapinha cortada quase rente, a cabeça redonda de menino, preciosamente desenhada e bonita, a pele negra brilhante, nobre, africana. E era, menino de Moçambique, o melhor jogador português. E eu tenho muito orgulho em que o melhor jogador português seja um africano, raio de um ex-império que nem um deputado negro consegue ter.
Nesse jogo, marcou dois golos, os dois, juram-me, e eu não teria tantas certezas, com o pé direito. Puskas, Gento e o semi-deus que era Di Stefano caíram aos seus pés. Eusébio, herói compassivo, foi ao chão buscar a camisola de Di Stefano. Pediu-lha, a esse semi-deus abatido. Di Stefano deu-lha, consolado por aquele pedido de menino, e Eusébio guardou-a, porque Eusébio é o guardião de todos os símbolos.
Eusébio foi o primeiro futebolista a justificar os 110 metros de comprimento de um campo de futebol. Se não fossem já essas as medidas, o campo teria de ser esticado. Eusébio comia com alegria metros de relva. Eusébio era um bicho dos grandes espaços, uma pantera que queria savana. Foi com ele que o futebol descobriu que a África existia.
Corria em linha recta ou em elipse, fazendo meias-luas, rápidas mudanças de direcção, reinventando a velocidade, baixando-a, subindo-a. Percebia-se assim, finalmente, por que razão um campo de futebol deve ter 75 metros de largura, uma área de 8250 metros quadrados. Corria e nas pernas dele corria a palavra Benfica. Mas também a palavra Portugal.
Foi em 1966, não dou novidade nenhuma a ninguém. Mas vejam outra vez as cores do mito a pintar Eusébio. Houve um sorteio dos números das camisolas. Saiu-lhe o 11, ao pequenino e maravilhoso Simões o 13. Simões queria jogar com o seu habitual 11 e, com a verdade, deu a volta a Eusébio: “Já viste o que é, se jogares com o 13 e fores, como vais ser, o melhor marcador e o melhor jogador do mundo?” E foi, com esse número que devia ser fatídico, com esse número da feiticeira Circe, o melhor marcador, o melhor jogador, o Melhor. As cores do mito, os números do mito, escolhem-no, querem-no como filho dilecto.
Vi o segundo golo dele ao Brasil num filme exibido no cinema Império, em Luanda. Uma obra de arte gigantesca em que potência e explosão se enlaçam. Um golo que ajoelhou o Brasil, esse império romano do futebol. De novo e sempre as cores do mito: com esse golo, aos pés alados de Eusébio, caía Pelé, uma lança espetada no flanco.
No jogo com a Coreia do Norte, Eusébio carregou, como Hércules, o mundo aos ombros. Ainda nem a meio da primeira parte íamos e a Coreia, abalando a ordem do céu e terra, de mares e ares, ganhava por três a zero. Eusébio reconstituiu minuciosamente a ordem do mundo, todo o universo. Agarrou nos destroços e com perseverança juntou as partes. Correu, driblou, foi atingido violentamente, mas triunfou. Quatro golos foram os trabalhos de Eusébio nessa tarde de glória que acabaria, dias depois, nas lágrimas de Wembley, momento mais bonito, mais lírico ou elegíaco do que qualquer vitória. Lágrimas de Eusébio que a camisola de Portugal recolhe e esconde. Nenhum outro gesto, outras lágrimas, poderão ser testemunho de mais amor.
Morreu hoje Eusébio da Silva Ferreira, meu Deus.
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