Desporto

domingo, 30 de setembro de 2018

Benfiquismo.

  
Certa vez, ao explicar a um entrevistador o seu entendimento do que é o Benfica, Tony, definiu-o, grosso modo, como uma entidade imaterial resultante do "amor" dos adeptos; essa coisa indefinível com profundas raízes na alma que a eleva e transporta às margens da transcendência. Em última análise, o Benfica é o que são os seus adeptos. O conceito vale para qualquer outro clube. O caso é que os adeptos não são todos iguais; os mais distantes cultivam o mais puro ideal utópico para o qual transferem as suas mais edificantes aspirações; os mais próximos, geralmente, desenvolvem uma cultura de propriedade resultante do seu envolvimento no dia a dia do clube, e que comporta um certo aviltamento. Os jogos de poder, o oportunismo, o proselitismo, o elitismo, a vacuidade, a grosseria, a tirania, o relativismo moral e ético, que lhe são próprios são incompatíveis com o ideal utópico referido, degradando-o. O paradoxo é que, são estes que alimentam o sonho dos outros fazendo funcionar o clube. A lição é que, no dia-a-dia dum clube como o Benfica, os valores éticos e morais têm que ser respeitados por todos, sob pena do desaparecimento da sua substância distintiva e da sua despromoção à vulgaridade. Daqui decorre a necessidade de transparência e participação na gestão e funcionamento do clube  sem a qual, este, será uma ficção dos seus adeptos alimentada pelos  dirigentes e respetiva corte, conforme a sua própria visão e interesses. 
   Tudo isto me ocorreu ao assistir à última Assembleia Geral do Benfica, onde foi possível identificar a simultaneidade daquelas duas facetas. Um certo distanciamento, é, em muitos casos, como o meu, uma defesa do adepto perante o perigo eminente da deceção resultante da erosão do seu ideal. E é assim que deve ser, creio.
 
(Tela de Abel Manta)
 
António Barreto
Peniche, 30 de Setembro de 20018

sábado, 4 de agosto de 2018

O contexto político do Benfica

     
Apesar do reconhecimento geral da democraticidade do Benfica, quer na vigência do Estado Novo quer posteriormente, os mentores dos seus principais adversários insistem na "velha" retórica que o classifica de "clube do antigo regime", afinal, uma dupla justificação, para os seus fracassos de então e, simultaneamente, para os seus sucessos posteriores, estes, resultantes, segundo eles, do advento da democracia.
 
   Nem uma coisa, nem outra; nem o clube encarnado beneficiou dos favores do Estado Novo nem a democracia política impediu a turbulência que emergiu no mundo do futebol luso e que veio a culminar com o processo, a todos os títulos indecoroso, do apito dourado.
 
   Contudo, tal "engenharia" comunicacional tem-se revelado eficaz, sobretudo em certa comunidade político-desportiva, ao manter, permanentemente, numa espécie de "nevoeiro", a ideia de incompatibilidade entre a democracia e o Benfica.
 
   As vitórias do Benfica funcionam, para os seus adversários, como um instrumento de pressão sobre as entidades que tutelam o futebol, denunciando o que consideram sintoma de deriva autoritária do regime. E funciona!, certos quadrantes políticos, receosos de serem rotulados de "salazaristas", mantêm uma olímpica indiferença perante os sucessivos distúrbios a que se tem assistido no futebol nacional, configurando o que classifico como cumplicidade passiva. Ainda recentemente, sucumbindo à desilusão de mais uma derrota, o dirigente de um clube rival do Benfica, apelidava a respetiva competição de "liga Salazar"! Nem na esfera das instituições desportivas, nem na governativa houve qualquer reação de reprovação ao autor das infames declarações. Pelo contrário, o silêncio funciona como anuência para com o detrator incentivando-o à prossecução de tais métodos. Algo que, afinal, não surpreende quando olhamos mais de perto para as afinidades explícitas ou implícitas entre o infamante e os dirigentes daquelas instituições.

   Implicando com tudo isto, no caso concreto do Futebol Clube do Porto, há uma particularidade, a mau ver única, no panorama nacional: a dimensão política. Este, é um clube politizado, na medida em que serve fins eminentemente políticos através do desporto. O envolvimento dos seus dirigentes, onde se cruzam notáveis da politica partidária, da banca, da economia, de instituições empresariais e da administração pública, na causa da regionalização, ainda que, por vezes, discretamente, não deixa dúvidas a este respeito.

   Os muitos episódios algo caricatos que têm vindo a público mostram que "a causa" da região se propagou aos organismos públicos locais - e, também, aos nacionais -, concitando a militância dos aderentes, consubstanciada num comportamento de não colaboração e de interpretação mais favorável das leis e regulamentos, por mais absurda que seja, justificada por um "desígnio superior", restritamente partilhado.

   É curioso verificar como os que acusam o Benfica de envolvimento cúmplice com o antigo regime, usam, agora, a sua capacidade de influência política junto dos aparelhos estatal e partidários para o "desbravamento" do caminho do sucesso desportivo. Um exercício de hipocrisia e cinismo flagrantes.

   Refém da sua própria grandeza,  o Benfica, vive entre a inveja e o ressentimento dos adversários e o desconforto partidário - o clube encarnado tem mais sócios que todos os partidos políticos juntos têm de militantes -, perante a sua capacidade agregadora, inconveniente à nova ordem inscrita nos seus propósitos.

   Por tudo isto, é minha convicção que o Benfica tem um problema político - que se revela no funcionamento das instituições; PSP, Judiciária, Ministério Público, Tribunais, etc. -, que deve enfrentar, questionando frontalmente os diretórios partidários, e mantendo os seus adeptos informados do resultado dessas diligências.

   Na vertente normativa e dado o impacto desportivo do clube encarnado, deve, este, manter-se atento às iniciativas governamentais e das tutelas desportivas, analisando, discutindo e propondo medidas conformes à sua visão do interesse geral.

   Esperar pelo reconhecimento voluntário de adversários e dirigentes, como se tem visto, é má política; ao mínimo distúrbio, ainda que com origem diversa, quer os meios de comunicação, quer as autoridades, tratam de meter os dirigentes e adeptos do Benfica mesmo saco, sem constrangimentos de consciência.

   Em resumo; a paz deve ser conquistada, e nunca será outorga de quem quer que seja.

sábado, 21 de julho de 2018

Benfica; A Banca em ação.

   Retomando a crónica anterior, acredito que tenha havido razões não explícitas para a passividade revelada pelos dirigentes encarnados no planeamento e acompanhamento da época. Não acredito nas teses da incompetência ou da displicência. O cenário de fundo do campeonato foi o da consolidação da supremacia encarnada e do deslizamento económico e desportivo dos principais rivais para situações de rotura financeira eminente; Sporting e Porto viviam sustentados por reestruturações sucessivas de dívida; aquele, por emissão de "dívida perpétua sem custos", as famosas VMOC, este, já intervencionado pela UEFA, e a braços com o vencimento do empréstimo obrigacionista, apesar de ter conseguido a proeza do alargamento do prazo de liquidação da dívida do seu  estádio para 50 anos! Um novo ciclo político fazia prever novos contornos desportivos.
 
   O que lhes teria acontecido caso o Benfica tivesse ganho o campeonato? Ao Sporting, eventualmente, algo muito semelhante ao que se verificou; a queda de um demagogo sem escrúpulos. Quanto ao Porto, o agravamento da sua condição financeira devido à inerente desvalorização dos seus jogadores e do prémio de risco associado à emissão do novo empréstimo obrigacionista, aprofundando-se o ciclo vicioso em que caíra devido à ascensão do Benfica. Todas estas razões suportam a ideia de que o panorama desportivo terá atingido a esfera política, embora ainda a nível de bastidores.
 
   O que sabemos em concreto é que o clube encarnado reduziu à marginalidade o seu endividamento bancário - ao que consta, a cerca de 17 milhões de euros -, recorrendo ao serviço de factoring, tendo dado como garantia três anos de receitas futuras de direitos de imagem, com um custo de, aproximadamente, 17 milhões de euros. O desfecho desta operação coincidiu, aproximadamente, com o momento em que o Benfica começou a ficar para trás na corrida pelo título e com o anúncio de novo ciclo de obras no Seixal. Refira-se que, a certa altura da época, elementos próximos do Presidente, e até este, desdramatizavam, na TV do clube, a eventualidade do fracasso do "penta". Pareciam preparar os adeptos para algo que sabiam iria ocorrer.
 
   Quem terá tido a iniciativa da antecipação do pagamento da dívida bancária? Benfica ou bancos? Filipe Vieira apresentou o assunto como sendo o cumprimento duma promessa sua, consciente do impacto favorável junto dos benfiquistas "aliviados" com o integral pagamento do estádio. E quem terá sido o beneficiário desta liquidação, Benfica ou bancos? Não creio que tenha sido o Benfica, uma vez que sacrificou receitas futuras e não reservas de capital ou financiamento de mais baixo custo - o que, aliás, deveria ter feito há já muitos anos -, apesar da extraordinária receita alcançada com a venda de jogadores.
  
   Grosso modo, o Benfica poupa uma despesa anual com juros da ordem dos 16 milhões de euros, mas perde uma receita anual de 40 milhões!, ou seja, nos próximos três anos, terá que fazer um esforço adicional da ordem dos 24 milhões de euros face ao que teria se mantivesse o plano de amortização contratado. Conclusão, benefício económico do Benfica, não há, e tal repercutir-se-á nos próximos três anos. Isto, a julgar pelo que tem vindo a público; os detalhes do caso poderão ser algo diferentes.
 
   Porém, temos assistido, desde há cerca de 10 anos, a um tumulto bancário em Portugal que tarda em dissipar-se definitivamente. Após sucessivas recapitalizações e várias falências, o bancos sobreviventes vivem, ainda, pressionados pelas respetivas  tutelas, para libertarem os seus balanços dos ativos tóxicos, entre os quais os créditos associados ao futebol.
 
   Por tudo isto, creio que, no início da época, os dirigentes do Benfica terão sido confrontados com os respetivos bancos credores para a imperiosidade da liquidação da dívida. Cerca de 150 milhões de euros (salvo o erro)! Num primeiro tempo, os dirigentes encarnados, terão equacionado o pagamento com meios próprios, daí terem vendido "tudo o que tinha mercado" e terem-se resguardado nas contratações. Necessitavam de fundos para satisfazer a gula bancária e...sabe-se lá que mais. Prejudicada ficou a equipa. Comprometida ficou a época. )E, agora, já estou a pensar em causas de natureza político-partidária).
 
   Terá sido, pois, com o decorrer do campeonato que terá surgido a possibilidade do recurso à antecipação de receitas, e, este, poderá ter sido o maior erro recente de Filipe Vieira, que poderá ter comprometido, irremediavelmente, os próximos anos do Benfica, ao viabilizar a operacionalidade da "velha máquina azul". Nessa altura, já não haveria possibilidade de reforço do plantel.
 
   Não sei se os acontecimentos terão ocorrido assim, mas é possível que tenha sido; acredito que tenha sido. Mais; acredito, até prova em contrário, que a intransigência bancária para com o Benfica tenha tido origem governamental com o propósito de manter um quadro desportivo mais consentâneo com o seu projeto político para o país.
 
   A teimosia de Filipe Vieira em relativizar, insistentemente, a gravidade dos fracassos, e em apresentar justificações  inverosímeis, suscita a minha censura; não se diz aos benfiquistas que a derrota não é importante, convidando-os a conformarem-se com os insucessos, quando, a ancestral cultura benfiquista é o contrário disso; é inconformismo, é insatisfação permanente, é luta contínua, sempre respeitando os outros, mas sem desfalecer na luta. Aceita-se a derrota quando nos batemos lealmente pela vitória e honra-se o adversário quando nos ganha da mesma forma. Esta é a cultura do Benfica e não a do conformismo que Filipe Vieira, gradualmente, tem vindo a estabelecer.
 
   A montante, poderemos ainda equacionar as "tais" causas de natureza política, que já vi referenciadas na BTV pelo ilustre Fernando Seara, ainda ontem, no programa "Jogo Limpo" e sobre as quais me debruçarei na crónica seguinte.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Um olhar sucinto para o Benfica 2017/2018

   Com os "motores" dos clubes/SAD em "afinação" para a nova época desportiva, diluída ou atenuada a indignação na esperança de novas conquistas, é tempo de olhar para trás e tentar perceber os factos, em especial, os desportivos e destes, o futebol sénior do Benfica, em particular.
 
   Iniciou-se a época na perspectiva duma façanha histórica para o Benfica; o penta-campeonato foi o objetivo definido e sempre reafirmado ao longo da época, como se fosse algo virtualmente adquirido. Falhou. Por pouco, mas falhou. À vista da meta, o "carburador" entupiu. Tal como, afinal, aconteceu nas modalidades. Todas. É certo que a época foi caracterizada por ataques sistemáticos ao clube por parte dos principais rivais e que se verificaram, dentro e fora das competições, acontecimentos algo bizarros, embora não inéditos. Mas também é verdade que, internamente, não faltaram equívocos aos responsáveis do clube encarnado. Tantos e tão inesperados, que chego a pôr em dúvida o efetivo empenho na vitória.
 
   Ao nível do futebol sénior, falhou tudo; planeamento, preparação e acompanhamento. Não se percebe porquê; aparentemente, por razões aleatórias; os azares da vida! Nem os dirigentes do clube apresentaram explicações convincentes, limitando-se, desde o início, a relativizar a gravidade dos sucessivos insucessos  e a anunciar novo pacote de obras infraestruturais. Pois me parece que pode haver razões não explícitas na origem da inépcia patenteada pelos dirigentes encarnados ao longo da época.

   As saídas que se verificaram na equipa deixaram-na profundamente fragilizada, tecnicamente e animicamente. À exceção da de Lindeloff, nenhuma das outras foi adequadamente compensada. A equipa perdeu eficiência na baliza, na ala direita defensiva e ofensiva, no eixo defensivo até cerca do primeiro terço da época, e na frente de ataque, especialmente após a lesão de Jonas.

   Quando certos clubes estão interessados num jogador, não há como evitar a saída; controlá-la garantindo o melhor momento e o maior proveito é tudo a que se pode aspirar. Porém, já não são admissíveis, em estruturas altamente profissionalizadas, erros grosseiros de avaliação como foram os casos do guarda-redes, do defesa-direito e, em menor grau, dos avançados destinados a colmatar a saída de Mitroglou.
  
   A nova dupla de centrais composta por Jardel e Ruben Dias, levou tempo a entrosar-se, período em que, bola centrada para o eixo da defesa, geralmente terminava no fundo da baliza. Varela, até final da época, e apesar de algumas boas exibições, mostrou sempre dificuldade na leitura dos lances, nos timings das saídas e na execução das manchas. André Almeida, generoso e abnegado, face ao antecessor, perde em velocidade, criatividade e capacidade ofensiva. Quanto a Jimenez e Seferovic, sendo excelentes jogadores, especialmente o primeiro, nenhum deles tem as características de Mitroglou, aliás, raras hoje em dia, nem o modelo de jogo da equipa evoluiu de forma a proporcionar a otimização do seu desempenho.

  No plano económico, a saída de Mitroglou tem justificação na perspectiva do curto-prazo, não no do médio prazo nem no do desportivo, como se comprovou pela desastrosa campanha na Liga dos Campeões. Mitro não queria sair. Era possível mantê-lo e, posteriormente, de o recuperar. Bastaria para o Benfica ter sido campeão, estou convicto. Gabigol e Douglas foram recrutados de emergência, já em desespero de causa, e, como sempre acontece nestes casos, não produziram os efeitos pretendidos, apesar de ambos, terem apresentado qualidades interessantes.

   A ajudar "à festa", depois de ter recuperado da cirurgia que o afastou dos relvados cerca de três meses (salvo o erro),  krovinovik, quando se afirmava no meio-campo fazendo desabrochar a equipa,  lesiona-se num momento crucial. Também Sálvio e, finalmente, na fase crítica, o golpe fatal; Jonas é impedido de dar o seu contributo também por lesão.

   A questão que se coloca é a de perceber a razão pela qual os dirigentes do Benfica não preveniram o plantel adequadamente para a época, que sabiam particularmente difícil. Não sei, mas poderei especular um pouco na próxima crónica. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Da violência no futebol

      Apesar de este ser um tema permanentemente em foco na sociedade portuguesa não me parece que todas as entidades que se revelam preocupadas façam o que podem para  erradicar ou atenuar a violência no futebol.
 
   Recentemente, a Assembleia da República dedicou uma sessão ao assunto sem que de lá tenha saído qualquer contributo válido a respeito do mesmo. Tirando os casos de oportunismo em que alguns correm a associar-se aos sucessos dos clubes, a generalidade da comunidade política mantém-se à distância do futebol, contribuindo para o restringir a uma espécie de gueto onde prolifera certa marginalidade nem sempre desincentivada.
 
   Haverá entre os adeptos do futebol uma propensão particular para a violência? Será que este desporto atrai os revoltados da vida por verem nele a oportunidade integração  que lhes é negada noutros setores? Será que os fenómenos de massas refletem a violência contida na sociedade atual funcionando o futebol como regulador, prevenindo males maiores? Será que o Homem, por razões da sua natureza profunda, carece de agregação,  funcionando os clubes como substitutos das ancestrais tribos ? Será que nas sociedades atuais os adeptos de futebol são vítimas de manipulação para fins políticos, económicos ou outros? Será tudo isto junto? E como se previne? Haverá uma causa primordial da violência do Homem?, ou várias? 

   Julgo que este fenómeno tem a ver com as contradições associadas à liberdade; concretamente, entre a liberdade natural e a liberdade social. Sendo a absoluta liberdade a maior das utopias, inalcançável até para Deus, fica fora deste pseudo-ensaio. A compulsão da satisfação do Homem das suas necessidades vitais, materiais e espirituais, contende com a sua necessidade vital de agregação social. O Homem só, não existe. Nunca existiu. Nunca existirá. Mesmo Zaratustra, o misantropo alter ego de Nietzshe, é habitado pelas vicissitudes das sociedades humanas, objeto das sua ambição de criação de uma nova ordem; o eterno desafio. Naquelas, cada homem aceita prescindir de parte da sua liberdade natural a fim de tornar possível a convivência com os outros homens. Nasce assim aquilo que designo por "liberdade social"; a máxima liberdade que cada unidade de um agregado social pode disfrutar sem a desagregar. Nas sociedades modernas esta "liberdade social" está consagrada na Lei, elaborada pelos seus órgãos legítimos, constituindo o que se designa por Estado de Direito. Creio que é a repressão prolongada da liberdade natural a causa primordial geradora de violência em cada pessoa. Lidar com esta tensão exige recursos mentais e emocionais do próprio nem sempre disponíveis, competindo-lhe fortalecê-los em nome da sua necessidade de associação. Na "construção" da sua República, Sócrates, utopicamente, dispensava o aparelho judicial considerando que uma educação apropriada impediria cada cidadão de violar os direitos dos outros. Perante esta impossibilidade compete à comunidade zelar pela difusão dos valores subjacentes à Lei, pelo respeito universal desta e pela identificação e correção dos desvios que se lhe verifiquem.

   Em síntese, compete a cada cidadão considerar os direitos alheios quando exerce os seus e à comunidade cabe a administração da justiça. A origem da violência no futebol não é muito diferente da que se verifica noutros contextos, embora com diferentes características e nuances; a compulsão de distinção, cada um à sua maneira, tanto afeta o adepto comum, como o ilustre banqueiro.

  Esta terceira república ergueu-se sobre uma estrutura democrática mínima, caracterizada pela deficiente representação da soberania popular no órgão parlamentar e pela permeabilidade dos poderes democráticos à influência partidária, em especial o poder judicial, pondo em causa a independência destes e, por extensão, a legitimidade do próprio regime.

   Os exemplos de condicionamento e má administração da Justiça geram sentimentos de impunidade nuns cidadãos e de revolta, noutros. Concretamente no futebol, são muitos os casos graves em que tal se verificou, ficando a ideia da seletividade dos Tribunais em função da qualidade dos arguidos e das causas que lhe estão associadas. Houve casos cujo desfecho sugere que as instancias judiciais envolvidas subordinaram a Lei  a propósitos políticos transversais entre os arguidos e as elites locais integrando agentes da justiça. Um historial já longo de disfuncionalidades judiciais que tem funcionado como incentivo ao criminosos - alguns até institucionalmente elogiados -, falhando na sua função dissuasora.

   Acresce a excessiva mediatização do fenómeno futebolístico, seja nos média, seja na imprensa, que atingiu patamares de agressividade inaudita, eventualmente por imperativos de natureza económica, criando um ambiente de guerra civil entre adeptos e dirigentes, sem que as entidades reguladoras lhe tenham posto cobro. Afastam-se os adeptos pacatos, radicalizam-se outros, perde o futebol, perde o país.  
   Em conclusão, a violência no futebol, previne-se com educação e integração dos cidadãos, com os bons exemplos das elites políticas, económicas, sociais e religiosas e com o empenho e competência das instituições de justiça. Algumas das entidades que têm mostrado a sua repugnância pela violência no desporto têm, também, a sua quota parte de responsabilidades nela, por omissão das instituições que servem. 



 Egon Schiele, Agonia, 1912
 

Peniche, 16 de Maio de 2018
António J.R. Barreto   


domingo, 15 de abril de 2018

Adeus ao penta?

      Oxalá me engane, mas tínhamos que ganhar este jogo para lá chegar. Tudo é, ainda, possível, mas já não depende de nós. A "exemplar" estrutura encarregar-se-á dos detalhes e ninguém estranhará. A "democracia" exige novos campeões.
 
   Quanto ao jogo desta noite, aceito o resultado; a equipa portista não desmereceu a vitória, sendo certo que, esta, poderia ter caído para o lado do Benfica e seria igualmente justo.  
 
  Bateram-se bem as duas equipas, com ascendente do Benfica na primeira parte e do Porto na segunda. Foi um bom jogo. Oportunidades poucas. A sorte dos encarnados ficou selada no remate algo embrulhado de "Pizzi" a proporcionar a defesa "in extremis" de "Casilhas". Há muito poucas oportunidades nestes jogos. Na segunda parte  Conceição, apostando no desgaste físico dos encarnados,  jogou tudo para ganhar - tinha que ganhar para aspirar ao título; -assumiu o controlo da partida, jogou no campo todo, com intensidade, sempre em profundidade, explorando bem ambos os flancos. Os jogadores encarnados bateram-se sempre com galhardia, mas recuaram no terreno. O jogo tático foi decisivo. A entrada de Sálvio bloqueou o flanco esquerdo adversário, secando "Braimi", e ameaçava abrir brecha na sua defensiva. A troca de Pizzi por Samaris, foi um convite à subida dos médios azuis, razão pela qual Herrera apareceu sem marcação na zona da ressaca. E foi fatal, como costuma ser nestas situações. Rui Vitória explicou o que pretendia; lançamentos em profundidade para os avançados desde a defensiva. Podia ter funcionado. Ganhou quem mais ousou; Sérgio Conceição. Sei que, em jogos equilibrados, mexer na equipa é temerário, sobretudo no meio campo. E foi. Com Pizzi e Cervi fora, a defeza azul relaxou libertando gente para o meio-campo, enquanto o Benfica perdeu criatividade. Rui Vitória teve medo; quis aumentar o poder defensivo e, simultaneamente, o ofensivo. Correu mal. A sair Pizzi, teria preferido a deslocação de Rafa para o meio; a sua rapidez e profundidade permitiria dar trabalho ao meio-campo adversário e sair a jogar em apoio a Jimenez. Como disse anteriormente não censuro ninguém no Benfica; jogadores e Treinador, bateram-se muito bem. Há, aqui e ali, alguns pormenores que poderiam ter ditado outro desfecho. No lance do golo, um dos defesas poderia ter-se atirado para a frente do "Herrera". Enfim, são as vicissitudes do jogo. Pena a lesão de Jonas. Estou certo que teríamos ganho.
 
   Artur Soares Dias não merece continuar a arbitrar jogos de futebol. Fez a diferença. Eliminou uns quantos de lances ofensivos ao Benfica, alguns com perigo, e deixou passar sem sanção disciplinar várias faltas dos azuis que a mereciam, culminando com o perdão do penálti aos azuis. Cumpriu a sua superior missão de os proteger. Não falha. E ninguém estranha; andam todos à procura das toupeiras. Está em causa a Liga e seus órgãos, sendo que, quem os lá meteu está agora a colher dividendos. Vitor Pereira tinha que ser corrido. Num regime anormal, jamais haverá um futebol normal.
 
   Espero que os jogadores e técnicos do Benfica não desanimem; portaram-se bem. Há que manter a atitude. Ainda tudo pode acontecer.
 
  
 
   
 Albert Marquet - Venise. La Voile jaune, 1936.
 
 
Peniche, 15 de Abril de 2018
António JR. Barreto