Desporto

domingo, 17 de março de 2019

Humberto Delgado: a face “oculta” do "democrata"


  
A imagem pública do “General Sem Medo” é a do grande opositor de Salazar, romântico, impoluto, destemido, e que, com sacrifício da própria vida lutou para derrubar o regime autocrático e instaurar uma democracia em Portugal. 

   Há porém um lado semioculto, menos difundido, menos romântico, menos democrático, talvez por não servir os interesses da narrativa dominante dos fundadores do novo regime, alguns dos quais se assumem como herdeiros do legado político de Humberto Delgado.

   Num perito por alguns livros que me chegaram às mãos, com alguma surpresa e deceção, pude inteirar-me de lado mais obscuro da atividade política de Humberto Delgado e em sentido oposto, duma faceta, que desconhecia, na história do Partido Comunista Português. Do que me pareceu mais relevante elaborei duas séries de despretensiosas notas, a primeira das quais  publicada nas redes sociais. 

   Humberto Delgado foi um homem do 28 de Maio, indefetível adepto do Estado Novo e de Salazar, com uma carreira militar fulgurante, e relevantes realizações na área da aviação civil. Desempenhando um alto cargo de representante militar em Washington, sensibilizou-se com a luta de Henrique Galvão estabelecendo-se entre eles, uma amizade e admiração mútua, na sequência das visitas que lhe fazia na cadeia, sempre que regressava à Europa.

   A Henrique Galvão, no percurso da sua luta suicida contra Salazar, depois de recusar a disponibilidade do General para fazer a sua defesa judicial, ocorreu convidá-lo para candidato a Presidente da República pela oposição, nas eleições de 1958, para dar dimensão nacional à sua causa. Delgado acabou por ser candidato pelo círculo eleitoral do Porto - com a condição de não se envolver em golpes militares -, unificando todas as oposições, após desistência do candidato comunista, Arlindo Vicente, em consequência da concertação de objetivos estratégicos.

   A adesão das massas populares à campanha do candidato da oposição foi apoteótica, gerando a expetativa de vitória que acabou gorada com a atribuição de 25 % dos votos do eleitorado. Queixando-se de fraude - Américo Tomaz, candidato opositor, comentaria, mais tarde, ser esta a habitual desculpa dos derrotados -, Humberto Delgado, considerou legitimado o direito à revolta armada, seguindo a máxima de Henrique Galvão: -“quando a ditadura é um facto, a Revolta é um Direito”.

   Considerando-se o virtual Presidente da República Portuguesa rejeitou a oferta do Governo da Salazar para uma formação, na área da economia, no Canadá e receoso da sua própria segurança, Humberto Delgado pediu asilo político ao país “irmão” - com Juscelino Kubitschek de Oliveira na presidência -, asilo que viria a ser-lhe concedido, após longa e aparatosa batalha diplomática travada no espaço público, graças à intervenção do diplomata e democrata brasileiro, Álvaro Lins.

   Ali, congregando outros democratas portugueses, como Miguel Urbano Rodrigues e alguns imigrantes lusos, desenvolveu intensa atividade oposicionista, através de publicações regulares na imprensa, própria - o Portugal Livre -, ou brasileira - o Jornal de São Paulo -, etc., e de viagens de propaganda política através de vários países europeus, condicionada aos recursos disponíveis e às restrições impostas pelos governos locais, e aos países do norte de África, Marrocos e Argélia, onde encontrou franco acolhimento e apoio logístico.

   A pedido de Henrique Galvão, a quem passou credenciais como delegado do MNI junto do DRIL, assumiu a liderança política do sequestro do paquete Santa Maria, potenciando o impacto junto da comunidade internacional, a qual, acabaria por reconhecer o caráter político do ato e não um evento de pirataria, como pretendia Salazar.

   Ultrapassada a euforia do primeiro episódio de sequestro político de um navio mercante, Humberto Delgado acabou por se incompatibilizar com Henrique Galvão, recusando-lhe a direção operacional do movimento, reivindicando para si todos os poderes, político e operacional, alegando a superioridade da sua patente de general face à de capitão de Henrique Galvão. Despeitado, revogou a credencial deste, esvaziando a sua função no MNI, e cessou a parceria deste movimento com o DRIL de Pepe Velo.

   A faceta autocrática de Humberto Delgado, revela-se, talvez pela primeira vez, neste episódio, com prejuízo da eficácia das ações do movimento - Henrique Galvão era melhor estratega e operacional. Como se confirmaria mais tarde, o general, considerava-se o líder indiscutível da oposição, indisponível para partilhar ideias e protagonismo; defendia a democracia mas não a praticava. Um salazar na oposição.

   Descoroçoado com a fraca adesão dos portugueses no Brasil, acusado, juntamente com Henrique Galvão, de desvio de fundos pelos operacionais do sequestro do paquete Santa Maria, Humberto Delgado zarpou rumo a Argel, não sem acusar aquele de traição.

   Do projeto delineado para o sequestro do paquete, falhara o assalto à ilha de Fernando Pó e a Luanda. O lançamento da guerra colonial aparece, pela primeira vez, como um objetivo primordial de Delgado. Este voltaria a acusar Galvão de traição, por denúncia pública do assalto ao quartel de Beja, no seu entender, razão do fracasso do golpe. Por sua vez, Galvão acusaria Delgado de traição por denúncia do sequestro do avião da TAP que, no entanto, acabaria por ser bem-sucedido. Uma tremenda confusão originada pelo exacerbado egocentrismo de Delgado que conduziu à alienação do contributo de Galvão e ao enfraquecimento operacional da oposição.

   Os encontros de Delgado com os chefes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas em África, tinham-se iniciado ainda antes do episódio do sequestro do paquete Santa Maria. Na documentação que serve de base a este texto, há referências ao fornecimento de armamento a Holden Roberto, por Humberto Delgado, em vésperas da chacina perpetrada pela UPA, contra colonos no norte de Angola, com que se iniciou a guerra colonial. A ser verdade, não tenho dúvidas em considerá-lo, hipócrita e traidor. Uma coisa é conspirar para derrubar o governo de Salazar, outra coisa bem diferente é apoiar atos de terrorismo e de guerrilha contra o povo português; o tal povo humilde, sofrido, objeto da sua comiseração e propalada causa da sua luta pela democracia.

   No decurso da crise do paquete Santa Maria, Henrique Galvão, patriota, contra a vontade dos seus aliados, Pepe Velo e Jorge Sottomayor, recusou o fornecimento de mísseis, que a União Soviética lhe ofereceu para afundar o paquete Vera Cruz, com 1500 militares a bordo. Não encontrei qualquer referência à posição de Humberto Delgado sobre este assunto, mas é certo que, este, confessou publicamente a sua admiração pelos países socialistas, Checoslováquia e URSS, enaltecendo a qualidade de vida das respetivas populações. A determinação de derrubar, mesmo, matar, Salazar, era comum, mas, Henrique Galvão, ao contrário de Humberto Delgado, preocupava-se em poupar os portugueses. 

   Tinham oposições diferenciadas sobre as colónias; ambos defendiam a autodeterminação dos povos colonizados, sujeita a referendo, mas, Galvão, considerava-os impreparados para a independência imediata e, ao contrário de Delgado, não consta que tenha apoiado a luta armada nas colónias.

   Com falta de apoio político no mundo livre, que, formalmente, respeitava Salazar e Portugal, Humberto Delgado, desliza para a esfera socialista através de Álvaro Cunhal, conseguindo recuperar clinicamente, na Checoslováquia, duma hérnia que o apoquentava e quase o matava - Henrique Cerqueira, o seu braço direito, acabaria por afirmar ter-se tratado, efetivamente, duma tentativa de homicídio gorada pela pressão mediática que foi despoletada pelos seus correligionários.

   Ainda em recuperação, Delgado, acedeu à concentração da oposição numa nova organização, a Frente Patriótica de Libertação Nacional, com a adesão do seu Movimento Nacional Independente. Tendo-se concertado estratégias no primeiro congresso, privilegiando a luta armada em Portugal, rapidamente emergiram divergências insanáveis entre Humberto Delgado e os restantes membros da Frente - com algumas exceções, entre as quais, Mário Soares e Emídio Guerreiro -, com destaque para o Partido Comunista.

   Para as autoridades portuguesas e espanholas, Humberto Delgado estava sinalizado como o líder privilegiado da URSS para a península ibérica. Neste contexto, o choque com o PCP assumia particular gravidade; a sobrevivência do partido estava em causa, tal como a integridade programática do general.

   É aqui que surge uma circunstância duplamente reveladora e surpreendente; enquanto Humberto Delgado se empenhava no planeamento da luta armada em Portugal sujeitando os portugueses a uma guerra civil de consequências imprevisíveis, o PCP defendia um trabalho prévio de consciencialização de massas, preparando-as para a adesão maciça a um futuro pronunciamento militar, poupando a população a uma guerra sangrenta. Sendo um decidido opositor do comunismo e um crítico da ação política do PCP, não hesito em elogiar-lhes o comportamento aqui referido e sentindo-me grato.

   De facto, Humberto Delgado, com o apoio logístico e militar do governo argelino recém-independente, presidido pelo ex-líder militar e ex-jogador do Marselha, Ben Bella, acordou a formação de uma força mista com um ex-oficial republicano espanhol, constituída por cerca de 8 mil operacionais espanhóis e, eventualmente, portugueses, armada e treinada pelo governo de Ben Bella, constituindo a Legião Estrangeira argelina, com a finalidade de invadir Portugal e Espanha, a partir do Algarve e derrubando os respetivos governos e unificando a Península Ibérica instaurando nela, uma república socialista. Adicionalmente, comprometiam-se a aceitar a integração no comando militar argelino enquanto permanecessem na Argélia e a intervir na sua defesa contra Marrocos, em caso de necessidade, ou de neutralização de eventual rebelião interna.

   Humberto Delgado, aceitou e assinou estas condições. A sua cegueira pelo poder, a sua sede de vingança contra Salazar sobrepunha-se à sua repulsa pelo totalitarismo socialista, ao seu amor à democracia, à sua comiseração pelos conterrâneos sofredores. O seu ego degradou os seus valores democráticos e humanos, o seu patriotismo, ao aceitar constituir-se em mercenário dum exército estrangeiro a troco do apoio no derrube do seu arquirrival.

   Sediado em Argel, o “General sem medo” concertou, com os chefes dos movimentos de libertação, estratégias diplomáticas e operacionais de apoio à guerra colonial que moviam contra Portugal, Contra o “Zé soldado”, reiteradamente chorado pelos poemas hipócritas de Manuel Alegre, dos quais os “fascistas” Salazar e Caetano, permitiam a difusão pública nas rádios, em particular pelo extraordinário Adriano Correia de Oliveira, juntando-se
às numerosas canções de protesto de José Afonso e Luís Cília, e aos “reacionários” Tristão da Silva, Amália Rodrigues e Alan Ou
lman.

   Humberto Delgado estava em guerra com o Governo da Salazar e foi morto em circunstâncias não totalmente esclarecidas, em vésperas da planeada invasão de Portugal. Irresponsavelmente corajoso, tolo, não percebeu que a sua organização estava, desde o início, infiltrada pela polícia política de Salazar, que o atraiu a Badajóz , onde o neutralizou, cientificamente, em Villa Nueva Del Fresno, no camiño de los malos pasos, às portas da fronteira de Elvas.

   Neste contexto, defendo que Humberto Delgado não é digno da homenagem que lhe foi feita com a atribuição do seu nome ao aeroporto de Lisboa. Esta operação, consistiu, apenas, em mais uma manobra de propaganda socialista, visando induzir nos cidadãos a ideia de que, o legado político do “General Sem Medo” era protagonizado pelos autores do encómio; o Partido Socialista e os seus líderes do momento. Um embuste de uma democracia falhada sustentada na expetativa da inevitável ignorância dos portugueses vulneráveis às manipulações dos atuais detentores do poder.

Peniche, 9 de Fevereiro de 2019
António Barreto

terça-feira, 5 de março de 2019

Bruno Lage; A Revolução Tranquila


Bruno Lage   Das explicações que por aí ouvi acerca das causas da transformação que se verificou na equipa de futebol sénior do Benfica após a entrada do novo Treinador oriundo da equipa B, nenhuma focou os apetos que considero essenciais.

   Desde o tempo em que treinou os Juniores da Luz que Lage revelou grande talento. A sua saída deixou um sentimento de perda em quem acompanhava o seu trabalho, mesmo a distância. O seu regresso - saudado pela generalidade dos adeptos - agora à equipa B, traduziu-se na imediata melhoria nos resultados desportivos da equipa.

   Foi a comunicação, dizem uns. Foi a atitude dos jogadores, dizem outros. É verdade, mas nenhuma destas razões é primordial no salto qualitativo da equipa.

   Antes de mais a saída do anterior Treinador - pessoa estimável - foi parte da razão; os jogadores sentiram-se libertos duma liderança confusa, titubeante, periférica e conformada, que, frequentemente, relativizava a importância das derrotas e se revelava incapaz de promover a progressão qualitativa do modelo tático. Uma espécie de pesado lastro, com origem no treinador, impedia a equipa de evoluir. Sem disciplina tática, a equipa vivia do talento dos jogadores, que lá conseguiam subir, à custa de tabelas de dois, três jogadores, e esporádicos lançamentos longos, com que se ganhavam os jogos menos exigentes.

   O resto é de Bruno Lage; e o resto é quase tudo. Lage é portador da cultura profunda do Benfica; vem dali da zona do Barreiro, alfobre de grandes figuras do clube, e vem do grande Jaime Graça; nos seus tempos áureos o melhor extremo direito da Europa. Nenhum jogador, nenhuma equipa, nenhum estádio temia. Bruno Lage, interiorizou essa cultura, a cultura da vitória e da nobreza de caráter.

   “O Benfica são as pessoas”, disse Lage, e esta é a essência do Benfica. É o que os seus adeptos sonham, sentem e vivem, que move o Benfica; tudo o resto é instrumental; presidentes, dirigentes, treinadores, estádios, campos de treino, etc. A cultura de Bruno Lage vem das fontes do benfiquismo.

   Tudo isto é fundamental mas insuficiente para produzir o tal “milagre” que se verificou. O resto é…conhecimento profundo do jogo e competência emocional. Bruno Lage é possuidor de ambas. Revelou-o desde o início.

   Logo que se pronunciou foi direito ao essencial identificando como prioridades a disciplina de ocupação do terreno e as dinâmicas táticas. O resto, o talento para a execução, está nos jogadores e revela uma outra competência decisiva de Lage; a capacidade de perceber as qualidades intrínsecas de cada um e o momento em que se encontram.

   Acabaram-se os grande “buracos” no terreno, avenidas, por onde qualquer boa equipa fazia progredir o seu jogo na direção da baliza encarnada.  Acabou-se com o futebol “estático” em que o portador da bola era obrigado um duelo desigual, de um para dois ou para três, por falta de linhas de passe disponíveis. Acabaram-se as rececões estáticas, os passes de baixa velocidade ao 2º e terceiro toques. Acabou-se com as corridas inglórias trás da bola, com os jogadores a chegarem quase sempre atrasados. Acabou-se com o futebol denunciado e o desgaste físico precoce da equipa.

   É certo que, aqui e ali, ainda aparecem os “fantasmas” jogo do passado, mas paulatinamente, a equipa consolida a nova postura tática:

o   Ocupação racional e dinâmica do terreno de que resulta, na fase defensiva:

o   Redução de espaços dificultando a progressão do adversário.

o   Rápida reação à perda de bola dificultando a construção do jogo adversário.

o   Criação de superioridade numérica nas disputas de bola.

o   Repartição do esforço físico de recuperação da bola.

o   Na fase ofensiva

o   Rápida desmarcação para os espaços livres, abrindo várias linhas de passe.

o   Aumento da dificuldade de leitura de jogo por parte do adversário.

o   Dispersão do adversário no terreno, dificultando a formação dos bloqueios coletivos.

  À disciplina tática permanente junta-se o aumento da velocidade de troca da bola, receção dinâmica em progressão, de frente para o adversário, e entrega ao primeiro, segundo toque. Daqui resulta que, quando o adversário faz a leitura do lance, normalmente, já é tarde para reagir. Vimos isso nos últimos jogos. Com Samaris e Gabriel a equipa recuperou capacidade atlética e criativa, ganhando mais lances no corpo a corpo e capacidade de colocação da bola, com precisão, a longas distâncias. Por outro lado, os jogadores vão perdendo o “respeito” aos guarda-redes, rematando nas proximidades da área, com resultados já bem visíveis. Tudo isto é maximizado pela alegria dos jogadores, que provém da confiança na liderança da equipa; Bruno Lage sabe “ver” os detalhes táticos do jogo como muito poucos treinadores, e sabe como alterá-los.

   Com uma humildade que lhe provém da nobreza de caráter, Bruno Lage, indiferente às controvérsias periféricas, endossa aos seus jogadores os méritos do desempenho e agradece-lhes o seu crescimento como treinador. E isso cala fundo no coração dos seus jogadores e dos adeptos.

Peniche, 05 de Março de 2019
António Barreto

domingo, 17 de fevereiro de 2019

O colapso da Controlinveste

  
Uma indecência!, agora percebo porque Filipe Vieira vendeu os direitos desportivos À MEO; foi para salvar o amigo Agostinho Oliveira - o maior inimigo do Benfica depois de Pinto da Costa e do PS -, e atenuar as perdas do Novo Banco com a amortização extemporânea de 100 milhões de capital. O banco que doou centenas de milhões de euros ao Sporting e que, Juntamente com o BCP tentou liquidar o Benfica congelando-lhes as contas no tempo de Vale e Azevedo. Agora, em conjunto, perderam 500 milhões de financiamento ao grupo Controlinveste. Demonstra o que sempre soube; que os motivos do congelamento das contas bancárias do Benfica não eram de natureza económica, mas política. Mais grave; proporcionaram a reestruturação do grupo de Joaquim Oliveira, transitando todos os ativos da Controlinveste para a Olivedesportos, antes de pedirem a insolvência daquela. Isto é, estes bancos, abdicaram do ressarcimento da dívida, ainda que parcial, facultando a fuga dos ativos, apresentando-se à insolvência uma empresa vazia. Um nojo. Se os Tribunais agirem em conformidade, confiscarão esses ativos à ordem da massa falida e pronunciarão os responsáveis por esta trafulhice. Aqui está uma das causas dos vouchers, das toupeiras, dos e-mails; manobras de diversão para espantar idiotas. Agora, veja-se quem são os parceiros de Joaquim Oliveira na Sport TV, para se perceber melhor a amplitude de toda esta teia.

Peniche, 17 de Fevereiro de 2019
António Barreto

 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A metáfora dos 10 a zero

   A goleada histórica do Benfica sobre o Nacional levantou um coro de indignação dos tradicionais detratores do clube encarnado, e de alguns "benfiquistas diferentes", considerando-o uma imoralidade inadmissível. Detratores que não se coíbem de invocar as derrotas daquele clube; de 7-1 com o Sporting e com o Celta de Vigo, ou de 5-o com o Porto, sempre que, desportivamente, a vida lhes corre mal, procurando assim, atenuar a frustração e humilhar o grande rival. O que os escandaliza, pois, não é a goleada em si mas ter sido o Benfica a dá-la numa magnitude histórica.
 
   O que se viu nesse pleito foi a mais pura essência do futebol, em que, uma equipa dum clube mítico transfigurou o futebol amorfo, triste, denunciado e vulgar que vinha praticando, num futebol alegre, dinâmico, com amplitude e verticalidade, velocidade, criatividade, força, determinação e...muitos e bonitos golos. Isso sim, é que deve ser enaltecido.
  
   Que o Treinador devia ter mudado a equipa. Disseram alguns. Não podia. Mas refrescou-a com jogadores menos rodados, baixando o ritmo e a eficácia do jogo. O resultado até poderia ter sido mais dilatado perante um adversário honrado, lutador, com conhecimento dos princípios de jogo, mas, naquele dia, incapaz de travar os "diabos vermelhos".
 
   Ora, as declarações dalgumas figuras políticas a propósito do evento tornou, mais uma vez, evidente algo que para mim é claro desde há largos anos; que o grande e mítico Benfica não é bem visto nalguns setores da sociedade portuguesa a que chamam "democrática". Benfica sim, mas pequenino, não vá alguém associar este regime ao de Salazar. Já a recente sucessão de ataques a que temos assistido ultimamente,  ao clube de Eusébio, além de agradar aos seus rivais diretos alimenta a aparência parola do empenho na defesa dos mais fracos. Proíbe-se e combate-se - e bem - todos os tipos de segregação,; em função da cor da pele, da religião, do género, da orientação sexual, do estatuto económico ou social, mas, é cada vez mais corrente assistirmos à segregação do Benfica e dos benfiquistas, seja com sanções desportivas excecionalmente duras e exclusivas, no caso do clube, seja com perseguição e espancamentos - nalguns casos conduzindo à morte -, no caso destes.
 
   Mas, a grande metáfora da goleada traduz uma das características degradantes das democracias socialistas, o nivelamento por baixo. Ora, se o adversário do Benfica não tem capacidade competitiva equivalente, em vez de se cuidar de o melhorar, removendo as suas causas, exige-se que o Benfica baixe o nível do seu desempenho. Para evitar a humilhação do adversário? Não!, para não evidenciar a sustentação podre da organização deste desporto em Portugal em que, para satisfazer os caprichos de caciques locais, da economia e, ou, da política, se incluem na primeira liga clubes sem autonomia económica consentânea, deixando-os à mercê dos grupos detentores de financiamento. Algo que Mário Figueiredo quis abolir, preparando um bom projeto, abortado pelos hipócritas de ontem e de hoje.
 
Peniche, 14 de Janeiro de 2019
António Barreto
 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Ascensão de Salazar (Os Anos de Salazar, Volume 1, notas 1)



 
Do Acto Colonial:

   …Criava-se o estatuto de direitos e deveres dos “indígenas”, que incluía a proibição do “trabalho obrigatório”, e eram reconhecidos direitos às missões católicas portuguesas.

Do Estado:

   …Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento….O regime será autoritário e presidencial.

   A fonte de soberania não é o “cidadão”, mas a “célula social irredutível” que é a família, “núcleo originário da freguesia, do município”. Seguem-se as corporações, que representam “interesses legítimos a integrar nos da coletividade”.

   Rejeita-se a democracia, que foi operando o “nivelamento em baixo, contra o facto das desigualdades naturais, contra a legítima e necessária hierarquia dos valores numa sociedade bem ordenada”.

Da influência religiosa de Salazar:

   Na encíclica Diuturnum do Papa Leão XIII, refutava-se a ideia de que a legitimidade do poder civil e político proviesse do povo. Rejeitava-se o Contrato Social de Rousseau e afirmava-se a necessidade de um chefe para cada grupo de homens.

   A encíclica Libertas declara que a liberdade de expressão e de imprensa não constituem um direito.

   Já a encíclica Sapientiae Christianae defendia o amor extremoso dos cristãos à terra que os viu nascer e crescer, prontos a defendê-la, e o dever de militância política, “disciplinados” ao papa e aos bispos. ..A igreja não segue partidos políticos, mas aprova qualquer sistema de governo, desde que respeite a religião e a moral cristã.

   Na  Rerum Novarum  a igreja insurgiu-se contra o socialismo e o comunismo, contra a luta de classes e do recurso à greve, defendendo a reconciliação entre patrões e empregados nas corporações servindo e Estado de moderador.

   A Inimica Vis condena expressamente a maçonaria.

   A Graves de Communi estabelece os princípios da Democracia cristã, consistindo no reconhecimento do direito de propriedade, na independência das formas de governo, alheamento dos partidos, conciliação entre as classes sociais como uma só família, obediência às ordens justas das autoridades condicionada à conformação destas às leis de Deus. Incentivava-se à beneficência, à previdência, e acção social que levasse a democracia cristã até ao povo.

   No Centro Académico da Democracia Cristã confraternizou com vários católicos notáveis, Mendes dos Remédios, Marnoco e Sousa, Sobral Cid e o jovem minhoto Manuel Gonçalves Cerejeira.

Da influência pagã:

   Charles Maurras, reacionário, na sua Action Francaise defendia o catolicismo enquanto instrumento político - independentemente da Fé - a monarquia antiliberal, a censura e a prevalência do Estado sobre todos os outros interesses.

   Salazar conclui o curso geral do liceu, primeira secção, em 1909, com 19 valores. Em 1914, aos 25 anos, o Conselho da Faculdade de Direito atribui-lhe a classificação final de 19 valores. Em 1916 candidata-se à docência na Universidade de Coimbra na área de Ciências económicas com um estudo intitulado “A Questão Cerealífera. O Trigo”. Em 1917 candidata-se a assistente na Faculdade de Direito e conclui uma dissertação com o título “O Ágio do Ouro, sua natureza e suas causas (1891-1915)” em que analisa a balança de pagamentos e as oscilações cambiais em Portugal, no período indicado.

   Em 1912, Salazar tem uma curiosa intervenção na sua primeira palestra em público na qual, citando Alexandre Herculano, defende a liberdade de pensamento e expressão, a importância da moral e da educação na questão social, o envolvimento útil dos cristãos na sociedade, critica o regime acusando-o de antidemocrático por ser anti-cristão, rematando com uma citação de Afonso Pena onde exprime o seu sentido da vida em “Deus, Pátria, Liberdade, Família”.

   Em 1921, contra sua vontade, Salazar, escolhido pelo Centro Católico Português, é eleito deputado por Guimarães, despedindo-se, logo na primeira sessão, de José Maria Braga da Cruz.

   Nas vésperas do 28 de Maio, em 1925, sucedem mais duas tentativas de golpe militar; uma liderada pelo general Sinel de Cordes, a seguinte, pelo comandante Mendes Cabeçadas.

   Então temos um Salazar ”marrão”; trabalhador, disciplinado, católico, corajoso e ambicioso, que, grato pelo apoio eclesiástico, confundiu catolicismo com cristianismo e declinou o seu conceito de liberdade para um confortável autoritarismo anticristão, subjugado à obsessão da ordem  e disciplina; uma espécie de efeito simétrico face à insanidade da entropia republicana que se vivia na época.

Créditos a António Simões do Paço

Peniche, 29 de Dezembro de 2018

António J. R. Barreto

domingo, 23 de dezembro de 2018

Adoração dos Reis Magos

 
 
 
 
Adoração dos Reis Magos, 1619
 
Diego Velasquez

Coletes Amareles



   A manifestação dos “coletes amarelos em Portugal, para alívio do Presidente da República, Governo e partidos políticos, não teve grande impacto social, tendo sido até considerada, por alguns, um fiasco. Ignorar as causas desta manifestação seria persistir no isolamento da classe política face aos destinatários da sua ação, a população, adiando a inevitável rutura.

   Antes de mais este protesto emergiu por efeito de contágio do que tem ocorrido em França, com grande impacto político e económico no país, mas também na comunidade internacional, sobretudo no seio da União Europeia. A França atravessa uma crise social profunda resultante da conjugação do fenómeno, conjuntural, da imigração, e das consequências, estruturais, da crescente exigência de produtividade. A primeira lançou o caos na população, decorrente dos horrores dos atos de terrorismo islâmico de que tem sido vítima e da complacência das autoridades perante os seus autores. A segunda, provoca fenómenos de exclusão social através do exigente processo de rastreio de profissionais e empresas - a certificação -, de que resulta um crescente “exército” de excluídos dependentes da solidariedade pública.

   Em ambos os casos conclui-se que grande parte da população não se sente representada na matriz política atual dos respetivos regimes. Significa isto, que as dinâmicas partidárias foram perdendo o contacto com as bases, cristalizando-se em torno das correspondentes estruturas, estas, mais preocupadas com a o controlo do poder interno. No caso português, tal como referem José António Saraiva e Vicente Jorge Silva - no seu diálogo aqui anotado - o sistema partidário padece do pecado original que consistiu na importação de modelos externos em vez de emergir da realidade social do país. Isto mesmo pode ser confirmado hoje em dia pelas frequentes alusões à necessidade de mudar os portugueses; não apenas em termos culturais, mas também, literalmente.

   Os comentários de protagonistas e comentadores, com destaque para o Presidente da República, revelam que esta manifestação foi vista pela generalidade da comunidade política como uma espécie de plebiscito ao regime. Precipitadamente, concluíram que a fraca adesão significa que a grande maioria da população considera o regime apropriado e um baixo nível de insatisfação geral. No entanto, se tivermos em conta os sucessivos avisos - ameaças veladas de várias entidades - aos potenciais manifestantes, a dimensão do dispositivo policial convocado para o evento e as posteriores declarações de alívio, revela má consciência e medo. No fundo, sabem que a população tem razões de queixa.

   Aquele medo resulta da possibilidade de contaminação da decadência a que os partidos convencionais - do arco do poder - têm sido submetidos nas democracias ocidentais. Mas não só. Em pânico ficaram os partidos de protesto e respetivas centrais sindicais ao verem por mãos alheias uma prerrogativa - poder da rua - que julgavam exclusivamente sua - por direito revolucionário.

   A leitura a fazer, indesmentível, é que, os tradicionais partidos de protesto centram a sua ação, exclusivamente, na defesa dos interesses das corporações estatais induzindo o agravamento da carga fiscal à sociedade civil que, no fundo, abominam. Em consequência, os Coletes Amarelos são a manifestação deste abandono, duma lacuna que nasceu com a democracia e se tem alargado e aprofundado ao longo destes 44 anos, sem que se vislumbrem vestígios de regeneração (veja-se os recentes casos de sucessivas irregularidades cometidas, prepotentemente, pelos deputados e validados pela segunda figura do regime).

   Porém, apesar da fraca adesão, nada ficará como antes; os promotores da manifestação, tendo agido à margem dos partidos, tiveram a capacidade de organizar um evento de dimensão nacional, enquadrando-o adequadamente no domínio da segurança e prevenindo oportunismos extremistas.

  Nenhum governo deixará de ter em conta esta nova realidade na prossecução das suas políticas. Quanto aos partidos, necessariamente terão que rever o seu modelo de funcionamento sob pena de se tornarem irrelevantes e serem ultrapassados, como já aconteceu noutras paragens. Um tal cenário ocorrerá como consequência do extremismo economicista da União Europeia e da política de imigração em curso, decidida à revelia das populações, que ameaça a segurança destas e a sua própria cultura.

   A histórica solidariedade europeia para com os refugiados de guerra afro-asiáticos e o interesse na recuperação do défice demográfico europeu, estão contaminados por velhos e persistentes ressentimentos republicanos anticlericais internos e por estratégias, mais vastas, de combate ao capitalismo europeu por parte dos seus concorrentes além Atlântico e além dos Urais.

Peniche, 22 de Dezembro de 2018
António J. R. Barreto

O 25 de Abril Visto da História (notas, P15)

O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 
Estas eleições surgem-nos como o encerramento legal do processo que se iniciou a 25 de Abril. A 27 de Junho fica reconstruída a legalidade…..(JAS)

   A legitimidade da legalidade coloca-se quando os poderes dominantes controlam o poder legislativo distorcendo a soberania popular em benefício próprio. (AB)

…A candidatura de Otelo representa ainda um terceiro projeto, diferente dos outros dois. Diferente em relação ao de Eanes, na medida em que não assenta em mecanismos de tipo representativo, segundo o modelo ocidental; diferente em relação ao de Pato, na medida em que não parte do pressuposto da necessidade prévia de conquistar o Estado por cima, antes insiste na necessidade de organizar em baixo, à margem do Estado, sem os olhos postos, à partida, na conquista do seu aparelho. Por isso, o projeto dos GDUP’s (e só falo do projeto) é precisamente isso: um antipartido…….a unidade de forças que se tornou possível com a candidatura de Otelo pulverizar-se-ia de imediato: a UDP para um lado, o MES para outro e a FSP para outro ainda – e assim por diante. (JAS)

   O modelo ocidental, que acabou, felizmente, por vingar com a vitória do General Ramalho Eanes, parece estar hoje numa crise de identidade indutora dum clima de total insegurança na população. O modelo de Pato continua em perigosa marcha com a tomada do aparelho estatal pelo PCP. Quanto à “democracia popular” de Otelo, uma utopia que o lançaria na criminosa aventura das FP25, tem hoje continuidade no BE, perigosamente próximo do poder. Por tudo isto, em 2018, vai ganhando corpo o sentimento geral de que as “democracias ocidentais” podem deixar de o ser a breve trecho. (AB)

….A lógica partidária, como decorrente que é dum certo tipo de relações e da Civilização que sobre elas se construiu, cairá inevitavelmente no momento em que a civilização burguesa for posta em causa nas suas próprias estruturas. (JAS)
 Foto: Praia das Figueira da Foz.
Peniche, 22 de Dezembro de 2018
António J. R. Barreto

domingo, 9 de dezembro de 2018

O 25 de Abril visto da História (notas, P14)


 O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 
 
…O primeiro dirigente político português a sugerir - indiretamente embora – a fórmula da “maioria de esquerda”, não foi Álvaro Cunhal, foi Mário Soares numa mesa-redonda na TV, depois de conhecidos os resultados das eleições de Abril de 1975. Demarcando-se com nitidez do PPD - que, no entanto, ultrapassa largamente o Partido Comunista em termos eleitorais -, Mário Soares preferiu colocar a tónica no peso maioritário da esquerda (facto que, aliás, se viria a refletir no conteúdo do texto constitucional, elaborado essencialmente com base na conjugação PS-PSD na Assembleia) …(VJS)
 

    Velhas cumplicidades dos tempos de Argel e da Frente Patriótica de Libertação Nacional. O resultado traduziu-se no PREC, na destruição do tecido económico e do capital, de que o país ainda padece. António Costa, “acossado” pela inesperada derrota eleitoral em 2015, recuperou este modelo reeditando o PREC em versão atualizada, optando pela satisfação das suas clientelas graças à inversão do ciclo económico e ao agravamento do endividamento e da carga fiscal, em vez de preparar o país para a inevitável crise futura. (AB)

….A posição de Melo Antunes a respeito do PCP, na sequência do 25 de Novembro, terá muito pouco - ou rigorosamente nada - que ver com a posição de Eanes sobre o mesmo assunto. Para Melo Antunes importava “recuperar” o PCP depois de lhe ter sido provada, em definitivo, a impossibilidade de levar por diante a sua tática golpista. Para Eanes - como para outros elementos militares - o que interessava era a marginalização do PCP….(VJS)

   Melo Antunes, comunista desde a juventude e principal mentor ideológico da insurreição de Abril e da desastrosa descolonização, detendo, à época, preponderância política, junto do “Grupo dos nove”, tratou de “salvar a pele” aos instigadores dos insurretos de Novembro - parte deles integrando atualmente o Bloco de Esquerda, nomeadamente a UDP nova designação dos dissidentes de 1964 do PCP, constituindo então a FAR, defensora da intervenção armada, a que aquele partido se opôs, e que em 75 concretizaram saindo derrotados - opondo-se à sua ilegalização. Quanto a Eanes, sendo, segundo VJS, pela marginalização do PCP - mas considerado por muitos como simpatizante deste partido, motivo do apoio do PSD ao General Soares Carneiro para as presidenciais em detrimento de Eanes a quem tinham apoiado anteriormente -, terá acabado por anuir à sua integração, eventualmente cedendo à tendência maioritária do Grupo dos nove.

…promulgada a nova constituição (elaborada num período em que a relação de forças ao nível do Poder pende claramente para o lado da esquerda, o que teria naturalmente reflexos no texto constitucional) passa a dar-se o contrário: o cumprimento da lei passa a ser uma reivindicação da esquerda (Vê-se o próprio deputado da UDP a exigir o cumprimento da lei…). …..Eanes, aparecendo como o homem (incorruptível) que faz cumprir a lei, torna-se naturalmente um aliado possível da esquerda (e em particular do PS, o partido mais responsável pela feitura da constituição)… (JAS)

   Talvez seja esta a razão de alguns atribuírem a Ramalho Eanes excessiva simpatia pela esquerda; PS e PCP. (AB)

….Para Eanes não existem classes com interesses distintos nem contradições no corpo social: existem, sim, a Nação, o País, a Salvação ou a Reconstrução Nacional.

    Por isso continua a ser respeitado pela generalidade dos portugueses e considerado o melhor Presidente da III República. A lealdade, a probidade e o espírito de missão são características irreconhecíveis no atual panorama político. O oportunismo, o nepotismo, a demagogia, a mentira descarada, fazem parte do dia-a-dia; uma espécie de novo tribalismo caracteriza o comportamento dos diretórios partidários, seus militantes e correligionários. O debate leal de ideias é a utopia das democracias. Estas transformaram-se numa caricatura de si próprias. Sem o “tempero” cultural adequado não há democracia. E esse “tempero”, para mim, são os valores cristãos, que, desde a Revolução francesa de 1789 têm vindo a ser substituídos, na Europa - em Portugal, a partir de 1934 -, pela doutrina maçónica. (AB)
Foto: Porto Novo

Peniche 10 de Dezembro de 2018
António J. R. Barreto

Aquecimento Global; a nova arma socialista

 Al Gore, baseado nos trabalhos de Michael Mann, Raymond Bradley e Malcom Hughes, realizados em 1999, na universidade de Columbia - de que resultou o famoso gráfico designado por hockey stick - assume tacitamente uma relação linear entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na verdade esta relação é logarítmica - com efeito marginal decrescente; o efeito térmico de um certo diferencial é menor que o efeito do mesmo diferencial que o precedeu. Por outro lado, as suas projeções da evolução da concentração de CO2 - 620 ppm em 2050 -, estão muito longe de vir a verificar-se.

Desde 1977 que os teores de CO2 têm vindo a aumentar à razão de 1,5 ppm/ano, ou seja; se a média dos últimos 30 anos se mantiver, por 2050, a concentração de CO2 será de 446 ppm, tendo sido , em 1987, de de 348 ppm, muito longe do que preconiza Al Gore. O hockey stick, de Mann, que serviu de base às recomendações do IPCC, foi elaborado com base num modelo matemático que Stephen McIntyre e Ross McKitrick, num trabalho publicado em 2003 na revista Energy and Environment, e, em 2005, na Geophysical Research Letters, demonstraram estar errado e ainda, que o ano mais quente do século XX terá sido o de 1934 e não o de 1978 como se pensava então. Gore, a partir de análises próxy aos 650 mil anos antecedentes da era pré-industrial, afirma que as concentrações de CO2 foram sempre inferiores às atuais - cerca de 380 ppm -, mas, segundo as análises próxy de Wagner at al - à densidade dos póros das folhas de bétula na Holanda -, estimou-se que, por exemplo, no período do Holoceno, durante séculos, as concentrações de CO2 ultrapassaram os 300 ppm, chegando a atingir os 348 ppm - idêntica à concentração medida em 1987. Noutros períodos mais recentes, ter-se-ão registado valores do mesmo tipo.

Por outro lado, Gore, baseado no mesmo gráfico, procura induzir a ideia da relação de causalidade entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na realidade sucedeu o contrário; as variações de temperatura global precederam, de centenas de milhares de anos, as variações dos teores do CO2 segundo trabalhos de H.Fisher, M.Wahlen, J. Smith, D. Mastroianni e B. Deck; quando muito, as variações de CO2 tiveram um efeito amplificador nas variações térmicas em curso. O aumento do teor do CO2 referido deve-se ao aquecimento dos oceanos ao libertarem parte do CO2 dissolvido para a atmosfera. Em suma; o teor de CO2 tem aumentado à razão de 1 ppm/ano e tem um efeito marginal no aquecimento global - por exemplo; o aumento do teor de CO2 de 100 ppm provoca um efeito de aquecimento da ordem dos 2 W/m2; no passado pré-industrial verificaram-se teores de CO2 próximos dos atuais e temperaturas globais mais altas que as atuais.

A evolução térmica média entre 1977 e 2006 foi de 0,17 ºC/década, sendo que, nos ultimos 20 anos, não se tem verificado variação assinalável - na verdade tem-se verificado ligeiro declínio, conforme medição por satélite - iniciada em 1978. O IPCC tem, ostensivamente, ignorado os trabalhos científicos contrários às teses de Mann e consta que proibiu a análise de trabalhos publicados a partir de 2005. A minha convicção, fundamentada nas análises de; John Casey, Luis Carlos Molion, Rui Moura, Jorge Oliveira, Bjorn Lomborg, Marlo Lewis Jr, Stephen McIntyre, e outros, é que a teoria do Aquecimento Global é uma fraude, cuja finalidade é eminentemente política e multifacetada. Esgotadas as teses marxistas, os seus defensores, abraçaram a causa do ambiente como instrumento de combate ao capitalismo, em particular, o americano.

Por outro lado, é uma nova forma de colonialismo na medida em que condiciona o desenvolvimento dos países pobres deixando-os dependentes dos países tecnológicos, em especial, os do norte da Europa. Finalmente, a consequente pressão para a redução de produção de recursos alimentares e outros bens - pescas, agricultura e processados -, quanto a mim, tem como finalidade, forçar pela fome a regressão demográfica, cuja prodigiosa expansão no século XX se deveu à Revolução Industrial e ao Capitalismo, ao proporcionar o aumento da produção alimentar em 8 vezes contra o aumento de 6 vezes da população mundial - de cerca de 1 bilião no início do século e para 6 biliões do final. Finalmente; o Acordo de Paris preconiza medidas para a limitação do aumento térmico a 1,5 ºC em 2050. Este processo está em marcha em Portugal e está a dizimar a nossa produção agroalimentar que, nos próximos anos, ficará reduzida à marginalidade. Uma nota final; exerço uma atividade relacionada com este tema. Consultei; "A Ficção Científica de Al Gore" de Marlo Lewis Jr e "Calma" de Bjorn Lomborg.
 
Peniche, 09 de Dezembro de 2018
António J.R..Barreto