Desporto

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Portugal e o Futuro IV (António de Spínola, Arcádia)


Assim, o “germanófilo”, “reacionário” e “ditador” António de Spínola, arquitetou um projeto político assente em três princípios:

- O do reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação (princípio consensual saído da conferência de Yalta, realizada entre as potências aliadas no final da II Guerra Mundial), cuja consequência se traduziria na autonomia progressiva de cada parcela, com crescente participação de instituições africanas.

- A adoção do primado da consulta popular, materializando o conceito segundo o qual a Nação é a sede da soberania. O pretexto da impreparação da população enquanto fundamento para a denegação do referendo, justificaria, por si só, a dispensa das comunidades dos deveres de cidadania como consequência da supressão do exercício dos seus direitos fundamentais. Tão só, o pretexto de uma expetativa desfavorável constitui argumento para a recusa do referendo, pois é no respeito pela vontade dos povos que se acolhem sob a bandeira das quinas que teria de residir a força da “nossa” razão, no fundo, a legitimação do poder.

- Finalmente, o processo teria de ser acompanhado de ampla difusão pública, condição indispensável para a unidade interna e a compreensão e adesão externa.

   O principal risco desta solução inviabilizaria a adesão ou mesmo de associação à Comunidade Económica Europeia. Porém, os acordos comerciais, em princípio possíveis, atenuariam esse impacto. Por outro lado, salvaguardando-se a integração económica do espaço português, abriam-se as perspetivas dos mercados africano e sul-americano.

   (Hoje, 33 anos após a adesão à CEE/EU, concitando todos os fatores, soberania e progresso económico, permanece a dúvida quanto aos reais benefícios, para os portugueses, da opção seguida, sobretudo no capítulo da perda de soberania e da insanável dependência económica. As economias locais têm vindo a ser desmanteladas, os territórios do interior abandonados, a modernização da economia fracassou, a divergência económica e social acentua-se face aos parceiros europeus e o endividamento galopante deixou Portugal vulnerável ao designado neocolonialismo praticado pelos críticos ativos do colonialismo clássico).

   António de Spínola tinha ideias estruturadas quanto à geopolítica internacional e quanto à posição de Portugal no mundo; tinha o sentido da portugalidade e uma ideia muito precisa de organização sociopolítica em torno do que designou como República Federal de Portugal.

   Defendia, convictamente, que o futuro de Portugal só seria viável num contexto de pluralidade numa comunidade capaz de manter coesas as parcelas do todo português, à margem de estatutos políticos.

   Propunha pois a reformulação do ideário nacional, transformando-o numa ideologia unificadora pela transparência e pela aplicabilidade dos princípios proclamados. A uniformidade normativa imposta pela Lei fundamental em vigor à época, não respondia à diversidade social e económica das populações de todos os territórios, constituindo, por si só, fonte de tensões revolucionárias independentistas. Assim, só uma constituição federativa de estilo próprio poderia corresponder ao princípio unificador, contemplando o princípio da especialidade das leis, que permitiria a cada parcela adaptá-las à sua realidade, à luz de um lato sentido de solidariedade. O “Estado Plurinacional”, característica real do Estado Português, seria sustentado pela adesão plena das suas “nações-membros”. Seria, sim, o fim da unidade imperial mas não da unidade nacional. A excecional capacidade miscigenadora do povo português seria o seu suporte. E a consciência da época já não aceitava impérios.

   A eficácia da integração económica do todo português requeria complementaridade de economias especializadas, estabilidade monetária territorial e interterritorial, equilíbrio das balanças de pagamentos e crescimento conjunto sem alteração sensível da estrutura de comércio. A equidade deste processo exigia um programa de transferências dos Estados mais desenvolvidos para os mais atrasados, evitando-se a assimetria do crescimento económico das partes.
Peniche, 26 de Julho de 2019
António Barreto*

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Portugal e o Futuro III (António de Spínola, Arcádia)

  
Considerando inviável a vitória militar na guerra colonial, Spínola via na negociação política a solução inevitável para a paz. Às Forças Armadas competiria garantir as condições para a sua efetivação num prazo condicionado pelos recursos disponíveis do país. Mesmo com o apoio das populações locais - considerava ser esse, em geral, o caso -, a natureza da guerra de guerrilha, o crescente apoio externo de que dispunham as respetivas forças e o envelhecimento dos quadros das forças lusas, impossibilitava a vitória militar. Por outro lado, os crescentes encargos com o esforço de guerra aumentavam o risco de rotura económica e social da metrópole a curto-médio prazo. (Na verdade, em Angola, os episódios de guerra eram, à época, residuais, em Moçambique, restringia-se ao nordeste e na Guiné nalgumas zonas de fronteira).

   Neste quadro, defendia a procura de uma solução unificadora onde cada parte - Metrópole, Estados e Províncias Ultramarinas -, pudesse dar o seu contributo na definição das normas de relacionamento entre si e com o exterior. (a ideia de federalismo começa a ganhar forma).

   Defendendo a necessidade de acautelar os legítimos interesses dos europeus radicados no ultramar, considerava necessário evitar a tendência de resvalamento para uma revolução branca à semelhança da que se verificara na Rodésia e que havia fracassado no Katanga. (Consta que era este o objetivo de Marcello Caetano; a independência das colónias sob tutela dos europeus lá radicados)

   Quanto à população africana, com prolongamentos étnicos além das fronteiras e conflitos bélicos entre si, mantinha-se do nosso lado por ainda sermos, localmente, os mais fortes, por lhes proporcionarmos benefícios sociais e económicos superiores aos praticados além-fronteiras e por acreditarem numa autonomia no contexto de uma comunidade portuguesa. Suprimidos estes, a separação pela via revolucionária seria inevitável.

   Também para Spínola “a Pátria defende-se, não se discute”, mas entende competir aos cidadãos e não a quaisquer elites, a definição dos ideais nacionais e os interesses morais que a enformam e impulsionam. Para tal, todos são igualmente aptos, em especial os que por ela arriscam a vida, ainda que iletrados. A Pátria palpita no coração do Povo, o Povo que, nos matos de África, labutava, combatia e morria.

   Entre as opções possíveis para Portugal, António de Spínola rejeitava o abandono puro e simples do ultramar; por pôr em causa a independência do país, por lealdade a quantos, no ultramar, construíram as suas vidas e por falta de motivo para tal, apenas para benefício de amigos e inimigos.

   Excluída a possibilidade de vitória militar, o retardamento da autonomia progressiva num contexto de unidade nacional aceleraria a desagregação pela via revolucionária, tornando inútil o sacrifício dos que morreram pela perenidade da Nação.

   A sociedade multirracial não fazia sentido num contexto de mera convivência entre pobres e ricos, entre governantes e governados, entre poderosos e obedientes. A possibilidade de acesso de cada cidadão de qualquer raça aos lugares de mando político-administrativo, para Spínola, era condição primordial para o sucesso da sociedade com que Salazar sonhara.

   Finalmente, António de Spínola defendia a construção de uma vasta Comunidade Lusíada alicerçada na autonomia progressiva de todas as parcelas; uma comunidade de espírito novo, sujeita a inevitáveis vicissitudes, onde o Brasil assumiria lugar de destaque e na qual os laços morais, indesmentíveis, prevaleceriam sobre os estatutos políticos graças ao empenho de todos os bons portugueses. A proclamada Nação “una e indivisível” estava condenada ao fracasso na medida em que, na prática, era “una e indivisível” sob a hegemonia de uma parte. (Os cinco anos de governo da Guiné em que praticou uma governação de proximidade de matriz paternalista, afeiçoou-o às comunidades locais e aos seus usos e costumes).
Peniche, 19 de Julho de 2019
António Barreto*

domingo, 14 de julho de 2019

Portugal e o Futuro, II (António de Spínola, Arcádia)



  
Para Spínola, a consistência das nações assenta na adesão livre e de plena consciência de cada indivíduo. Reconhecia a dependência económica de Portugal relativamente à Europa e o anacronismo do monolitismo político vigente no país - que favorecia os defensores dos “ventos da história”. Considerava como funções primordiais do Estado a prosperidade dos seus membros e a sua própria sobrevivência. No caso de Portugal, cuja dependência (da CEE em 1986, UE depois de 1992), poderá conduzir ao seu desaparecimento efetivo, ainda que possa manter uma aparente independência. Por outro lado, a descapitalização continuada de uma sociedade em favor de uma maioria, acabará por conduzi-la, inevitavelmente, ao seu deperecimento, pelas vias revolucionária ou da lenta decomposição.

   Curiosa é a conceção de organização socioeconómica do velho general; entre o liberalismo, onde o equilíbrio social é alcançado através das leis naturais e onde cada um recebe as contrapartidas conforme o seu contributo, e o socialismo ortodoxo onde cada um recebe conforme as suas necessidades independentemente da respetiva prestação. António de Spínola propunha um meio-termo, em que cada um tenha garantido o suficiente para suprir as suas necessidades mínimas e, a partir desse limiar, a retribuição seria em conformidade com o contributo de cada um. A criação de excedentes garantiria o sistema e a harmonia social.

   Baseando-se no IV Plano de Fomento e no Acordo de Bruxelas, numa perspetiva otimista das taxas de crescimento económico, Spínola considerava que seriam necessário 30 anos para Portugal recuperar do atraso relativamente aos países menos desenvolvidos do Mercado Comum. Para reduzir esse prazo a 10 anos considerava necessária a duplicação das taxas de crescimento, o que implicaria um aumento das taxas de crescimento anual das despesas de investimento global em 50 % até cerca de 40 % da despesa nacional. Esta seria uma prioridade do tipo “razão de Estado.

   Quanto à prosperidade que se verificava em Portugal na ocasião - 1974 -, Spínola atribuía-a às remessas dos emigrantes, ao turismo, à despesa pública e às transferências internas. Considerava as duas primeiras causas em inevitável declínio e que o crescimento da despesa pública através de salários, pensões e subsídios, ainda que justos, punha em causa a poupança e o investimento, comprometendo o crescimento futuro. Os elevados encargos com a defesa, a manterem-se, acabariam, paradoxalmente, por pôr em causa a sobrevivência nacional.

   Entre a concessão em cadeia, conducente à rotura económica e à repressão, geradora de violência, Spínola propunha, apesar dos inconvenientes, o liberalismo progressivo sob um regime autoritário legitimado pelo escrutínio popular.

   Quanto à economia nacional, considerava que carecia de rápida diversificação e complementaridade no prazo de vigência do acordo celebrado com o Mercado Comum, e que, os empresários nacionais, apesar dos condicionalismos, tinham aproveitado bem as vantagens da adesão de Portugal à EFTA e, por isso, eram injustas as críticas que lhes eram feitas. A guerra, a pressão social interna e a regressão demográfica - devido à crescente emigração da população ativa - desfavoreciam a reconversão económica de que o país carecia.
Peniche, 14 de Julho de 2019
António Barreto*

sábado, 13 de julho de 2019

Portugal e o Futuro, I (António de Spínola, Arcádia)



Para o grande público, António de Spínola ficou conhecido como bravo Cabo de Guerra, pelo desempenho do cargo de Governador da Guiné entre 1968 e 1973, e como político incipiente, ingénuo, semipatético e reacionário, pela sua participação na Revolução de Abril, em que, no decurso do PREC, a sua estratégia acabaria sucessivamente derrotada pela fação de esquerda que então predominava no MFA.

     Regressado da Guiné em 1973, convencido da inviabilidade duma vitória militar, tenta, em vão, convencer o Presidente do Concelho, Marcello Caetano, a encetar a via da negociação - que ele próprio mantinha, com quadros do PAIGC, com elites locais e com o Presidente do Senegal, Leopold Senghor. Spínola escapara, por mero acaso, em 20 de Abril de 1970, ao “Massacre do Chão Manjaco” onde foram abatidos e esquartejados pelos guerrilheiros do PAIGC, três majores, um alferes e três guias do exército Português, no âmbito das negociações para o cessar-fogo na região norte, que vinha sendo mantida. Gorada a tentativa, acaba demitido na sequência da publicação de Portugal e o Futuro onde dá conta pública da sua perspectiva de solução para Portugal e o seu Império.

   A evolução da guerra na Guiné favorecia o inimigo graças, sobretudo, ao aumento da intensificação do apoio de Cuba, em homens, e da URSS, em armas - mísseis terra-ar e aviões MIG (2). As forças nacionais deixavam de contar com o precioso apoio aéreo e, sem ele, a eficácia operacional ficara seriamente diminuída. O espetro da derrota pairava no horizonte, abrindo a velha ferida da humilhação da invasão da Índia portuguesa, estigma indelével das Forças Armadas lusas.

   A operação Mar Verde, derradeira tentativa de neutralização do PAIGC - planeada e conduzida pelo célebre fuzileiro Alpoim Galvão - apesar do sucesso operacional, fracassara nos seus objetivos essenciais; a detenção ou eliminação de Amílcar Cabral, a eliminação de Sekou Touré, o derrube do regime socialista da Guiné-Conacri e a destruição dos dois aviões MIG oferecidos pela URSS. Destruíram-se as instalações da Frelimo, soltaram-se os prisioneiros portugueses - 23, entre os quais o célebre sargento aviador António Lobato e um desertor -, e afundaram-se todas as modernas lanchas de combate do inimigo. As informações recolhidas pelos agentes da PIDE revelaram-se inexatas, razão dos fracassos. Por essa ocasião, o aparelho de Estado Português, administrativo e militar, já estava fortemente infiltrado por “democratas”, graças à “Primavera Marcelista”.

   Habituado à férrea disciplina militar e à deferência geral, António de Spínola acreditou, ingenuamente, na lealdade dos militares de Abril - alguns dos quais, como Otelo e Carlos Fabião, serviram sob suas ordens na Guiné. Acordou demasiado tarde para a realidade. Quando reagiu tinha perdido o controlo do processo; Vasco Gonçalves, Otelo e Costa Gomes, tinham outros planos, serviram-se do seu prestígio junto da população e livraram-se dele quando se tornou inconveniente, colando-lhe a chancela de ditador e reacionário.

   Uma injustiça; este “Portugal e o Futuro”, que acabei de reler, demonstra-o. António de Spínola, também rotulado de germanófilo, preconizava a autodeterminação dos povos e a democracia parlamentar representativa assente no sufrágio direto e universal, um homem um voto. Opunha-se às ditaduras; de direita, mas também de esquerda. O seu projeto, talvez algo ingénuo, de construção do Estado Federal de Portugal, em que as províncias ultramarinas e Portugal metropolitano constituíam, em paridade, a nova federação, visava a ascensão política social e económica dos portugueses africanos, sem exclusões, e a preservação do que designou por “portugalidade”, na convicção sincera da adesão voluntária dos portugueses africanos. Um Portugal pluricontinental e multirracional alicerçado na adesão das populações livremente expressa por voto secreto e universal em plena paridade de Estados.
Peniche, 13 de Julho de 2019
António Barreto*

terça-feira, 25 de junho de 2019

Traições; antes e depois de Abril


   "No decurso da atividade da Comissão, tenho como muito impressivas as situações que decorriam do facto de alguns indivíduos presos pela polícia política, por integrarem forças da oposição à ditadura, terem passado a seus colaboradores. De facto, alguns elementos de grupos organizados como o PC ou outras forças, a determinada altura mediante coacção ou aliciamento passarem a colaborar com a PIDE. Esta é uma das razões essenciais que levam o PC a tentar controlar desde o primeiro dia a Comissão de Extinção, procurando prioritariamente identificar aqueles elementos que tinham traído o partido, mas também ocultar, de alguma forma, denúncias produzidas pelos seus militantes, presos ou não, algumas das quais no quadro de uma estratégia de luta partidária clandestina.
   Há casos em que se verifica um ciclo de "violência" continuada, porque há indivíduos que, sendo presos, são na prisão aliciados, passando de prisioneiros a colaboradores da polícia política, para logo após a Revolução se acharem de novo presos como informadores. Depois há as situações que estão ligadas ao tratamento prisional dos próprios agentes da PIDE. E aí houve exageros de toda a ordem."
 
Transcrito de: Capitão de Abril, Capitão de Novembro por; Coronel Sousa e Castro

Peniche, 25 de Junho de 2019
António Barreto*

sábado, 25 de maio de 2019

Benfica, um caso político (conclusão)


Benfica, um caso político

Capítulo 7 (conclusão) 

   Somos diferentes, ouço dizer por aí aos adeptos do Benfica. E não gosto. Não gosto, antes de mais, porque parece significar que nós somos os bons e os outros os maus. E não é verdade; há maus entre nós e bons dos outros lados. Mas compreendo que se pretende aludir a limites comportamentais que nos recusamos a ultrapassar por ser essa a cultura do nosso clube. É certo que - pelo menos para mim -, o Benfica é sinónimo de arte, excelência, coragem e respeito pelos outros, valores que devem nortear o mundo benfiquista no dia-a-dia.

   Mas é verdade que “somos diferentes” no sentido da militância; por exemplo, do arrumador de carros ao magistrado, passando pelo agente das forças de segurança, pelo professor universitário, pelo político, pelo escritor, enfim, pelo profissional anónimo, os adeptos do Porto defendem, incondicionalmente, sistematicamente, o seu clube, cada um há sua maneira.

   Nós somos diferentes de duas formas; em geral temos um grau de militância comparativamente baixo, por outro lado concentramo-nos quase exclusivamente na crítica interna. A nossa militância raramente vai além da refilice, do desabafo, do impropério; fazemos barulho inconsequentemente, apesar dalgumas iniciativas individuais mais afoitas nunca efetuámos uma ação coletiva em defesa do nosso Benfica e, ou, dos seus Dirigentes.

   O nosso Estádio foi alvo de sucessivas interdições - cinco ou sete? - ainda pendentes nos  processos judiciais em curso e  consta que o Ministério Público pede a suspensão do clube das competições desportivas entre 6 meses a 3 anos. Isto demonstra que os inimigos do Benfica tudo têm feito para o destruir e têm sido secundados institucionalmente. Devem ser levados a sério, pois as instituições em causa têm poder para o efeito.

   Confiamos nelas e aguardamos, de braços cruzados, o desfecho dos processos, esperando que tais absurdos não cheguem a concretizar-se por ocorrência dum acesso de bom senso em qualquer estádio do processo. Não estou certo disso. 

   Não posso deixar de recordar que foi um juiz, ao que constou, dragão de ouro, que condenou Vale e Azevedo ao cúmulo jurídico de 17,5 anos de prisão - diz-se por aí que tem mais 10 anos para cumprir! Um sério aviso à “nação benfiquista” do poder do longo braço do rival do norte. Uma afirmação de poder institucional. Recentemente, o assassino de um jovem adepto benfiquista foi, condenado a 12 anos de prisão “por ofensas à integridade física agravadas por morte da vítima”! Em seis anos, ou menos, estará em liberdade condicional!

    A Vale e Azevedo, perseguido como um animal raivoso, foi negado, desumanamente, esta prerrogativa geral, tendo cumprido toda a pena até ao último minuto! Donde vem tanta raiva? Se a filosofia penal moderna radica na reabilitação social do condenado, no caso do malogrado ex-Presidente do Benfica, a motivação é a vingança, o castigo, o desejo de fazer sofrer. É, acima de tudo, o Benfica que se pretende atingir. Estou contra e acuso os fautores desta barbaridade.

   Aldrabões muito piores, hoje mesmo, andam por aí a rir-se na cara dos portugueses na sequência de falcatruas avultadíssimas, penalizadoras de todos os cidadãos honrados! Alguns até foram agraciados com as mais altas condecorações da República! Que país este!

   A não interdição dos estádios de Alvalade e do Dragão revela discricionariedade por parte da FPF, intenção de fazer mal ao Benfica - só os prejuízos de bilheteira situar-se-iam entre os 1,5 a 3,5 milhões de euros, acrescidos dos cerca de 500 mil euros de multas anuais; idênticos atos dos rivais foram “agraciados” com penas de multa marginais, ridículas.

   Enquanto isso os adeptos encarnados são implacavelmente esmifrados para ver o seu clube jogar, com a cumplicidade da LPFP, e, muitas vezes, impedidos de usar símbolos do clube e até de o apoiar de forma mais exuberante, como sucedeu recentemente em Braga! E ninguém se escandaliza! Andam a gozar connosco.

   Não tenho a menor dúvida de que, tivessem sido os rivais penalizados de igual forma, assistiríamos a vigílias à porta da FPF (Federação Portuguesa de Futebol e da LPFP (Liga Portuguesa de Futebol Profissional), manifestações, declarações públicas inflamadas de vários quadrantes na defesa das “vítimas”, e sabe-se lá que mais.

   Nós aguardamos pacientemente que o sistema funcione apesar de sabermos que, ele, “o sistema” é contra o Benfica. Temos gente qualificada entre nós, podemos, por exemplo, fazer um abaixo-assinado e, ou, uma petição para apresentar na FPF, na LPFP, até na Assembleia da República, denunciando as arbitrariedes praticadas sistematicamente, contra o clube do qual somos sócios, exigindo a demissão dos responsáveis implicados, fazer comunicados à imprensa, fazer manifestações pacíficas às portas da FPF e LPFP, etc.. Podíamos constituir um movimento cívico de apoio ao Sport Lisboa e Benfica. A nossa passividade é a força motriz dos inimigos do nosso clube.

   Privilegiamos a crítica interna, muitas vezes irrefletidamente. Responsabilizamos os Dirigentes, em particular o Presidente, por tudo o que é negativo e exigimos-lhes, insensatamente, resposta a todas os casos, a superação de todas as adversidades, esquecendo, muitas vezes, que o seu êxito depende da qualidade do nosso apoio.

   É certo que a crítica interna é, antes de mais, um recurso que um bom gestor não deve dispensar, apesar do inevitável desconforto que provoca. É dessa turbulência de ideias, mesmo as mais disparatadas, que surgem combinações donde brotam princípios de bons projetos. Aliás é este o princípio da criação de sinergias, base da gestão moderna, que permite a ultrapassagem da decadência inerente aos ciclos naturais das instituições sujeitas à gestão tradicional.

   Crítica interna sim, com ideias estruturadas ou amalucadas, sem dúvida, recusa do messianismo, sim, exigência máxima, sim, mas sem prejuízo do apoio institucional e da defesa externa do clube. Muitos de nós exercemos a crítica interna como forma de fuga ao desconforto do confronto externo perante os detratores do nosso clube, havendo até casos, paradoxais, em que se chega ao ponto de elogiar sociopatas que fazem da disseminação do ódio ao Benfica o seu projeto de vida. A dissidência interna não deve implicar ausência de solidariedade e, muito menos, implícita ou explicitamente, alinhar no jogo dos inimigos do Benfica.

  Por mim, não tenho dúvidas; rejeitando o messianismo, sem prejuízo do dever de dissidência, solidarizo-me com os órgãos do clube na defesa externa este. E, no âmbito político não perdoo; penalizarei nas urnas do voto os que prejudicam ou permitem que outros prejudiquem o meu clube. Sei que não passo dum grão de areia, mas, como diz o poeta, também sei que: “l’areña es un puñadito…pero hay montañas de arenã!

   Peniche 12 de Maio de 2019
   António Barreto

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Benfica, um caso político (Capítulo 6)


Benfica, um caso político
Capítulo 6 

   Aos clubes está legalmente vedado o exercício de atividade política. Mas não aos seus adeptos. Contudo, aqueles têm o direito de cotejar as várias propostas de âmbito nacional na área do desporto com os seus próprios projetos e de, pelos meios legais, influenciar os promotores daqueles, mantendo informados os seus associados. 

   Quanto aos adeptos, podem e devem integrar a área desportiva no seu exercício de cidadania, de forma a perceberem quais as propostas que melhor garantem os direitos consignados constitucionalmente a todos os cidadãos, aplicados ao desporto. Há, entre a classe política, uma espécie de nojo do mundo do futebol - exceto quando se trata de grandes celebrações -, atitude que, à mistura com uma certa promiscuidade de bastidores, tem contribuído para a degradação do desporto em Portugal, para o exacerbamento das rivalidades e para a emergência da violência.

   A classe política desistiu do futebol por considerar os adeptos uma espécie de subcidadãos indignos do seu empenho. Na verdade, quer a prática do desporto quer a fruição do espetáculo desportivo, fazem parte da vida, física e socialmente saudável, do ser humano e, por isso, constituem um direito fundamental do Homem vinculativo da ação das forças políticas. Algo vai mal numa democracia quando se ouve um político de relevo - no caso, Rui Rio - aconselhar publicamente os seus congéneres a “não se meteram com o futebol”! Como se este fosse habitado por leprosos. São episódios destes que definem a qualidade de um regime político e ajudam a perceber as causas do estado caótico do desporto em Portugal.

Peniche, 12 de Maio de 2019

António Barreto

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Benfica, um caso político (Capítulo 5)


Benfica, um caso político

Capítulo 5

   É este contexto que legitima a suspeita de concertação, ou aliança implícita, entre os Dirigentes do Porto (Futebol Clube do Porto) e alguns dos partidos defensores da regionalização. Suspeita essa que sai reforçada com a frequente adesão, dissimulada, de alguns políticos, às causas daquele clube. E são figuras do Partido Socialista que, neste particular, mais se têm destacado.

   Pois não constou, nos idos de 82, que foi António Guterres a dissuadir Pinto da Costa de abandonar o futebol? Sendo verdade, não é lícito admitir que, nessa altura, se terá estabelecido uma aliança de bastidores entre eles, que tem perdurado até aos dias de hoje?

   Não foi José Sócrates, ainda Secretário de Estado do Governo de António Guterres, que, publicamente, afirmando-se benfiquista, declarou-se disponível para fechar o clube, quando este atravessava a maior crise da sua história?

   Não foi Ana Gomes, deputada no Parlamento Europeu, que, há uns anos - talvez três - alertou a opinião pública para a necessidade de investigar o que se passava com um “raio” de um jogador sul-americano desconhecido, associando-o ao Benfica em qualquer transação alegadamente espúria?

   Não foi Helena Roseta que, no consulado de António Costa, levantou o facho da revolta, no caso dos benefícios fiscais da CML (Câmara Municipal de Lisboa) atribuídos ao Sport Lisboa e Benfica em resultado da aplicação do protocolo estabelecido entre a autarquia e todos os clubes da cidade? Este museu era uma antiga aspiração dos benfiquistas, prometida por várias Direções do clube e nunca concretizada! Não é a história do Benfica relevante na história da cidade? Não é o museu importante na dinamização social e económica da de Lisboa? Não beneficiam os lisbonenses de toda uma vasta panóplia de atividades desportivas proporcionada pelo Sport Lisboa e Benfica, contrastando com a escassa oferta pública municipal neste domínio? Manifestou-se, aquela Vereadora, nalgum dos muitos casos polémicos de esbanjamento financeiro frequentemente noticiados pela comunicação social naquela autarquia? Não notei! E é por isso que concluí que se tratou de um ato demagógico e persecutório, cuja motivação foi de natureza partidária.

   Não é novamente Ana Gomes, ainda deputada no Parlamento Europeu, que está na berlinda por apoiar publicamente e exuberantemente na praça pública, um sujeito confesso adepto do Porto, preso à ordem do Tribunal por se ter apropriado ilicitamente de documentação confidencial de entidades ligadas ao desporto nacional e também da correspondência comercial e técnica do principal rival do seu clube, e cuja alegada motivação seria a de combater a corrupção no futebol? Não foi Ana Gomes que se apresentou na cadeia de lenço azul a entregar ao pirata informático um prémio que ela própria promoveu em Bruxelas pelas criminosas façanhas? Não foi Ana Gomes que disse nada perceber de futebol, justificando a sua falta de interesse nos episódios desportivos em curso indiciadores de corrupção desportiva efetiva? Não têm os Deputados Europeus meios, disponibilizados pelo seu Parlamento, para contratar especialistas que os ajudem nos seus trabalhos? Estará, efetivamente, Ana Gomes, interessada no combate à corrupção no futebol? Suspeito que a sua motivação seja de natureza político-partidária e consistirá numa estratégia de aproximação do seu Partido ao eleitorado portista e, por extensão, ao eleitorado portuense. Porém, é possível que esteja, também, empenhada numa ação de militância clubista. Da fama não se livra.

     Não é Fernando Gomes, militante histórico do Partido Socialista, ex-Presidente da CMP (Câmara Municipal do Porto), membro do Conselho de Administração da SAD do Porto? E não é razoável admitir que, neste cargo, tem a função de servir de elo de ligação entre esta SAD e o seu Partido?

   Finalmente, não há uma coincidência intrigante entre os ciclos políticos e os do futebol, em que, nos governos socialistas, geralmente, se verifica a ascensão desportiva do Porto? Há! E eu acho que não é coincidência.

Peniche, 10 de Maio de 2019
António Barreto

sábado, 18 de maio de 2019

Benfica, Um caso político (Capítulo 4)



Benfica, um caso político

Capítulo 4


   Há algo errado, sim. O Sport Lisboa e Benfica representa a materialização microcósmica do projeto político do Estado Novo; o da construção de uma nação pluricontinental e multirracial. O Benfica foi tudo isso, com a particularidade do enorme sucesso desportivo em que derramou pelos relvados do mundo a excelência da arte de jogar futebol suscitando o fascínio geral, até dos adversários. Disso beneficiou o regime enquanto fator de propaganda do Portugal imperial. Que saiba, o único benefício que o Benfica e os seus adeptos e associados tiveram do regime de Salazar foi o do impedimento da saída do Eusébio para Itália. Foi a visão e capacidade realizadora dos dirigentes do Benfica a partir dos anos cinquenta - década em que o Sporting Clube de Portugal dominou internamente com os seus famosos cinco violinos -, que catapultou o clube da Luz para o galarim do mundo nas décadas de sessenta e setenta.

   Com o derrube do antigo regime em 74 e a ascensão duma democracia minimalista, de matriz socialista, em 76, o Sport Lisboa e Benfica, é visto por alguns setores políticos, como uma estrutura identitária conservadora, geradora de resistências à difusão das novas ideias de reconstrução das estruturas sociais, à semelhança do mundo rural, do catolicismo ou da família. A nova matriz social - em marcha - implica o enfraquecimento dos elementos estruturantes da “velha ordem”. Neste contexto um Benfica forte não é bem-vindo. Pelo contrário, o seu enfraquecimento e a emergência do domínio desportivo dos rivais, pretensamente, evidenciará, no âmbito desportivo, a dinâmica do novo regime, pretensamente, rumo à prosperidade e à justiça social.

   Fator político mais prosaico está relacionado com o assunto; a regionalização, uma prescrição constitucional não realizada. É neste âmbito que o Futebol Clube do Porto exerce uma missão de natureza política porventura congeminada nos corredores do poder; a de definir geograficamente e socialmente a Região Norte, agregando os cidadãos da zona em torno do clube e trilhando o caminho do facto consumado, à “boa” maneira de Gene Sharp. Neste contexto, o Sport Lisboa e Benfica, com a força agregadora que o caracteriza, representa o centralismo que urge enfraquecer. Uma certa passividade das autoridades, forças de segurança e entidades administrativas e judiciais locais, perante sucessivos casos de perturbações de natureza social - ameaças, agressões e atos de vandalismo - por elementos ligados ao FCP, cria na opinião pública o sentimento de que, para aquelas bandas, a ordem pública tem natureza diferente da do resto do país.

Peniche, 10 de Maio de 2019
António Barreto

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Benfica, um caso político (Capítulo 3)


Benfica, um caso político

Capítulo 3

   A realidade histórica do Sport Lisboa e Benfica no Antigo Regime tem sido caracterizada por adeptos do futebol - historiadores do desporto, políticos e sociólogos -, como um raro exemplo de democraticidade; uma ilha democrática em plena ditadura. Um espaço aberto a todos, sem distinção de raça, credo, condição social ou ideologia. Uma organização de base popular, participada pelos seus associados, cuja estrutura social espelhava os cânones próprios das democracias.

   Alguns casos denotam o tipo de pessoas direta ou indiretamente vinculadas ao clube. Um dos mais notáveis pelo que representou na luta da pela emancipação feminina e pela universalidade do voto, é o da Dr.ª Beatriz Ângelo, natural do Fundão, médica, feminista, e mulher do 3º Presidente do Sport Lisboa, Dr. Januário Barreto; impôs ao Governo pela via judicial, o reconhecimento do seu direito de voto após enviuvar. Só aos chefes de família, homens, era reconhecido esse direito. Perante a recusa do Governo em reconhecer-lhe essa qualidade, avançou com uma ação judicial contra o Governo cuja sentença lhe foi favorável. E votou. Foi a primeira mulher a fazê-lo. De imediato o Governo republicano alterou a lei eleitoral para impedir o voto das mulheres.

   Outro caso é o de Ribeiro dos Reis, jogador de futebol do Benfica de 1913 a 1925, depois técnico e dirigente do mesmo clube, selecionador nacional jornalista e fundador do conhecido Jornal A Bola (juntamente com Cândido de Oliveira), um republicano que suscitou a desconfiança do Estado Novo pela isenção da reportagem que fez nos célebres jogos olímpicos de Berlim em 1939 (sinopse da sua biografia por Astregildo Silva), tendo-se constado que terá desempenhado ações de espionagem a favor dos aliados, durante a 2ª Guerra Mundial.

   Episódio interessante é o de António Borges Coutinho, irmão de Duarte Borges Coutinho - ex-Presidente do Benfica de 1969 a 1977 e 4º Marquês da Praia e de Monforte. António, advogado, adepto das ideias de António Sérgio e Agostinho da Silva, foi apoiante da candidatura de Humberto Delgado, conheceu o drama dos calabouços do Estado Novo - quando, em 1961, procurou alertar a opinião pública para as verdadeiras causas do sequestro do paquete Santa Maria. Nesta ocasião tornou-se membro da Oposição Democrática pelo Distrito de São Miguel, sua terra natal, juntamente com Melo Antunes - o suposto ideólogo do MFA. Não sendo marxista distinguiu-se como ativo seguidor do Partido Comunista, a partir de 1978 (wikipédia).

   Há ainda o caso de Santana, célebre jogador da equipa de sessenta; o Benfica tê-lo-á livrado dos vários “contratempos” com a PIDE devido à ligação que tinha com a Frelimo.

   Apesar de tudo isto, quando constatamos o crescendo de hostilidade que tem ocorrido, nas últimas décadas, no espaço público, relativamente ao Sport Lisboa e Benfica, percebemos que há algo errado. Descontando os excessos, compreende-se que, perante a ascensão competitiva do Benfica, os dirigentes e alguns adeptos dos seus principais rivais se empenhem na guerra mediática em benefício próprio. O que não se compreende é uma sistemática passividade das autoridades públicas perante os excessos; difamação e segregação desportiva e social de que têm sido alvo quer o Sport Lisboa e Benfica, quer os seus adeptos e apoiantes. As próprias forças de segurança e outras autoridades têm revelado posturas diferenciadas, com episódios de violência extrema ante adeptos do Benfica. Faz todo o sentido perguntarmo-nos o que pode haver de politicamente errado que possa justificar tal enviesamento institucional.

Peniche, 9 de Maio de 2019

António Barreto