Desporto

domingo, 23 de abril de 2023

O 25 de Abril e a Descolonização

 

O 25 de abril e a Descolonização


Quanto ao problema da descolonização assistiu-se, contrariamente ao prometido, a uma entrega sem condições, a uma corrida que não permitisse a salvaguarda de qualquer direito do residente e de Portugal nos territórios. Enquanto o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, general Costa Gomes, dava instruções às tropas em Moçambique para porem fim aos combates e confraternizarem com o inimigo, o major Melo Antunes incitava Samora Machel a atacar a fundo as mesmas tropas, já moralmente destroçadas pelas ordens recebidas, forçando-as à rendição incondicional, para assim poder exigir a independência incondicional a Lisboa. Porquê? Porque as fardas da traição sabiam que a Frelimo perderia um referendum. Era necessário como tal evitá-lo a todo o custo. O Povo português não viu os filmes, feitos por correspondentes da imprensa internacional em Moçambique, em que apareciam soldados portugueses, formados e sem calças, a entregarem as armas aos inimigos da véspera e, a seguir, ante o gáudio do populacho convocado, serem passeados pelas ruas das localidades, enquanto lhes arremessavam pedras, os insultavam e lhes cuspiam. Não viu o Povo os filmes, nem teve conhecimento das declarações de Samora Machel, em que este afirmava que a Frelimo vencera pelas armas as tropas portuguesas, como claramente o demonstravam os filmes e milhares de testemunhas. Samora Machel em diversas ocasiões tem manifestado claramente o desprezo que lhe merecem esses traidores. Entretanto, em Lisboa, Costa Gomes e o MFA declaravam ao Povo Português que tudo se estava a passar na melhor ordem e no melhor espírito de cooperação com os dirigentes da Frelimo. Os crimes, as desordens e enfrentamentos sangrentos de que o povo teve conhecimento, embora vago e deturpado, eram atribuídos à ação criminosa de alguns racistas e colonialistas que se opunham à justiça da descolonização.

Assim se abusou da boa-fé do povo.

Tanto o MFA como a nova classe política aplaudiram sem reservas esta maratona da Traição.”


Fernando Pacheco Amorim, em “Manifesto Contra a Traição”


Nas comemorações do 25 de Abril que se avizinham serão enaltecidos ou lamentados estes atos? Para uns, autores e comunistas, foram atos de heroísmo, para outros, onde me incluo, de traição! Aos povos da metrópole e do ultramar, pretos e brancos. Ninguém foi consultado sobre o destino das ex-colónias, como previa o Manifesto do MFA.



Peniche, 23 de Abril de 2023

António Barreto


sábado, 8 de abril de 2023

Um Campeão define-se no momento certo

 

Um campeão define-se no momento certo


O resultado do jogo de ontem, 1-2 para o Porto, foi justo. A equipa azul foi a melhor em quase todo o tempo de jogo. Ciente de que uma derrota a afastaria, em definitivo, do título, arriscou tudo. Receosa da qualidade ofensiva da equipa encarnada, retirou-lhe a iniciativa do jogo pressionando integralmente a sua defesa logo na área, começando pelo guarda-redes. Deste modo a equipa do Benfica não conseguia elaborar os seus movimentos ofensivos. No meio-campo, os jogadores azuis sempre se mostraram mais lestos e agressivos a atacar a bola, antecipando-se frequentemente. Estranhamente, os encarnados insistiram em iniciar as jogadas a partir da defesa, condenando a maior parte delas ao fracasso, em vez de optarem por lançamentos em profundidade para as costas da defesa contrária, onde Rafa, Ramos e Mário, poderiam fazer estragos, criando desequilíbrios. Curiosamente, foi o que fizeram os azuis; lançamentos longos a partir da defesa, obrigando os encarnados a recuar no terreno.


Apesar disso, o Benfica adiantou-se no marcador, numa bela jogada pela direita, com um centro bem medido e uma cabeçada fulminante, apesar de alguma sorte no ressalto no guarda-redes, após a bola ter batido na barra, com estrondo. E o segundo golo poderia bem ter acontecido, não fora a reação do Pepe, num último esforço, ter desviado a bola com o bico da bota, um instante antes de Ramos desferir o remate, a cerca de três metros da linha de baliza. Foi este o lance que decidiu o jogo.


Os azuis não se desmancharam; mantiveram o perfil do seu jogo, fazendo o empate num forte remate na área encarnada perante a apatia da defesa, e vendo dois golos anulados ainda antes do intervalo. Bem anulados ambos, o primeiro por falta sobre o guarda-redes, e o outro por fora-de-jogo de 6 cm, algo de que discordo.


O reatar da 2ª parte não trouxe alterações, com os azuis a pressionar alto e os vermelhos a querer recuperar a vantagem. E venceram; mais um descuido defensivo deu o golo da vitória, num lance em que me parece que Odisseias poderia ter feito melhor.


Em vantagem, Conceição alterou a tática da equipa, refrescando o meio-campo e recuando-a, dando a iniciativa de jogo ao adversário e atacando em transições e em ataque apoiado. Com a iniciativa de jogo, os encarnados tiveram sempre dificuldade em construir lances ofensivos de qualidade, graças à coesão e intensidade defensiva contrária. Os remates de meia-distância foram escassos, os centros, geralmente rasteiros, eram sucessivamente intercetados e nos ressaltos, os azuis estavam sempre em superioridade numérica.


A equipa do Benfica bateu-se bem mas faltou-lhe intensidade e inteligência para romper a teia contrária, como fez no lance do seu golo. Musa entrou demasiado tarde, bom no jogo aéreo e a rematar com os dois pés, ocuparia os centrais adversários deixando espaço os alas e para as entradas mortíferas de ramos, equilibrando o défice numérico na área.


A nomeação da dupla Soares Dias-Tiago Martins, de má memória para o Benfica, deu o mote ao jogo, mostrando ostensivamente quem manda no futebol nacional. O desempenho da dupla de arbitragem, seguiu o padrão já conhecido; cartão amarelo aos encarnados logo a abrir - Florentino -, para condicionar a equipa, permissividade aos azuis - Otávio deveria ter sido punido com o amarelo no mesmo lance, ficou por assinalar uma falta sobre Grimaldo quando entrava isolado na área contrária e ficou por punir disciplinarmente o jogador que retirou Bah do jogo e o lesionou para o resto da época, etc. Tempo de compensação insuficiente face ao anti-jogo azul e, incompreensível momento do termo da partida com a bola ainda no ar em lance ofensivo do Benfica. Com equipas equilibradas, estas “habilidades” fazem a diferença.


É histórica influência no desempenho das equipas em vésperas de jogo da Liga dos Campeões, ainda mais nos quartos de final. E pode ter tido efeitos neste caso. Atua ao nível do subconsciente dos atletas, todos querendo estar presentes numa ocasião que pode ser única. A disputa do lances é feita com mais cautelas e a intensidade das movimentações é atenuada.


Também adquirido é a quebra de ritmo ocasionada pelas paragens para os jogos das seleções, que, mais uma vez se verificou na equipa encarnada. Não se compreende a marcação de jogos das seleções com os campeonatos na fase decisiva! É certamente, a necessidade de financiamento das federações nacionais e da própria UEFA, instituição que carece de profunda reforma ou extinção.


Finalmente, foi miserável toda a campanha que foi feita na comunicação social, supostamente, envolvendo instituições judiciais, em prejuízo do Benfica. Até parece que há gente no Ministério Público e nos Tribunais destacada para prejudicar o Benfica! Quanto à comunicação social, acho que não escapa um na militância contra o Benfica, apostados em denegrir a sua história e apesar magnífico trabalho que tem feito no desporto. Deploráveis foram as declarações de Francisco Varandas a lançar “lama” sobre o Benfica, por despeito, apesar dos inúmeros “telhados de vidro” do clube a que preside lhe retirarem a autoridade moral para o fazer.


A derrota é dececionante, mas a equipa encarnada, podendo fazer melhor, não esteve mal.


O Benfica está no bom caminho; se pudesse dar um conselho aos seus dirigentes, dir-lhes-ia para exigirem o afastamento dos atuais dirigentes da federação e da liga e para elaborarem um plano de intervenção no espaço público expondo as teses do clube e desmascarem os seus detratores. Quanto ao Varandas, gostaria de vê-lo responder em Tribunal pelas acusações que fez ao clube.





Peniche, 8 de Abril de 2023

António Barreto

domingo, 2 de abril de 2023

Desporto para Todos

 

Benfica

Desporto para todos


Num dia já muito distante, um menino, segurando a mão de seu pai perguntou-lhe:

- Pai, não sei se hei-de ser do Benfica se do Sporting.

- Tu és do Benfica!

E o menino ficou a ser do Benfica, algo de que hoje se orgulha, apesar da tristeza e da revolta que sente pelos enxovalhos a que o seu clube tem sido submetido nos últimos tempos. Tempos que deveriam ser de tolerância, de sã convivência e não de ressentimentos, frustrações e fracionamento social.


Hoje é um dia em que ser do Benfica me faz sentir bem, algo que agradeço ao meu pai. É uma grande satisfação ver a enorme participação popular nas jornadas de atletismo que estão a decorrer. É até divertido e comovente; meninada, novos, velhos, homens, mulheres, pretos, brancos, gordos, magros, nem todos do Benfica, felizes, divertidos, participando, uns pelo simples prazer da corrida, de estar com os outros, de entrar no Estádio da Luz, outros já a pensar numa carreira desportiva. Uma senhora já entradota lá ia na molhada com um dinossauro na cabeça, outro senhor veio com a família da sua terra que disse ficar a 6oo km de Lisboa, duas meninas, no pódio, mostravam as bandeiras dos seus clubes, outra menina disse correr no Sporting apesar de ser adepta do Benfica.


Isto é muito bonito! Toda a gente contente, divertindo-se construindo recordações, singelas, para a vida, dando os primeiros passos duma eventual carreira desportiva ou, os já atletas, aproveitando para rodar. Ou recuperar.


É isto que adoro no Benfica, esta dimensão popular, alegre, agregadora, integradora - estou a ver uma rapariga, de camisola verde, segunda na sua prova, que parece chinesa e um menino aí de três anitos, vestido a rigor, a andar apressado e a bater palminhas, uma multidão sorridente, prossegue no trajeto da prova, a passo -, num ambiente de excelência organizativa onde a competitividade, propósito primordial do clube, desta vez, passou para segundo plano.


Recordo outro fantástico evento anual, a Gimnáguia, o extraordinário trabalho de solidariedade da Fundação e uma palete de modalidades diversificada onde todos têm oportunidade de participar, de uma ou de outra forma.


Estes momentos mostram-nos a verdadeira função do desporto, o envolvimento social, em comunidade, proporcionado por uma ideia, o Benfica, a sua história admirável, a sua cultura de excelência, de cordialidade e amizade.

É tudo isto que fez, faz o meu clube popular, capaz de suscitar a simpatia até dos adversários, e que devia suscitar a reflexão dos que, nas últimas décadas, por ressentimento ou preconceito se têm empenhado em denegrir a imagem deste clube secular e admirável.


Obrigado, pai.


Obrigado Benfica.





Peniche, 2 de Abril de 2023

António Barreto

domingo, 12 de março de 2023

A Instrução Pública em 1820 (III)

 

A Instrução Pública em 1820 (III)

A reforma do Marquês de Pombal

 Há quem atribua ao Marquês de Pombal a principal responsabilidade pelo atraso do sistema de ensino no país e, implicitamente, do atraso económico, que persiste nos dias de hoje.

   Com a expulsão da Companhia de Jesus em 1759, Sebastião José desativou o sistema de ensino que estes tinham criado. Influenciado pelas tendências do iluminismo, queria sobrepor a razão, o conhecimento, à matriz religiosa que caracterizava as escolas até então.

     Por outro lado, não tendo ainda consciência da ideia de ensino público democrático, tal como o conhecemos hoje, preocupou-se, conforme expresso na sua carta de lei de 6 de Novembro de 1772 em difundir o ensino tanto quanto possível, “ao maior número de povos e habitantes deles que a possibilidade pudesse permitir”.

   Assim, criou o cargo de Diretor Geral dos Estudos com a finalidade de organizar e coordenar as escolas de “Estudos Menores”. Em 1771, transferiu tais poderes para a Real Mesa Censória a quem competia o exclusivo da censura literária ‘toda a administração e direção dos Estudos das Escolas Menores destes Reinos e seus Domínios, incluindo nesta administração e direção, não só o Real Colégio dos Nobres, mas todos e quaisquer outros colégios e magistérios que eu for servido mandar erigir para os estudos das primeiras idades’”.

  Mas, Pombal não se ficou pelas “Primeiras Letras”, por carta de lei de 6 de Novembro de 1772 estabelece um plano para a criação de uma vasta rede de escolas de Primeiras Letras e também de escolas de Gramática Latina, Grego, Retórica e Filosofia, cadeiras básicas do que hoje se designa por Ensino Secundário.

   Manteve o ensino particular e o preceptorado, condicionando o exercício do magistério à aprovação prévia em exame da Mesa Censória.

   Por fim, para financiamento de todo o sistema, por carta de lei de 10 de Novembro de 1772, criou um imposto nacional designado por “subsídio literário”.

   Os “Estudos Maiores” por sua vez, também foram objeto da avalanche reformista de Sebastião José de Carvalho e Melo. Assim, alegando a decadência do ensino superior, que atribuía à influência jesuítica, extinguiu, em 1759 a Universidade de Évora, avançando, em 1772, para a notável reforma da Universidade de Coimbra.

   Na qualidade de “Visitador” redigiu e entregou, pessoalmente, os novos estatutos da Universidade. Além da característica centralizadora, a reforma introduziu diretrizes galicanistas (submissão da Igreja ao Estado), jusnaturalistas absolutistas, históricas, racionalistas, e experimentalistas, até então quase excluídas de Portugal.

   O sentido científico-pedagógico ficou bem expresso nas reformas didáticas: a Imprensa da Universidade passou difundir obras de sentido galicano, no direito natural passou a utilizar-se o manual de Martini, foram criadas as faculdades de Matemática e Filosofia (em especial de Filosofia Natural), deu-se sentido prático à faculdade de Medicina e criaram-se as valências experimentais da universidade: Laboratório Químico, Gabinete de Física Experimental, Jardim Botânico, Museu de História Natural, Observatório Astronómico e o Teatro Anatómico.

   À margem do ensino clássico foram criadas algumas escolas especiais; o Colégio dos Nobres, dedicado à aristocracia, habilitando-a para as tarefas militares e políticas, a Aula de Comércio destinada a formar pessoal para as empresas e a Aula de Náutica, com o objetivo de formar pilotos e marinheiros.

   Infelizmente, muitas destas reformas foram anuladas após a sua queda em 1777, no reinado de D. Maria ou quando implementadas tiveram eficácia reduzida por incompetência dos respetivos dinamizadores.

Marquês de Pombal

Peniche, 12 de Fevereiro de 2023

António Barreto

domingo, 5 de março de 2023

A Instrução Pública em 1820

 

A Instrução Pública em 1820 (II)

Luís Reis Torgal e Isabel Nobre Vargues

Influências da Revolução Francesa:

a)      A ideia iluminista-revolucionária liberal em que o Homem é o centro do universo e a sua instrução um direito que o Estado tem o dever de assegurar como única forma de garantir o Progresso, a Liberdade e a Felicidade. Ideia contrária à do despotismo em que a instrução e a cultura se dirigiam às elites na exclusiva defesa dos interesses do rei e da aristocracia, sem preocupações de instrução pública.   

b)      A prioridade concentrou-se na massificação do ensino e no desmantelamento do modelo anterior; das escolas clericais e monásticas, das universidades, academias e sociedades literárias.

c)      O foco passou a dirigir-se ao ensino primário, à formação de professores de primeiras letras, à definição de metodologias pedagógicas eficazes a grupos extensos e à valorização do ensino mútuo.  

d)      A massificação da instrução incluía as meninas - a quem se atribuía um método dedicado - e os adultos que nunca tinham ido à escola. O propósito era de formar cidadãos conhecedores dos seus direitos e deveres e de difundir as ideias do liberalismo, razão da supressão do controlo clerical e da laicização do ensino.

e)      A ideia de liberdade revolucionária foi coartada no sistema de ensino uma vez que o radicalismo da Convenção entendia que este deveria ser enquadrado pelos poderes públicos por considerar que o indivíduo pertencia à pátria.

f)       Da variedade de questões organizacionais decorrentes, a tendência dominante foi de democratização da gestão, vinculando-a ao poder legislativo e aos poderes locais. A obrigatoriedade e a gratuitidade - pelo menos nas primeiras letras – foram consideradas necessárias, bem como a atribuição de bolsas aos alunos mais carenciados.

g)      Em substituição das universidades e academias do “Antigo Regime”, criaram-se as Escolas Politécnicas e novos centros de trabalho científico, com objetivos eminentemente utilitários e populares, destituídos de ideias elitistas. A ciência passou a ser vista vista como um meio ao serviço do povo e não como fator de hierarquização social.

h)      Surgiram múltiplas propostas sobre os vários graus de ensino, consensuais relativamente ao primário e divergentes nos graus seguintes.

i)        Este processo influenciou vários países europeus incluindo Portugal, refletindo-se nos debates parlamentares que se seguiram à revolução de 1820.


Manuel Fernandes Tomás 

Peniche, 05 de Março de 2023

António Barreto

sábado, 18 de fevereiro de 2023

A Instrução Pública em 1820

 

A Instrução pública em 1820

 

   A temática do ensino foi muito debatida em Cortes na sequência da Revolução Liberal de 1820. Numa época em que vigorava o modelo da reforma pombalina - em que a Coroa aboliu as escolas jesuítas, com o propósito de as substituir por uma rede de escolas públicas, projeto que nunca alcançou a eficácia do modelo anterior e que muitos consideram causa do atraso de Portugal -, as ideias iluministas e a experiência da Revolução Francesa inspiraram alguns intelectuais liberais estudar e propor, em Cortes, a reforma do sistema de ensino, cientes da importância do conhecimento para a emancipação individual e para o progresso social e económico do país.

   As propostas incidiram sobre o ensino das “primeiras letras”, o ensino intermédio e a universidade.

Afirmou-se o direito do cidadão à educação e a obrigatoriedade do Estado em garanti-la desde o berço.

Aos pais impunha-se a obrigação de levar os filhos à escola pública. Ao Estado atribuiu-se o dever de os educar e o direito de escolha do método, considerando-se as crianças propriedade pública. Este entendimento, afinal, vigora ainda hoje, colidindo com o conceito de liberdade que tanto se apregoa.

Também houve quem defendesse o ensino privado e o direito dos pais escolherem a escola dos seus filhos, com o propósito de os subtrair à doutrinação política da Escola Pública.

Duzentos anos depois, o problema persiste; o desejo de formar clientelas e eleitores prevalece relativamente à elevação da capacidade crítica dos alunos.

Entre os proponentes distinguiram-se Borges Carneiro, Santos do Vale, Mouzinho de Albuquerque, Soares Franco, Almeida Garret e os irmãos Passos, entre outros.

   Nas primeiras letras, a população, analfabeta, pedia escolas, cerca de 160, conseguindo apenas 60 por parte da Coroa, que para o efeito criara o imposto literário. Surpreendente, este empenho dos cidadãos, conscientes da necessidade da escola. Normal a insuficiente resposta do Estado, sempre com outras prioridades.

Defendeu-se a criação de duas escolas por aldeia ou povoação, uma para meninos, outra para meninas, onde se ensinasse a ler, escrever e contar e os catecismos civil e religioso, uma vez que o catolicismo era a religião oficial. As escolas de meninas incluiriam as tarefas domésticas tradicionais.

Incentivou-se o ensino privado permitindo a livre formação de escolas, independentemente das habilitações do respetivo autor, e proibindo aos organismos públicos a criação de dificuldades à sua constituição.

Validou-se o ensino mútuo, mediante o qual, devido à escassez de professores certificados, se podia recorrer livremente a particulares dotados de competências informais.

Por fim, alertou-se para o facto de alguns recebedores do imposto literário se apropriarem do produto da coleta adquirindo propriedades para si, fazendo uma vida de opulência.

A receita deste imposto passou a ser usada para fins diversos dos que lhe eram próprios, financiando despesas correntes, em prejuízo da expansão da rede de ensino primário.

   No ensino intermédio defendeu-se a criação de escolas, uma por distrito; de transição para o ensino superior, os liceus, e de ensino das artes, as escolas politécnicas, às quais foi atribuída importância superior à universidade, dado o caracter pouco prático desta e a necessidade de desenvolvimento económico do país.

Mais uma vez, reconheço aqui um constrangimento do sistema educativo de hoje; a corrida aos graus académicos socialmente “nobilitantes” mas de utilidade marginal, em detrimento da aquisição de competências para o real mercado de trabalho.

Tal realidade demonstra que a transição cultural da sociedade para a democracia ainda não ocorreu, uma vez que o reconhecimento da dignidade humana deve ser intrínseca, associada ao comportamento social de cada um, e não dependente de graus académicos, cargos ou funções que se exerçam.   

   O ensino superior era monopolizado pela universidade de Coimbra - à qual competia também o controlo pedagógico do ensino secundário -, completamente controlada por eclesiastas católicos, regulares e irregulares.

O seu conservadorismo radical e inutilidade prática suscitou as mais veementes e corrosivas críticas dos liberais os quais defendiam que aos padres e frades competia a igreja e o seminário, enquanto a universidade pertencia à sociedade Civil.

Defendeu-se o fim da acumulação de cargos, por ser praticamente impossível o desempenho simultâneo de ambos, em especial aos eclesiastas, visto ser despropositado o ofício religioso na universidade.

Houve até propostas para a abolição da universidade - de Soares Carneiro -, por a considerar inútil e perniciosa, defendendo a criação de escolas de artes espalhadas pelo país, que habilitassem a população para o exercício das profissões de que havia carência. Não é este um problema dos nossos dias?

 Discutiu-se as finanças da universidade, uns defendendo a sua autonomia face à Coroa, outros a integração na Administração Pública, que a financiaria, ficando com as respetivas receitas - das vacinas e outras - e o respetivo património. O corpo docente seria integrado na função pública.

Uma das críticas que se fez à universidade radicou no facto de as principais faculdades, as mais importantes, designadas então por das “ciências positivas”, serem Teologia, Cânones e Leis! Das ciências menores faziam parte as faculdades de Medicina e Matemática! E mais não havia! As razões do persistente atraso de Portugal, vão-se tornando cada vez mais nítidas.

Portugal era, pois, um país de padres e doutores, que ocupavam os cargos públicos, enquanto o país carecia de gente qualificada nos mais diversos setores da economia, desde logo, agricultura, pescas e navegação. Esta era a razão pela qual se chegou a defender a sua extinção.

Também se discutiu a obsolescência dos manuais de ensino, em especial na faculdade de Leis, onde se ensinava o Direito Romano, considerado retrógrado por ter origem na “vontade do príncipe”, incompatível com o modelo representativo do regime de então.

Derrubado em 1823 pela contrarrevolução das hostes miguelistas, de que a rainha Carlota Joaquina fazia parte, a que se juntou D. João VI, nenhuma destas propostas chegou ao terreno.

Alguns dos proponentes acabaram por se exilar no estrangeiro, Inglaterra e Brasil, uns regressando mais tarde, por volta de 1834, outros acabando por lá, alguns na miséria.   

Com a Revolução Liberal de 1832 a 1834 e o fim definitivo do Absolutismo seguiu-se um período de profundas reformas, de Mouzinho da Silveira, que lançaram o país na modernidade, em especial nas frentes administrativa e judicial, e na educação onde algumas destas propostas foram realizadas.

   Parece-me evidente que o sistema educativo que vingou, até, pelo menos 1974, foi o defendido pelos irmãos Passos, O Manuel e o José. Com efeito, estes desenharam um projeto muito semelhante ao que esteve em vigor nos anos sessenta do século XX e que, em grande parte, ainda se reconhece nos dias de hoje.

Passos Manuel

(Continua)

Consulta: A Revolução de 1820 e a Instrução Pública, de Luís Reis Torgal e Isabel Nobre Vargues

Peniche, 18 de Fevereiro de 2023

António Barreto   

domingo, 12 de fevereiro de 2023

A Democracia e o Benfica

 

A Democracia e o Benfica

 

   Acabo de ouvir, na BTV, o Treinador de futebol da equipa B do Benfica, comentando o jogo com o Estrela da Amadora - em que o Benfica perdeu por 1-2 -, e a respetiva arbitragem. O resumo do jogo comprova a fundamentação das suas críticas.

Descreveu ainda os casos dos últimos jogos em que a equipa participou onde erros grosseiros e capitais prejudicaram a equipa.

   Logo depois ouvi Carlos Louzeiro, o entrevistado do programa, dizer que há razão de queixa para o clube no jogo de futsal de juniores realizado ontem com o Sporting.

   Tudo isto depois do desastrado desempenho da equipa de arbitragem do jogo da Taça, com o Braga, de que resultou a eliminação do Benfica e contra o qual que se insurgiu Rui Costa, ainda no estádio.  

Por coincidência, a equipa é a mesma que assinalou um penalti, altamente polémico, no jogo em casa, para o campeonato, com o Sporting, de que resultou um empate e que o Benfica poderia ter ganho.

   Os casos de erros prejudiciais às equipas do Benfica têm sido recorrentes em todas as modalidades, verificam-se há décadas, e não se vislumbra que acabem tão cedo.

Ninguém, fora do universo do Benfica, estranha ou se indigna. Aceita-se como consequência natural da natureza humana e consideram-se os protestos falta de desportivismo dos dirigentes e adeptos do clube.  

De tal modo que, perante a passividade das instituições tutelares das diversas modalidades, para o adepto comum do clube encarnado, prevalece a ideia de conluio entre todos, no sentido de criar obstáculos espúrios ao desempenho desportivo das suas equipas.

   Porém, o problema é bem mais vasto e grave, alastrando à sociedade em geral. Ante a adesão maciça dos adeptos benfiquistas aos jogos do seu clube, as autoridades públicas cruzam os braços perante as múltiplas restrições que lhes são impostas por vários clubes adversários!

São os elevadíssimos preços dos bilhetes praticados, são as proibições do uso de adereços alusivos ao clube, são expulsões de adeptos das bancadas com o jogo a decorrer, por alegado ruído excessivo e, mais recentemente, assistimos à estúpida restrição de acesso aos estádios, selando setores importantes das bancadas!

Mas não é tudo; há cidades onde qualquer adepto que assuma o seu benfiquismo corre sérios riscos de segregação social e até de agressões físicas. Há até casos de homicídio, consequência de ofensas corporais!

   Isto dura há décadas e, habitualmente, atribui-se esta anormalidade há imaturidade do regime democrático. Cheguei a pensar o mesmo, mas não hoje. Já o referi em vários textos; o regime tem um problema com o Benfica; é política a causa primordial desta perseguição. O regime jamais consentirá um Benfica forte como no passado, já remoto.

   Esse problema reside na, ainda”, fobia de certos partidos ao salazarismo, que, por sua vez, radica na má consciência que têm da trajetória económica e social do país. Quase cinquenta anos depois do vinte e cinco de abril, constatamos o empobrecimento relativo de Portugal, o endividamento absoluto crescente - o défice comercial atual é idêntico a da primeira década do século XX - cerca de 20 mil milhões de euros por ano -, a dependência das transferências comunitárias e da imigração, alternativa à baixa taxa de reposição populacional e à emigração.

   Uma parte considerável dos portugueses, não quer ter filhos nem viver em Portugal. Perdida a independência nacional, é a continuidade da nação portuguesa, do povo português, que está ameaçada. Mas não para os que querem mudar a matriz cultural da população.

    O Benfica é vítima da hostilidade silenciosa, implícita, de certos partidos progressistas, que o consideram um símbolo do salazarismo. Não lhe perdoam ter suscitado a admiração geral no mundo do futebol, pela excelência do seu futebol, com equipas de multirraciais e pluricontinentais. Para eles tratou-se de propaganda do regime de então, de que o clube teria sido cúmplice.

   As reformas dos códigos Civil e Penal, que anularam as provas contra Pinto da Costa no caso do Apito Dourado conduzindo à sua absolvição, a impunidade dos membros dos superdragões alegadamente envolvidos em desacatos, a rejeição da Providência Cautelar dum Tribunal do Porto, no caso dos emails, de que resultou o enxovalho público do clube e severos danos reputacionais e patrimoniais, a incapacidade de responsabilizar civilmente e criminalmente os mentores deste mesmo caso, apesar das suspeitas gerais, por falta de provas ou por desinteresse nelas, etc., etc..

   Tudo isto me ocorre no imediato, sem esquecer da prisão de dois ex-presidentes do clube, um deles, na prática, condenado ao exílio, sob pena de passar o resto dos seus dias na cadeia caso regresse ao país. O outro, enxovalhado na Comissão de Inquérito Parlamentar ao Novo Banco, como se tivesse sido ele, e não o Governo, o culpado da injeção dos quase quatro mil milhões de euros no respetivo Fundo de Resolução. É demais para ser coincidência!

   Devo dizer porém, que por absurdo que possa parecer, antevi problemas para o Benfica quando o Partido Socialista formou governo em 2015. E não é por ter dotes premonitórios, mas por muito ter visto e lido.

    A centralização dos direitos desportivos e das receitas de bilheteira de que se fala atualmente, e que sucederá se o Partido Socialista continuar a governar o país, não passa de mais uma manobra para socializar as receitas do clube e de o enfraquecer desportivamente. Os atuais dirigentes dos órgãos desportivos tutelares, não são confiáveis para tal tarefa.

   Por tudo isto, e mais a temática da regionalização, que ficará para abordar em outra ocasião, defendo que o Benfica só terá sossego quando a sua dimensão social tiver tradução política.

   É necessário que o clube elabore um plano sustentado, estruturado e fundamentado de abordagem sistemática do espaço público onde todos estes temas sejam apresentados e debatidos, bem como responsabilizar criminalmente e civilmente todos os que infringirem a lei em prejuízo do clube, sejam eles quem forem.

Está demonstrado que a política de contenção e cordialidade praticadas por Rui Costa e pelo seu antecessor, não funciona. Infelizmente. Por medo ou cumplicidade a Comunicação Social não denuncia estas situações, os órgãos tutelares desportivos  punem o clube e seus dirigentes quando protesta, o Governo faz vista grossa e os partidos não querem “sujar” as mãos, exceto para partilhar os louros dos sucessos que, apesar de tudo, por mérito ou vergonha, por vezes ocorrem.

   A omissão das entidades públicas, desportivas, governamentais e judiciais, nesta área, lesa a qualidade da democracia, por subtrair direitos e liberdades das pessoas e ser potenciadora de violência, de nada servindo, depois do facto consumado, alardear indignação, castigando a vítima, que é o que tem sucedido.


Gimnáguia 2022

Peniche, 12 de Fevereiro de 2023

António Barreto    

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Memórias de Bordo

 

O Fim de uma Era (epílogo)

  

   Fomos para Taipé num voo doméstico. Cidade cosmopolita, de largas, movimentadas e limpas avenidas, edificado de traço apurado e, em geral, bem cuidado. Ficámos instalados no hotel Majestic, numa zona central da cidade. Bem instalados; excelente aspeto externo e interno, bons quartos e cordialidade q.b.

   Pairávamos a maior parte do tempo na zona do hall, ou nas proximidades. Não sabíamos onde ir. Quando muito dávamos umas voltas pelo quarteirão. Deve ter sido um embaraço para a gerência. Imaginei que aguardássemos a conclusão da transação económica.

   Demos por ali umas voltas -o Airoso era companhia frequente; muitas. Apercebemo-nos de que abundava uma espécie de tascas, onde serviam arroz branco, simples, em tigelinhas; gente humilde; uns comiam-no no local, outros pelo caminho. Ficámos com a impressão, algo surpresos, de que, para os locais, se tratava de uma espécie de prato gourmet. Aquilo parecia barato.

   Um dia, algo acidentalmente, fui parar aos subúrbios. Casario modesto mas sem barracas, gente simples, cordial, moderadamente solícita. Pareceu-me um bairro operário. Contrastava com a exuberância arquitetónica central. Lembrei-me de Nietzsche e das suas teses do “inevitável Super-Homem”, a quem caberia a tarefa de desbravar os caminhos do progresso cultural, económico e tecnológico da humanidade, e da consequente servidão dos que, “incapazes de tais façanhas”, garantiriam a subsistência daqueles.  

   Todos os dias, mais ou menos a meio da tarde, ouvíamos uma espécie de sininhos, tipo caixinha de música, nas proximidades. O que será, o que não será? Perguntávamo-nos intrigados. - É o carro do lixo! - Disse alguém, certo dia. E era!

Então íamos ver o “fenómeno”. Um pequeno e discreto camião amarelo, fechado, passava pelas cinco horas da tarde, todos dias, emitindo a suave sonoridade.

As pessoas iam saindo de suas casas com um saquinho de plástico que depositavam, tranquilamente, no veículo. Nem aglomerações, nem ruído nem odores, nem vistas desagradáveis.

   No terraço de um edifício próximo avistava-se gente, vestida normalmente, todas as manhãs, a fazer exercício. Parece que era hábito, nalgumas empresas locais, proporcionarem aos seus trabalhadores uns minutos de ginástica sueca, ou algo semelhante. Uma curiosidade a que achávamos graça e que atribuíamos à proverbial sabedoria chinesa.

   Uma manhã preparava-me para descer quando entrou um empregado do hotel. Rapaz novo, calça preta, camisa branca. Não sei o que ia fazer. Pôs os olhos na viola, encostada à parede junto à janela do fundo: - Can I play? - Perguntou, educadamente. - Yes, please. - Respondi, intrigado e curioso.

   Pegou na viola e tocou, maravilhosamente, o clássico “Romance de Amor”. Quando acabou: - I teach you how to play it. - I can’t. - It’s easy, you learn. E estendeu-me a viola.

- Isto vai ser uma seca! Vou-me embrulhar todo e não saio daqui tão cedo! - Pensei, resignado. Comecei a “esgatanhar” conforme as minuciosas instruções que ia recebendo, aqui caio acolá me levanto, e lá consegui, titubeantemente, chegar ao fim.

   Ofereceu-me a respetiva partitura, que ainda tenho. Com o treino sistemático nos dias seguintes adquiri a fluidez adequada. Uma peça das que me dá mais gosto tocar; uma das coisas mais gratificantes que me sucedeu na minha vida marítima.

   Nas nossas repetidas deambulações pelas imediações do hotel - eu e o Airoso andávamos quase sempre juntos -, cruzámo-nos pela primeira vez com civis americanos, uma espécie de “mostrengos” altos e gordos, e com chineses cuja envergadura física desmentia a ideia que tinha do chinesinho meia-leca.

   Volta e meia ouvíamos as garotas exclamarem à nossa passagem: - handsonme, handsome! E nós todos “inchados”. Acho que gostavam do tipo físico dos europeus. Em tempos diferentes metemos conversa com duas delas. Tomámos uns drinques e aquilo ainda deu lugar a umas peripécias algo hilariantes. Uma delas deixou saudades.

   Como deveríamos ser um embaraço para o hotel, levaram-nos numa “expedição” a uma reserva com animais de grande porte Recordo vagamente ter visto, por lá, leões e elefantes e talvez girafas, mas não estou certo disso.

   Entretanto tinha comprado um chapéu do tipo australiano, de feltro castanho, que usava, todo “pimpão”, a título de brincadeira, longe de supor que alguém o considerasse um ato vaidoso. Mantive-o e usei-o durante muito tempo, até se desvanecer.

   De outra vez levaram-nos para uma estância de férias, algo afastada da cidade. Estivemos por lá uns dias, isolados. Pensei levar emprestada, sem falar com o dono, uma belíssima moto, de cor preta com peças cromadas, para dar umas voltas pela região. Foi então que o Airoso “confessou” ter sido incumbido de me manter debaixo de olho; não fosse eu meter o “pé na argola”. Percebi a delicadeza da situação e deixei-me estar sossegado.

   Regressados a Taipé, chegara a hora dos “recuerdos”. Descobri duas bonitas bonecas, uma gueixa e uma camponesa, e dois lindíssimos candeeiros de mesa, de múltiplos painéis de vidro pintados, rodando pela ascensão do ar aquecido no seu interior. Achei fascinante. De Kaohsiung trouxera uma bela resma de LP’s, atuais, a tostão; entre eles, alguns de música chinesa, de que nunca consegui gostar, mas de que acho graça. Gosto de todo o tipo de música exceto desta. Defeito meu.

   Finalmente chegou a hora do regresso. A viagem durou, salvo-o-erro, cerca de dezanove horas. Fizemos várias escalas, uma delas em Karachi onde aguardámos, num hotel, a ligação seguinte.  

   Achei graça ao facto de termos tomado o pequeno-almoço, aí umas três vezes! Parecia que o relógio tinha parado nas nove horas da manhã. Os aviões faziam “parar” o tempo aparente!

   Esta foi uma viagem, para mim, memorável, que marcou o início do fim da magnífica e saudosa frota mercante portuguesa. O Santa Maria, de cuja tripulação também fiz parte, foi logo depois. Quando chegámos a Kaohsiung, após uma viagem bem menos acidentada, já o Vera Cruz estava reduzido a um monte de sucata. Que visse, ninguém chorou, exceto, talvez, interiormente, como me sucedeu.


Vera Cruz


Santa Maria

Peniche, 05 de Fevereiro de 2023

António Barreto

sábado, 28 de janeiro de 2023

Memórias de Bordo

 

Memórias de Bordo

O fim de uma era (6)

 

   Ficámos por Kaoshiung umas duas semanas; cidade tranquila, asseada, de amplos espaços, luminosa, de gente cordial, com enorme profusão de bicicletas.

Nas horas de ponta a via principal enchia-se com gente de bicicleta, aí uns dez metros de largura por cerca de 20 de profundidade. Nunca vira tal!

   Na primeira noite descobrimos um parque de diversões, tipo “Feira Popular”. Demos por lá uma volta, em grupo. Havia uma máquina de medir a intensidade dos socos; o campeão foi o Brito, com noventa e tal quilos.

Eu entretive-me com uma máquina de aviões de guerra. Parecia que pilotava um deles, em combate; fazia explodir os aviões inimigos com rajadas de metralhadora. Era uma sensação ótima. Fiquei tão entusiasmado que me custou sair de lá.

   Outra noite fomos ao bowling, eu e o Airoso. Num 1º ou 2º andar; tinha uma boa dúzia de pistas, de madeira castanha clara, envernizada, cada uma limitada por duas pequenas valas em meia cana, encastradas, onde repousavam umas bolas negras com orifício. Ao fundo umas 25 “garrafinhas” brancas, dispostas em triângulo, com o vértice do lado da pista. Nunca vira uma.

   Duas raparigas viram-nos indecisos e, em bom inglês, explicaram-nos o que fazer. Pagámos no balcão, levantámos a chave de uma das pistas, calçámos as sapatilhas, que retirámos do cacifo próximo, e lá fomos jogar.

   As jovens chinesas jogavam numa pista ao lado; acompanharam-nos, explicando-nos o processo; como segurar a bola e derrubar as “garrafas”.

 Era preciso acertar na “garrafa” do vértice; esta, ao cair, derrubaria as restantes. - E quem volta a pôr as garrafas de pé? - Perguntei, intrigado. - É a máquina; põe as garrafas e devolve a bola. Respondeu uma delas. - Fantástico!- Pensei, admirado.

   Ao fim de algumas atabalhoadas tentativas - o raio da bola teimava em fugir para os lados -, começámos a acertar com aquilo. Elas, ali ao lado, assistiam, rindo-se e aplaudindo; uma delas de camisola justa, branca, com relevos longitudinais, gordinha, a outra, de blusa avermelhada mais magra.

   Não sei de quem foi a iniciativa, julgo que delas, formámos duas equipas e ficámos a jogar na mesma pista. Essa noite e nas seguintes. Habituámo-nos àquilo; o ambiente era agradável, com música, e a companhia também.

   Demos um passeio, de camioneta pelas redondezas. Tenho uma vaga ideia de uma estrada na encosta de uma colina, com um rio por baixo, terra avermelhada e umas manchas verdes aqui e ali.

   A comida chinesa não era recomendável; mais tarde perceberíamos porquê. No hotel indicaram-nos um restaurante com comida para europeus. Lá fomos e, apesar dos talheres disponibilizados, lá aprendemos a comer, atabalhoadamente no meu caso, com os tais pauzinhos.

   Numa manhã ensolarada, eu e o Basso decidimo-nos por um passeio, errático, pela cidade. Passámos por um mercado ao ar livre. Tinham-nos dito para termos cuidado, que era chocante. Aproximámo-nos, ficando-nos pela periferia.

   Nas muitas barracas abertas viam-se gaiolas de madeira ou ferro, com animais dentro; os répteis abundavam, vivos, nas gaiolas, ou mortos, pendurados dos barrotes das coberturas; cobras, lagartos, aracnídeos, etc. Gente deambulava pelo interior. “Raspámo-nos” dali mais que depressa.

   Mais à frente cruzámo-nos com duas raparigas. Não sei bem como foi mas convidámo-las a vir connosco. Não falavam inglês; riam-se muito e diziam, repetidamente, “papasan”.

Nós olhávamos um para o outro perguntando-nos o significado daquilo. Não conhecíamos o termo. Elas foram caminhando, fazendo-nos sinal. Fomos atrás delas, aí uns cinquenta metros, até uma casa junto a um largo amplo, ajardinado. Apontaram-nos um sujeito, europeu, ainda novo, bem-parecido, algo bexigoso, sentado à entrada, no interior, e disseram: “papasan”.

Olhámo-nos, eu e o Basso, percebemos tudo, mas não nos desmanchámos. Dissemos ao “papasan” que queríamos levar as raparigas a passear. - Just for walking? - Yes, just for walking. - Respondemos, meio preocupados, mas fazendo um esforço para não desatarmos a rir.

O “papasan”, depois de meditar um pouco disse: - Four dollars; but nothing else! OK? Just for walking!- Ok, just for walking. – Respondemos, entregando os quatro dólares cada um, meio arrependidos, e prosseguindo o passeio com as miúdas.

   Tudo correu como combinado, durante, talvez, duas horas. Entregámos as miúdas, sentámo-nos no lancil do passeio e fartámo-nos de rir. É que nós só queríamos, mesmo, passear.



(Continua)

 

  Peniche, 28 de Janeiro de 2023

António Barreto

Competitividade, Produtividade, Razão de Troca e Liberdade

 

4-Produtividade e Razão de Troca

 

    A quarta Revolução Industrial está condenada ao fracasso. Ao contrário das anteriores, propulsionadas pela expansão dos mercados internacionais, esta está a ser imposta por via administrativa; é como forçar um rio a escoar fora do seu leito natural. Escoará, sim, mas com elevados custos.

   Produtividade e Competitividade devem ser associados à Razão de Troca, para que não suceda algo semelhante ao que decorreu do Tratado de Methuen - também designado por “Tratado de Panos e Vinhos”, tão elogiado por David Ricardo por ser benéfico para ambas as partes. Era, sim, mas enquanto a Inglaterra garantia a produtividade de 1/5, a de Portugal ficava-se por 1/3. Portugal progredia mas empobrecia face à Inglaterra.

   Julgo que este fenómeno se verifica atualmente. Os constrangimentos normativos da UE à produção industrial e às transações internacionais, associados aos atavismos económico-ideológicos dos governos nacionais, cada vez mais viciados na dívida, nas transferências comunitárias, nos maus investimentos ou na ausência deles, priorizando a despesa pública, são garantia de fracasso.

   Haverá uns fenómenos transitórios de aparente desafogo, haverá alguns grupos de privilegiados, normalmente associados a corporações com poder disruptivo, ou a partidos, mas o país como um todo, inevitavelmente, ir-se-á atrasando face aos seus congéneres.

   Gostaria de dizer aos governos, de Portugal e da Comissão Europeia que nos deixem viver! Preparem os caminhos, abram todas as portas, informem, formem, financiem, mostrem que são confiáveis, que estão com as populações, não tenham medo da nossa liberdade.

   Cada um caminhará pelo seu próprio pé, conforme o seu tempo, o seu ritmo, fazendo o que sabe, por todo o país, por toda a Europa, realizando os seus sonhos, diminutos ou grandiosos, sendo feliz, cada um à sua maneira, o mercado fará o resto, selecionando os que forem, efetivamente melhores; quem tiver unhas que toque guitarra”.




Peniche, 25 de Janeiro de 2023

António Barreto